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Em busca de paz interior

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:49
Domingo, 30 de novembro


Em 10 de dezembro de 1989, o Dalai Lama Tenzin Gyatso, recebeu o Prêmio Nobel da Paz, em Oslo. O prêmio foi concedido a ele devido a sua luta pacífica contra o domínio chinês sobre o Tibet. O pacifista, que desde 1959 vivia exilado na Índia, soube da premiação nos Estados Unidos, onde participava de uma Conferência Internacional de Paz. A premiação foi recebida com grande alegria, tanto na Índia, quanto no Tibet. Em seu discurso por ocasião do Prêmio Nobel, o líder espiritual faz um discurso que pode servir, perfeitamente, a cada um de nós. Afinal, que de nós não precisa de paz interior?

Vejamos o caso do Dalai Lama, teve que fugir de seu país e se refugiar em outro. Mas isto não o impediu de conservar a paz interior e desse outro lugar no qual a providencia divina o havia colocado, continuou brilhando como um farol aceso, brilhante em meio a escuridão da incompreensão e da violência. Alias, foi a partir da fuga do líder espiritual tibetano para a Índia, que o mundo passou a prestar mais atenção em suas palavras e em seu discurso da não-violência. A simplicidade e a humildade do mestre budista conquistou o mundo, indo muito além das fronteiras religiosas, provando que a paz não é monopólio de nenhum homem ou grupo religioso, mas de todos aqueles que acreditam em um mundo melhor, mais justo, mais humano e fraterno.


Enquanto preparo meu próximo texto, deixo-os como reflexão, parte desse discurso. Aproveito para desejar a todos um bom domingo, cheio de paz a todos.

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O Discurso do Prêmio Nobel da Paz de Dalai Lama

Irmãos e Irmãs,

É uma honra e um prazer estar com vocês hoje. Estou realmente feliz por ver tantos amigos que vieram de diferentes cantos do mundo e de fazer novos amigos, a quem espero encontrar novamente no futuro. Quando encontro pessoas em locais diferentes do mundo, me lembro sempre de que somos basicamente parecidos: somos todos seres humanos. Talvez usemos roupas diferentes, a nossa pele tenha uma coloração diferente, ou falemos línguas diferentes. Isso é só na superfície. Basicamente, somos os mesmos seres humanos. É isso que nos liga uns aos outros. É isso que torna possível para nós nos compreendermos e desenvolvermos amizade e intimidade.

Pensando no que deveria falar hoje, decidi partilhar com vocês algumas das minhas ideias sobre problemas comuns que todos nós enfrentamos como membros da família humana. Como todos partilhamos este pequeno planeta Terra, temos que aprender a viver em harmonia e em paz uns com os outros e com a natureza. Isso não é um sonho, mas uma necessidade. Dependemos uns dos outros de tantas maneiras que não mais conseguimos viver em comunidades isoladas e ignorar o que está acontecendo fora delas. Temos que nos ajudar quando enfrentamos dificuldades e precisamos partilhar a boa sorte que temos. Falo a vocês apenas como outro ser humano, um simples monge. Se acharem útil o que eu digo, então espero que tentem praticar.

Gostaria também de partilhar hoje com vocês os meus sentimentos quanto à difícil situação e às aspirações do povo do Tibet. O Prêmio Nobel é um prêmio que eles bem merecem pela sua coragem e determinação inabalável durante os últimos quarenta anos de ocupação estrangeira. Como um representante livre dos meus compatriotas cativos, sinto que é meu dever falar em nome deles. Não falo com um sentimento de raiva ou ódio contra aqueles que são os responsáveis pelos imensos sofrimentos do nosso povo e pela destruição de nossa terra, das nossas casas e da nossa cultura. Eles também são seres humanos que lutam para encontrar a felicidade e merecem a nossa compaixão. Falo para informá-los da triste situação atual do meu país e das aspirações do meu povo porque, em nossa luta pela liberdade, a verdade é a única arma que possuímos.

A compreensão de que somos todos basicamente os mesmos seres humanos, que buscam a felicidade e tentam evitar o sofrimento, ajuda bastante no desenvolvimento de um sentido de irmandade — uma sensação cálida de amor e compaixão pelos outros. Isto, por sua vez, é essencial se temos que sobreviver neste mundo cada vez menor em que nos encontramos. Pois, se de forma egoísta, buscamos somente aquilo que acreditamos ser do nosso interesse individual, sem nos preocuparmos com as necessidades dos outros, poderemos terminar não só por prejudicá-los como também a nós mesmos. Esse fato ficou claro durante o desenrolar deste século. Sabemos atualmente que deflagrar uma guerra nuclear, por exemplo, seria uma forma de suicídio, ou que poluir o ar ou os oceanos para conseguir algum benefício em curto prazo seria destruir a base do nosso próprio sustento. Quando indivíduos e nações estão se tornando cada vez mais interdependentes, não temos outra escolha senão desenvolver o que chamo de um sentido de responsabilidade universal.

Hoje, somos verdadeiramente uma família global. Aquilo que acontece numa parte do mundo pode afetar todos nós. Isto, naturalmente, não é verdade somente quanto às coisas negativas que acontecem, mas é igualmente válido para os desenvolvimentos positivos. Não apenas sabemos o que acontece em outros lugares, graças à extraordinária tecnologia das comunicações modernas, como somos diretamente afetados por eventos que ocorrem em locais distantes. Sentimos uma sensação de tristeza quando crianças definham na África oriental. Da mesma maneira, sentimos alegria quando uma família, após décadas de separação pelo Muro de Berlim, volta a se reunir. Nossos grãos e rebanhos são contaminados e a nossa saúde e a nossa vida ficam ameaçadas quando ocorre um acidente nuclear a milhas de distância em outro país. Nossa própria segurança aumenta quando a paz prevalece entre partidos em guerra em outro continente.

Mas a guerra ou a paz, a destruição ou a proteção da natureza, a violação ou a promoção dos direitos humanos e da liberdade democrática, a pobreza ou o bem estar material, a falta de moral e de valores espirituais ou a sua existência e aprimoramento e o colapso ou o desenvolvimento da compreensão humana não são fenômenos isolados que podem ser analisados e tratados independentemente um do outro. Na verdade, eles estão muito interligados em todos os níveis e precisam ser abordados por meio dessa compreensão.

A paz, no sentido de ausência de guerra, tem pouco valor para alguém que está morrendo de fome ou frio. Ela não removerá a dor da tortura infligida a um prisioneiro da consciência. Não confortará aqueles que perderam os seus entes queridos em inundações causadas pelo desflorestamento despropositado num país vizinho. A paz pode perdurar apenas onde os direitos humanos são respeitados, onde as pessoas estão alimentadas e onde os indivíduos e as nações são livres. A verdadeira paz dentro de nós e no mundo à nossa volta somente poderá ser atingida por meio do desenvolvimento da paz mental. Os outros fenômenos estão interligados de modo similar. Assim, por exemplo, vemos que um ambiente bem cuidado e a riqueza ou a democracia pouco significam em face da guerra, especialmente a nuclear, e no desenvolvimento material não é suficiente para assegurar a felicidade humana.

O progresso material é naturalmente importante para o progresso humano. No Tibet, demos muito pouca atenção ao avanço tecnológico e econômico, e atualmente compreendemos que isso foi um erro. Ao mesmo tempo, o desenvolvimento material sem o desenvolvimento espiritual pode também causar problemas sérios. Em alguns países, presta-se atenção demais às coisas externas e dá-se muito pouca importância ao crescimento interior. Acredito que ambos são importantes e devem ser desenvolvidos lado a lado para que se consiga um bom equilíbrio entre eles. Os tibetanos são sempre descritos pelos visitantes estrangeiros como um povo feliz e jovial. Isso é parte do nosso caráter nacional, formado pelos valores culturais e religiosos que enfatizam a importância da paz mental obtida com a geração de amor e de benevolência para todos os outros seres vivos sencientes, tanto humanos quanto animais. A paz interior é a chave: se vocês tiverem paz interior, os problemas externos não afetarão o seu sentido profundo de paz e de tranquilidade. Nesse estado mental vocês poderão lidar com as situações com calma e racionalidade enquanto mantêm a sua felicidade interior. Isso á muito importante. Sem a paz interior, mesmo que a sua vida seja materialmente confortável, vocês permanecerão aborrecidos, preocupados ou infelizes devido às circunstâncias.

Portanto, fica clara a grande importância de se compreender o inter-relacionamento entre esses e outros fenômenos e de se abordar os problemas e tentar resolvê-los de modo equilibrado, levando em consideração esses diferentes aspectos. Naturalmente não é fácil. Mas há pouco benefício na tentativa de solucionar um problema criando outro igualmente sério. De fato, não temos alternativa: precisamos desenvolver um sentido de responsabilidade universal não somente do ponto de vista geográfico, mas também em relação a várias questões com que se confronta o nosso planeta.

A responsabilidade não está unicamente com os líderes dos nossos países ou com aqueles que foram apontados ou eleitos para um determinado trabalho. Está individualmente em cada um de nós. A paz, por exemplo, começa dentro de cada um de nós. Quando temos a paz interior, podemos estar em paz com os que estão à nossa volta. Quando a nossa comunidade está num estado de paz, ela pode partilhar essa paz com as comunidades vizinhas, e assim por diante. Quando sentimos amor e benevolência para com os outros, isso não faz apenas com que eles se sintam amados e respeitados, mas nos ajuda a desenvolver felicidade e paz interiores. E existem maneiras com as quais podemos conscientemente trabalhar para desenvolver os sentimentos de amor e de benevolência. Para alguns de nós, o modo mais eficaz de fazer isso é por meio da prática religiosa. Para outros, podem ser as práticas não religiosas. O que importa é cada um de nós fazer um esforço sincero para assumir seriamente a sua responsabilidade pelo outro e pelo ambiente natural.
...

Para concluir, permita-me partilhar com vocês uma pequena oração que me transmite grande inspiração e determinação:

Enquanto o espaço existir
E enquanto houver seres humanos
Que eu também permaneça
Para dispersar a miséria do mundo.


Obrigado.

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Em Paris, UNESCO declara a capoeira Patrimônio Imaterial da Humanidade

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:17
Quinta-feira, 27 de novembro

Maior é Deus
Maior é Deus, pequeno sou eu
O que eu tenho foi Deus que me deu
O que eu tenho foi Deus que me deu
Na roda da capoeira
(Hahá!) Grande e pequeno sou eu
Camará…
(Mestre Pastinha)




Já se vão longe os tempos que em que a capoeira era considerada uma arte marginal e o capoeirista “persona non grata” na sociedade.

Hoje pela manhã, em Paris, o toque lamentoso do berimbau não era de tristeza, mas sim, de alegria. Do plano espiritual onde se encontram muitos dos mestres capoeiristas, os pioneiros nessa arte genuinamente brasileira, viram sua luta ser coroada de êxito e atravessando as fronteiras nacionais. Certamente, devem ter se regozijado de alegria.

Patrimônio Imaterial da Humanidade. Foi esse o título que a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) conferiu a Roda de Capoeira. A inscrição para o recebimento de título de tão alto gabarito e de grande importância, para o Brasil e para a capoeira, foi aprovada na manhã desta quarta-feira (26), durante a 9ª Sessão do Comitê Intergovernamental para a Salvaguarda, realizada em Paris.

Estiveram presentes ao evento na capital francesa, capoeiristas brasileiros, dentre eles os mestres; Sabiá, Peter, Cobra Mansa, Pirta, Paulão Kikongo. As mulheres capoeiristas estavam representadas na pessoa da mestra Janja. Além dos capoeiristas, estavam presentes também, membros do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional); Jurema Machado (Presidente) e Célia Corsino (Diretora).

O título de Patrimônio Imaterial vai muito além de um título importante para a Capoeira. Ele serve também para chamar a atenção do governo para este bem cultural, fazendo com que eles coloquem na sua lista de prioridades, a preservação de seus bens culturais, destinando verbas  e desenvolvendo políticas públicas que garantam a preservação dessas atividades. “O reconhecimento representa um tributo à capoeira como manifestação cultural importante, que durante séculos foi criminalizada, além de dar visibilidade internacional. Além disso, reconhece que o Brasil tem políticas públicas para cuidar do seu patrimônio cultural”, afirmou a presidente do Iphan, Jurema Machado, em entrevista à Agência Brasil.

No dossiê de candidatura, o Iphan enumerou uma série de ações para difundir a modalidade e propôs medidas de salvaguarda orçadas em mais de R$ 2 milhões, como a produção de catálogos e encontros. O documento destaca que o registro vai favorecer a consciência sobre o legado da cultura africana no Brasil e o papel da capoeira no combate ao racismo e à discriminação. Lembra, além disso, que a prática chegou a ser considerada crime e foi proibida durante um período da história. Hoje, a capoeira é praticada em muitos países”, diz reportagem da Agência Brasil.

Em 2008, a capoeira já havia sido declarada pelo Iphan, Patrimônio Imaterial Brasileiro. A honraria brasileira concedida à capoeira aconteceu no dia 15 de julho daquele ano, no Palácio Rio Branco, em Salvador. Na ocasião, foram organizados na capital baiana, berço da capoeira, eventos culturais e a realização de rodas de capoeira por toda a cidade.
Nascida sob o signo da opressão, nas senzalas do Brasil colônia, a capoeira tornou-se símbolo de luta, resistência, liberdade e solidariedade. Uma roda de capoeira é algo como um ritual. Não se forma de qualquer jeito. Há todo um respeito pelo passado, pela tradição, pelos ancestrais que, com muita inteligência, malícia, mandinga, fortaleza e coragem construíram as bases de um misto de luta, dança e esporte tão arraigado à cultura nacional.

"Quando eu tinha 18 anos eu não pude entrar na capoeira porque minha mãe não queria capoeirista em casa. E hoje eu queria que ela estivesse viva para ter, para ver esse prazer que a gente está tendo hoje", afirmou Edilson de Jesus, mestre de capoeira, em entrevista ao Jornal Nacional.

Esse modo negativo de ver a capoeira, com certeza, não ocorria apenas na casa de Edilson. Em muitos lares brasileiros, por muitos anos, falar de capoeira era um tabu, praticar a arte da capoeira, nem pensar. Isso era coisa de vagabundos. Esse foi o pensamento que vigorou na sociedade brasileira por muitos anos. O mundo do esporte, em especial o mundo dessa arte tão bela e tão mística, fica duplamente feliz: por um erro reparado e por um preconceito superado. Triunfante, a capoeira está presente hoje em mais de 160 países.

Com esse título simbólico, mas de grande importância para a preservação de um bem cultural, gerado na África e criado no Brasil, a capoeira se junta à lista de outros quatro bens Imateriais da Humanidade, no Brasil:

Samba de Roda do Recôncavo Baiano (BA) – Uma rica e alegre expressão musical, coreográfica e poética que resgata tradições culturais que, por sua vez, foram transmitidas pelos africanos trazidos da África na condição de escravos. O samba de roda, nascido na Bahia, misturou elementos da cultura africana com elementos da cultura portuguesa deixando o ritmo ainda mais brasileiro.

Arte Kusiwa- Pintura Corporal e Arte Gráfica Wajãpi (AP) – Sistema de representação gráfica criada pelos índios Wajãpi, do estado do Amapá. Através dessa arte os indígenas sintetizam sua concepção e conhecimento do universo.

Frevo (PE) – Autêntica expressão do carnaval do Recife. Surgida no final do século XIX, em Pernambuco, tornou-se uma das mais ricas manifestações culturais brasileiras.


Círio de Nossa Senhora de Nazaré (PA) – Celebração religiosa realizada no estado do Pará e que reúne milhares de fieis todos os anos. A festa religiosa reúne devotos e turistas do Brasil e do exterior. O clímax da festa é a procissão do Círio, que ocorre no segundo domingo de outubro. Sem dúvida, um momento de rara beleza e de grande fé.

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Ecos do passado nas ruas de Ferguson, Missouri

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:29
Quarta-feira, 26 de novembro


Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele,
por sua origem ou ainda por sua religião.
Para odiar, as pessoas precisam aprender,
e se podem aprender a odiar,
podem ser ensinadas a amar”.

(Nelson Mandela)





As cenas de revolta de uma imensa maioria negra contra uma polícia majoritariamente branca, que tem por cenário o subúrbio de Saint Louis, no Missouri devido ao assassinato do jovem negro, Michael Brown, pelo policial branco Darren Wilson, 28, têm feito os americanos empreenderem uma desagradável volta a um passado que eles gostariam de ver esquecido. 

Era sábado, 09 de agosto deste ano. Dois jovens negros e amigos, Dorian Johnson, 22, e Michael Brown, 18 andavam a pé pelas ruas de Ferguson. Os dois iam até a casa da avó de Michael, quando os tristes fatos se sucederam.

Michael, que estava desarmado, e com as mãos erguidas em posição de rendição, foi morto a tiros por Darren. Brown não possuía antecedentes criminais. O assassinato acabou por desencadear por todo o país as mais diferentes formas de reações: manifestações pacíficas, protestos violentos, manifestos sociais e exigência para que o caso fosse investigado e os responsáveis investigados e punidos. Era o que se esperava.

Os protestos, em agosto, contra o assassinato do jovem e, agora, pela decisão da justiça de não processar o policial, reabrem chagas abertas na década de 60, quando da luta pelos direitos civis, que tiveram como palco, várias cidades americanas. De lá para cá a discriminação foi superada, e a chegada de Obama à Casa Branca, veio coroar de êxito essa luta. Porém, após esses episódios a que temos assistido pelos noticiários, fica a pergunta? Será mesmo que essa questão racial na terra do Tio Sam, está mesmo consolidada? Ou será que ainda existem pontos a serem revistos ou feridas a serem curadas?

No caso da cidade do Missouri onde os fatos aconteceram, dois terços da população é negra, entretanto, a maioria dos cargos na política e na polícia são ocupados, em sua grande maioria, pelos brancos. Infelizmente, essa não é uma realidade apenas do Missouri. É um caso a se pensar. Quem sabe a intensidade das manifestações que ocorrem em Ferguson, e em todo o país não se torne o detonador de uma nova consciência de que a igualdade é necessária em toda a sua totalidade para que uma nação seja realmente livre e seu povo feliz?

Fatos como o que aconteceram na cidade do Missouri, também ocorrem constantemente aqui no Brasil. Volta e meia, nos deparamos nos noticiários com a notícia de que policiais espancaram e assassinaram indivíduos, na imensa maioria das vezes, negros e pobres. Há protestos, porém eles costumam ficar restritos às áreas na qual o fato aconteceu. Nos Estados Unidos, os protestos, geralmente, costumam ser mais fortes e generalizados quando acontecem essas coisas, pois a nação sabe, muito bem, o que é viver sob a terrível marca da segregação racial. A sociedade brasileira nunca teve leis que institucionalizasse e legalizassem a segregação, consequentemente, não sabe o quão desagradável e sofrido é viver sob um regime segregacionista e, por não ter passado por essa experiência, cala-se diante de injustiças semelhantes cometidas pela polícia brasileira. Claro, houve a epoca do cativeiro, mas vivia-se sob um regime escravista. Via-se, com bastante naturalidade, que os negros fossem submissos aos brancos e como se não pudesse ser de outro modo. Não se faziam leis que legalizassem a escravidão pois ela já era, em si mesma, um processo natural.

Abaixo, compartilho matéria publica no Jornal El País - Brasil

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Decisão sobre caso Michael Brown desencadeia graves distúrbios nos EUA

Justiça decidiu não processar o policial que matou um jovem negro desarmado em agosto

JOAN FAUS

O policial que em agosto matou o jovem afro-americano desarmado Michael Brown, em Ferguson (Missouri), vai continuar em liberdade e não enfrentará processo judicial. A decisão desencadeou uma nova onda de turbulência na cidade, com pelo menos uma dúzia de incêndios, lançamentos de pedras e depredações de janelas e veículos. Vinte e nove pessoas foram presas até esta terça-feira, segundo Jon Belmar, o chefe de polícia do condado de Ferguson, que considerou os novos distúrbios “piores que a pior noite de agosto”, aludindo aos incidentes ocorridos depois da morte de Brown.

Na noite desta segunda-feira, depois de três meses de deliberações, a Promotoria finalmente anunciou a decisão de um grande júri – formado por nove brancos e três negros – sobre a morte de Michael Brown, 18 anos, por disparos feitos pelo policial branco Darren Wilson, de 28, num subúrbio de Saint Louis, no meio-oeste dos Estados Unidos. O grande júri decidiu não indiciar Wilson porque considerou que não existem provas suficientes para processá-lo pelo assassinato. O policial está em liberdade e continua a receber seu salário desde o incidente, que desencadeou uma das maiores ondas de protestos raciais das últimas décadas nos Estados Unidos.

Houve protestos pacíficos em várias outras cidades do país, um deles diante da Casa Branca, em Washington. Alguns manifestantes denunciaram o uso de gás lacrimogêneo por policiais, mas a polícia de Saint Louis, em sua conta do Twitter, assegurou estar usando apenas “fumaça” para dispersar os manifestantes. De acordo com a Reuters, a polícia informou que foram feitos repetidos disparos de arma automática em uma área de Ferguson.

Toda a área de Ferguson estava sob alerta máximo na noite de segunda-feira, com o FBI e a Guarda Nacional preparados para intervir se os protestos se convertessem em tumultos violentos como os que esta cidadezinha viveu após a morte de Michael Brown, em 9 de agosto. Como “medida de precaução”, segundo as autoridades, o aeroporto de Saint Louis foi fechado e não foram autorizados pousos.

Os distúrbios começaram pouco depois de o promotor público do condado de Saint Louis, Robert McCulloch, ter explicado que o júri, composto por 12 cidadãos, é a única entidade que teve acesso a todas as provas relativas à morte de Michael Brown. O júri se reuniu durante 25 dias, ouviu mais de 70 horas de entrevistas e depoimentos de 60 testemunhas e estudou cinco possibilidades para o indiciamento do policial Wilson, desde homicídio em primeiro grau até homicídio involuntário. Concluídas as deliberações, os jurados decidiram que Wilson não poderia ser processado por nenhuma dessas acusações.

Minutos depois do anúncio da decisão do júri, a família de Michael Brown divulgou um comunicado. “Estamos profundamente decepcionados porque o assassino de nosso filho não vai enfrentar as consequências de seus atos”, disse a família, pedindo aos cidadãos de Ferguson que “usem sua frustração para contribuir para uma mudança positiva”. “Responder à violência com mais violência não é apropriado. Não façamos barulho. Demonstremos a diferença.”



A decisão de não indiciar Wilson era esperada por muitos em Ferguson devido ao vazamento de dados da investigação a jornalistas e aos preparativos intensivos feitos pela polícia, escolas e estabelecimentos comerciais diante da previsível onda de indignação que seria desencadeada por um veredito como este. O medo que se tem na região de Saint Louis é que os protestos sejam ainda mais intensos do que os que houve nas duas semanas após a morte de Brown, em 9 de agosto. Desde então vêm tendo lugar pequenas manifestações esporádicas. Em Ferguson, a expectativa da decisão do grande júri era enorme.

McCulloch relatou que a proliferação de rumores e testemunhos não confirmados nas horas e nos dias seguintes à morte de Brown dificultaram seriamente a investigação. Depois de informar a decisão do júri, o promotor público repassou detalhadamente os minutos que antecederam a morte de Brown, desmentindo as declarações de várias testemunhas, e ajustando o relato às provas obtidas na investigação, como a presença de DNA de Brown dentro do veículo do policial e sua pistola.

O clima de expectativa era enorme. Em Ferguson, cidade de 21.000 habitantes, a maioria da população é negra, mas a Prefeitura, a polícia e o órgão que rege as escolas são dominados por brancos. A morte de Brown levou centenas de afro-americanos, reunidos num pequeno trecho de uma avenida comercial, a protestar contra o que consideram ser um longo histórico de discriminação racial da polícia. As mobilizações foram pacíficas, mas um grupo pequeno entrou em choque com policiais antimotim, que dispararam balas de borracha e lançaram gás lacrimogêneo.

Michael Brown morreu no horário de almoço de um sábado, atingido por pelo menos seis disparos de Wilson, quando andava numa rua residencial com um amigo. A polícia afirma que houve uma luta para tentar agarrar a arma do policial, mas o amigo que acompanhava Brown diz que este ergueu os braços em sinal de rendição.

No sistema de justiça norte-americano, o grande júri é o encarregado de decidir se existem provas suficientes para indiciar criminalmente uma pessoa. Neste caso, o júri foi composto por nove pessoas brancas e três negras. Desde o início das deliberações, a família de Michael Brown, grupos de defesa dos direitos civis e manifestantes pediam que o promotor McCulloch fosse afastado da direção do caso. Ele é questionado por ser branco e filho de um policial assassinado por um negro.

Ferguson e seus arredores tinham se preparado para o risco de uma nova explosão de revolta se Wilson não fosse indiciado. Muitas das lojas na avenida em que aconteceram os protestos de agosto protegeram suas fachadas com tábuas de madeira, temendo ser atacadas e saqueadas, como aconteceu três meses atrás. E a sede do complexo judicial onde o grande júri se reuniu está protegida com cercas desde sábado.

A polícia foi treinada para controlar protestos civis e aumentou seu estoque de materiais para conter distúrbios. O FBI enviou cem agentes a título de reforço. E o governador do Missouri declarou estado de emergência para poder mobilizar a Guarda Nacional, a milícia militar do Estado, em caso de incidentes, como foi feito em agosto.

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Lewis Hamilton conquista bicampeonato de Fórmula 1 na terra dos Sheiks

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:36
Segunda-feira, 24 de novembro




Por ocasião do GP do Japão de Fórmula 1, na postagem: A fúria do tempo no GrandePrêmio do Japão, ofusca o brilho do mundo da velocidade, criei o personagem, Hayaho —  um jovem japonês apaixonado pelo mundo da velocidade —  para falar daquele grande prêmio. Na decisão do campeonato que aconteceu em Abu Dabhi, nos Emirados Árabes Unidos, trouxe de volta o personagem para falar da corrida. Porém, uma semana antes da corrida, o personagem chega a Dubai e, após passar alguns na cidade, segue para Abu Dabhi, explorando o potencial turístico da região. Esse passeio turístico está descritos no I e II capítulos, e somente no final, III capítulo, a corrida na qual, o piloto inglês, Lewis Hamilton, conquistou o bicampeonato




I – A chegada em Dubai

Era a primeira vez que Hayako vinha aos Emirados Árabes. Abriu a janela e, da sacada, respirou o ar de Dubai. Foi invadido por uma sensação de liberdade e alegria. Se a cidade fosse uma joia, certamente, seria uma das mais luxuosas, pensou. Olhou a paisagem que se estendia ao infinito. Realmente, a cidade esbanjava luxo e ostentação. Espalhados pela cidade estavam os hotéis mais luxuosos e caros do mundo. Ele sempre tivera a curiosidade de conhecer a terra dos Sheiks. Agora tivera a oportunidade e não desperdiçara. Respirou o ar fresco da manhã e voltou-se para o interior do quarto de hotel onde estava hospedado.

Havia chegado à cidade por volta das oito horas da noite do domingo, 16 de novembro. Prontamente fora atendido na recepção do hotel, assim que se apresentou e a reserva em seu nome fora confirmada. Ficou encantado com a forma gentil com que fora recebido naquele estabelecimento. Enquanto se dirigia ao banheiro para o primeiro banho da manhã, olhou em volta e analisou o ambiente. Quem dera pudesse se hospedar em hotéis milionários... Por enquanto, seu orçamento ainda era um pouco apertado, não estava à altura de tais luxos. Sem bem que estar em Dubai já era, para ele, um luxo.

O hotel ficava localizado no centro da cidade, na região do World Trade Center Dubai. A proximidade com o metrô Al Karama, lhe daria grande facilidade de conhecer os principais pontos turísticos da cidade sem que precisasse gastar muito dinheiro com isso. Hayako estava em Dubai apenas de passagem. Na verdade, havia aproveitado uma semana de férias dadas pela empresa na qual trabalhava, no Japão e aproveitara para ir aos Emirados Árabes Unidos, para assistir de perto a decisão do título do Grande Prêmio de Formula 1 de 2014, na capital dos Emirados, Abu Dabhi. Ficaria em Dubai até a quinta-feira pela manhã e depois seguiria para a capital, de carona com um amigo que morava em Dubai, e que iria assistir a corrida junto com ele.

O hotel no qual estava hospedado era econômico, a diária cabia perfeitamente no seu orçamento, porém, apesar de ser classificado como econômico, o quarto era bastante amplo, possuía cama macia e confortável, o serviço de wi-fi era excelente, e a velocidade da conexão idem. Uma sacada com uma excelente vista para a cidade ajudava a tornar o ambiente ainda mais elegante. Também havia uma cozinha, com micro-ondas, porém, ele decidira ir, após o banho, ao restaurante do hotel fazer a sua refeição matinal. No banheiro havia uma grande banheira onde ele pode relaxar e tirar o restante do cansaço do dia anterior.

De banho tomado e bem alimentado pelo delicioso café da manhã, resolveu ir até a piscina, na cobertura do hotel. Ficou sentado em uma confortável cadeira, à beira da piscina, olhando, ao longe, o complexo Dubai Downtown. Não havia como ignorar a imponência do Burj Khalifa — Um dos edifícios mais altos e luxuosos do mundo. Logo mais, ainda na parte da manhã, ele pretendia ir até o local e conferir o que havia de mais moderno e ultramoderno, na cidade. O amigo que morava em Dubai havia lhe recomendado que não deixasse de ir ver a beleza das águas dançantes, chamado Fontes de Dubai. Segundo ele, era um espetáculo imperdível e inesquecível.

Após o almoço, Hayako, desceu para conhecer a cidade de perto. Decidiu começar por perto e pelo início de tudo. Foi visitar o Museu de Dubai, no centro da cidade. Foi a partir daquela região que a cidade cresceu e se desenvolveu. As fotos, galerias e painéis eram um verdadeiro passeio pela história e um ótimo meio de conhecer m pouco mais sobre o povo árabe, seu estilo de vida e seus costumes. Além de dar uma melhor compreensão de como os árabes haviam transformado um lugar desértico em uma região procurada por turistas do mundo inteiro e onde os seus nativos podem levar uma vida de qualidade.

Hayako não sabia falar o árabe, língua original da região, mas se virou muito bem, pois falava inglês, e o inglês também é muito falado nos Emirados Árabes Unidos. É como se fosse uma segunda língua. O jovem japonês passeou muito bem pelo lugar sem ter que enfrentar as barreiras da língua.





II – Indo para Abu Dabhi

Na quinta-feira, por volta das dez horas da manhã, o amigo de Hayako, estacionou o carro na frente do hotel onde ele estava hospedado. O jovem japonês fez a mala, acertou a conta e desceu. Dentro de, mais ou menos, uma hora e meia estariam em Abu Dabhi. Até lá seriam cerca de 150 quilômetros.

— Tudo certo com a reserva do hotel?

— Sim, tudo ok?

— E quanto ao seu retorno?

— Viajou na segunda-feira pela manhã.

Pegaram a Sheikh Zayed Road, que logo se transformaria na rodovia E11. Foi informado pelo amigo que depois pegariam a rodovia E10 ou E12, para chegar ao centro da capital. Durante o trajeto, os dois amigos conversaram sobre amenidades, negócios, carros, Fórmula 1 e mulheres. A viagem transcorria agradável e gostosa. A rodovia com várias faixas e a ótima qualidade do asfalto, fazia o carro rodar com mais rapidez, conforto e segurança.

Enquanto o automóvel deslizava pela movimentada rodovia, Hayako pensava em como os árabes haviam conseguido construir um oásis tão belo em pleno deserto. Como haviam conseguido tornar aquela parte do mundo em algo tão futurista? Em Dubai vira coisas fantásticas. Os arranha-céus pareciam brincar com os limites da engenharia. Prédios e instalações luxuosas e deslumbrantes que pareciam saídos de algum cartão postal do futuro. Ilhas artificiais gigantes foram construídas em forma de palmeiras, onde os milionários aproveitaram para construir os seus oásis particulares que custam milhões de dólares. E o Dubail Mall, então? Que coisa maravilhosa! Um enorme templo do consumo. Um enorme shopping center com 22 salas de cinema, 120 restaurantes e mais de 1.200 lojas, possuindo, inclusive uma ala especial destinada às grifes de luxo. Ainda havia a opção de um safári com direito à jantar no deserto. Entretanto, para esse passeio ele não fora, pois se gastava cerca de seis horas para concluir o roteiro e ele não dispunha de tanto tempo para um só roteiro turístico.

Passava um pouco do meio dia quando chegaram a Abu Dabhi. Os dois amigos chegaram à cidade por volta do meio dia. Logo na entrada da cidade pararam para a primeira atração turística. Era uma ilha artificial, chamada Yas Island, e ficava a cerca de trinta quilômetros do centro da cidade. A ilha, explicou o amigo, era um grande complexo de entretenimento e lazer. Ali ficavam o autódromo onde eram disputados os GPs de Fórmula 1. O autódromo já estava bem movimentado pelas equipes que estavam chegando para a final do campeonato de Fórmula 1, que ocorreria no domingo. Não se demoraram muito ali, pois haveriam de voltar no domingo para assistir à corrida.

Ao invés disso, foram ao Ferrari World — maior parque temático do mundo, dedicado, exclusivamente, à famosa escuderia italiana. Aos olhos de quem é apaixonado por carro e por velocidade é amor à primeira vista. Não poderia ser diferente com Hayako. Seus olhos brilhavam igual aos de uma criança que está diante de seus brinquedos favoritos. Havia escolas de pilotagem, autoescolas, lojas com produtos da Ferrari. No parque também fica a Fórmula Rossa — A montanha russa mais rápida do mundo que, quando em atividade, atinge uma velocidade de 240 km/h. Nem precisa dizer que os dois amigos fizeram questão de experimentar o brinquedo. Após a aventura, foram à praça de alimentação provar um delicioso almoço, pois as emoções da montanha russa haviam-lhes deixado com muita fome.

Tal qual Dubai, Abu Dabhi respirava modernidade, desenvolvimento e opulência. A cidade também é apontada como a mais rica dos Emirados. As vidraças espelhadas dos luxuosos edifícios também refletem a riqueza de um país. Apesar de Dubai ser bem mais famosa, é em Abu Dabhi que fica o centro do poder político dos Emirados Árabes. Lá também está localizada a maioria das companhias petrolíferas. A cidade também é uma referência em termos de cultura. O charme da cidade foi ter preservado lado a lado, tradição e modernidade. Velhas mesquitas convivem harmoniosamente com edifícios ultramodernos.

No sábado, Hayako aproveitou para ver o treino classificatório para o GP de Abu Dabhi, pela enorme TV do quarto do hotel em que estava hospedado. Que país levantaria o troféu de campeão: A Alemanha, de Nico Rosberg, ou a Inglaterra, de Lewis Hamilton? Essa era a pergunta que os fãs de Fórmula 1 se faziam pelo mundo inteiro. O repórter da TV local entrevistava os pilotos a fim de saber a opinião deles sobre quem levaria o título. A maioria deles apostava em Hamilton, outros ainda contavam com os imprevistos e previam vitória de Rosberg, principalmente, após a pitada de pimenta proporcionada pela pontuação dobrada. A vitória valeria 50 pontos, o triplo da diferença de 17 pontos que separavam os dois pilotos da mesma equipe.  

No treino classificatório do sábado, Nico Rosberg levou a melhor, conseguindo a pole position. Hamilton não foi bem nos treinos e ganhou a segunda posição no grid de largada.




III – A corrida

No domingo (23), logo após o almoço o amigo de Hayako, que estava hospedado no mesmo hotel que ele, bateu a sua porta, chamando-o para, finalmente, irem ao evento tão esperado: A decisão do Grande Prêmio de Fórmula 1, na terra dos Sheiks. Quando chegaram ao moderno autódromo — aliás, como tudo nos Emirados — o local já estava repleto de pessoas. Procuraram os seus lugares e ficaram conversando sobre as emoções da temporada de 2014. A disputa, por vezes dura a acirrada, entre Hamilton e Rosberg dera o tom do campeonato. Os dois amigos haviam se desentendido, mas depois, por bem do esporte, souberam controlar os seus ímpetos.

O mundo do esporte também viu o renascimento do brasileiro Felipe Massa, da Williams. Massa havia defendido por oito anos a equipe Ferrari Apesar de ser muito querido dentro da escuderia italiana, havia enfrentando problemas que o deixaram, emocionalmente, abalado. Quando o brasileiro deixara a Ferrari, muitos deram por certo o fim de sua carreira, porém, Felipe Massa foi para a Williams e, surpreendendo a todos, reviveu, trazendo a Willians junto com ele nesse renascimento.  O campeão, Sebastian Vettel, não estava com um bom carro esse ano e, consequentemente, não conseguiu fazer um bom campeonato. Porém, no próximo ano, Vettel vai para a Ferrari. Por falar, em Vettel, ele está mais do que feliz. Além de assinar contrato de três anos com a equipe italiana, ainda receberá um gordo salário. A Ferrari pagará ao alemão, £ 150 milhões (aproximadamente R$ 600 milhões). Este salário o coloca na condição de terceiro atleta mais bem pago do mundo. Com todas as essas novidades, o campeonato do próximo ano promete boas emoções.

Os pilotos já estavam na pista e faziam suas voltas de apresentação. Logo após, se posicionaram em seus lugares à espera de autorização para a largada. Todos no autódromo prendiam a respiração. Finalmente, foi dada a ordem para a largada. Surpreendentemente, Rosberg não largou bem e Hamilton, como uma fera, aproveitou o momento ruim do companheiro de equipe, e pulou do segundo para o primeiro lugar, assumindo a liderança da corrida.

Felipe Massa que havia largado em quarto, pulou para a terceira posição, aproveitando-se também de uma largada ruim de seu companheiro de equipe, o finlandês, Valtteri Bottas, que havia largado na terceira posição. Troca de posição entre os pilotos da William, semelhante ao que havia acontecido com os pilotos da Mercedes. No caso da Williams, Bottas teve pior desempenho e caiu para a oitava posição.

Os pilotos, que estavam com pneus supermacios, não demoraram a parar nos boxes para trocá-los. Hamilton somente parou para fazer a troca de pneus na décima primeira volta. Nesse momento tinha dois segundos de vantagem sobre Rosberg. Nesse ínterim, Massa assumiu a liderança até a décima quarta volta. Quando voltou à pista, estava em terceiro lugar, atrás do líder Hamilton, e de Rosberg.

Rosberg — que vinha torcendo para que Hamilton tivesse problemas no carro, tendo assumido, durante o GP do Brasil, torcida para Felipe Massa andar mais rápido em Abu Dabhi, a fim de complicar a vida do piloto inglês — provou, de seu próprio veneno. O carro dele começou a apresentar problemas na vigésima quinta volta. Através do rádio, ele avisou aos mecânicos, nos boxes, que o carro estava perdendo potência. Retornando a comunicação do alemão, a equipe informou que ele realmente estava com problemas nos motores. A partir daí, Rosberg começou a fazer voltas mais lentas, distanciando-se de Hamilton e permitindo a aproximação do brasileiro, Felipe Massa. Massa conseguiu ultrapassar o alemão na vigésima sétima volta. Lá na frente, Hamilton sentia-se cada vez mais perto do título. Porém, Felpe Massa começava a se aproximar cada vez mais de Hamilton. Informado pelo rádio desse detalhe, o inglês respondeu a equipe: “Não estou correndo contra o Massa”.

A partir daí, a única chance de Nico Rosberg conquistar o título, era se Hamilton abandonasse a corrida, mas isso parecia uma possibilidade improvável. Na trigésima quarta volta, demorou tempo demais na segunda troca de pneus, e caiu para a sétima posição. Aí, nem se Hamilton abandonasse a corrida ele seria campeão. Mesmo assim, Rosberg mostrava a força dos fortes: mesmo com o carro em péssimas condições, ele insistia em se manter na pista, na tentativa de levar o carro até o fim da corrida. A Williams ainda fez uma troca de pneus de Massa. O brasileiro, em segundo lugar, saiu à caça de Hamilton, mas o inglês acelerou e conseguiu manter-se na liderança.

Na penúltima volta, vendo que Rosberg não teria mais condições de continuar na corrida a equipe pediu a ele que abandonasse a prova e ele disse que não, que queria terminar a corrida. Neste momento, o alemão mostrou a grandeza dos campeões, e o mostrou o porquê de ter sido um dos favoritos ao título. Veio à bandeirada final e com ela o bicampeonato do inglês Lewis Hamilton. Logo após a vitória alguém lhe entregou uma bandeira da Inglaterra e Hamilton — repetindo o gesto de seu ídolo, Ayrton Senna, que após as vitórias, desfilava com a bandeira brasileira — deu uma volta no circuito com a bandeira inglesa. No pódio, Hamilton, ao tomar um banho de champagne, parecia também lavar a alma de tanta felicidade. Completando o pódio também, radiantes de felicidade estavam os companheiros de Williams: Felipe Massa, em segundo e Valtteri Bottas, em terceiro.

***

Ao sair do circuito, Hayako também parecia renovado, pela emocionante corrida que acabara de assistir e pelos dias maravilhosos que passara nos Emirados Árabes. Agora, era necessário voltar para sua terra, o Japão, e seguir normalmente a vida. 

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Um raio do sol da liberdade no meio da floresta

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:37
Sábado, 22 de novembro

Aprendemos a voar como os pássaros, a nadar como os peixes;
mas não aprendemos a simples arte de vivermos junto como irmãos”.
(Martin Luther King)



O texto abaixo não é inédito. Já o havia publicado há um ano, por ocasião do Dia da Consciência Negra. No geral, devo dizer que não fiz grandes alterações, apenas dividi-o em capítulos e reescrevi um ou outro parágrafo, além desta introdução.

Em formato de conto, faço um tributo a Zumbi — símbolo de resistência negra durante o período da escravidão no Brasil, e último líder do maior quilombo de toda a América, durante o período colonial: o quilombo de Palmares. O texto mistura elementos ficcionais com fatos reais para contar a história do líder negro à época do Brasil colônia.

O conto é dividido em quatro capítulos. No primeiro capítulo faça uma narrativa inteiramente ficcional, livre, sem base em dados históricos, apenas com o objetivo de levar Zumbi até o seu campo de batalha: O quilombo — que eram comunidades de negros fugidos das fazendas e que se embrenhavam no meio da floresta. Lá, eles viviam livres dos chicotes, das chibatas e da crueldade de muitos senhores de engenho. Nos demais capítulos, ainda usando narrativa literária, apresento os fatos históricos, personagens, datas, estrutura dos quilombos e a luta do povo que habitava essas comunidades.

No mais, desejo boa leitura, ou releitura do texto.


***



Um raio do sol da liberdade no meio da floresta


I — A Fuga

Agachou-se à beira do pequeno riacho de águas cristalinas que cortava a densa floresta. Olhou sua imagem de adolescente refletida nas águas. Estava num transição entre menino e homem. As águas do riacho não lhe diziam que era um escravo, ao contrário, diziam-lhe que era um rei. Um rei negro. Fechou a mão em forma de concha e, com elas, trouxe o líquido precioso aos lábios, sorvendo com prazer. Levantou a cabeça e olhou ao redor de si. O sol atravessava a copada das árvores, criando um fascinante jogo de luzes e sombras. Sentia-se num ambiente da rara magia e de mais absoluta liberdade.

Há quanto tempo caminhava no meio da mata em direção ao alto da serra? Não sabia ao certo. Em sua mente vieram as imagens do primeiro dia de fuga. Os cães ferozes e os capitães-do-mato estavam ao seu encalço. Correra muito, o mais que pudera. Seu coração quase saltava do peito de tão forte que batia. Os homens o caçavam como se caça um bicho no meio do mato. Sabia que a ordem era atirar para matar. Havia tido notícias de muitos escravos que foram mortos naquelas circunstâncias. Os que conseguiam ser recapturados com vida sofriam castigos terríveis.

Ouvira de longe o latido dos cães se aproximando cada vez mais. Mas não o pegariam, nunca. Havia trazido um óleo feito com plantas nativas que quando em contato com a pele confundia o faro dos cães. Era um segredo que um antigo escravo lhe ensinara e pelo qual ele seria grato pelo resto da vida. Sacou do bornal o óleo e, rapidamente, passou no corpo inteiro. Viu, mais adiante, uma pedra que mais parecia um túmulo. Correu rapidamente até ela e, com grande dificuldade, seu corpo esguio conseguiu colocar-se debaixo dela. Ficou ali como se fosse um morto.

O trote dos cavalos se fez mais forte e o latido dos cães mais agressivos. Pararam perto da pedra onde ele estava escondido. Ficou paralisado de pavor. O sangue frio lhe escorreu pelo corpo. Felizmente, a receita ensinada pelo velho africano era boa demais. Os animais não conseguiram perceber sua presença e levaram os homens para longe de onde ele estava. Por precaução resolveu ficar ali até que caísse à noite. Quando o manto da noite caiu por sobre aquelas paragens, saiu do abrigo e prosseguiu a fuga em segurança.

O lugar onde estava agora era quase inacessível. Era cercado por densa mata. Analisou o ambiente de forma mais detalhada e percebeu, próximo dali, uma jabuticabeira. Levantou-se da beira do riacho, foi até lá e colheu algumas apetitosas jabuticabas, colocou-as no chapéu e foi saboreá-las sentando à sombra de um frondoso jequitibá. Em seguida, deitou-se ali mesmo, apoiando a cabeça numa enorme raiz que lhe serviu de travesseiro. Ali, adormeceu tranquilamente.




II — A luta de zumbi

 Esse fugitivo carregava o nome de Zumbi e trazia em si a marca da realeza africana, da beleza e da força da gente daquela terra distante. Em seu coração pulsava um forte anseio de liberdade. Nascera em Palmares, no ano de 1655. Certo dia, a comunidade quilombola, na qual viviam seus pais, foi invadida pelas tropas coloniais e ele, Zumbi, ainda recém-nascido fora capturado e levado para a distante Vila de Porto Calvo. Na vila, foi batizado com o nome de Francisco. Por força do destino, passou a trabalhar para o padre daquela comunidade. O padre Antônio de Mello era um generoso patrão e uma ótima pessoa. Com ele, aprendeu o latim e o português e também matemática.

Mesmo recebendo um ótimo tratamento na casa do velho sacerdote, doía-lhe no peito a opressão a que eram submetidos os seus irmãos negros. Ele já era quase adolescente, porém, já sentia que não era natural que uns homens fossem donos de outros. Os homens, todos os homens, haviam nascido para a liberdade e não para as algemas do cativeiro. Fatores como a cor da pele, a condição social, não tornavam uns melhores que outros, mas apenas iguais, pensava o jovem. Padre Antônio havia-lhe revelado que ele fora capturado, ainda recém-nascido, no Quilombo de Palmares. Isso multiplicou seus anseios de fuga do opressor. Em algum lugar daquelas serras, brilhava o sol da liberdade e, nesse sol, ele queria se banhar. Era por isso que não se sentia em fuga. O sentimento era de quem voltava para casa.

Acordou duas horas depois, sentindo-se completamente revigorado. Caminhou por mais um dia e, enfim, chegou à terra prometida: a Serra da Barriga. Olhou de lá cima o vale aos seus pés. O intenso verde das matas e a beleza do céu azul, harmonizavam-se de forma tão perfeita que nem Leonardo Da Vinci, com toda a sua genialidade, conseguiria pintar um quadro tão esplendoroso.

O lugar era de tão difícil acesso que, para chegar até ali, as tropas do governo colonial teriam que empreender uma árdua tarefa e, só a muito custo, conseguiriam alcançar seus objetivos. Mesmo quando conseguia chegar ao local, as tropas estavam tão cansadas, que suas incursões, invariavelmente, acabariam em fracassos militares. A floresta era uma poderosa aliada dos palmaristas e grande inimiga das tropas.

Zumbi, no alto de seus quinze anos e no frescor de sua juventude, conseguira, finalmente, realizar seu sonho: chegar a Palmares – A maior comunidade de resistência negra em toda a América. Uma comunidade quilombola que nasceu no final do século XVI e resistiu até o século XVIII. Foram 100 anos de luta e resistência. O quilombo de Palmares, ou Mocambo de Palmares, como preferem chamar alguns historiadores, possuía, pelo menos, dois ângulos possíveis de análise: para os escravos representava o sonho da liberdade. Para as autoridades, uma ameaça ao sistema escravista.

O jovem guerreiro foi recebido na comunidade com efusiva alegria pelos outros quilombolas que ali já se encontravam. Mais tarde, já bem alimentado, descansado e refeito da viagem, saiu com outros quilombolas para conhecer melhor a região. Descobriu que o Mocambo não era apenas um aglomerado de pessoas, mas sim, que eram formadas de várias comunidades bem estruturadas e organizadas que se interligavam e se intercomunicavam.

A terra, entrecortada por diversos rios, mostrava-se bastante fértil e propícias as atividades agrícolas. Os quilombolas caçavam e pescavam e tudo era de todos. Faziam daquele ambiente hostil um grande aliado. Para adquirir produtos que a comunidade não dispunha, como por exemplo, o sal, os palmaristas saqueavam fazendas e comércios das vilas mais próximas.

O que, realmente, assustou a coroa portuguesa, foi a consciência de que dentre aquelas serras, um mundo de liberdade possível estava sendo criado, totalmente diferente do escravismo. Os Palmaristas estavam criando um novo tipo de sociedade. A economia era de base agrícola. Mandioca e milho eram os produtos principais, porém, havia também o cultivo de batata, legumes e outros produtos. A floresta também lhes proporcionava uma economia extrativa baseada nos produtos que eram retirados dela como, por exemplo, frutos silvestres, ervas e raízes. Eram muito hábeis no manejo do ferro e produziam seus próprios instrumentos de trabalho e algumas armas.

Produziram-se nessas comunidades, novas leituras em matéria de religião e cultura. Santos católicos e deuses africanos conviviam nos altares em perfeita harmonia. Fabricavam também seu próprio artesanato. Assim a comunidade crescia cada vez mais, chegando a alcançar, em meados do século VXII, o número de vinte mil habitantes.

A sociedade escravista e a coroa portuguesa sempre perseguiram Palmares por verem nela uma ameaça. Foram frequentes as tentativas de acabar com o quilombo. Devido a posição estratégica da comunidade, o movimento das tropas era logo percebido e os palmaristas batiam em retirada. Fundavam outra comunidade mata adentro. Em algumas investidas, as tropas conseguiam capturar alguns quilombolas, matar outros tantos, mas no geral, pode-se dizer que suas incursões na floresta resultavam sempre em grandes fracassos militares.  Esses fracassos eram devidos, em grande parte, estarem os escravos que haviam tido a coragem de empreender fuga das fazendas, estrategicamente bem posicionados em meio às matas, fato que dificultava, em muito, a vida das tropas encarregadas das captura deles.




III – O cerco se fecha

Em 1670, os ataques e as tentativas de destruir o quilombo, não vinham surtindo efeito. As autoridades propuseram então um acordo, uma trégua. Um grupo de palmaristas foi a Recife, discutir os termos do acordo com o governador de Pernambuco, D. Pedro de Almeida. Foram recebidos pelo governador como uma comitiva de Estado. Faziam parte dessa comitiva, três filhos do rei Ganga-Zumba, que era uma espécie de governador de Palmares.

Dentre as cláusulas do acordo estavam a de que os palmarista poderiam continuar a fazer trocas de produtos com os comerciantes da região; a liberdade dos nascidos nos quilombos seria respeitada, entretanto, os escravos que chegassem a comunidade, fugidos de fazendas, deveriam ser devolvidos aos seus donos. Muitos quilombolas eram contrários a essa condição de devolverem os escravos que chegassem a comunidade vindos das senzalas. Outro item com que os líderes não viam com bons olhos, era o de que eles, a partir de firmado o acordo, se tornariam vassalos do rei. O líder Ganga-Zumba, temia uma conspiração e ele, não estava errado: foi envenenado e vários de seus seguidores foram executados.

Por essa época, Zumbi já era homem feito e havia-se tornado uma grande liderança militar entre os quilombolas. Depois da morte do líder Ganga-Zumba, foi Zumbi que assumiu a liderança de Palmares. Por volta de 1684 e 1687, os ataques ao quilombo se intensificaram. As autoridades reforçaram as tropas. Zumbi sentia que a força militar da comunidade se enfraquecia cada vez mais. Em meio à guerra, são feitas novas tentativas de acordo, porém, todas resultaram em insucessos.



IV – A morte de um guerreiro

Depois do fracasso de várias tentativas, o comandante paulista, Domingos Jorge Velho, traçou um objetivo: Destruir Palmares e atingir o coração da comunidade, matando Zumbi, seu líder máximo. Reuniu uma tropa de mil homens, armamentos e provimentos em abundância e rumou serra adentro.

Zumbi percebeu que o cerco em torno dele estava se fechando. Escondeu-se em sua fortaleza, na serra Dois Irmãos. As tropas enfurecidas partiram implacavelmente ao seu encalço. Os soldados invadiram a fortaleza na qual ele se escondia. Tiros são trocados de ambos os lados, mas os homens da tropa de Domingos Jorge Velho, estão mais bem munidos de armas e balas. Um soldado atinge Zumbi no peito e o guerreiro tomba no chão da fortaleza.


Tombou Zumbi e, junto com ele, o sonho de uma terra onde a liberdade e a dignidade humana eram realidades possíveis. Findava o dia 20 de novembro de 1695, quando o sangue de Zumbi dos Palmares correu por entre as serras, semeando nas consciências o desejo de manter sempre viva a chama da liberdade, tão ansiada, tão desejada por um grande contingente de negros que padeciam sob o jugo da escravidão.

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