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O trágico fim do menino Bernardo Boldrini - Parte II

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 23:47
 Quinta-feira. 24 de abril


Hoje eu tive um sonho
E foi o mais bonito
Que eu sonhei em toda a minha vida
Sonhei que todo mundo vivia preocupado
Tentando encontrar uma saída
quando em minha porta alguém tocou
Sem que ela se abrisse ele entrou
E era algo tão divino, luz em forma de menino
E uma canção me ensinou”.

(Guerra dos Meninos – Roberto e Erasmo Carlos)



Que não chegou a tempo...


Como vocês já sabem, me chamava Bernardo Boldrini, tinha 11 anos e morava na cidade de Três Passos, no Estado do Rio Grande do Sul. Meu pai, Leandro Boldrini é um conhecido e respeitado médico-cirurgião, um excelente profissional. Ele é casado com a bela e competente enfermeira, Graciele. Os dois tem uma filha, minha irmã, com um ano e poucos meses.

Fui feliz até o dia 10 de fevereiro de 2010. Naquele dia, uma trágica notícia caiu como uma bomba sobre a minha cabeça. Minha mãe, Odilaine Uglione, saiu de casa dizendo que ia a clinica onde ela e meu pai trabalhavam (eles também eram sócios no negócio), a fim de resolver um assunto. A relação entre ela e meu pai não andava muito boa. Eles estavam pensando em se divorciar. Faltavam apenas três dias para ela assinar a separação. Os dois já tinham acertado com os advogados e, em decorrência da partilha de bens, minha mãe receberia R$ 1,5 milhão e ainda teria direito a uma pensão de R$ 10 mil por mês. Ao sair de casa mamãe me abraçou Ela estava bem, pelo menos não parecia triste, deprimida ou coisas desse tipo. Sentia-se até um pouco aliviada pois vinha sofrendo muito ultimamente.

Passadas algumas horas após a saída dela, chegou em minha casa alguns policiais dizendo que minha mãe havia se suicidado dentro da clinica, com um tiro na cabeça. Minha mãe tinha apenas 32 anos quando isso aconteceu e meu pai tinha 38 anos. Ao ouvir aquela triste notícia, as lágrimas começaram a cair de meu rosto, como caem as águas da cachoeira. Custei a acreditar que meu precioso tesouro havia ido embora de um modo tão trágico. Na verdade, tinha minhas dúvidas de que minha mãe houvesse cometido suicídio. Vô Jussara acreditava que ela tinha sido assassinada. Mas não podíamos fazer nada, pois os laudos periciais concluíram que foi suicídio. Não adiantava brigar: eram as palavras dos peritos contra as nossas suspeitas.

Quando minha mãe morreu eu tinha sete anos. Após a morte dela, a felicidade fez as malas e saiu de minha casa para nunca mais voltar. Desfez-se tal qual se tal qual se desfazem os castelos de areia. O mais triste para mim foi ver que meu pai não partilhava da dor pela perda de minha mãe. Nunca o vi derramar uma lágrima sequer. Enquanto meus olhos e os de minha vô, pareciam rio à transbordar, os de meu pai eram rio seco pelo qual não corria água há muito tempo.

Acho normal o marido querer arranjar uma outra companheira quando a mulher morre. Afinal de contas, ele precisa de alguém que lhe dê suporte emocional para superar aquela dor e, até mesmo, pensando em questões práticas, como a criação dos filhos. Evidentemente, tudo isso após guardar o luto por aquela que foi sua companheira. No caso de meu pai, essa coisa de arranjar uma nova namorada foi algo escandaloso. Menos de um mês depois da morte de minha mãe, ele andava de braços dados com a loira e bonita Graciele. Graciele era enfermeira, porém, havia sido contratada como secretaria de meu pai. Ela já havia namorado outros médicos na cidade e confessara, certa vez, a uma amiga,  que seu sonho era se casar com um médico.


Imagem: http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2014/04/21/meia-irma-de-bernardo-e-disputada-por-familiares.htm

Não demorou muito para que eles se casassem e Graciele viesse morar em nossa casa. A partir do dia em que entrou em nosso lar como dona da casa, ela começou a viver o sonho dela e eu começava a viver o meu inferno. No início, ela fez o papel da boa madastra. Levava-me para passear, tomavamos sorvetes juntos, brincavamos muito também. Depois de um certo tempo, a máscara de mulher afável caiu e eu, assustado, percebi que, por trás daquele rosto bonito e daquela mulher amável, se escondia uma mulher má e estupidamente ambiciosa.  

Kelly - era assim que nós a chamávamos na intimidade - tinha uma mente fértil, porém, inclinada ao mal. Vivia inventando coisas que eu não havia feito e quando meu pai chegava fazia ele acreditar em suas mentiras. E meu pai acreditava nas coisas que ela dizia. Ficava bravo, às vezes me batia, ou me dava alguma outra espécie de castigo.

Na escola em que estudava, frequentemente, havia reuniões de pais e mestres. Pensa que eles apareciam por lá? Nunca. Se queria mesmo ficar por dentro dos assuntos da escola, era eu mesmo quem tinha que ir a essas reuniões. Ainda falando da escola, eu passava a maior vergonha entre os meus amigos, pois eu nunca tinha dinheiro para compra lanches. Se não ficava com fome por completo, era porque os meus amigos dividiam o lanche deles comigo. Enquanto eles estavam sempre cheirosos e limpinhos, eu andava com o mesmo uniforme sujo e amarrotado durante dias seguidos. Sapatos novos e roupas novas? Esses presentes, fazia tempo que não ganhava nenhum.


Imagem: http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/amiga-diz-que-ajudou-a-matar-bernardo-por-dinheiro
Nas férias escolares, meus amigos costumavam viajar com os pais. Meu pai e minha madrasta também costumavam viajar para fora do país. Eu nunca os acompanhava. Eu ficava na casa dos amigos e familiares, na cidade mesmo, ou quando alguma dessas boas almas me levava para algum lugar, era no mínimo, até a cidade mais próxima.  

Havia coisas bem piores que estas. Eu não tinha as chaves de casa. Então muitas vezes eu chegava em casa e a porta estava fechada. Certa vez, fazia muito frio e eu estava sem agasalho e apenas de chinelos. Fiquei esperando algum tempo que alguém chegasse para abri a porta de casa, naquele frio que quase me cortava a pele. Um dentista, conhecido nosso, passou e me viu naquele sofrimento, então ele teve a bondade de me levar para a casa dele.

Isso ainda não foi o pior. Certa noite, eu dormia tranquilamente em minha cama. De repente, acordei sufocado, agoniado e gritando. Era como se tivesse me faltando a respiração. Quando despertei por completo, vi a Kelly perto de minha cama, com um travesseiro na mão. Perguntei o que ela fazia ali e ela me respondeu que tinha ido apenas fechar as janelas. Desconfio que naquela noite ela tentou me matar, asfixiando-me com um travesseiro.

No dia 04 de abril deste ano, uma sexta-feira, ela me encheu de esperança dizendo que teríamos que ir a cidade de Frederico Westphalen, pois ela gostaria de me dar uma televisão nova. Fiquei super feliz com a novidade. Contei para todos os meus amigos da escola que iria ganhar uma nova TV. Quando voltei da escola naquele dia, ela estava na maior pressa em sairmos comprar a TV. Não tive nem ano menos, tempo de trocar o uniforme da escola. Saí do mesmo jeito que chegara: sujo e suado. Aliás, essa coisa de andar sujo e suado não era nenhuma novidade para mim. Ela me disse também que, depois, nós passaríamos na casa de uma benzedeira, uma rezadeira.

Achei estranho quando ela me deu um comprimido para eu tomar. Disse-me que o medicamento servia para que não vomitasse durante a viagem. Na verdade, o remédio servia para que eu adormecesse, era uma primeira tentativa de me dopar. Estava tão ansioso pela novidade que o remédio não fez efeito algum. Ela dirigia a caminhonete preta, uma L200, em alta velocidade, a 117 km/h. O carro parecia voar por sobre o asfalto. A polícia rodoviária nos parou e multou a Graciele, advertindo-a para que não corresse daquele jeito. Vi quando o policial olhou em minha direção no banco de trás do carro, acho que ele queria conferir se eu estava usando cinto de segurança. Até acenei para ele, pois achei que, diante da velocidade em que estávamos, ele tinha sido até simpático.

Descemos da caminhonete, próximo a um posto de gasolina e uma amiga de Graciele, a assistente social Edelvânia Wirganovicz, se juntou a nós. Estranhei a presença dela, mas minha madrasta me disse que ela nos ajudaria a fazer as compras. Kelly deixou a caminhonete estacionada no posto e entramos no carro de Edelvania. Antes de entrar no carro, notei que havia câmeras do posto de gasolina, apontadas em nossa direção.  Dentro do carro, a madrasta me deu mais um daqueles comprimidos. Quando perguntei onde estávamos indo, ela me disse que íamos à casa da benzedeira e que para isso ele precisava apenas levar uma picadinha na veia. Foi quando ela pegou uma seringa e aplicou na veia do meu braço esquerdo.  A partir daí as coisas foram perdendo a nitidez... O mundo foi perdendo a cor... E eu fui apagando devagarzinho, feito uma vela... Até que apaguei completamente.

Elas me levaram para um lugar afastado na beira de um rio. No local já havia uma cova pronta, acho que uma delas, ou as duas já tinham ido antes ao local e prepararam tudo direitinho. Depois elas tiraram minha roupa, meu uniforme da escola, que ainda estava usando. Tiraram também os meus tênis. Depois colocaram meu corpo no buraco. Kelly jogou soda caustica sobre meu corpo para que ele fosse consumido com mais rapidez e não deixasse mau cheiro. Edelvania colocou pedras em cima de mim e depois cobriram tudo com areia.

O que restou do meu corpo foi encontrado na noite de segunda-feira, dia 14, dentro de um saco plástico e enterrado próximo às margens de um rio, em um matagal, um local de difícil acesso.

A multa que Graciele levou no caminho, as câmeras de segurança do posto de gasolina e a nota de compra de um extintor para carro foram fundamentais para que a polícia esclarecesse imediatamente o crime.  Logo após a descoberta do corpo, foram presos; minha madrasta Graciele, meu pai Leandro e a amiga deles, Edelvania. Quanto a meu pai, a polícia ainda está investigando a participação dele no crime.


Imagem: http://www.jornaldiadia.com.br/news/noticia.php?Id=24188

Por que todo esse ódio que eles sentiam por mim? Ambição desmedida. Quando eu fizesse dezoito anos, herdaria a parte da herança que minha mãe havia deixado. Eles não estavam interessados em dividir a herança, queriam toda a fortuna para eles. Quanto a Edelvania, coitada dela também. Em troca de dinheiro para pagar um apartamento, ela ajudou a tirar a vida de um inocente.

Quanto a mim, seguirei meu caminho pela eternidade e descansarei em paz, junto à minha mãe. Na manhã de terça-feira, dia 15, meu corpo foi enterrado no Cemitério Ecumênico Municipal de Santa Maria (RS), no mesmo cemitério onde minha querida mãe foi enterrada, em 2010. O cemitério estava lotado e o carinho dos amigos e familiares que lá estavam embalaram minha alma e a encheram de ternura. Há 295 km dali, em Três Passos, cidade onde nasci e na qual morava, houve um absoluto silêncio e lagrimas rolaram em muitas faces. Havia muita revolta também. Os habitantes quiseram colocar fogo na casa em que meu pai morava. A polícia chegou e os convenceu de que se fizessem aquilo, estariam destruindo provas.

A você que leu esse triste relato, eu peço que me ajude, rezando por mim para que sejam afastadas as sombras que me perseguiram nos últimos anos de minha breve vida terrena. Bernardo Uglione Boldrini é meu nome.



13 Comments


Muito triste a história desse menino. Espero que se faça justiça nesse caso.


A justiça do Rio Grande do Sul precisa ser ágil na punição aos culpados para que possa inibir essas atrocidades com crianças.


Que você encontre a felicidade que nunca teve neste mundo. Não te conheci, mas um dia nos encontraremos nos braços do Senhor. Você agora é "Flecha veloz nas mãos de Deus, Vá em frente a Eternidade é Sua".


Meu querido Bernardo, não te conheci pessoalmente, mas sinto muito que você não tenha tido chance de viver muitos momentos bons em sua breve vida.Você suportou dores difíceis de suportar para uma criança inocente. Espero que Nossa Senhora te guie, você merece toda paz e todo amor. Rezo por ti. Deus estará guiando seus passos. Tua inocência , teus sonhos, tua fé são exemplos para todos nós que não te esqueceremos. Luciana Leal.


eu rezo por ti todo dia acendo uma velinha pra ti todo dia


Maltrataram, humilharam e mataram o Bernardo. Sem dó nem piedade, doparam, jogaram soda, pedras e terra em seu corpinho nu e com vida ainda. Justiça!


Eles pensaram que iam ficar impune,senão não fariam !!! Que castigo pior ficar em uma cela ... Justiça sendo feita .ESTAMOS DE OLHO !!!!


Que os assassinos do Bernardo sejam punidos com a pena máxima deste país, que é de apenas 30 anos. Muito pouco para um crime tão cruel.Aplique-se a pena aos mentores e executores desse bárbaro crime.JUSTIÇA PARA O BERNARDO


acabei de ver os videos de torturas psicologias que faziam com o pobre bernardo,nao consigo parar de chorar vendo o que este menino sofreu com esses montros no dia a dia.era torturado humilhado ...fico numa tristeza profunda de pensar q por terem dinheiro nao vao pagar como realmente deveriam perpetuaa!!


continuaçao.... nao consigo parar de chorar e pensar: Pobrezinho dele:( com tudo q lemos aqui mais os videos q foram mostrados agora fica claro o pesadelo q ele vivia,ninguem merece uma vida assim ainda mais uma criança.espero que vao a julgamento popular e que peguem todos anos possiveis e Deus que me perdoe mais que seja os piores anos da vida deles,que nao suportem a pressao e antes de sair q desistam de suas vidas.para q estes monstros nao podem viver entre nós.


o mau eh assim,de liberdade e ele extermina tudo .como Hitler fez,de liberdade ao Psicopata e vera a destruicao,eles mataram a mae e foi facil,foram encobertos e pageados,pra matarem ao BE............1 passinho so,A vadia chinelona usava os bens damae assassinada por eles 2,botaram fora os caes da mae ,que dariam + paz ao Be,tudo corria bem com ajuda de + canalhas importante


na minha crenca os 2 Mae e Filho devem estar bem mas sera que o espirito deles nao quer justica?Mais sujera escondida e essa turma vai fica obssedada,loucos,esperem pra ve.Facam JUSTICA autoridades ou o mundo de voces caira,viverao como loucos desvairados,ESCREVAM ISSO

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