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Carta de Clara Nunes, psicografada por Chico Xavier

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 12:29
Segunda-feira, 08 de dezembro

O meu canto é uma missão, tem força de oração
E eu cumpro o meu dever
Há os que vivem a chorar
Eu vivo pra cantar e canto para viver

Quando eu canto a morte me percorre
E eu solto um canto da garganta
E a cigarra quando canta morre
E a madeira quando morre canta

(Minha Missão - Paulo César Pinheiro , João Nogueira)




Hoje, 08 de Dezembro, é feriado em várias cidades brasileiras que adotaram Nossa Senhora da Imaculada Conceição como padroeira da cidade. Também aqui em Campinas, interior do estado de São Paulo é feriado, bem como em Ceará-mirim, no Rio Grande do Norte, cidade onde cresci. Dia 8 de dezembro, era sempre dia de festa religiosa e de muita fé. A matriz de Nossa Senhora ficava lotada para as homenagens que encerravam as novenas da padroeira. Era belo ver essas manifestações religiosas que brotavam do coração do povo. Desciam sobre toda a cidade as bênçãos e o manto sagrado da virgem santa. 

A Festa da Imaculada Conceição foi universalizada no dia 28 de fevereiro de 1476, durante o pontificado do Papa Sisto IV. Seu objetivo é celebrar um dos dogmas marianos, segundo o qual a Virgem Maria, mãe de Jesus Cristo, desde sua concepção, viveu uma vida plena de graça e isenta de toda e qualquer espécie de pecado. Dogma é uma verdade incontestável, sobre a qual não paira a menor dúvida. As religiões determinam que tal ou qual preceito seja um dogma e cabe aos fieis segui-los e acreditá-los.

Com a chegada dos primeiros negros vindos do continente africano, por volta de 1530, cinquenta e quatro anos depois de Sisto IV, ter universalizado a Festa da Imaculada Conceição, começava outra história de amor e de fé que não podia ser vivida abertamente, sob pena de castigos e maus tratos. Começava ali, a história de amor e de fé dos negros africanos pelos seus orixás. Impedidos de viver a fé que haviam deixado na distante África, os negros descobriram um jeito de vivê-la em plena escravidão no Brasil. Descobriram semelhanças nos santos colocados nos altares das Igrejas coloniais, com os orixás cultuados na terra natal, e iniciaram, dessa forma, a cultura do sincretismo religioso. Assim, Nossa Senhora da Conceição foi sincretizada com Iemanjá, rainha do mar, protetora nos navegantes.

Seguindo essa rota de fé, na década de 70, surgiu no cenário brasileiro, uma cantora de voz clara, cristalina, tão encantadora quanto à voz das sereias que cantam para os marinheiros em alto mar. Também era dona de cabelos esvoaçantes e de um belo e cativante sorriso, que era a expressão da alegria. Belamente, cantou o Brasil e a África, trazendo para o seu repertório elementos que representavam perfeitamente a fusão dessas duas culturas. Cantou aos santos e orixás e encantou aos brasileiros com o seu talento.

Clara se foi muito nova, aos 40 anos, no auge da carreira, durante uma simples cirurgia para retirada de varizes. Algo não funcionou bem durante o procedimento cirúrgico e a cantora entrou em coma, passando vinte e oito dias nesse estado, vindo a falecer no dia 02 de Abril de 1983, deixando uma grande lacuna na música popular brasileira. Durante todo o período em que Clara esteve internada na Clinica São Vicente, Rio de Janeiro, sua irmã, Maria Gonçalves da Silva, esteve a seu lado como anjo zeloso, até o último instante. Na carta, a cantora também faz referência a Paulo Cesar Pinheiro, com quem era casada. Paulo também permaneceu junto á esposa até o último momento.

Por essa época estava em atividade no Brasil, um médium espírita reconhecido, nacional e internacionalmente, chamado Chico Xavier. Chico é famoso pela psicografia de muitos livros e cartas. O médium era de tanta credibilidade que uma de suas cartas psicografadas livrou um jovem inocente da cadeia. Em maio de 1976, em Goiânia, dois jovens amigos, José Divino e Maurício Garcez Henrique, brincavam de roleta russa. Acidentalmente, Maurício Garcez foi atingido no peito por José Divino. O caso foi a julgamento e, inconformados, os pais da vitima, queriam a punição do acusado. Foi quando Chico Xavier entregou uma carta que havia psicografado, aos pais de Maurício, José Henrique e Dejanira Garcez Henrique. A carta foi apresentada ao juiz do caso. Diante do relato que continha, inclusive, fatos muito íntimos, dos quais somente a família era conhecedora, de atestado de verdade da assinatura de Maurício Garcez pelo Ministério Público, durante o julgamento, o juiz decidiu absolver o acusado.

Da mesma forma que a mãe de Maurício Garcez procurou Chico Xavier, também milhares de outras pessoas o fizeram. Em setembro de 1984, Maria, irmã de Clara Nunes, também procurou o médium... E recebeu dele uma carta psicografada pela irmã.

Os caros leitores já devem ter percebido que procuro não publicar qualquer texto neste blog.  Apenas os publico se sinto neles alguma verdade. Assim é com essa carta. O leitor pode dizer que não acredita em fenômenos espirituais porque não os vê. Nós também não vemos a energia que circula todo o tempo no interior de nossas casas, em nosso trabalho e nos lugares nos quais procuramos diversão, apenas percebemos os seus efeitos. Penso que a forma dos espíritos seja semelhante à forma da energia. Nós não os vemos, mas eles estão o tempo todo presentes.

***



Carta de Clara Nunes, psicografada por Chico Xavier

Querida Maria:

Eu pressentia que o encontro através das notícias seria primeiramente com você. Somente você teria disposição de viajar de Caetanópolis até aqui, no objetivo de atingir o nosso intercâmbio.

Descrever-lhe o que se passou comigo é impossível agora. Aquela anestesia suave que me fazia sorrir se transformou numa outra espécie de repouso que me fazia dormir.

Sonhava com vocês todos e me via de regresso à infância.

Era uma alegria que me situava num mundo fantástico.

Melodias e cores, lembranças e vozes se mesclavam e eu me perdia naquele estado desconhecido.

Não cuidava de mim. Lembrava-me dos que ficavam, mas ainda não sabia se a mudança seria definitiva

Acordei num barco engalanado de flores, seguido de outras embarcações, nas quais muitos irmãos entoavam hinos que me eram estranhos. Hinos em que o amor por Iemanjá era a tônica de todas as palavras.

Os amigos que me seguiam falavam de libertação e vitória.

Muito pouco a pouco me conscientizei e passei da euforia ao pranto da saudade, porque a memória despertava para a vida na retaguarda e o nosso Paulo se fazia o centro das minhas recordações.

Queria-o ali naquela abordagem maravilhosa, pois os barcos se abeiravam de certa praia encantadoramente enfeitada de verde nas plantas bravas que as guarneciam.

Quando o barco que me conduzia ancorou suavemente, uma entidade de grande porte se dirigiu a mim com paternal bondade e me convidou a pisar na terra firme. Ali estavam o meu pai Manuel, e nossa Mãezinha Amélia.

Os abraços que nos assinalavam as lágrimas de alegria pareciam sem fim.

Era muita saudade acumulada no coração.

Ali passei ao convívio de meus pais e os meus guardiões retornavam ao mar alto.

Retomei a nossa vida natural e, em companhia de meu pai, pude rever você e os irmãos todos me comovendo ao abraçar a nossa Waldemira, que me pareceu um anjo preso ao corpo.

Querida irmã, não disponho das palavras exatas que me correspondam às emoções. Peço a você reconfortar o nosso Paulo e dizer-lhe que não perdi o sonho de meu filhinho que nascesse na Terra de nossa união e de nosso amor.

O futuro é luz de Deus. Quem sabe, virá para nós uma vida renovada e diferente para as mais lindas realizações?

Você diga ao meu poeta e letrista querido que estou contente por vê-lo fortalecido e resistente, exceção feita dos “copinhos” que ele conhece e que estou vendo agora um tanto aumentados...

Desejo que ele saiba que o meu amor pelo esposo e noivo permanente que ele continua sendo para mim, está brilhando em meu coração, que continua cantando fora do outro coração que me prendia.

A cigarra, por vezes, canta com tanta persistência em louvor a Deus e a Natureza, que se perde das cordas que coordenam a cantiga, caindo ao chão, desencantada. O meu coração da vida física não suportou a extensão das melodias que me faziam viver, e uma simples renovação para tratamento justo me fez repousar nas maravilhas diferentes a que fui conduzida.

Espero que o nosso Paulo consiga ouvir-me nestas letras.

Agradeço a ele as atitudes dignas com que me acompanhou até o fim do corpo, tanto que agradeço a você e as nossas irmãs e irmãos o respeito com que me honraram a memória, abstendo-se de reclamações indébitas junto aos médicos humanitários que se dispuseram a servir-nos.

Querida irmã, continue com o nosso grupo em Caetanópolis. O irmão José Viana e o Dr. Borges estão conquistando valiosas experiências. Muitas saudades e lembranças a todos os nossos e para você um beijo fraternal com as muitas saudades de sua, Clara.




5 Comments


demais essa carta. parabéns Flávio por postar.


Linda carta 💜💜💜💜


Lindas palavras! Emocionante.


QUE EMOCIONANTE CARTA VERDADEIRA! ACREDITO E DOU FÉ BENDITOS MÉDIOS QUE NOS DA TÃO GRANDE CONFORTO SEJA FELIZ QUERIDA CLARA!!!!!!!


É como ela cantava: - "Vou-me embora desse mundo de ilusão, quem me vê sorrir, não há de me ver chorar"...

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