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Entre a cruz e a espada

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 01:47
Quinta-feira, 18 de outubro

Fernando Haddad e Jair Bolsonaro

Peça decorativa. Ela está ali para que mesmo? Para decorar o ambiente, é verdade. Não possui em si mesma uma função essencial. Apenas serve como adereço. Caso seja despida de beleza, ou sem valor, se retirada do lugar ninguém nem ao menos perceberá.
É esse o papel que teve o presidente Michel Temer nessas eleições. Simplesmente foi ignorado. Ninguém se lembrou dele. Ninguém o quis nos palanques, muito menos sair ao lado dele na foto. Nem mesmo os do próprio partido. Final mais melancólico, impossível. Eleições? Antes que o eleitor pense que este blog silencia sobre elas, falemos sobre isso mais abaixo. Antes vamos dar mais uma olhada nessa peça decorativa sem beleza e sem valor que é o governo deste senhor, que, por ora, comanda nosso país, estando com os dias contados para sair do comando do barco.
No dia de ontem, quarta-feira, 17, a polícia colocou mais uma nota triste na trilha sonora desse melodrama de baixo valor que foi o governo de Temer. Foram 13 meses de investigação minuciosa e de pedidos de prazo de prorrogação para averiguações. A PF concluiu o inquérito que apurava se o presidente Michel Temer, e seus capachos, digo, grupo político, que o circundava, haviam recebido propina de empresas do setor portuário em troca de oferecer a elas vantagens indevidas.
A investigação foi fundamentada em um decreto assinado pelo presidente, no ano passado, no qual prorrogava o prazo de concessões de áreas públicas a empresas do setor portuário. Como em todo o inquérito sério, foram tomadas todas as medidas incisivas a fim de instruir o inquérito, inclusive a quebra de sigilo telefônico, bancário, e fiscal dos envolvidos.
O coronel Lima, amigo de Temer, era peça fundamental nesse esquema. Eram as empresas dele que serviam para captar recursos advindos de propinas da Rodimar. Como sempre, a engenharia do crime arranjava modos de inventar complexas operações financeiras para disfarçar o dinheiro ilegal que entrava na conta do presidente. Essas operações ilegais passavam pelas empresas de fachadas ligadas ao coronel. O inquérito da PF aponta ainda pagamentos feitos pelo grupo Libra.
Grande parte dessa propina chegou a Temer disfarçada de reformas imobiliárias, por exemplo, a reforma feita na casa de Maristela Temer, filha do presidente. A reforma feita na casa de Maristela começou em 2013 e foi até 2015. De acordo com as investigações, pelo menos R$ 1 milhão usados na reforma foram oriundos de propina.
Além de Michel Temer, e da filha dele Maristela Temer, foram indiciados pelo crime de corrupção passiva, o coronel João Batista Lima, e sua esposa, Maria Rita Fratezi, Carlos Alberto Costa, sócio do coronel, Carlos Alberto Costa Filho, filho de Carlos Alberto. Foram indiciados por corrupção ativa o empresário Antonio Celso Grecco, e Ricardo Mesquita, ambos da Rodrimar, e Gonçalo Torrealba, do grupo Libra. O contador Martins Ferreira também foi indiciado. No pacote de indiciados por corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa, e lavagem de dinheiro, não podia ficar de fora, o ex-assessor de Temer, e ex-deputado, Rodrigo Rocha Loures, aquele que aparece em filmagens recebendo uma mala de dinheiro da JBS.
A PF pediu a prisão preventiva do coronel Lima, de Carlos Alberto Costa, da esposa do coronel Maria Rita, e de Almir Martins. O ministro do STF, Carlos Alberto Barroso, em despacho, proibiu que os quatro saíssem do país.
No mês de maio do ano passado, o presidente Michel Temer assinou o decreto que prorrogou de 25 para 35 anos, os contratos de concessões de empresas da área portuária, podendo chegar até 70 anos. Segundo as conclusões do inquérito da PF, entre os anos de 2000 e 2014, cerca de R$ 6 milhões em propinas foram repassadas pelas empresas do setor portuário ao presidente Michel Temer, e outros 17 milhões, também oriundos de propina foram parar nos cofres do MDB.
A conclusão óbvia desse indiciamento, cujas investigações estiveram sob o comando do delegado Cleyber de Malta Lopes, é de que o presidente Michel Temer assinou o decreto dos portos com a finalidade de beneficiar as empresas do setor, e, com isso, arrecadar propina para si mesmo e para seu partido.
Lembremos ainda que no decurso desse caso, ainda houve a conivência do O diretor-geral da Polícia Federal, Fernando Segovia, que, em fevereiro deste ano, disse em entrevista à Reuters, que não via indícios de crime na investigação contra Michel Temer no caso do decreto dos portos. Segovia sugeriu ainda que o inquérito fosse arquivado, foi mais além, e ameaçou de sanções o delegado responsável pelo caso. Diante de tantas polêmicas e declarações desastrosas, Fernando Segovia foi demitido do cargo no final de fevereiro, encerrando sua breve e tumultuada passagem como comandante da Polícia Federal. Ele ficou apenas três meses no cargo. Se estivesse ainda no comando, certamente, essa seria mais uma sujeira a ser jogada para debaixo do tapete.
E assim, em período recente, temos uma presidente que sofreu impeachment devido a crimes fiscais, um ex-presidente preso, e o atual presidente indiciado. Uma lástima para a democracia brasileira, e um sinal de que as instituições jurídicas brasileiras funcionam, ainda que alguns magistrados insistam em remar contra a correnteza do estabelecimento da moral e da ética.
E foi sob o pano de fundo desse nefasto e vergonhoso enredo que foi se armando o cenário político atual.
O primeiro turno das eleições presidenciais chegou e passou como passam as águas de uma chuva tão inesperada e forte que é capaz de pegar a todos desprevenidos, arrastando tudo o que encontra pela frente, casas, móveis, carros, telhados. Caminhamos para o segundo turno, para a decisão final, no meio das mesmas águas turbulentas e lamacentas que inundaram o turno anterior destas inusitadas eleições.
O resultado, como vocês já sabem, foi a ida para o segundo turno dos candidatos, Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT), dois extremos, duas polarizações... E os petistas encontraram um adversário à altura, capaz de trapacear e jogar com as mesmas cartas sujas. As fake news que invadiram as redes sociais estão aí para provar isso.
Quanto aos outros candidatos, tiveram um desempenho pífio. Marina Silva, candidata da Rede, derreteu. No início, ela aparecia bem colocada nas pesquisas de intenções de votos, com chances de chegar a um segundo turno, porém, o que se viu foi uma candidata caindo cada vez mais no abismo dos números dos institutos de pesquisas.
Mariana não obteve o mesmo êxito das duas campanhas anteriores em que disputou: 2010 e 2014. Na primeira, ela obteve 19,6 milhões de votos, e na segunda, 22,1 milhões. Apesar de não ter ido para um segundo turno nessas duas eleições, pode se dizer que ela obteve uma votação que pode se considerar expressiva.
Dessa vez, entretanto, finalizada a apuração dos votos, ela ficou atrás de candidatos que passaram a campanha inteira amargando os últimos lugares nas pesquisas, como por exemplo, Cabo Daciolo (Patriota) e Henrique Meirelles (MDB). Não conseguiu segurar os votos que tinha, nem formar coalizões fortes, além de enfrentar algumas divergências dentro do próprio partido, e obteve apenas 1,06 milhão, o que equivale a 1% dos votos válidos. E olhem que começou esta campanha com boas chances de ir para o segundo turno.
Perto do estreante em campanhas eleitorais, Henrique Meirelles, e da veterana Marina Silva, Daciolo foi vencedor. O candidato investiu apenas R$ 808 reais, enquanto Meirelles investiu 53 milhões, e Marina investiu 4,9 milhões, mesmo assim Daciolo terminou as eleições à frente dos dois.
E o PSDB? O partido pagou um preço bem caro por sua determinação em ficar no barco de Temer quando desabaram as denúncias de corrupção sobre o governo dele. As urnas deram o recado. Geraldo Alckmin, candidato tucano à presidência, mesmo tendo formado uma ampla coalização, o que lhe deu bons cinco minutos no horário eleitoral gratuito, mesmo assim, teve um resultado pífio. Aberta as urnas, Alckmin teve apenas 4,76% dos votos válidos (5.102.873). Para quem já esteve quatro vezes no comando do estado de São Paulo como governador, foi um resultado bem medíocre. Ainda com relação ao PSDB os eleitores vacilaram quando elegeram Aécio Neves (PSDB) para deputado federal, bem como quando elegeram Gleise Hoffman (PT) também para deputada federal. Erraram daqui, acertaram dali, é o jogo da democracia. Um dia a gente ainda aprende a fazer jogadas de mestre neste tabuleiro. Por enquanto ainda estamos na fase do fazer experiências para aprender a jogar de verdade.
Ciro Gomes (PDT) foi quem mais se aproximou de um segundo turno depois de Haddad. As pesquisas indicavam que ele era um candidato em potencial a derrotar Jair Bolsonaro no segundo turno. Porém, talvez por terem relacionado Ciro Gomes a envolvimentos anteriores com o PT, os eleitores acabaram não votando no candidato.
E assim o eleitor brasileiro colocou o país numa encruzilhada, uma situação de suicídio eleitoral. Só não sabe ainda que arma usar: se o revolver com balas de ouro ou de prata.
Chegamos ao segundo turno, com a polarização entre dois extremos radicais: um partido que representam os interesses da esquerda, o PT de Lula? Ou de Fernando Haddad? E outro que representa a direita radical, o PSL, de Jair Bolsonaro.
De um lado, um candidato que representa os interesses de um partido que jogou no lixo a moral e a ética em defesa dos próprios interesses. O líder desse partido está preso por crimes de corrupção, mesmo assim, é quem dá as cartas na campanha presidencial de seu partido de dentro da cadeia, fazendo com o que o candidato, Fernando Haddad, que encabeça a chapa petista, funcione mais como um preposto do ex-presidente.
Lula, certamente, é muito ardiloso, tanto é que demorou muito tempo para que a justiça chegasse nele, mas cometeu pelo menos uns quatro erros graves. Escolher Dilma Rousseff para ser sua sucessora, escolher Haddad para ser candidato nestas eleições, não ter feito um pedido de desculpas a nação, e não ter preparado lideranças para o partido.
Na esteira dos erros cometidos por Lula e pelo seu partido, sempre se fazendo de vítimas, desdenhando das instituições, e se colocando acima da lei, é que surgiu a figura controversa de Bolsonaro. Bolsonaro é cria do PT. Quando o Brasil forma a onda bolsonarista que não para de crescer, o eleitor, na verdade, não está votando em Jair Bolsonaro, mas sim, contra o PT, é a lógica às avessas do chamado voto de protesto. Estaríamos melhores se o voto fosse de consciência, em vez de protesto.
Nesse segundo turno, o PT mudou de roupa, da mesma forma que as serpentes mudam de pele. Primeiro, por ordem do próprio Lula, o seu preposto, Fernando Haddad não tem mais feito as costumeiras visitas à cadeia em busca de orientação. O partido abandonou o tradicional vermelho e passou a usar o verde e amarelo, cores usadas pelo adversário. Ora, todos sabem que não se muda a personalidade apenas mudando a roupa. Uma mudança para ser mudança de verdade precisa ser feita na essência, e não na superfície.
Do outro lado, está um candidato racista, homofóbico, e defensor de torturadores. O candidato a presidente tem alimentado os seus eleitores, basicamente, do ódio contra o PT, e isso tem funcionado. Suas propostas são bem gerais. Nada de especifico é dito sobre seu programa de governo.
Por exemplo, ele defende o combate ao crime através de uma atuação mais atuante das polícias contra os bandidos, e defende também a liberação do porte de armas. As classes médias e altas compram essas ideias, como compram batatas em promoção nas feiras livres. Ledo engano. Esse é um caminho, mas não o ideal.  Tais ações são apenas paliativas. As causas da violência no Brasil apenas serão combatidas na raiz quando for solucionada a grande desigualdade social que reina no país, quando formos um país com uma distribuição de renda mais justa e igualitária. O abismo entre pobres e ricos em nosso país é grande, é preciso construir pontes sobre esse abismo se quisermos classes sociais integradas e harmoniosas.
O outro caminho que nos levará a fazer morrer a criminalidade e o atraso moral é o investimento em educação de qualidade. Quer combater a violência, arme as escolas e os professores de melhores condições de salário e de trabalho e o que era trevas se fará luz.
Se essas atitudes não forem adotadas, apenas viveremos na ilusão de um país que vai bem andando com pés de barro num corpo de ferro.
A batalha nesse segundo turno é, como diz o editorial do estadão do dia 15 de outubro, entre dois planos de governo: um “que não vale o papel que em que está escrito” referindo-se ao PT, e outro que plano de governo que “nem existe” referindo-se ao PSL.

Vale destacar ainda que essa talvez seja uma das eleições mais violentas desde a redemocratização. Os ânimos dos eleitores estão exaltados faz tempo. A citar o próprio Jair Bolsonaro que recebeu uma facada durante visitas aos eleitores, em Belo Horizonte, que quase lhe tirou a vida, vinda de um homem que não concordava com suas posições políticas agressivas. Na Bahia ocorreu o inverso, o mestre de capoeira, Mestre Moa do Katendê, foi esfaqueado após uma discussão sobre política. Moa defendia Haddad enquanto seu agressor defendia Bolsonaro. 
Mestre Moa do Katendê, foi entrevistado por este blog em dezembro de 2014, sob o título Mestre Moa do Katendê: Uma luz que se irradia da Bahia para o mundo – Parte I e parte II. Ao mestre, as homenagens desse blog. Que ele seja bem recebido do outro lado do caminho.

O fato é que é bem pouco provável que Jair Bolsonaro não seja eleito presidente do Brasil no domingo, 28 de outubro. A verdade é que o Brasil está, desculpem a expressão, uma zona. Um país que perdeu a compostura, e está sem norte e sem rumo, resultado de décadas de práticas corruptas, aperfeiçoadas durante os governos petistas.
Os parabéns deste blog vai também para os maiores cabos eleitorais do candidato Jair Bolsonaro, aqueles que forneceram toda a munição para que um discurso de ódio invadisse o país: os petistas e seus líderes insanos. Diante da situação caótica em que se encontra o nosso pais, Bolsonaro com seu discurso de moralização, talvez seja um mal necessário.

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Fanatismos perigosos

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:22
Quarta-feira, 03 de outubro

Jair Bolsonaro e Fernando Haddad


Sectário, o que é um sectário?
Ele é alguém que, segundo os dicionários, “faz parte de uma seita, doutrina, religião, política ou filosofia”.
Ora, todos nós, de um modo ou de outro, fazemos parte de algum grupo cujo combustível são as ideias, sejam elas de cunho político, religioso, doutrinário ou filosófico. Enquanto participantes desses grupos não abandonamos nossos princípios, nossas convicções pessoais. Em outras palavras, mesmo ouvindo os discursos e ordens do dirigente, ainda nos sobra muito de senso crítico para diferenciar aquilo que é certo do que é errado. Somos capazes de discernir entre aquilo que é normal e o que é absurdo.
O sectário, não. Ele segue as ideias do grupo em que está inserido até as últimas consequências. Os homens e mulheres bombas das seitas mais radicais estão aí para provar isso. É como se alguém lhe tirasse o cérebro, as emoções, e lhe colocasse no lugar chips eletrônicos. Assim, o homem não é mais homem, mas sim, uma espécie de robô, que não dirige a si próprio, não age de acordo com a própria consciência. O homem-robô é guiado pelo regime. E se o regime lhes manda se jogar montanha abaixo é isso que farão.
Temos inúmeros exemplos da implantação desses regimes mundo afora. Por exemplo, a Coréia do Norte: um dos países mais fechados do planeta. Um povo que obedece, cegamente, o líder Kim Jong-um. A Coréia do Norte é um bom exemplo de que a dominação das mentes não á apenas uma obra de ficção, mas uma realidade presente em nosso tempo, assim, como o foi em outras eras. A Alemanha de Hitler é outro bom exemplo. Ou seria mau exemplo? A febre global que é a Internet, não existe para os coreanos. Se eles querem navegar nas ondas eletromagnéticas, que usem uma espécie de Intranet, muito bem controlada pelo governo, igual a tudo naquele país. Coisas de Facebook, e outras redes mundiais, nem pensar. Contudo, os coreanos idolatram o líder como quem idolatra a um Deus. É uma lavagem cerebral muito bem-feita.
Enfim, aqui no Brasil, chegamos à fase final do primeiro turno da campanha eleitoral... E é inusitada a cena política que se desenrola diante de nossos olhos.
Depois de uma campanha eleitoral absolutamente atípica, talvez a mais pitoresca dos últimos tempos. Tivemos até um ex-presidente condenado em segunda instância e cumprindo pena de prisão querendo concorrer a presidência, e seu partido fazendo e tentando todas as manobras possíveis e imagináveis para que este fato se concretizasse, para isso, tentando driblar de todas as formas a lei vigente, recorrendo e usando como argumento um parecer do Comitê de Direitos Humanos da ONU que recomendava que Lula participasse das eleições. Os petistas queriam que essa recomendação da ONU tivesse força de lei.
Enfim, depois desses vendavais de paixões, chegamos aos últimos dias de campanha eleitoral entre dois radicais: Fernando Haddad (PT), e Jair Bolsonaro (PSL), que lidera as intenções de voto para a presidência, enquanto o candidato petista, após a oficialização de sua candidatura, e tendo herdado os votos que seriam destinados ao ex-presidente, vem atrás, em segundo lugar nas pesquisas eleitorais.
Fernando Haddad, por si só, não chega a ser aquilo que conhecemos por radical, porém, o candidato encarna, dizendo de outra forma, herda, o radicalismo de seu partido. Jair Bolsonaro, sim, é o radicalismo em pessoa. Ex-militar, racista e preconceituoso, e que, por ocasião do seu voto no impeachment da ex-presidente, Dilma Rousseff, dedicou seu voto ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, que torturou muita gente durante a ditadura militar no Brasil.
Na verdade, Jair Bolsonaro, soube canalizar bem o ódio e a insatisfação que grande parte dos brasileiros tem sentido pela classe política. Foi em sua direção que correram aqueles que durante as manifestações populares em nosso país, gritavam por ordem e contra a corrupção.
Em 2013, essas manifestações tomaram o país, e, sem bandeiras, e sem partidos, levaram o povo a unir em um só pacote, digamos assim, várias reivindicações: por uma melhor educação, por mais segurança, e pelo fim da corrupção, dentre outras.
Depois vieram, protestos mais específicos em 2015 e 2016, que eram mais direcionados aos desmandos feitos pelo PT, em relação à administração da coisa pública, e pela onda de corrupção que se instalou na máquina estatal, tendo esse partido grande responsabilidade pelo esquema criminoso que se instalou no país.
Todo esse ódio, a palavra é forte, mas é assim que sentem os brasileiros em relação à classe política, foram canalizados em votos a favor do candidato Jair Bolsonaro.
Alie-se à toda essa insatisfação com a corrupção que move as engrenagens das empresas e instituições públicas, às quais possuem forte elo com as empresas privadas — especialmente as do ramo empreiteiro — à questão da segurança pública e da violência urbana que tem chegado a níveis insuportáveis e alarmantes em todo o país, principalmente, no Rio de Janeiro.
Os governos, ano após ano, foram deixando que o crime organizado se fortalecesse ainda mais, e, hoje ele se tornou uma pedra no sapato das autoridades do setor de segurança pública, uma vez que seus vermes contaminaram servidores de instituições como a própria polícia. O crime organizado só existe e é tão forte porque o lado podre da polícia acoberta, protege àqueles a quem deveria combater.
Aproveitando-se de todos esses fatores, Jair Bolsonaro se apresentou como o novo messias, aquele que viria a libertar o povo de todas as suas angústias, livrá-los da corrupção, e armá-los, para que, dessa forma, a escalada do crime fosse contida. Também nessa área, prometeu agir com rigor contra os bandidos.
Mas os sinais são claros.... Como diz o ditado, pelo fruto se conhece a arvore.
Em janeiro deste ano, a Folha de São Paulo publicou reportagem em que denunciava que o candidato a presidente, Jair Bolsonaro, estava usando verbas de gabinete para pagar uma conhecida dele, em um distrito a cerca de 50 km de Angra dos Reis (RJ). A mulher de nome Walderice Santos da Conceição, 49 — chamada pelos amigos, e pelo próprio deputado, de Wal — vendia açaí, em pequena loja, de nome, Wal Açaí, por coincidência (?) na mesma rua onde fica a casa de veraneio do deputado, em uma pequena vila, chamada de Vila Histórica de Manbucaba. Ainda segundo a Folha, moradores da região afirmaram que ela também prestava serviços na casa de Bolsonaro.
O que chama atenção em tudo isso é que Wal figurava como um dos 14 funcionários do gabinete do deputado, em Brasília, e recebia um salário bruto de R$ 1.351,00.
Em abril deste ano, em uma palestra no Clube Hebraica, no Rio de Janeiro, Bolsonaro fez afirmações de cunho racista e preconceituoso contra negros e quilombolas. Ele prometeu que, caso seja eleito, vai acabar com as demarcações de terras para essas populações.
Em relação aos indígenas ele afirmou: “Pode ter certeza de que, se eu chegar lá, não vai ter dinheiro pra ONG. Esses inúteis vão ter que trabalhar. Se eu chegar lá, no que depender de mim, todo cidadão vai ter uma arma de fogo dentro de casa. Não vai ter um centímetro demarcado para reserva indígena ou para quilombola. Onde tem uma terra indígena, tem uma riqueza embaixo dela. Temos que mudar isso daí”.
Quanto aos quilombolas, o comentário também foi preconceituoso: “Eu fui num quilombo. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas (arroba é uma medida usada para pesar gado; cada uma equivale a 15 kg). Não fazem nada. Eu acho que nem para procriador ele serve mais. Mais de R$ 1 bilhão por ano é gasto com eles”, disse o deputado.
Por diversas vezes, também as mulheres e a classe LGBT foi alvo dos comentários ferinos de Bolsonaro. Em uma delas, no ano de 2011, a cantora Preta Gil, filha de Gilberto Gil, participava do programa CQC, quando enviou uma pergunta em vídeos ao deputado perguntando o que ele faria se o filho dele se apaixonasse por uma negra, ao que Bolsonaro respondeu: “Preta, eu não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Eu não corro esse risco. Meus filhos foram muito bem-educados e não viveram em ambiente como lamentavelmente é o teu”.
Afora essas polêmicas questões, Jair Bolsonaro também é a favor da redução dos direitos dos trabalhadores, segundo ele, com o objetivo de gerar mais empregos: “Aos poucos, a população vai entendendo que é melhor menos direitos e [mais] emprego do que todos os direitos e desemprego”, disse ele em uma palestra para empresários, em São Paulo. 
Durante uma entrevista para diversos veículos de comunicação, no ano de 2016, o deputado afirmou o seguinte em relação às maiorias e minorias: “Maioria é uma coisa, minoria é outra. Minoria tem que se calar, se curvar à maioria, acabou. Eu quero respeitar é a maioria, e não a minoria”.
Em fevereiro deste ano, em um discurso, uma espécie de comício de pré-campanha, —não se sabe ao certo o local, mas o vídeo está no Youtube — ele voltou a reafirmar sua posição em relação a esse assunto: “Como somos um país cristão, Deus acima de tudo! Não existe essa historinha de estado laico, não! É um estado cristão. Vamos fazer o Brasil para as maiorias. As minorias têm que se curvar às maiorias. A lei deve existir para defender as maiorias. As minorias se adequam ou simplesmente desapareçam”.
Ora, um estado deve ser laico no sentido de que deve acolher a todos, cristãos e não cristãos. Afinal, todos, indistintamente, pagam os mesmos impostos, e, como cidadãos, pertencente à mesma pátria, à mesma nação, tem os mesmos direitos e os mesmo deveres a cumprir. Sem contar que o discurso religioso, em muitas épocas, e em muitos lugares, serviu, e ainda serve atualmente, como poderosa ferramenta de dominação. É preciso fazer uma leitura criteriosa do uso do nome de Deus, pois que, pode ocorrer, querendo, em nome de Deus, agir justamente, o cidadão, o cristão, pode acabar se distanciando em muito dos ensinamentos do mestre Jesus, e praticar a injustiça em vez de justiça, exclusão, em vez de inclusão.
Recentemente, o presidenciável teve que correr para botar panos quentes em uma declaração de seu vice, o general Hamilton Mourão. Durante uma palestra para os empresários do setor do comércio em Uruguaiana, Rio Grande do Sul, Mourão disse que o pagamento do 13º salário era uma “jabuticaba nas costas dos empresários”. “Temos umas jabuticabas que a gente sabe que são uma mochila nas costas de todo empresário. Jabuticabas brasileiras: 13º salário. Como a gente arrecada 12 (meses) e pagamos 13? O Brasil é o único lugar onde a pessoa entra em férias e ganha mais. São coisas nossas, a legislação que está aí. A visão dita social com o chapéu dos outros e não do governo”, disse o general. Os empresários, claro, gostam de ouvir esses discursos... e apoiam Bolsonaro.
Não há como não fazer comparações entre Bolsonaro e Trump. Entretanto, Nina Schneider, historiadora da Universidade de Colônia, Alemanha, considera Bolsonaro um pouco mais perigoso. “Bolsonaro é muito mais radical que o presidente americano. Ele faz comentários racistas, homofóbicos e sexistas. Mas o pior é elogiar em público os torturadores, isso o torna muito mais perigoso do que o Trump”, diz ela em reportagem da revista Fórum.
Outro fato a destacar é que Bolsonaro em 26 de anos de Congresso Nacional, em sua vida como deputado, só conseguiu aprovar dois projetos dos 171 que apresentou. Dos dois projetos do deputado que viraram lei um era o que estendia o benefício da isenção de Impostos sobre Produtos Industrializados para bens de informática, e outro o que autorizava o uso da “pílula do câncer”, a fosfoetanolamina sinética. O deputado até que se mostrou bastante atuante, mas o número de projetos apresentados por ele revela que suas ideias não estavam em consonância com a instituição.
No outro extremo, temos Fernando Haddad, o candidato do Lula. Para início de conversa, Haddad assumiu a prefeitura de São Paulo em 2012 após uma disputada eleição com José Serra (PSDB). O PT deu todo apoio ao Haddad, mas sua administração à frente da capital paulista se revelou medíocre. Tanto é que tentou a reeleição em 2016 e perdeu para o candidato João Dória (PSDB). Dória venceu a eleição por 3.085.187 (53,29% dos votos válidos), enquanto Haddad teve apenas 967.190 (16,70% dos votos válidos). O candidato do PT teve menos votos do que o número de votos brancos e nulos que somaram 1,1 milhão de votos.
Se tivesse sido um bom gestor, os paulistanos, certamente, o reelegeriam. É bem verdade que a situação para os petistas, de modo especial nas regiões Sul e Sudeste já estava bem desgastada.
Essa campanha eleitoral foi, de longe para os petistas, a mais tumultuada, por eles próprios, diga-se de passagem. O pesadelo para os petistas começou com a condenação em segunda instância do messias deles, o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva. A legislação brasileira, através da Lei da Ficha Limpa diz que candidatos condenados em segunda instância não podem concorrer à cargos públicos.
Mesmo sabendo de tudo isso, os petistas armaram um verdadeiro circo, tentando de todas as formas driblar a lei. Apregoaram aos quatros cantos do mundo que a prisão de Lula se dera por motivos políticos, que ele era uma vítima, e blá, blá, blá. Até o último momento insistiram em que Lula era o candidato do PT, até que a candidatura dele foi indeferida, e, na reta final, entrou o candidato Haddad, que antes figurava como vice de Lula.  
A verdade é que o Partido dos Trabalhadores é responsável por toda essa confusão em que se encontra o país atualmente. O partido sob o comando de seu “chefe” institucionalizou a corrupção no país como prática comum. E para esse festim diabólico chamou todos os demais partidos, e todos comeram e se fartaram às custas da nação.
Às vésperas da eleição, a divulgação da delação premiada do ex-ministro petista, Antonio Palocci, vem confirmar aquilo que todos, à exceção dos petistas, já sabiam: que Lula sempre teve conhecimento de todos esse esquema criminoso que tomou conta da Petrobras, sendo ele mesmo, o próprio Lula, quem indicava os diretores para os cargos chaves, aqueles que era possível arrecadar grande parte do dinheiro para o PT e para os partidos “aliados”.
Durante todo esse tempo, do escândalo do mensalão até agora, o PT não fez nenhuma meia culpa, nem pedido de desculpa à nação, nem aos seus seguidores. Ao contrário, sempre se fez de vítima, de coitadinho, de perseguido pelas elites.
Deu no que deu: está se formando no país um outro tipo de radicalismo, talvez até mais perigoso do que o radicalismo petista.
Quem sabe o voto útil, que é aquele no qual o eleitor vota para não ver nenhuma das opções principais ganhar, quem sabe o voto desses eleitores consiga virar o jogo. E aí estaria a chance de presidenciáveis como Ciro Gomes, Marina Silva, Geraldo Alckmin, João Amoedo, ou Álvaro Dias.
Domingo (07), o Brasil vai novamente às urnas. À exceção de Jair Bolsonaro e Fernando Haddad, os demais candidatos estão bem abaixo nas pesquisas. Não conseguiram convencer o eleitor e fazer frente aos líderes nas intenções de votos.
O cenário eleitoral nesta reta final de eleições é um livro aberto. Tudo pode acontecer, mas, a julgar pelas manifestações de apoio ao candidato do PSC, Jair Bolsonaro, é muito provável que as eleições sejam definidas já neste domingo. Vamos esperar até lá para ver o que acontece.
Seja para que lado penda a balança no domingo, o negócio é respirar fundo, prender a respiração... E apelar para os céus.
O ideal seria que o eleitor brasileiro, pelo menos dessa vez, agisse baseado na razão e não entregues às paixões. Isso já aconteceu em passado bem recente da história de nosso país, e mais de uma vez. Em todas as vezes que a ação se deu baseada e tendo como argumento os arroubos da paixão, o resultado foram apenas lágrimas e decepções. Isso porque, diante do mar revoltoso da vida, a paixão é como um frágil barquinho que se agita pra lá e pra cá, correndo, muitas vezes, o risco de naufragar. A paixão cega, impede que vejamos as imperfeições do outro, e nos faz ver somente um futuro de ilusões e promessas, escondendo as imperfeições que saltam aos olhos, e estão frente à frente conosco e fingimos não ver.
Mas o que temos visto é, justamente, o contrário, o vento das paixões está soprando forte novamente, cegando os brasileiros como o canto das sereias cega os marinheiros... E os marinheiros encantados com tão bonito canto se vão docemente afogar nas ondas do mar profundo.


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Efeito Manada

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 13:08
Domingo, 23 de setembro




Prezados leitores, prezadas leitoras, boa tarde!
Em breve, este blog volta com um texto de autoria própria. Hoje gostaria de apresentar a vocês uma reflexão sobre a cena política brasileira, na qual os brasileiros se aproximam da escolha do líder da nação que governará o país pelos próximos quatro anos, bem como os integrantes do congresso nacional que estarão, em harmonia, ou em desarmonia com ele, nessa travessia.
A reflexão foi feita por Vinício Martinez. Vinício é Pós-Doutor em Ciência Política. Professor Associado da Universidade Federal de São Carlos – UFSCar/CECH.
Seu artigo foi escrito e publicado na Jus, no dia 09 do corrente mês, e gentilmente cedido para publicação neste blog.
Façam uma reflexiva leitura. Tenham um bom domingo e uma boa semana.

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Efeito manada


 Vinício Martinez

Toda eleição – ou todo processo político, como queiram – é bastante irracional, apelando-se ao emocional, às vezes ao primitivismo: “aquele que veio refundar a Nação”, “doem sua alma e seu ouro pelo país”. Os gladiadores diziam já no interior da arena: “aqueles que vão morrer te saúdam”.
Porém, esta eleição de 2018 caminha para ser inigualável na história política mundial. Lembrando-se que o fervor comocional de Hitler não veio em sua eleição, mas nos fatos seguintes que resultaram na Chancelaria.
Este ano, após o ataque com faca ao candidato do PSL, muitos esperavam um típico “efeito manada”: quando se segue, cegamente, para algum lado, para qualquer lado – como gnus fugindo de leões. Tanto pode ser o lado vencedor (como se viu no impeachment) quanto o perdedor: na torcida pelo mais fraco, pela visão da vítima.
A seguir pelas duas últimas pesquisas de intenção de voto, o efeito manada não se concretizou. No entanto, é preciso ter clareza de que o eleitor nacional (comocional) – abatido pelo analfabetismo funcional e político – declara, estufando o peito, que “não perde o voto”. O que isso quer dizer? Simplesmente que seu voto foi para o vencedor, não importando qual. Raramente, diga-se de passagem, vota-se a favor do Iluminismo.
A irracionalidade, como até o mais humilde dos eleitores sabe, tem seu complemento no irascível, ou seja, na ira primeva que deve comover e mover a política obscura. Daí que nossa ilustre eleição de 2018 também é um cobertor curto entre civilização e barbárie.
Esta ira nós vemos em gritos de guerra de candidatos, nas declarações públicas de que adversários (convertidos em inimigos) devem ser fuzilados, no apelo ao Deus que nos salvará de Satanás, nos posts e nos logos publicitários em que as mãos portam armas, em vídeos com balas de revólver que se transformam em flores. E por aí vai.
Some-se à pauta que prima em apregoar a violência – “violência se combate com violência” – a enorme crise existencial e material que nos acossa, e teremos um fermento de ódio depressivo e generalizado.  O incrível aumento na venda de remédios tarja preta contra ansiedade e depressão é, por si, revelador do que se afirmou aqui.
Ódio e depressão (e vice-versa), no caldo da eleição mais irracional possível, é o caminho do caos, da guerra total, da barbárie, da “guerra de todos contra todos” (no dizer de Hobbes) e de mais violência: contra quem pregou violência contra a violência, e sobre todos nós.
O cenário que se liga a isto é profundamente cultural. E começo dizendo assim: A MÃE QUER VER SEU FILHO VIVO! - O livro A Mãe, de Brecht, poderia ser útil nesta eleição. E isto implica em que a mãe prefere uma pauta política centrada na educação e na geração de emprego. Educação que retire seu filho das ruas e emprego que leve abstenção de álcool ou de drogas (i)lícitas ao pai.
Implícita a este arco da cultura, está a ideologia de que o povo brasileiro é pacífico. Esta falsa ideia é desbaratada pela leitura histórica ou pelo olhar – mesmo com viseira – nos referenciais do presente. Milhares de jovens são mortos todo mês, especialmente negros e pobres. Quantos estupros são praticados por hora no Brasil?
De qualquer modo, o povo quer acreditar na salvação de sua alma – em virtude da colonização católica – e começa sua trajetória pelo mantra de que é pacífico e cordial. Afinal, pessoas violentas não vão ao Paraíso: reino do “cordis”, do coração.
Enfim, a tônica da eleição, a fim de se evitar ou congelar o tal efeito manada – um dos mais incontroláveis vértices do fascismo – estaria em fazer um uso reverso (como engenharia política) desta ideologia pacifista.
As candidaturas que falarem calmamente, claramente, em tom absolutamente popular (dado o analfabetismo funcional), que suas propostas são positivas, teriam mais sucesso em reverter a tentativa de homicídio em seu favor.
A tríade seria: “Educação” (filhos vivos), “Trabalho” (pai abstêmio) e “Segurança”: expressão positiva, ao contrário de violência, que é negativa (negação da paz social).
Em eleição absurdamente irracional, recomenda-se usar a racionalidade. Neste caso, a Prudência (o valor) usaria da ideologia pacifista para um efeito positivo; contra o furor, a ira, a violência destrutiva, uma palavra de esperança. Esta é uma das lições de Maquiavel, o criador da Ciência Política: “o valor contra o furor”.
A política é violenta, por definição, porque se deve converter alguém contra sua vontade. No entanto, a saída não está em mais violência, mas, sim, na construção de instituições que canalizem a violência original: primitiva.
O Estado (violência institucionalizada) contra o “homem, lobo do homem” diria Hobbes: filósofo renascentista da política. - O direito serve para transformar as hordas em cidadãos. Pois é bem aqui que estamos, entre barbárie e civilização. No mais, é Ilha da Fantasia.


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Profissionais da Violência

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 01:36
Terça-feira, 11 de setembro
A gente não sabemos escolher presidente
A gente não sabemos tomar conta da gente
A gente não sabemos nem escovar os dente
Tem gringo pensando que nóis é indigente

(Inútil – Ultraje a Rigor)

A gente sabe escolher presidente? É só dar uma olhada rápida para as escolhas que fizemos após a abertura democrática, para ver que não. Como eleitores, fizemos uma escolha pior do que a outra. Tudo bem que numa democracia as pessoas têm todo o direito de errar, e, conseqüentemente, pagar pelos seus erros obviamente... Mas acho que não precisávamos errar tanto.

Mas, de certa forma, não são os eleitores que estão errados. É todo um sistema político que não funciona bem, sistema esse que está profundamente entranhado numa cultura de pequenas corrupções que, como uma bola de neve, formou e legitimou o grande mar de lama de corrupção que vemos em Brasília, e nas casas legislativas, bem como em diversas repartições públicas de todo o país.
É o tal do jeitinho brasileiro de querer levar vantagem em tudo, e quem quer levar vantagem em tudo, passando por cima dos direitos da maioria, acaba não lucrando coisa alguma, e ainda trazendo para a nação um retrocesso no progresso moral e ético, bem como grandes perdas econômicas que se fazem sentir no plano individual e em um contexto mais geral.
Voltando ao fato de que não sabemos escolher presidente já reparou que, nos momentos turbulentos de nossa história, tendemos a escolher sempre salvadores da pátria? E o que fazem tais salvadores da pátria após conquistarem o voto dos eleitores e alcançarem o troféu almejado: a vitória nas urnas. Decepcionam, sempre. Lembram do Fernando Collor, que se apresentava como o caçador de marajás? Caçou algum deles? Não. Pelo contrário, foi caçado.
Depois vieram outros, defensores dos fracos e oprimidos. E o que estes fizeram? Depenaram a nação. Deram alguns centavos para o povo e, com o muito que sobrou, compraram carne da boa e da melhor... E fizeram um churrasco de primeira linha regado a bebidas caríssimas.
Tanto descaso para com a nação por parte de nossos políticos tem provocados efeitos nocivos sobre a nossa democracia. Em primeiro lugar, o povo não acredita mais na classe política. Há um sentimento de revolta para com essa classe por toda a nação. E isso tem levado a quadros preocupantes.
A coisa anda tão feia que tem gente flertando com a volta da ditadura com esperança de que a ordem seja restabelecida no país. Quem viveu uma ditadura aqui ou em qualquer lugar do mundo sabe que essa não é a melhor saída, o melhor remédio. Invocar a violência para viver uma cultura de paz é uma insensatez.
Nos tempos da cortina de ferro no Brasil, ainda havia uma juventude disposta a lutar e dar a vida pela liberdade. Era uma juventude consciente que sabia fazer uma melhor análise da realidade em que viviam... E não compravam gato por lebre. Aqueles jovens se tornaram uma pedra no calcanhar da ditadura. E como diz o ditado, água mole em pedra dura tanto bate até que fura... E aquela juventude rebelde, de certa forma ajudou a furar a pedra dura do regime feroz.
E a juventude de hoje? Ah, essa não seria pedra no calcanhar de regime algum de tão alienada que anda. Ela mesma, vítima do próprio sistema que lhes privou de uma educação mais apurada e do desenvolvimento do pensamento crítico, tornando-se dessa forma, ótimas massas de manobra nas mãos de políticos inescrupulosos.
Outra coisa que temos visto são os fortes radicalismos que tem tomado conta da cena política.
O presidente Lula, hoje preso em uma cela, em Curitiba, já foi alvo desse radicalismo. Ainda antes de se tornar prisioneiro, quando andava em campanha eleitoral antecipada, por diversas cidades brasileiras, teve dois dos três ônibus da caravana que o acompanhava atingido por tiros. Segundo a polícia, foram três os disparos que atingiram os veículos. Felizmente ninguém saiu ferido do episódio.
Neste 06 de setembro, véspera do feriado do Dia da Independência, foi a vez do candidato do PSL, Jair Bolsonaro. O candidato fazia campanha, em Juiz de Fora, Minas Gerais quando foi atingido, na barriga, por uma facada, desferida por Adélio Bispo de Oliveira, não filiado a nenhum partido político.
À polícia, Adélio disse que havia tomado tal atitude por discordar em diversos pontos de vista com Bolsonaro. Disse também que havia sido mandado por Deus para cometer tal violência. A PF ainda investiga o caso.
Bolsonaro, passou por cirurgia e está fora de perigo. E assim, o primeiro colocado nas pesquisas para a corrida presidencial passou por um grande susto.
Qualquer forma de violência é condenável. Todos têm o direito de votar em quem bem quiser e entender. Assim como os candidatos, em uma democracia, podem defender suas idéias, por mais esdrúxulas que possam parecer. É a democracia, essa faca de dois gumes, que tanto pode trazer felicidades como pode trazer lágrimas a um povo, dependendo das escolhas que esse povo venha a fazer. 
Há uma questão que foi bem analisada pela escritora, repórter, e documentarista, em artigo no jornal El País Brasil. No artigo, intitulado, Profissionais da violência, Eliane Brum faz uma análise das reações do candidato a vice na chapa de Bolsonaro, o general Hamilton Mourão, e as reações de Mourão ao ataque sofrido por Bolsonaro são tão preocupantes quanto o próprio atentado sofrido por candidato.
A seguir esse blog compartillha com os leitores o referido artigo de Eliane Brum.

***
 Profissionais da violência
A reação de Mourão, o vice “faca na caveira” de Bolsonaro, aponta como o Brasil será governado em caso de vitória da chapa de extrema direita



 ELIANE BRUM
10 SET 2018 –


“Se querem usar a violência, os profissionais da violência somos nós”. A frase é do general Hamilton Mourão, candidato a vice-presidente na chapa de Jair Bolsonaro (PSL). Foi dita à revista Crusoé, após o ataque à faca contra o candidato na cidade de Juiz de Fora, em Minas Gerais, em 6 de setembro. É uma frase para se prestar toda atenção.
Os vices com freqüência têm chegado à presidência no Brasil. Mas o mais importante é o que a declaração nos conta sobre a chapa que, sem Lula, está em primeiro lugar nas intenções de voto para a disputa presidencial das eleições de outubro. O que significa um candidato a vice-presidente se anunciar como “nós” e como “profissional da violência” num momento de tanta gravidade para o Brasil?
Abalado pela brutalidade do episódio, Mourão poderia ter escolhido pelo menos duas variações que mudariam a intenção: “os profissionais da segurança” ou “os profissionais da proteção”. Palavras como segurança e proteção levariam à ideia de amparo e de defesa —e não à ideia de ataque, de retaliação e de confronto. Mas não. Mourão usou um “nós”— e usou “profissionais da violência”. Ao ser perguntado quem era o “nós”, o general disse que se referia “aos militares e ao uso da força pelo Estado”.
Mourão declarou ainda: “Eu não acho, eu tenho certeza: o autor do atentado é do PT”. No mesmo dia, o presidente do PSL, Gustavo Bebianno, afirmou ao jornal Folha de S. Paulo: “A guerra está declarada”.
É bastante revelador que um general da reserva, hoje político e candidato, se considere no direito de falar em nome do Estado, em plena campanha eleitoral para se tornar governo. A declaração de Mourão mostra que ele acredita falar pelos militares, como se os representasse e os comandasse. E como se os militares fossem uma força autônoma, uma espécie de milícia de Bolsonaro e de Mourão. E não o que a Constituição determina: uma instituição do Estado, paga com recursos públicos, subordinada ao presidente da República.
Ao fazer essa declaração, Mourão trata as Forças Armadas como se fossem a sua gangue e o país como se fosse a sua caserna. Alguém machucou o meu amigo? Vou ali chamar a minha turma para descer o cacete. E faz isso na condição de político e de candidato, como se o processo democrático fosse apenas uma burocracia pela qual é preciso passar, mas que pode ser atropelada caso se torne inconveniente demais.
Mais tarde, Mourão baixaria o tom, segundo ele a pedido do próprio Jair Bolsonaro. Uma orientação curiosa para um candidato que divulgou uma foto sua na cama do hospital fazendo com as mãos o sinal de atirar. No dia seguinte à agressão, durante entrevista à Globo News, o vice de Bolsonaro afirmou que, em caso hipotético de “anarquia”, pode haver um “autogolpe” do presidente, com o apoio das Forças Armadas.Ao comentar a convocação à violência por ele e outras pessoas da campanha, Mourão afirmou: “Realmente subiu um pouco o tom (no início), mas temos que baixar, porque não é caso de guerra”. Disse ainda que, se forem eleitos, vão “governar para todos, e não apenas para pequenos grupos”.
As declarações do vice de Bolsonaro no primeiro momento dão pelo menos duas informações sobre ele que vale a pena registrar. Mourão decide baixar o tom depois de elevar (muito) o tom. Poderia se pensar se é esse tipo de reação passional que se espera de um general, uma pessoa numa posição de comando ocupando o posto máximo da hierarquia do Exército, cujas ordens podem afetar milhares de vidas humanas. Pela trajetória de Mourão, a dificuldade de agir com racionalidade em momentos de tensão não parece ter afetado a sua carreira.
Neste momento, porém, Mourão é um político e candidato a vice-presidente. Diante da crise, representada pela agressão a Bolsonaro, aquele que quer ser vice-presidente do Brasil explode, confunde o seu lugar e o lugar das Forças Armadas, e bota gasolina na fogueira que deveria conter. E deveria conter não apenas por ser candidato, mas por responsabilidade de cidadão.
É importante que Mourão tenha finalmente entendido que não se trata de uma guerra e tenha parado de encontrar inimigos entre as faces da população. Mas as declarações irresponsáveis já produziram um efeito cujas consequências são difíceis de prever. Como ele mesmo lembrou, “há um velho ditado que diz: as palavras, quando saem da boca, não voltam mais”.
O que Mourão faria com poder real diante das tantas crises que esperam um governante? Como governará essa dupla, caso eleita, um que invoca mais violência em palavras e outro que, recém operado após sofrer uma agressão, faz sinal de atirar? Como governarão, com sua lógica de guerra, na qual o inimigo não é outro exército, mas a parte da população que discorda deles?
A segunda informação que emerge das declarações é a rapidez e a leviandade com que Mourão julga e condena. De imediato ele responsabilizou o PT pela agressão à faca. Não havia —e não há— um único indício de que o autor da facada tenha qualquer ligação com o PT ou faça parte de um plano do partido. Adelio Bispo de Oliveira afirma ter agido sozinho e “a mando de Deus”. Declarar publicamente uma “fakenews” ou mentira, num momento de tanta gravidade para o país, também pode ter consequências imprevisíveis. Não adianta voltar atrás depois de ter afirmado uma mentira como “certeza” justamente na hora em que os ânimos estavam mais acirrados.
É importante observar como esse protagonista se comporta diante da crise, já que governar um país é lidar com várias crises todos os dias. Se sem poder de governo ele encontra culpados, para além do culpado que já está preso, e invoca publicamente a violência como reação imediata, o que fará caso tenha poder de governo e a possibilidade de convocar o que Mourão chama de “profissionais da violência” e a Constituição chama de “Forças Armadas”? Se, quando precisam convencer eleitores de que são a melhor escolha, os homens de Bolsonaro invocam a guerra dentro do próprio país, o que farão quando já não precisarem convencer ninguém?
É importante observar que não conseguem refrear seus instintos nas horas mais duras, mas também é importante acreditar no que dizem quando não são capazes de se conter. Tanto Bolsonaro quanto Mourão têm se esforçado para mostrar que são “profissionais da violência”. Ao pregarem que a população deve se armar, como se esta fosse a melhor estratégia para enfrentar a questão da segurança, é assim que se apresentam.
As declarações contra as mulheres, contra os negros, contra os indígenas e contra os LGBTs também são um exercício da violência que revela uma visão de mundo e a fortalece entre aqueles que dela comungam. Semanas atrás, Mourão chamou os negros de malandros e os indígenas de indolentes. Desta afirmação que saiu da sua boca ele não se arrepende. Como disse Eduardo Bolsonaro, um dos filhos do candidato: “Tem que botar um cara faca na caveira para ser vice”. Botaram.
No dia seguinte ao atentado, quando segundo ele mesmo o tom deveria baixar, o vice de Bolsonaro enalteceu o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, um dos mais notórios torturadores e assassinos da ditadura civil-militar (1964-85). “Os heróis matam”, justificou ele na TV.
Sempre vale lembrar ao menos um episódio entre as tantas mortes e torturas ordenadas ou executadas pelo “herói” de Bolsonaro e de Mourão. O torturador Ustra levou os filhos de Amélia Teles, presa nos porões do regime, para que vissem a mãe torturada. Amelinha, como é mais conhecida, estava nua, vomitada e urinada. Seus filhos tinham quatro e cinco anos. A menina perguntou: “Mãe, por que você está azul?”. A mãe estava azul por causa dos choques elétricos infligidos em várias partes do seu corpo e também nos seios e na vagina. Este é o farol de Bolsonaro e Mourão, em primeiro lugar nas pesquisas para a presidência do Brasil, o que diz bastante também sobre os eleitores.
Armar-se é uma das principais plataformas da campanha de Bolsonaro-Mourão, o capitão da reserva e o general da reserva. E é preciso levá-los a sério. Não só porque Bolsonaro e Mourão lideram as intenções de voto, mas porque é legítimo que os eleitores queiram votar em “profissionais da violência” para governar o Brasil. É possível discordar de quem aposta em “profissionais da violência”, mas o direito de escolher uma pessoa que invoca a violência é legítimo numa democracia.
Há muita gente clamando por “civilização” contra o que nomeiam de “barbárie” que atravessa o Brasil, às vésperas de uma eleição em que o candidato em primeiro lugar nas pesquisas está na prisão e é proibido pelo judiciário de se candidatar e o candidato em segundo lugar leva um facada durante um evento de campanha e precisa passar por uma cirurgia.
Mas o que chamamos de civilização tem sido sustentado pela barbárie cotidiana contra os negros e os indígenas. A civilização sempre foi para poucos. A novidade que uma chapa Bolsonaro-Mourão apresenta é a suspensão de qualquer ilusão. Não é por acaso que alicerçam sua prática antiga, tão velha quanto o Brasil, nas redes sociais, o espaço onde toda a possibilidade de mediação foi rompida e os bandos se fecham em si mesmos, rosnando para todos os outros.
A barbárie dos “profissionais da violência” sempre sustentou a civilização de uns poucos. O que Bolsonaro e Mourão dizem, como “profissionais da violência” que são, é que já não é preciso fazer de conta. Neste sentido, rompem o mesmo limite que a internet rompeu, ao tornar possível que tudo fosse dito. E também ao dar um valor ao dizer tudo, mesmo que este tudo seja o que nunca deveria poder ser dito, já que é necessário um pacto mínimo para a convivência coletiva e o compartilhamento do espaço público.
Ao representar a velha boçalidade do mal expressada na novidade das redes, Bolsonaro-Mourão são os representantes mais atuais deste momento. Eles sabem que a guerra não existe no Brasil. O que sempre existiu foi o massacre. São os mesmos de sempre que continuam morrendo, como os camponeses de Anapu nas mãos dos pistoleiros da grilagem e as crianças das comunidades do Rio em cujas cabeças as balas explodem.
Ao inventarem uma guerra para encobrir o massacre, Bolsonaro e Mourão inventam também a ideia de que as armas serão iguais e acessíveis para todos, bastando para isso o “mérito” de passar em eventuais testes e o “mérito” de ser capaz de pagar pelas melhores. Conheceremos então o discurso da meritocracia aplicado às armas.
Bolsonaro e Mourão sabem muito bem que não haverá igualdade ao armar a população. Se Bolsonaro, o “profissional da violência”, teve alguma sorte na tragédia, é a de que Adélio Bispo de Oliveira era um amador e era pobre. Ele tinha apenas uma faca e nenhum plano para depois. Se ele fosse um “profissional da violência” como Mourão, Bolsonaro não teria tido a chance de fazer o gesto de atirar na cama do hospital, depois de ser salvo pelo SUS, sistema público de saúde que ele não se esforça para defender.
Marielle Franco, a vereadora do Rio pelo PSOL, não teve esta sorte. Seus assassinos arrebentaram sua cabeça com arma de alto calibre e uso restrito e até hoje, seis meses depois, não se conhece nem a identidade do executor nem a do mandante. Negra, lésbica e favelada, Marielle está no lado dos que morrem e cujas mortes permanecem impunes. Marielle está no lado dos massacrados, não dos que massacram.
Mas não é sorte o que Bolsonaro teve ao ser atacado por um amador. Tanto ele quanto Mourão sabem o que dizem quando reivindicam serem “os profissionais da violência”. Eles são. Resta saber se a verdade da maioria dos brasileiros é também esta: a de desejar profissionais da violência comandando o país onde vivem.
Se a maioria dos brasileiros mostrar nas urnas que quer esse tipo de político no poder, então é isso que escolheram. Faz parte do processo democrático que as pessoas se responsabilizem por suas escolhas e as consequências que delas resultam. Se você chama “profissionais da violência” para comandar o país onde você e sua família vivem, você deve saber o que terá.

Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas. Site: desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebrum/ Facebook: @brumelianebrum



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