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Onde há fumaça, há fogo

Posted by Cottidianos on 23:51
Sábado, 20 de abril

Alexandre de Moraes e Dias Toffoli

Há um velho ditado popular que diz: “Onde há fumaça há fogo” ... E, ao que parece, e a julgar pela tentativa desesperada de membros do STF, em calar qualquer voz que levante críticas aos ministros daquela instância superior de justiça, há fumaça por lá, e, pelo visto não é pouca não.
Os ministros do STF vêm tomando decisões que tem desagradado a juristas, legisladores e a maioria da população em geral. É natural que recebam críticas por parte de tais setores. Afinal, vivemos em uma democracia e o combustível da democracia é o direito de manifestação aos contraditórios.
Quando se impõem a mordaça do silêncio, e se proíbe que cessem as críticas a decisões de qualquer instância do Poder Judiciário, ou a qualquer outro ramo da sociedade, então é sinal de que a liberdade de expressão foi sequestrada para algum porão, e, talvez, por lá esteja sofrendo tortura.
Nos últimos meses tem havido muitas postagens ofensivas a membros do Supremo acusando-os de serem coniventes com a impunidade, quando não, de estarem envolvidos, de alguma forma, nessa rede de corrupção que assolou o país.
Diante da chuvarada de críticas aos membros do máximo órgão julgador do país, o STF, o presidente daquele colegiado, Dias Toffoli tomou uma decisão que ao mesmo tempo em que surpreendeu a todos, também provocou reações negativas entre aqueles que militam na área do direito e da justiça, bem como à sociedade de modo geral. Isso foi no dia 14 março do mês passado.
O presidente do Supremo Tribunal Federal abriu um inquérito para investigar notícias fraudulentas, — as tais fake News — e ofensas e ameaças, que atingissem a honra e a segurança dos próprios ministros, e também de seus familiares. Imediatamente, Toffoli, nomeou o ministro Alexandre de Moraes, como relator do processo. E não deu maiores detalhes da abertura do processo pois também o havia colocado na condição de “segredo de justiça”, condição pela qual mantém as informações relativas ao mesmo em total sigilo. O Ministério Público e outros setores do meio jurídico, ficaram de cabelos em pé com ambas as decisões.  
No dia seguinte, surge em cena, a procuradora-geral da República, Raquel Dodge. Ela queria saber, exatamente, o que que Toffoli e Moraes tentaram colocar sob sigilo: maiores informações sobre o caso. Ela indagou à Corte, dentre outras coisas, quais seriam os objetos da investigação e quais argumentos jurídicos a fundamentavam. Pontos estes que estavam obscuros na abertura da investigação determinada por Toffoli. Dodge defendeu ainda que o ato de investigar caberia ao Ministério Público e à Polícia Federal.
“Os fatos ilícitos, por mais graves que sejam, devem ser processados segundo a Constituição. Os delitos que atingem vítimas importantes também devem ser investigados segundo as regras constitucionais para a validade das provas e para isenção do julgamento”, disse Dodge.
Outros ministros do STF também se posicionaram contra a abertura da investigação. Marco Aurélio do Melo foi um deles. O ministro disse que o Supremo deveria manter distância das investigações que envolvessem apuração de crimes praticados contra os membros da Corte.
Enquanto isso, Alexandre de Moraes, como fiel guardião, defendia a investigação, dizendo que o presidente do STF, abriu a investigação com base no artigo 43 do regimento interno do STF, que diz: “Ocorrendo infração à lei penal na sede ou dependência do tribunal, o presidente instaurará inquérito, se envolver autoridade ou pessoa sujeita à sua jurisdição, ou delegará esta atribuição a outro ministro”. O problema, e que foi ignorado por Toffoli, é que os fatos não ocorreram nas dependências do STF.
Outro fato que torna a decisão de Toffoli ainda mais autoritária é que o relator do caso foi “escolhido” por ele, e não por sorteio, como é de praxe nos trabalhos do STF.
No dia 21 de março, o ministro Alexandre de Moraes expediu mandato de busca e apreensão em São Paulo e em Alagoas, na investigação aberta na semana anterior por Dias Toffoli. A operação destinava a recolher celulares, tablets, e quaisquer outros dispositivos eletrônicos e materiais relacionados a disseminação de notícias falsas contra membros do Supremo.
Era também objetivo dos investigadores tirar do ar contas nas redes sociais de dois autores identificados como suspeitos. Os policiais rastrearam endereço de pessoas que fizeram postagens ameaçadoras a membros do STF, através do IP (Internet Protocol) dos aparelhos usados para estas postagens.
Os suspeitos identificados na ocasião foram o advogado alagoano, Adriano Argolo, e um guarda civil metropolitano da cidade de Indaiatuba, SP. Segundo a PF, o guarda utilizava uma conta com nome falso e localização indicada no Piauí.
Os dias foram correndo, a investigação, apesar de irregular e fora dos parâmetros constitucionais também não parou, apesar de protestos do MP e de outros setores do judiciário. Uma investigação, diga-se de passagem, sem um foco direcionado e baseado em generalidades. Nela, todos podiam estar na condição de investigados, inclusive, membros do próprio Ministério Público. E eis que surge mais uma trapalhada da dupla Toffoli e Moraes.
Na quinta-feira, 11 deste mês, a revista, Crusoé, publicou uma reportagem que resgatava um e-mail enviado a força tarefa da Lava Jato em Curitiba, em 13 julho de 2007, pelo empresário Marcelo Odebrecht — Marcelo, atualmente, cumpre prisão domiciliar, mas pelo acordo de delação premiada se compromete com a força tarefa a revelar fatos ligados a Lava Jato, e que forem sendo encontrados em seus e-mails pessoais. Em 2007, o hoje ministro do STF, Dias Toffoli, ocupava o cargo de Advogado Geral da União (AGU).
O e-mail em questão tratava de negociações ilícitas, e foi enviado pelo empresário a dois executivos da empreiteira, Adriano Maia e Irineu Meireles. No e-mail, Marcelo, pergunta: “Afinal, vocês fecharam com o amigo do amigo de meu pai?”
Segundo explicou Marcelo à PF, a mensagem se referia a negócios envolvendo tratativas entre Adriano Maia, então diretor jurídico da Odebrecht, e a Advocacia Geral da União. As tratativas de negócios se referiam a assuntos referentes as hidrelétricas do rio Madeira, em Rondônia. Ainda segundo o empresário, o “amigo do amigo do amigo de meu pai”, era Dias Toffoli. Sendo que o amigo de Emílio Odebrecht, pai de Marcelo, era o ex-presidente Lula, hoje preso em Curitiba.
Marcelo, Odebrecht, que cumpre acordo de delação premiada, e não seria louco de fazer graça com um assunto tão sério, botou a lenha na fogueira e a Crusoé fez fumaça com a publicação da reportagem. Posteriormente, o site, O Antagonista reproduziu a matéria.
O fiel guardião, o relator do caso, Alexandre Moraes, então virou uma arara, a fumaça estava subindo demais. Era preciso abafá-la antes que alguém ligasse a fumaça ao fogo.
Ele então determinou que a revista Crusoé e o site O antagonista, retirassem do ar, a publicação que tratava do amigo do amigo de meu pai, e que, segundo Marcelo Odebrecht, referia-se ao ministro do Supremo, Dias Toffoli. Moraes determinava ainda que ambos, revista e site, pagassem multa de R$ 100 mil diários caso descumprissem a ordem judicial.
Determino que o site O Antagonista e a revista Crusoé retirem, imediatamente, dos respectivos ambientes virtuais a matéria intitulada ‘O amigo do amigo de meu pai’ e todas as postagens subsequentes que tratem sobre o assunto, sob pena de multa diária de R$ 100 mil, cujo prazo será contado a partir da intimação dos responsáveis. A Polícia Federal deverá intimar os responsáveis pelo site O Antagonista e pela Revista Crusoé para que prestem depoimentos no prazo de 72 horas”, ordenava Alexandre de Moraes em sua decisão.
Mais uma vez a decisão foi amplamente criticada pelo Ministério Público, pela imprensa e por diversos setores da esfera judicial. Alexandre de Moraes e Dias Toffoli foram acusados de censura aos dois veículos de comunicação.
Na quinta-feira, 18, o ministro Alexandre de Moraes, diante da repercussão do caso, resolveu revogar a própria decisão que obrigava os sites a retirar do ar a reportagem. Em nome da liberdade de expressão era necessário que Dias Toffoli sofresse essa derrota.
O juiz federal Luiz Antonio Bonat, que é responsável pelos processos da Lava Jato, na 13a Vara Federal, em Curitiba, retirou do inquérito que envolve o empresário Marcelo Odebrecht, o tal e-mail que causou tanta repercussão, e que cita Dias Toffoli. O juiz atendeu a um pedido do Ministério Público Federal, que informa que o documento não tem relação com a apuração das irregularidades na Usina de Belo Monte, no Pará.
Ainda nesta semana movimentada no meio judiciário, mais precisamente, na terça-feira, 16, a procuradora da República, Raquel Dodge, enviou ao Supremo um ofício no qual mandava arquivar o inquérito aberto para apurar ofensas contra a Corte e os seus ministros. Dodge alegou que não havia no inquérito a delimitação do alvo da investigação, nem muito menos os alvos da operação. Cabia ao ministro relator do caso, Alexandre de Moraes, determinar o arquivamento, mas ele não fez isso.
Ao contrário, o ministro ignorou a determinação da procuradora sobre o arquivamento do inquérito. Com isso, as investigações continuam abertas. O presidente, Dias Toffoli, concedeu mais 90 dias para que as investigações sejam concluídas. Pelo visto essa queda de braço vai longe. Quem abrirá os olhos dos ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes pelo ridículo da situação pela qual estão passando e fazendo o STF passar?
Ainda no dia 16, o STF entrou em ação novamente. Ainda no inquérito que apura as ofensas contra integrantes do Supremo, a PF, cumpriu oito mandatos de busca e apreensão em São Paulo, Goiás, e Distrito Federal, com o intuito de aprofundar a suspeitas de injurias e difamação contra membros da Corte.
Alexandre de Moraes autorizou a operação. Ele é relator no inquérito que apura o caso. Os mandatos se basearam em opiniões negativas de pessoas sobre o STF e a Corte que o Supremo entende, como ameaça. Mais uma vez foram apreendidos celulares, tablets, computadores. Mais uma vez foram bloqueadas contas dos suspeitos nas redes sociais.
No despacho. Alexandre de Moraes diz: “"foi verificada a postagem reiterada em redes sociais de mensagens contendo graves ofensas a esta Corte e seus integrantes, com conteúdos de ódio e de subversão da ordem”.
Quem também entrou com dois pedidos de suspensão desse inquérito que extrapola os limites constitucionais foi a Associação Nacional dos Procuradores da República. A instituição entrou com duas ações no Supremo: um mandado de segurança e um habeas corpus.
Em entrevista à rádio CBN, em conversa com os jornalistas da emissora, Milton Jung, Gerson Camarotti, e Cássia Godoi, o diretor jurídico da Associação Nacional dos Procuradores da República, Rodrigo Tenório, disse que a primeira delas nasceu do equivoco da abertura da investigação pelo Judiciário. No modelo brasileiro, não cabe ao Poder Judiciário a função e investigar, nem de produzir provas. Um é o papel do juiz e outro o papel do acusador. Há uma separação entre os dois.
Referindo-se às decisões tomadas recentemente por Toffoli e Moraes, Rodrigo Tenório diz: “A gente retorna a época da inquisição, de Torquemada (Tomás de Torquemada), de 1435, que permite que o juiz prenda, que o juiz acuse, e o juiz julgue simultaneamente”. Disse Tenório à CBN.
Outro grande erro, foi, o de depois de instaurar o inquérito, o ministro Dias Toffoli escolher quem iria conduzi-lo, escolhendo para relator o ministro Alexandre de Moraes. E aí foi ofendido o princípio do juiz natural. O juiz não pode ser escolhido, a distribuição deve ser aleatória, no caso, sorteado.
A Associação Nacional dos Procuradores da República também concorda com a Procuradoria Geral da República, no sentido de que não há um objeto especifico na investigação. É como se fosse uma novela passada nos tempos da inquisição, na qual, a cada semana, são inseridos novos capítulos de acordo com a vontade dos inquisidores.
Outro fato ilegal nesse inquérito é que há membros do MP investigados. O fato é que, segundo diz Tenório ainda durante a entrevista à CBN “Membro do Ministério Público, por disposição expressa da Lei Complementar 75, artigo 18, só podem ser investigados pela procuradora geral da República. então teria que ser enviado, seja lá o que houvesse nesse inquérito, para a Procuradoria Geral da República, e o Supremo não poderia por vontade própria, com a exclusividade, investigar esses membros”.
Quando perguntado pelo jornalista Gerson Camarotti, sobre qual a solução possível para esse episódio, Tenório respondeu que “solução possível é o Supremo proteger-se do Supremo. “O habeas corpus e os mandados de segurança que nós manejamos, tiram a decisão da mão do ministro Alexandre de Moraes, tiram a decisão da mão do dois que instauraram essa investigação. Então o pleno pode ser chamado a se manifestar e acabar com essa investigação, e aí sim, que é o único destino que ela merece”, disse ele.
Engraçado é que, quando Jair Bolsonaro foi eleito o temor era de que ele desse às costas para a democracia, e, já que elogia tanto o período ditatorial, fizesse ele andar de braço dado com o país.
Mas, eis que para nossa surpresa, quem vestiu a camisa da ditadura foi aquele que deveria ser o guardião da liberdade de expressão e dos princípios constitucionais, ou seja, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, e seu fiel escudeiro, Alexandre de Moraes. Criticar é proibido. Não se pode falar das decisões esdruxulas que o STF toma. Trazer à tona fatos com seu fundo de verdade, e que venham a atingir algum dos eminentes ministros deve ser imediatamente coagido.  
O bom é que, apesar disso, as intuições no Brasil, quando querem, funcionam e muito bem. Há o olho da imprensa. Há o olho da justiça. E há a voz da opinião pública. E, se o olho da imprensa e da justiça são poderosos, a voz da opinião pública também o é.
É por isso que o ministro Alexandre de Moraes voltou atrás na própria decisão de censurar a revista Crusoé, e o site, o Antagonista. E, se o bom senso prevalecer, ainda será arquivado esse processo ilegal, esquisito, e sem sentido aberto por Dias Toffoli para investigar ofensas contra membros do Supremo.
Ninguém, em sã consciência, quer que terceiros andem por aí, mentindo e difamando quem quer que seja, principalmente, os magistrados da mais alta Corte judicial do país. Mas, que haja fundamentos plausíveis nas denúncias, que haja denunciados a quem se possa nomear, e que em tudo isso seja obedecido para as investigações, inquéritos e processos instaurados, que tudo esteja sob as bênçãos, ritos e proteções da Carta Magna da nação, a Constituição Federal. 


Mas parece que, no Brasil, há a clara intenção de desviar o foco quando se trata de desvios praticados por autoridades federais. Os acusados, em vez de provarem sua inocência, parecem jogar gasolina na fogueira, para que, todos, preocupados em apagar o fogo, esqueçam-se de quem o provocou.

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Acreditar sempre, desesperar jamais

Posted by Cottidianos on 01:04
Segunda-feira, 15 de abril

Jeremias Reis

O que é música senão essa arte milenar que nos leva em instantes da alegria à melancolia e vice-versa?
As obras musicais são como entidades espirituais: não as vemos, mas as sentimos. Elas agem em nossa vida mesmo que não as percebamos com os nossos sentidos físicos. Assim são as melodias que ouvimos.
Os olhos da música são os ouvidos. É por eles que os sons nos veem, nos percebem, e é também por esse órgão da audição que nos vemos e percebemos a música. E parece ser tudo tão simples. Basta apenas ter uma escala musical formada por Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá, Si... e a mágica se faz. Esses sete sons distintos parecem se combinar, se entrelaçar, e fazer o milagre da multiplicação dos sons.
No momento da composição cada artista parece ser, naquele momento, um Deus. Pois quando estavam reunidos em um lugar afastado: Jesus, discípulos e multidão, o discípulos lembraram ao mestre que já era tarde e que eles se encontravam em lugar afastado e que era preciso encerrar a pregação a fim de que o povo conseguisse chegar a alguma aldeia mais próxima a fim de se alimentar. Depois de saber que, entre a multidão, alguém trazia consigo cinco pães de dois peixes, Jesus viu ali solucionado o problema. Daquela pequena porção, ele fez multiplicar alimento em abundancia que deu para satisfazer a todos e ainda sobraram cestos de alimento.
Assim é o músico, o compositor, o cantor: com aquelas sete notas musicais ele faz multiplicar os sons e consegue saciar milhares de ouvidos e corações famintos de sentimentos. Quando a obra musical consegue conquistar um universo considerável de corações, seja a nível nacional ou internacional, ela se torna o que se costuma chamar de “clássico”. Há uma música para cada momento e para cada ocasião: para rezar, para curar, para relaxar, para extravasar a alegria, e assim por diante.
Viajar nas notas musicais e pegar carona nas canções. É esquecer, momentaneamente, o mundo conturbado no qual vivemos e sermos transportados para um mundo de sons e magia, do qual voltamos melhores do que quando entramos nele.  
Na tarde deste domingo, 14, aconteceu a grande final do The Voice Kids, transmitido pela TV Globo. Mas, antes de falar na final e no vencedor do concurso musical, volto à semifinal do mesmo, exibida no domingo anterior. Um dos concorrentes, um menino de onze anos, chamado Jeremias Reis, interpretou a canção Pétala.
O menino cantou com tanta intensidade e sentimento dando a música de Djavan uma nova roupagem que a música nem parecia de Djavan, e sim, dele, Jeremias. “Por ser exato, o amor não cabe em si, por ser encantado o amor revela-se, por ser amor, invade, e fim”, diz a letra da canção. E o pequeno interprete cantou o amor e tocou o coração do público. Quando eu vi aquela interpretação já soube naquele momento quem seria o campeão do The Voice Kids.
Quis escrever um texto naquele mesmo domingo sobre o fato, mas a inspiração me sussurrou baixinho ao ouvido que esperasse mais um pouco. Que emoção não deve ter sido para Jeremias quando, na fase das audições às cegas, todos os jurados viraram suas cadeiras para ele. Também pudera, ele cantou a canção, Sementes do Amanhã, de Gonzaguinha, com tanta ternura que seria até um pecado ouvidos treinados em música desperdiçarem aquela joia preciosa. Como técnicas o pequeno cantor escolheu a dupla de cantoras sertanejas, Simone e Simara. E com elas rumou seguro para final. Claro, melhorando a cada dia, pois se a música é perfeição, o bom interprete tem que persegui-la dia a dia.
E eis que chegou o dia da grande final que se deu, como já dito acima, na tarde deste domingo. E os técnicos devem ter tido muito trabalho para irem fazendo suas escolhas de quem continuava na competição, bem como o público que votava e assistia a atração em suas casas.
Afinal, se a idade dos candidatos era pouca, o que sobrava neles eram talento. Realmente, não foi uma escolha fácil. Mas, alguém tinha que levantar o troféu de campeão. No final, nem meu sexto sentido, nem minha inspiração falharam: o vencedor foi mesmo Jeremias Reis. Mais uma vez o pequeno cantor voltou a brilhar e a emocionar os técnicos e o público.
Ontem um menino que brincava me falou
que hoje é semente do amanhã...
Para não ter medo que este tempo vai passar...
Não se desespere não, nem pare de sonhar
Nunca se entregue, nasça sempre com as manhãs...
Deixe a luz do sol brilhar no céu do seu olhar!
Fé na vida Fé no homem, fé no que virá!
nós podemos tudo,
Nós podemos mais
Vamos lá fazer o que será

Esses são os versos da canção que Jeremias, Sementes do Amanhã, de Gonzaguinha que o interprete mirim cantou em sua primeira apresentação no programa. E não poderia ter feito melhor escolha. Os versos da canção se encaixam, perfeitamente, na história de vida do garoto.
Jeremias Reis, o vencedor da quarta edição do The Voice Kids, com 58, 19% dos votos vem de uma família humilde do estado do Espírito Santo. No final do ano passado, as fortes chuvas que caíram no estado levaram, literalmente, a casa onde o menino morava, e hoje ele mora numa casa emprestada, no bairro Jardim Central, na Serra.
O menino faz parte de um projeto social chamado Projeto Legal que este ano completa 20 anos de fundação, e fica no bairro Central de Carapina, na Serra. Foi lá que ele desenvolveu o dom de cantar. Desde os 06 anos ele participa do projeto.
A vida para Jeremias não é nada fácil, assim como para milhões de meninos negros e pobres Brasil afora. Para se ter uma ideia, no final do ano passado, nem dinheiro a mãe dele — Fabíola Rodrigues Pereira, 30 anos, auxiliar de serviços gerais — tinha para leva-lo ao Shopping Center da cidade, para que o menino pudesse ver e tirar fotos com o Papai Noel.
Mas Jeremias também é um exemplo para milhões de meninos negros e pobres — bem como para os grandinhos de todas as classes sociais — de que jamais se deve cruzar os braços quando se tem um sonho e se quer alcança-lo. Quando as adversidades sobrevierem torne-as pequenas e faça-se maior que elas, pois acima das adversidades e daqueles que as sofrem está um Deus que está pronto a dar a mão aqueles que nele confiam plenamente. E em vez de lamentar-se, deve-se trabalhar com afinco naquilo que se tem em mente, e melhorar, um pouco a cada dia, para que, ao final da batalha, estejamos no melhor de nós mesmos e possamos merecer o título de campeão.
Como prêmio do programa, Jeremias receberá R$ 250 mil, e um contrato com Universal Music. E muitas outras portas certamente se abrirão. Antes mesmo de ser anunciado o vencedor do programa, a dupla Simone e Simara, que haviam sido técnicas de Jeremias, anunciaram que, quem vencesse a competição gravaria uma música com elas.  
Também, ainda neste domingo, também antes de saber do anuncio do vencedor do programa, o governador do Espírito Santo, Renato Casagrande, escreveu em sua rede social: “Hoje é dia de The Voice Brasil Kids e o Espírito Santo está na final! Vamos torcer e votar com muito orgulho no talento do Jeremias. Estamos confiantes na sua vitória! Mas, independentemente do resultado, o Jeremias já está convidado a juntar-se à Faculdade de Música do Espírito Santo, em parceria, para desenvolver um trabalho como solista em uma das excelentes orquestras formadas pela Fames. É o nosso reconhecimento pela forma brilhante com a qual que ele vem nos representando na competição. O convite está feito, Jeremias!
Para quem não tinha nem casa para morar, é um bom começo.
Que a luz desse garoto continue a brilhar pelo Brasil afora. Que este seja apenas o começo de uma carreira vitoriosa. Que a luz também desça sobre o coração dos homens públicos para que, os que estão envolvidos no negrume da corrupção consigam sair de lá, e os que não estão não se envolvam em tamanho lamaçal de podridão, para que todos, enfim, possam ser sinal esperança na vida de meninos e meninas que tem um sonho e por ele batalham, e de todos aqueles que, acima e apesar de tudo, ainda acreditam na pátria amada Brasil.

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João de Deus: A face do mal

Posted by Cottidianos on 00:12
Sexta-feira, 05 de abril


Foi no ano de 1973. A jovem de 17 anos estava recostada no banco do carona. Perdia os olhos na paisagem verdejante que ladeava a estrada que ligava Abadiânia a Alexânia. As duas cidades localizavam-se no estado de Goias, e separadas uma da outra por cerca de 30 quilometros. A jovem pequena e franzina, mais parecia uma criança. Um misto de curiosidade e apreensão lhe dominavam os pensamentos. Pensou na tia que havia deixado na casa de caridade, em Abadiania.
Sua tia viva bastante adoençada e alguém havia falado do médium João de Deus que tinha o dom de cura. Resolveram então procurá-lo. Depois de atender a tia da jovem, o médium disse a esta que sua acompanhante também precisava de um tratamento específico, e que a levaria para este tratamento fora da casa, trazendo-a de volta em seguida.
O homem ao volante da caminhonete no qual viajavam era, era um pouco mais velho que ela, tinha 30 anos. Seu nome era João Teixeira de Faria, mas todos o conheciam por João de Deus. Guiava o veículo em alta velocidade. Seu semblante era tenso. Tinha pressa de chegar ao lugar que tinha em mente, muita pressa. Depois de fazer o que lhe passsava pela mente, era necessário voltar e continuar o atendimento espiritual que fazia em uma casa de caridade em Abadiania. Vários pacientes haviam agendado consultas e curas para aquele dia e estavam a sua espera.
Em dado momento, cansada de olhar a paisagem, a jovem se vira para o motorista e pergunta:
— Aonde estamos indo?
— Fica queita, fica quieta. Vou só fazer uma limpeza espiritual em você.
— Ainda falta muito?
— Não. Estamos quase chegando.
Enfim, a caminhonete estacionou em um lugar ermo. Uma área rural distante da cidade. Desceram do carro, e o médium levou a jovem para debaixo da ponte. O silêncio reinava absoluto no local, sendo quebrado apenas pela brisa do vento que soprava constante, e pelo canto das aves que pousavam na galhada das árvores.
Ali o médium foi dominado pelo desejo que nutria pela jovem. Seus olhos eram cheios de lascívia. Partiu para cima dela e começou a tirar-lhe a roupa: primeiro o vestido verde que ela usava, depois a calcinha, e em seguida, tirou a própria roupa. Ela percebeu seu membro excitado, e logo soube que não haveria limpeza espiritual alguma, que aquilo havia sido apenas uma desculpa para atraí-la para aquele lugar.
 Bastante assustada, gritou por socorro, porém, naquelas paragens desertas, não havia viva alma que lhe acudisse os gritos.
— Me deixa, por favor! Eu nunca tive relações sexuais com homem algum. Estou noiva. Vou casar em breve: daqui a dois meses. Não faz isso comigo não. Implorou ela em prantos.
Nada disso sensiblizou os ouvidos de João de Deus. Ele parecia mais um animal que um homem. E, brutalmente, a possuiu ali mesmo, enquanto lágrimas amargas escorriam pelo rosto da jovem. Após o ato sexual a jovem foi acometida de uma forte hemorriagia. O sanguem jorrava aos borbotões.
— Diabos! E agora, como vou resolver essa situação. Se a jovem de volta desse jeito, a polícia vai me prender. É o fim da minha carreira. Disse o médium com os olhos cheios de pavor.
Tomou então uma decisão radical. A única, que no seu entender, resolveria de vez o problema: assassiná-la. Imediatamente, abaixou-se e pegou um revolver de dentro da bolsa que trouxera junto consigo.
Antes, porém, bateu na cabeça da jovem com uma pedra. O sangue, além das partes íntimas, começou a escorrer também da cabeça pelo resto do corpo. Em seguida, o homem disparou três tiros na jovem que caiu inerte.
João de Deus certificou-se de que não havia niguém pelas redondezas. Não havia mesmo. O caminho estava livre. Ele então arrastou o corpo da jovem e o jogou no rio, onde também lavou-se para livrar-se das marcas de sangue que haviam respingado em seu corpo. Qualquer vestígio de crime fora apagado. O homem respirou aliviado. Olhou mais uma vez em volta para ver se não havia deixado nenhuma pista. Tudo estava em ordem para o que se espera da beira de um rio. Apressado subiu o barranco, e seguiu, normalmente, em direção a Abadiania, onde seus pacientes esperavam.
Ao chegar, a tia da jovem perguntou-lhe:
— Onde está minha sobrinha que não retornou com o senhor?
Calmamente, ele respondeu:
— Ela ficou absolutamente desesperada com o casamento. E fugiu para não ter que asssumir essa responsabilidade.
Dizem que os anjos estão por toda a parte. Um deles, em forma de pescador, estava passando pelo lugar onde o corpo da jovem fora atirado. Foi ele que percebeu que ela ainda respirava. Puxou-a então para fora do rio. Ainda com dificuldade ela conseguiu dizer:
— O monstro me matou. Você é o espirito que veio me resgatar?
O pescador respondeu:
— Fique tranquila, menina. Você não morreu, e eu sou apenas um pescador. E, agora mesmo, vou subir até a estrada e buscar ajuda. Vou chamar um carro para lhe levar para o hospital.
Um sorriso de alívio brotou dos lábios da jovem enquanto via o pescador se afastar, subir rapidamente o barranco, e desaparecer por entre a vegetação.
A jovem passou um longo tempo no hospital. O casamento não aconteceu. Profundamente traumatizada, ela silenciou sobre os fatos acontecidos naquele dia. Não deu explicações nem pra família, nem muito menos para a polícia. Mudou-se para um estado da região Nordeste.
O crime, acontecido em 1973, já prescreveu, assim como muitos outros crimes praticados por João de Deus, mas o Ministério Público pode usar o caso descrito acima para traçar o perfil criminológico do medium que, por sua vez, deverá ser usado no julgamento dos crimes de abusos sexuais.
***
O relato acima foi baseado no depoimento de uma testemunha ao Fántástico, exibido no último dia 24 de março. A fonte não quis se identificar. Quarenta anos se passaram. Somente após a prisão do médium, em dezembro do ano passado, é que ela criou coragem para procurar a polícia e relatar essa triste história.
A avalanche de denúncias contra João Teixiera de Farias começou durante o programa Conversa com Bial, da Globo, apresentado por Pedro Bial, e exibido na sexta-feira, 07 de dezembro do ano passado.
O programa trouxe depoimentos de mulheres que foram a Casa Dom Inácio de Loyola, em Adadiania, Goías, em busca de tratamento espiritual, mas que disseram se sentir abusadas sexualmente pelo médium. E por que eles silenciaram durante tanto tempo? Pelo medo de sofrerem algum tipo de “retaliação espiritual”, que eram expressas através de ameaças feitas pelo mediúm às vítimas.
Uma dessas mulheres, que não quis se identificar, disse a Pedro Bial que João de Deus a ameaçou dizendo que se ela falasse alguma coisa, a doença da qual ela havia sido curada, voltaria. Já a coreografa holandesa, Zahira Lienike Mous disse que ela tinha medo de que eles (o pessoal da casa Dom Inácio de Loyola), mandassem espíritos para infernizar a vida dela.
No total, foram ouvidos pelo programa relatos de 10 pessoas, mas por causa do tempo de TV foram levados ao ar, apenas 04 depoimentos, o de Zahira e de mais três brasileiras. A holandesa foi a única mulher que aceitou mostrar o rosto.
Após o programa uma avalanche de denuncias desabou sobre o medium. Mulheres que também haviam passado pela mesma situação, como em uma reação em cadeia, criaram coragem e procuraram o Ministério Público. O MP registrou mais de 300 denúncias de abuso contra o mediúm. Em 16 de dezembro de 2018 a polícia o prendeu.
Logo após a prisão de João de Deus, o produtor do Fantástico, James Albert começou uma investigação jornalística. Um trabalho de formiguinha nos arquivos da polícia e da justiça que durou três meses e cuja finalidade de encontrar denúncias inéditas contra o médium que o ligassem a algum tipo de crime, e encontrou o que procurava.
Uma delas foi o relato que abre esse artigo e que foi baseado no que James encontrou em suas buscas. Mas esse foi apenas uma faceta da história, tem mais, muito mais, como vocês verão a seguir.
Em 27 de janeiro de 1980, o assassinato do taxista Devanir Fonseca não ficou esclarecido, mas nessa história aparece a sombra de João de Deus como suspeito. Ele, o taxista, transportava dois passageiros quando foi morto a tiros. Os assassinos abandonaram o corpo no chão e fugiram com o táxi.
Uma das testemunhas ouvidas pela polícia afirmou que o mandante do crime teria sido João de Deus. Quais os motivos que o médium teria para querer ver o taxista morto? O homem teria se envolvido com a mulher de João e com ela teria tido um caso. Ouvida pela polícia a mulher afirmou não haver traído o marido, e este se auto afirmou inocente. Dois anos depois do crime, em 1982, ele foi absolvido por falta de provas.
A Casa Dom Inácio de Loyola, para onde acorriam gente de todas as partes do mundo, foi inaugurada em 1976, e com ela a fama de João de Deus começou a aumentar ainda mais, principalmente, durante os anos 80.
Ainda durante essa década, em 1985, veio outra enrascada em que Joao de Deus se meteu: tráfico de material radioativo. Existia na região uma mina clandestina de autunita, um mineral encontrado em Campos Belos, no Norte de Goiás, e do qual se extraí o uranio que pode ser utilizado na produção de energia nuclear e bombas atômicas. Segunda a reportagem do Fantástico, o médium chegou a estocar 300 quilos de autunita perto da casa de caridade onde exercia suas atividades espirituais.
Extremamente ambicioso, ele queria ganhar dinheiro, muito dinheiro com a exploração do minério. Pegou os 300 quilos que havia escondido em uma chácara, em Abadiânia e outros 700 que estava em outra cidade. o médium então juntou estas duas partes, perfazendo uma tonelada de minério, colocou o material em uma caminhonete, e rumou para o aeroporto. Foi preso pela polícia antes de chegar lá, juntamente com mais 4 pessoas. Ele confessou o crime e respondeu o processo em liberdade.
À polícia, ele afirmou que não sabia que tipo de minério era aquele e também apresentou uma declaração fornecida por um dos acusados constando que ele apenas faria o transporte do material até o aeroporto. Tudo muito conveniente e bem arranjado. Apenas em 2000 é que saiu o veredito da justiça, extinguindo a punibilidade e absolvendo os réus. Mais uma vez o médium saiu impune. As investigações feitas pelo Fantástico mostrou ainda que o médium havia se envolvido também com tráfico de drogas, mas essas denúncias não foram investigadas pela polícia.
O trabalho de tirar a poeira de debaixo do tapete feita pelo produtor do Fantástico levou a outro fato assustador. Desta vez o ano foi 1986 e envolveu, novamente, assassinato. Era 27 de junho daquele ano. Os brasileiros estavam empolgados pois naquele dia o Brasil entrava em campo para disputar mais uma partida pela Copa do Mundo. Jogaram Brasil e Gana com vitória do Brasil por 3 x 0, nas oitavas de final do campeonato.
Na Alemanha, Hannelore Boldi, havia ouvido falar de João de Deus e de seus dons espirituais e trouxera o filho, usuário de drogas, para tratamento. Ela havia chegado dias antes a cidade de Abadiânia. Não se sabe o que houve, mas ela começou a espalhar pela cidade que o médium era um charlatão. Ela queria denunciá-lo publicamente, e revelar que a Casa Dom Inácio e o médium que a comandava eram uma farsa.
Após o jogo entre Brasil e Gana, naquela noite, a alemã foi misteriosamente assassinada com um tiro à queima-roupa no peito. Mas nos registros da polícia para este caso, entretanto, estava escrito que a alemã havia tido morte natural. E essa notícia foi a que se espalhou pela cidade. Mas os moradores sabiam que isso não era verdade. Ela havia mexido com João de Deus, e quem mexia com ele, não acabava bem, como a alemã também não acabou.
Os exames feitos pelo IML desmentiram a versão de morte natural dada pela polícia. O estranho é que não houve uma linha de investigação sobre o fato de a alemã estar determinada a desmascarar o médium João de Deus. Em 2016 o caso foi arquivado. Ninguém foi preso.
Estupro de vulnerável, falsidade ideológica, lavagem de dinheiro, tráfico de drogas, ameaça a testemunhas, abusos sexuais, assassinatos. Essa é face maquiavélica de João de Deus que nem o Brasil, nem o mundo conheciam. Apenas conheciam o homem que tinha o dom de fazer a ponte entre o mundo espiritual e o mundo material. Ele, certamente, ajudou muita gente. Tinha o dom. Mas o que era para ser uma história gloriosa, a casa que era para ser exemplo de caridade, era apenas uma faixada para esconder uma história de abusos e crimes.
João de Deus esqueceu-se de lembrar da lição mais importante. O bem que se faz aos outros retorna para quem o faz em dobro. Idem para o mal. E quanto mal o médium espalhou, e quantas pessoas não teria ele prejudicado. Mais de 300 denuncias de abusos sexuais,ea agora essas acusações de assassinato, e quantas outras maldades não ficaram debaixo de tapete, perdidas no tempo sem que ninguém conseguisse tirá-las de lá.
O médium João de Deus — o nome agora até nos parece uma heresia — é mais um personagem que jogou uma bela biografia na lata do lixo. É mais um exemplo de que a justiça tarda mais não falha. A lei divina também punirá, no tempo devido, àqueles que propiciaram que um criminoso como João de Deus, praticasse tantas barbaridades por tanto tempo, e saísse de todas elas impunes. Ele era poderoso, tinha dinheiro, e dinheiro compra consciências fracas de delegados, juízes, policiais, políticos, e de quem mais atravesse no caminho dos poderosos e possa auxiliá-los de alguma forma. A justiça dos homens pode até não chegar para todos, mas a justiça divina, certamente, chegará.

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