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Em noite de Oscar, manifesto contra o racismo

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 23:24
Domingo, 28 de fevereiro



Hoje é noite de gala, noite de Oscar — a grande festa do cinema. Hoje é noite de conhecer os vencedores nas mais diversas esferas do mundo da sétima arte. Hoje é noite de tapete vermelho. Hoje é noite de uma constelação de astros descerem de suas galáxias e pisarem esse famoso tapete vermelho


Deveria ser uma noite democrática, pois numa democracia todos são representados. Infelizmente, no mundo hollywoodiano não é assim. Naquela academia impera uma ditadura branca.

Pelo segundo ano consecutivo os negros estão ausentes da lista dos indicados e, consequentemente, não terão o privilégio de erguer a tão cobiçada e merecida estatueta dourada. Por causa disso, celebridades negras de Hollywood prometeram boicotar a premiação a seu modo. É o caso de Spike Lee, e do casal Will e Jada Pinkett Smith.

Também faço aqui o meu protesto e não vou falar do Oscar. Junto-me as celebridades negras hollywoodianas e, como forma de protestar compartilharei com vocês um texto maravilhoso de Ben Okri, escritor nigeriano.

Quando pensamos em África, logo pensamos em escravidão, em negros sendo capturados, e logo os vemos como um povo pobre em cultura, em bens, e costumes. É compreensível, pois foi essa a ideia plantada no subconsciente coletivo para justificar, a dominação,  o exílio forçado, o genocídio do povo negro africano, e o saqueamento das tribos e nações africanas. Nos esquecemos porém, de que a África era terra de impérios, de riqueza cultural, de forte tradição religiosa. Quem foi capturado naquelas terras e tornado escravo não eram pessoas sem passado e sem cultura. Eram pessoas dignas, trabalhadoras, sensíveis a arte da música, da poesia, da pintura. Reis e plebeus, aprisionados e escravizados.

A riqueza com a qual se fartou a América e a Europa, principalmente, a primeira, foi construída à custa do sangue, do suor, e do sofrimento do povo africano. Então, porque o mundo não encontra alguma forma de reparação contra os crimes e injustiças que cometeu contra aquele povo e aquele continente? Por que, ao invés, de reconhecer o importante papel que tiveram os negros na construção das riquezas da humanidade, lhes viram às costas, lhes ignoram, lhes querem fazer desempenhar nas telas do filme da vida papel inferior?

Os homens em sua grande maioria tem uma visão equivocada da vida e do mundo que os cerca. Precisamos perceber que as divisões geográficas são simbólicas. Que os continentes, países, cidades, estados, cidades, povoados, são apenas representações de um mundo simbólico, que ajuda os governos a elaborarem políticas públicas, econômicas e sociais, e para os cidadãos terem uma referência enquanto pertencentes a uma determinada nação.

A verdade, porém, é que vivemos todos em um grande continente chamado Terra. Nos esquecemos de que no coração e nas veias de uma criança que brinca em distante povoado angolano, é tão vermelho, cheio de vigor e pleno de inocência, quanto o de uma criança que brinca nas praias do Rio, ou nas ruas de Las Vegas. O problema é que não nos vemos uns aos outros como humanos, finitos, limitados. Não há brancos ou negros, apenas uma grande família humana, no coração da qual pulsam sonhos e esperanças de que o sol da igualdade e do respeito brilhe sobre todos.

A áfrica é considerada pelos historiadores como sendo o berço da civilização e da humanidade. O homem porém voltou às costas ao seu berço, e quem age assim foge o tempo de si mesmo, de sua própria história, e não encontra a felicidade. Para ser feliz e preciso voltar às origens, encarar o passado, assumir suas próprias raízes. Talvez, porque não esteja fazendo isso, o mundo esteja enfermo.

É preciso curar a África doente que há nós mesmos. Aos negros é preciso reconhecer que não são inferiores como uma grande parcela da sociedade os quer fazer crer. Aos brancos é preciso reconhecer que a cor da pele não lhes fará escapar do destino imutável de todo o ser humano. A todos é preciso reconhecer que não há inferiores e superiores, mas seres humanos trilhando um caminho de evolução, e que o preconceito atua como pesadas correntes a impedir o avançar dos passos, a impedir a evolução da consciência.

Por isso, Deus altíssimo, eu te peço: Tende compaixão dos preconceituosos e abri-lhes a mente para que vejam o grande mal que causam a si mesmos.

Abaixo, compartilho o texto, Curando a África em nós, do romancista e poeta nigeriano, Ben Okri. O texto foi publicado na edição em português da revista SGI Quarterly, de janeiro/março de 2005.

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Curando a África em nós

Por Ben Okri

A África, com seu formato de coração, é o centro dos sentimentos do mundo. Continentes são metáforas, tanto quanto são locais. E os povos são estados espirituais de humanidade tão distinguíveis no que representam quanto os lírios, as rosas e os narcisos.

Será que esquecemos o que é a África? A África é a nossa terra dos sonhos, nossa terra natal espiritual.

Há um reino em cada ser humano que é a África. Todos temos a África dentro de nós. E assim, quando a África exterior está doente e com problemas, a África dentro de nós adoece de neurose. A quantidade total de neurose, de anorexia, de doenças psíquicas inexplicáveis no mundo possivelmente está ligada de forma indireta às doenças e problemas da África. Temos de curar a África em nós se quisermos ser completos novamente.

Temos de curar a África fora de nós se é para que a raça humana fique em paz de novo e de forma dinâmica. Há uma relação entre os problemas de um povo e os problemas no mundo e na atmosfera. Os problemas na África contribuem imensamente para o peso e o tamanho totais dos sofrimentos no mundo. E esse mundo em sofrimento envolve todos no planeta: afeta as crianças e sua saúde, afeta nosso sono, nossa ansiedade, nosso sofrimento desconhecido... Por isso, é possível sofrer sem saber.

Então, temos de curar a África em nós. Temos de redescobrir a verdadeira África, a África do riso, da alegria, da originalidade, do improviso; a África das lendas, das histórias, das brincadeiras; a África das cores brilhantes, da generosidade, da hospitalidade e da gentileza aos forasteiros; a África da imensa benevolência; a África da sabedoria, dos provérbios, da adivinhação, do paradoxo; a África da ingenuidade e da surpresa; a África da postura em quatro dimensões em relação à época; a África da magia, da fé, da paciência, da resistência, de um profundo conhecimento dos caminhos da natureza e dos ciclos secretos do destino.

Temos de redescobrir a África. A primeira descoberta da África pelos europeus foi errada. Não foi uma descoberta. Foi um ato sem discernimento. Eles viram e transmitiram às futuras gerações uma África baseada no que achavam ser importante. Eles não viram a África. E essa não-visão da África é parte dos problemas de hoje. A África foi considerada do ponto de vista da ganância, do que poderia ser tirado dela. E o que você vê é o que você faz. O que você vê num povo é o que eventualmente você cria neles. É chegado o momento de uma nova visão. É tempo de limpar as trevas dos olhos do mundo ocidental.

O mundo precisa agora ver a luz da África, ver seu nascer do sol, sua luminosidade, seu brilho, sua beleza. Se virmos essas coisas, elas serão reveladas. Somente vemos o que queríamos ver. E somente quando vemos mais uma vez, é que os detalhes se revelam a nós. A áfrica está se guardando há séculos para ser descoberta pelos olhos do amor, pelos olhos de um amante. Não há uma visão verdadeira sem amor. Se é para que a humanidade comece a conhecer a verdadeira felicidade nesta Terra, temos de aprender a amar a África em nós.

Nós amamos a America em nós. Amamos a Europa em nós. Estamos começando a respeitar a Ásia em nós. Apenas a África em nós ainda não é amada, não é vista, nem apreciada. O primeiro passo para a regeneração da humanidade é fazer de todos esses continentes em nós um todo novamente. Nós somos a soma total da humanidade. Cada indivíduo é toda a humanidade. É a vez de a África sorrir. Esse será o mais amado presente do século XXI: fazer a África sorrir novamente.

A humanidade começa a pensar no Universo, mesmo as mais remotas estrelas, como seu verdadeiro lar.

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Parabens, José Flavio pela interpretação genuina do espirito do Ator e Novelista Nigeriano Ben Okri. Precisamos de milhares de Ben Okri e também de José Flavio como planadores e semeadores de HUMANIDADES.

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