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O Brasil em guerra contra um mosquito

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 19:16
Sábado, 13 de fevereiro


Neste sábado, 13 de fevereiro, de 2016, o país vive um dia de mobilização nacional contra o mosquito Aedes Egypt. A ação está sendo realizada, simultaneamente, em 353 municípios brasileiros. 220 mil militares foram convocados para trabalharam durante a mobilização que se estenderá por todo o mês de fevereiro. Primeiramente, os militares atuarão distribuindo panfletos, e depois, 50 mil deles visitarão residências, fazendo verificações de rotina. Hoje, ao andar pelo centro de Campinas, encontrei dois deles distribuindo panfletos, é possível que houvesse mais militares em algum outro ponto da cidade, fazendo o mesmo trabalho.

A presidente Dilma Rousseff e seu staff de ministros também se envolveram no projeto. A digníssima presidente foi ao Rio de Janeiro, acompanhar as ações, enquanto seus ministros de dividiram por outros estados. O objetivo deles era visitar presidentes de estatais, governadores, secretários-executivos, prefeitos, agentes de saúde e outros segmentos da população envolvidos na questão.

Seria engraçado, se não fosse trágico. Militares, governo, população, em guerra contra um inimigo tão pequeno. Na verdade, o nosso maior inimigo não é o danado do Aedes Egypt. Se conseguíssemos nos distanciar da realidade e visualizá-la do cume de uma montanha, ou do alto de um edifício, por exemplo, veríamos que o nosso maior problema não é o maléfico mosquito. Distanciados da realidade e não envolvidos nela, veríamos, claramente, que o nosso maior problema é a ineficiência de nossos governos e a falta de educação e consciência do próprio povo.

Digo isso, não imaginando uma situação hipotética, mas baseado no que acontece em nossas cidades, e nas matérias divulgadas pela imprensa.



Lixo jogado ao leu, sem nenhum tratamento, água parada em pneus, embalagens plásticas, e em piscinas de casas abandonadas. É o cenário, digo, a casa perfeita que o mosquito espera encontrar, e nela fixar morada. Nesses ambientes ele se reproduz e muitos mosquitinhos novos nascem e saem por aí, picando as pessoas e espalhando doenças. E todos os anos, inevitavelmente, aposentos do mosquito são preparados, carinhosa e cuidadosamente.

Em Campinas e em muitas outras cidades, nós tivemos, no ano passado, epidemia de dengue. Isso deveria ter servido de alerta, mas, passada a epidemia, passou também o medo dela, e voltou-se à rotina de descaso para com conservação do meio ambiente, e, consequentemente, da própria saúde. Graças a Deus, não estamos tendo epidemias desse tipo na cidade no momento atual, mas se o mosquito volta todos os anos, então não falei demais.

Quanto aos governos, em todos os seus níveis: nacional, estadual e municipal, a ineficiência e o descaso para com a saúde da população é gritante, e porque não dizer, revoltante.

Ainda ontem (12), assistia ao telejornal, Bom Dia Brasil, quando foi apresentada uma matéria que mostrava um levantamento estatístico obtido pelo telejornal que mostrava que, em meio a toda essa crise de saúde pública que estamos vivendo, 80 Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), nem saíram do papel, e mais de 100 unidades, ainda com cheiro de novo, estão fechadas. As desculpas dadas pelos órgãos públicos para esses casos são as mais esfarrapadas possíveis, mas todas levam ao cerne da questão: má gerencia do dinheiro dos impostos pagos pelo contribuinte, falta de rigor na fiscalização, negligencia e descaso para com a saúde da população.

A reportagem do Bom Dia Brasil, — a qual me referi acima — de autoria de Geiza Duarte e Beatriz Buarque, mostrava uma UPA, em Tramandaí, litoral do Rio Grande do Sul. Naquela cidade, existe uma UPA novinha. Salas e consultórios equipados, sistemas de segurança, incubadora. Construída em 2013, a Unidade de Pronto Atendimento custou aos cofres públicos à quantia de R$ 5, 5 milhões. Mas quem acorre em busca de atendimento no local, se depara com tapumes na fachada e aviso de que a unidade não está em funcionamento.

Procurada pela reportagem, a prefeitura disse que a UPA não estava funcionando porque faltava um aparelho de Raios-X, e que a aparelho já foi comprado, e que a previsão é de a unidade comece a funcionar no final de março. O lógico e mais inteligente teria sido haver mais habilidade e rapidez na compra desse equipamento, uma vez que a unidade já estava pronta para funcionar. Dois anos para comprar um equipamento que deve servir a população, é tempo demasiado. Na verdade, isso é mais um descaso para com a população. O pior é que essa situação se dá, não apenas no Rio Grande do Sul, mas se repete em todo o país.

É comum o Bom Dia Brasil — apresentado por Chico Pinheiro e Ana Paula Araújo — trazer reportagens como essa. E, nesses casos, é perceptível a revolta que isso causa, nos apresentadores, revolta que também deve sentir o telespectador que vê jogado fora, o suado dinheiro dos impostos que paga. Ao final dessas reportagens Chico Pinheiro sempre usa o argumento de que essas obras públicas, que deveriam servir à população, só estão abandonadas porque elas não atendem aos ricos e poderosos, pois se atendessem estariam com padrão primeiro mundo, e isso é a mais pura verdade.

Segundo dados do Ministério da Saúde, em todo o país há 136 UPAs prontas para funcionar, mas que estão fechadas. Os motivos para isso são os mais variados: falta de verbas federais, falta de arrecadação municipal, falta de documentação, porém o maior dos motivos, creio eu, seja a incompetência dos gestores da coisa pública.

Ainda segundo dados do Ministério da Saúde, apresentados pelo telejornal, há muitas obras em atraso, e outras que ainda nem começaram. “Nem começaram, mas já receberam dinheiro. Ao todo, o Ministério da Saúde repassou R$ 15,6 milhões. O equivalente a 10% do valor que o governo federal pode distribuir para essas unidades, que são construídas em parceria com estados e municípios.”, diz a reportagem. É isso: o dinheiro chega, mas as obras não saem do papel, e quando saem, as unidades de saúde não funcionam. E para onde vai esse dinheiro? Pelos depoimentos dados à Operação Lava Jato é possível ter uma ideia de onde vai parar esse dinheiro...


E hoje estão a presidente, ministros, prefeitos, governadores, sorrindo e acenando para as câmeras, tirando fotos aqui e acolá. Correndo. Correndo como baratas tontas, em guerra a um inimigo que eles já deveriam ter combatido faz tempo.

Ora, sabe-se que esse tal de Aedes Egypt não nos visitou apenas este ano. Não. Ele nos visita todos os anos, mais ou menos por essa época, e a cada visita ele traz consigo suas doenças: dengue, chincungunha, e agora trouxe também mais uma na mala: o zika vírus, que tem assustado o mundo, e mais especificamente, as Américas. Então porque os governos não elaboram, antecipadamente, planos para eliminá-lo, ao invés de apresentarem apenas soluções paliativas em momentos de crise?

Na verdade, em meio a toda essa crise de saúde, os governos brasileiros estão, como já disse acima, tão desorientados feito baratas tontas: despreparados para o atendimento da população de forma satisfatória.

E ainda há uma pimenta em todo esse molho: os Jogos Olímpicos Rio 2016. Atletas de vários países estão chegando ao nosso solo brasileiro. Certamente, as delegações olímpicas devem estar preocupadas com toda essa crise da saúde no Brasil. E o governo vai ter que gastar um dinheirão com publicidade para dizer a eles: “Podem vir ao Brasil, sem nenhuma preocupação. Está tudo bem. Tudo sob controle”. Faz sentido esse tipo de campanha. É necessário preservar a boa imagem do país. Mas esse dinheiro gasto com publicidade bem que poderia servir para terminar as UPAs que estão por terminar, e para fazer funcionar aquelas que já estão prontas.

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