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Samarco Mineradora: Vendendo peixe podre

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:28
 Quinta-feira, 18 de fevereiro


Vivemos em um país democrático e cada um realiza a campanha publicitária que bem entender desde que não fira os princípios autorregulamentadores do Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (CONAR). Muito embora a área publicitária no Brasil tenha excelentes campanhas publicitárias, de vez em quando surgem algumas que ofendem a nossa inteligência, e nos chamam, no mínimo, de idiotas.

Uma destas campanhas publicitárias que, há alguns dias, tem sido veiculada em rede nacional é a da mineradora Samarco. A mineradora é a responsável pelo maior desastre ambiental brasileiro, que foi o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, Minas Gerais. A tragédia que causou danos sem precedentes ao meio ambiente nos Estados de Minas Gerais e Espírito Santo, deixou um saldo de 19 mortos, inundou cerca de mil quilômetros do Rio Doce e seus afluentes com lama e resíduos tóxicos, destruiu completamente o distrito de Bento Rodrigues, e parcialmente, pelo menos onze outros, matou milhares de peixes, e prejudicou a vida das populações ribeirinhas que viviam da agricultura e da pesca.

Só para se ter uma ideia, A Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (Emater-MG), estimou que os agricultores  das 195 propriedades rurais da região mineira atingida pelo tsunami de lama de rejeitos de mineração, tiveram um prejuízo de cerca de R$ 23,2 milhões. E os prejuízos não param por aí, ainda segundo a Emater-MG foram 216 construções atingidas, causando um prejuízo de R$ 5,2 milhões, 161 quilômetros de cercas destruídas, com prejuízo de R$ 977 mil, há ainda máquinas e esquipamentos estragados, animais perdidos ou mortos na enxurrada de lama, produtores rurais que haviam financiado crédito rural junto aos bancos e que agora não tem como pagar esse crédito, há também os prejuízos causados ao setor de pesca, enfim os prejuízos são enormes tanto à natureza, quanto aos que foram atingidos pela tragédia.

Após o desastre ambiental, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), exigiu que a Samarco Mineradora apresentasse um Plano de Recuperação Ambiental. A empresa demorou em entregar esse plano, porém apresentou o projeto no final do mês passado. O IBAMA avaliou e projeto e concluiu que o plano era “genérico e superficial”, com pouca fundamentação e sem metodologia cientifica.  Em resumo, o Plano Ambiental apresentado pela Samarco era muito diferente daquilo que o instituto ambiental havia pedido. Por exemplo, o projeto apresentado pela empresa não especificava quais espécies de flora foram afetadas, quais dela apresentavam risco de extinção, ou quantas eram exclusivas dos lugares atingidos pela lama. O plano elaborado pela mineradora também não especificava a altura da lama depositada nas margens do rio, não apresentava estudos conclusivos dos impactos da tragédia sobre as faunas aquática e terrestre. Tendo em vista esse projeto — que podemos, com naturalidade, chamar de amador — apresentado pela Samarco, o IBAMA concedeu até o dia de ontem (17), prazo para a empresa apresentar novo projeto.

No plano federal também foram movidas ações determinando bloqueio de bens da empresa, e de ações de indenização às famílias vitimadas pela tragédia, mas até agora não se tem noticia de que a mineradora tenha pagado essas indenizações.


Após esse breve resumo do caso, volto a abordar a campanha publicitária a que me referi no inicio deste texto, e que foi produzida pela Samarco. Bem pelo que já foi exposto nos parágrafos acima, podemos concluir que não há o menor esforço da Samarco em promover a recuperação da área, nem de ajudar as famílias vitimadas por esse enorme atentado contra a natureza, mesmo assim, a empresa tem veiculado campanhas publicitárias, primeiro nas redes sociais, e, mais recentemente, no Youtube e em rede nacional de TV.

O que se vê na peça publicitária é inacreditável. Sabe aquelas estórias do tipo “Era uma vez...”? Pois é essa ideia que a mineradora tenta passar, uma história de faz de conta. Claro, a empresa tem um time bem montado de profissionais na área de comunicação, especializados em gerenciamento de crise. E sabemos que uma campanha publicitária exibida em rede nacional de TV custa uma fortuna. A mineradora não tem condições de elaborar um Plano de Recuperação Ambiental digno, mas gasta fortunas com campanhas publicitárias. No meu entender, isso significa, no mínimo, descaso e falta de respeito para com a natureza e para com as pessoas atingidas pelo tsunami de lama.

Vamos a alguns comentários sobre a peça publicitária. Ela começa com um letreiro azul em fundo amarelo que diz: É SEMPRE BOM OLHAR PARA TODOS OS LADOS. Com isso a empresa tenta chamar a atenção da população de que ela está olhando apenas o lado ruim do caso, mas há um lado bom nessa história? Para quem?

 Em seguida entram os depoimentos de funcionários da empresa. Um diz que tem 19 anos de empresa. Uma mulher diz que tem 21 anos. Outra funcionária diz o óbvio: “Foi uma coisa muito séria o que aconteceu, a barragem se rompeu”, como se ninguém ainda soubesse disso. “Foi uma comoção total, a partir daí a gente já nem conseguia trabalhar direito”. Um funcionário diz que foi uma comoção total para eles. Imaginem então para o povo de Minas e do Espírito Santo. “A partir daí a gente já nem conseguia trabalhar direito”, na verdade, eles já não trabalhavam direito há muito tempo, pois se, realmente, estivessem fazendo isso, a barragem não havia se rompido, pois alertas e avisos de especialistas não faltaram. “A gente abriu os braços e disse: estamos aqui”. “Todo mundo vestiu a camisa e tá fazendo o possível para minimizar os danos que a gente causou”. Se eles realmente estivessem preocupados em minimizar os danos causados teria havido mais empenho em apresentar um bom Plano de Recuperação Ambiental, e de indenização das vítimas. A peça termina com o texto: FAZER O QUE DEVE SER FEITO: Esse é o nosso compromisso”. Ora, isso é exatamente o que a mineradora não fez.

Em outra peça publicitária, a Samarco apresenta um pescador, funcionário da empresa que trabalha no monitoramento das boias que protegem a plantação para que a espuma que desce rio abaixo, não atinja diretamente a vegetação. O funcionário vem com o mesmo blá, blá, blá da outra peça publicitária, e diz que quando tudo aconteceu à empresa já estava por perto para dar cobertura e assistência, e que isso ajudou a amenizar a situação. Nesse ponto da fala do funcionário há uma inverdade e uma incongruência: primeiro, lembro-me dos depoimentos de pessoas atingidas pela tragédia, acontecida em 05 de novembro do ano passado, e elas diziam que não haviam recebido nenhuma assistência da empresa, e a incongruência é a de que, se a Samarco estivesse, realmente, por perto, a tragédia nem teria ocorrido, pois cuidar da segurança da barragem era de inteira responsabilidade dela.

Outro nariz de palhaço que o funcionário tenta colocar no nariz da população é quando ele diz que o rio está vivo, que tem água barrenta, mas que está livre de poluição, que os peixes estão vivos, que ele vê, todos os dias, peixes pulando no meio do rio, e coisa e tal. Ora, isso é totalmente o contrário do que dizem os especialistas, segundo eles o rio, juntamente com sua fauna e flora, ainda levará mais de uma década para se recuperar totalmente da tragédia. No final ele ainda acrescenta: “No momento não é de preocupar não, em relação à água e os peixes que em Regência tem aqui ainda”, reescrevo está frase, pois os termos da oração invertidos no final da frase causam certa confusão a quem ouve, ou lê: “No momento não é de preocupar não, em relação à água e os peixes que ainda existe aqui em Regência”. É impressionante! Com uma tragédia ambiental dessa magnitude, a empresa ainda diz que não há com o que se preocupar? É muita irresponsabilidade por parte da Samarco. Irresponsabilidade. Falta de respeito e consideração para com o Brasil.

Não podemos mais olhar por olhar, ouvir por ouvir, temos que olhar a realidade com consciência crítica para que não nos coloquem nariz de palhaço e ainda saíamos com ele por aí, achando engraçado. Podemos até usar nariz de palhaço, mas por pura diversão, nunca por imposição de alguém com o intuito de mascarar uma realidade.

Há outra campanha publicitária parecida com a da Samarco: É a que o Partido dos Trabalhadores tem feito desde o inicio que ocupou posição de comando no Brasil. Mas essa é outra história, porém o que disse aqui, também serve acolá.

Precisamos abrir os olhos, não podemos mais aceitar tudo calados, quietos.

Abaixo segue os links no Youtube para as peças publicitárias citadas:




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