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Spider is back

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:11
Sábado, 31 de janeiro

Guerreiros são pessoas
São fortes, são frágeis
Guerreiros são meninos
No fundo do peito
(Guerreiro Menino – Gonzaguinha)



O Spider está de volta!

No final do ano passado, os fãs do UFC e de Anderson Silva, mais conhecido nesse meio como Spider, acompanhavam, estupefatos, o fatal acidente que o fez perder a luta para o norte-americano, Chris Weidman, e entrar em longo processo de recuperação. Muitos disseram naquela ocasião que ele não voltaria a lutar. Eu, particularmente, também achava isso, após ver a horrível imagem da perna de Anderson Silva quebrando-se de maneira grave.

Para alegria e surpresa de todos, o aranha está de volta. A luta será na madrugada deste sábado, 31, para domingo. O palco do combate será, novamente, a fascinante Vegas, Las Vegas, nos Estados Unidos. O adversário será o norte-americano, Nick Diaz. Para voltar a lutar, o brasileiro fez um intenso trabalho de fisioterapia e, com certeza, também um intenso trabalho mental. Quando os homens colocam os sonhos sobre as nuvens e constroem alicerces sobre eles, histórias de superação como essa vivida por Spider, são absolutamente possíveis.

Também, é verdade que os verdadeiros campeões são aqueles que sabem administrar bem, tanto as derrotas, quanto as vitórias. E Anderson Silva mostrou que sabe equacionar essas duas faces da moeda chamada UFC. Em entrevista ao site do UFC, Anderson Silva afirmou: “As derrotas me moldaram como um ser humano melhor. Todas as dificuldades que passei serviram para que me tornasse um ser humano melhor. Você está sempre errando para aprender, evoluir como pessoa, como ser humano. Eu, principalmente como pai, estou sempre errando, evoluindo. Erro com os amigos também, procuro melhorar sempre. Os amigos também erram e procuro entendê-los e me colocar no lugar deles e aprender com eles. Não sou perfeito, nem sou santo”. Nessa entrevista, Anderson ainda ressaltou: “Hoje em dia é diferente, luto mais por amor, porque amo fazer isso. Graças a Deus, tudo o que tenho conquistei com muito trabalho, muita luta. Hoje em dia não tenho mais essa preocupação, mas tenho a responsabilidade de ir lá e fazer bem feito sempre”.

Mesmo não sabendo o resultado da luta desse sábado, o Spider já merece o título de campeão por ter vencido as adversidades que se apresentaram na vida dele no dia 28 de dezembro de 2013. Naquele fim de ano, também aconteceu um terrível acidente em uma estação de esqui, na França, envolvendo o campeão mundial de Fórmula 1, Michael Schumacher.

Abaixo, para relembrar aquele terrível momento, apresento parte do texto que postei naquela ocasião.

***



Um duelo de gigantes no UFC termina de forma inesperada. Um passeio de esqui acaba de forma trágica
...

MGM Grand Graden Arena. Las Vegas. USA

Sábado, 28 de dezembro de 2013.

O imenso tabuleiro de xadrez estava armado no centro do imenso MGM Grand Garden Arena. Os jogadores, há meses, estudavam os movimentos um do outro, cada qual com a convicção de que ganharia a luta. Os movimentos naquele tabuleiro deveriam ser perfeitos. Uma jogada mal feita estragaria o treinamento de meses. O tabuleiro de xadrez, não era, na verdade, um tabuleiro. Era um octógono. Os jogadores, não estavam ali para jogar,  mas para realizar a luta de suas vidas. 

Em volta do octógono, milhares de pessoas ávidas pelo show, haviam esgotados os ingressos desde o início da semana.  Junto com elas, milhões de pessoas mundo afora, estavam parados em frente à televisão para assistir um dos maiores espetáculos da história do UFC (Ultimate Figthing Championship). As semanas que antecederam aquele momento, haviam sido de grande expectativa, debates na imprensa, nas bolsas de apostas foram bastante frequentadas.  Os holofotes, espargindo luzes brancas e coloridas sobre o palco e sobre a multidão, lembravam bem o ambiente dos grandes shows. E aquele era um grande show. Aliás, o UFC é luta, é show e também uma fábrica de dólares. Os ingressos para a luta mais esperada da história do UFC: a revanche entre Anderson Silva e Chris Weidman, esgotaram-se rapidamente. Na primeira luta, a casa recebeu um publico de 12.964 pagantes, que gerou uma renda de US$ 4.826 milhões. Dessa vez,  a bilheteria não confirmou quantos ingressos foram colocados a venda, porém, uma vez que a capacidade máxima do local é de 16.800 pessoas, estima-se que os ingressos, que foram vendidos a preços entre US$ 100 e US$ 1.000, superem os US$ 6.901.655,00 que foram arrecadados no UFC 148, na também revanche entre Anderson Silva e Chael Sonnen, maior desafeto do Spider, no Ultimate. A expectativa dos organizadores é de recorde na arrecadação do em Vegas.

Tensão e expectativa pela chegada dos dois atores principais. A luta se tornava ainda mais especial por ser a revanche da luta entre Chris Weideman e Anderson Silva, ocorrida em 07 de Julho de 2013, no mesmo local onde agora será disputada a revanche. Na ocasião, Weideman venceu a luta por nocaute, devido a uma série de atitudes imprudentes de Silva. Durante cinco meses, a luta e a atitude de Silva, foi alvo de debates e discussões na imprensa e nas academias. A revista americana Forbes chegou a publicar uma matéria em que dizia que a derrota do brasileiro Anderson Silva fora coisa combinada. Especulações á parte, foi que Chris Weideman levou para casa o tão cobiçado cinturão dos pesos médios.

Em um dos lados do octógono, de bermuda azul, está o atual campeão dos pesos médios do UFC, Chris Weideman, Nova Yorkino, nascido em Baldwin, em 17 de junho de 1984. No currículo de lutador de MMA: 10 lutas. Incentivado na carreira esportiva pelo pai, começou a lutar muito cedo. Especializou-se em luta olímpica e destacou-se nesse tipo de luta. Ganhou várias medalhas no colégio e na faculdade. Sua formação acadêmica é um bacharelado de Psicologia pela Universidade de Hofstra. Fez sua estreia no UFC em 3 de março de 2011 e, rapidamente, se destacou. Possui a habilidade de derrotar os adversários com facilidade, levando a luta para o chão, onde consegue melhores resultados. Aos 29 anos, não sabe o que é ser derrotado no octógono. No UFC, foi o único lutador a conseguir vencer Anderson Silva e a nocauteá-lo. Está invicto há dez lutas.

Do outro lado, de bermuda amarela e preta, está o desafiante, Anderson Silva, conhecido no meio esportivo como Spider. Nasceu na cidade de São Paulo, mas foi criado em Curitiba. Um lutador de estilo provocador, rápido, completo. Igual a seu adversário, começou a praticar esportes muito cedo, aos 5 anos de idade. Praticou, inicialmente, o Taekwondo, indo depois para o Muay Thai, Jiu-jistsu e boxe. Sua especialidade, porém, é o Muay Thai. Tendo passado por tantos tipos de luta, é considerado um lutador completo. Estreou no UFC em 2006 e sua ascensão foi meteórica. É considerado o melhor lutador de MMA de todos os tempos. Desde sua estreia, já contabiliza 17 vitórias, 10 defesas de títulos, 15 nocautes. É o lutador com maior  sequencia de vitórias e títulos da história do UFC. Não conhecia derrotas até que o nova yorkino cruzou seu caminho, em julho de 2013. Agora, tudo o que ele mais quer é recuperar o cinturão.

Enfim, chega o momento tão esperado: o portão do octógono fecha. O arbitro da luta olha para o Anderson Silva e para Chris Weidman e autoriza o início da batalha.

Os dois lutadores começam a luta, no centro do octógono, com a postura de boxeadores. Analisam-se um ao outro, como fariam dois praticantes do xadrez. Chris Weidman tenta o primeiro o chute. Anderson se esquiva. A plateia se agita. Todos estão tensos. Muito tensos. Chris tenta levar a luta para o seu campo de especialidade: o chão. Agarra Anderson pelas pernas e consegue o seu objetivo. O Spider passa alguns segundos no chão e consegue se levantar. A plateia continua agitada. É como se ela pudesse lutar junto, como se, naquele momento, estivesse, também ela, defendendo um título. Anderson dá uma joelhada, tenta equilibrar a luta, sua concentração é total. Weidman novamente derruba Anderson e desfere uma seqüência de socos violentos. Anderson Silva está no chão e Chris Weidman o atinge com socos violentos, bate forte, muito forte. Anderson esboça alguma reação com alguns socos tímidos e, com as pernas, tenta se livrar da pressão de Weidman. Anderson Silva passa alguns minutos, no chão, em situação desesperadora. Será que aquele seria o fim da luta para o Spider? Aquela situação, porém, não era novidade. Ele já havia passado por situação semelhante, quando lutara com Chael Sonnen, no dia 07 de agosto de 2010, no UFC 117. Na ocasião, Anderson caiu após ser atingido por um golpe de esquerda de Sonnen, que partiu para cima do adversário, golpeando-o violentamente. Anderson conseguiu aplicar um triangulo de pernas em Sonnen, obrigando-o a pedir arrego, aos três minutos do quinto round.

Para alívio de todos e, principalmente de Anderson Silva, soa o toque anunciando o fim do primeiro round. Os lutadores vão, cada um, para o seu ponto de apoio no ring, receber os cuidados necessários e orientação dos técnicos.

O arbitro anuncia o inicio do segundo round que começa com um Weidman, confiante, buscando a luta. Anderson tenta um chute baixo. Passa no vazio uma tentativa de um soco direto de Anderson Silva. A postura de Weideman é de quem quer levar a luta, novamente, para o chão, como no primeiro round. Tentando evitar que isso aconteça, Anderson procura manter certa distância. Weiderma lança golpes na tentativa de que o desafiante parta para o ataque e, dessa forma, ele possa derrubá-lo. Anderson tenta um lance comum, um chute para cima de Crhis Weidman. Chris, que já havia estudado os movimentos de Anderson, e sabe que aquele é um de seus movimentos características, se defende levantando um pouco a perna, apenas um pouco, de forma que o seu joelho forme um ângulo de 90 graus. O chute de Anderson vem com uma forte potencia e sua canela choca-se fortemente contra o joelho do americano. As câmeras de TV mostram o movimento em câmara lenta. A impressão que dá é a de que a canela do brasileiro havia se tornado de borracha. Uma imagem estarrecedora. O brasileiro desaba no chão gritando de dor. O público presente silencia. Ninguém queria ou esperava aquele desfecho. Os diversos telões espalhados pelo MGM mostravam o replay do lance. As pessoas colocavam as mãos no rosto evitando ver novamente a imagem. Os locutores esportivos que narravam à luta soltam um grito de espanto: “Meus, Deus! O que foi isso”? Chris Weidman sai alegremente comemorando, quando percebe a gravidade da situação, sua comemoração tornou-se bastante discreta. A equipe médica presta os primeiros socorros, ali mesmo, no ring. Colocam talas em sua perna e o retiram da Arena MGM, direto para a ambulância que o levaria ao hospital, enquanto o Spider  grita e se contorce com imensas dores. Quem assiste o embate pela TV também vê, com incredulidade, tudo aquilo. “Uma fatalidade”! “Que pena”! “Triste desfecho”, diziam os narradores televisivos da luta.

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Sonhos que movem o mundo

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 19:28
Quinta-feira, 29 de janeiro
Sonho que se sonha só
É só um sonho que se sonha só
Mas sonho que se sonha junto é realidade”.
(Raul Seixas)



A vida é uma cadeia de coisas e seres interdependentes, na qual se vive, ininterruptamente, uma relação de condição “sine qua non”. Condição esta, que faz com que a roda da vida gire por todo o sempre, e sem parar um instante. Os automóveis dependem do combustível, os eletrodomésticos precisam da eletricidade, os rios precisam da água da chuva, a beleza do jardim depende da mão do jardineiro… E assim por diante.

E os homens? O que os movem? Os sonhos movem e sempre moveram os homens de todas as épocas! Quantas guerras já não foram vencidas, quantos muros já não foram derrubados, quanta opressão já não foi debelada pela força que habitava no coração de homens sonhadores? Mas não basta apenas sonhar: há que ser necessário construir alicerces sobre eles. Esse pensamento foi bem expressado nessa frase de um autor anonimo: “Se seus sonhos estiverem nas nuvens, não se preocupe, pois eles estão no lugar certo; agora construa os alicerces.”

Na postagem de hoje, apenas deixo uma breve e bela mensagem motivacional do escritor, professor e médico psiquiatra brasileiro, Augusto Cury.

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Sonhe!

Um dia uma criança chegou diante de um pensador e perguntou-lhe: "Que tamanho tem o universo?". Acariciando a cabeça da criança, ele olhou para o infinito e respondeu: "O universo tem o tamanho do seu mundo". Perturbada, ela novamente indagou: "Que tamanho tem meu mundo?". O pensador respondeu: "Tem o tamanho dos seus sonhos".

Se seus sonhos são pequenos, sua visão será pequena, suas metas serão limitadas, seus alvos serão diminutos, sua estrada será estreita, sua capacidade de suportar as tormentas será frágil. Os sonhos regam a existência com sentido. Se seus sonhos são frágeis, sua comida não terá sabor, suas primaveras não terão flores, suas manhãs não terão orvalho, sua emoção não terá romance. A presença dos sonhos transforma os miseráveis em reis, faz dos idosos, jovens, e a ausência deles transforma milionários em mendigos faz dos jovens idosos. Os sonhos trazem saúde para a emoção, equipam o frágil para ser autor da sua história, fazem os tímidos terem golpes de ousadia e os derrotados serem construtores de oportunidades.


Sonhe!

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O que fazer se a água acabar em São Paulo?

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 19:36
Quarta-feira, 28 de janeiro



No último dia 25 de janeiro, uma das maiores cidades brasileiras, completou 461 anos de existência. Os paulistanos aproveitaram para comemorar a data em clima de muita festa e alegria. Acima dos fogos multicores que explodiram e enfeitaram os céus da cidade pairava uma nota de preocupação: a falta d’água. Em toda a sua história, o estado de São Paulo, e não apenas a cidade de São Paulo, enfrentou uma crise hídrica tão grave.

Pensemos em uma teia de aranha. As aranhas, essas engenheiras do mundo animal, constroem suas teias com a finalidade de servir como armadilha para pequenos insetos. Essa obra de arquitetura aracnídea é formada por uma teia circular, em formato de espiral vertical e raios interligados. Interligados, essa é a palavra para acharmos um paralelo entre a sociedade e a teia de aranha. Em uma sociedade todas as atividades estão interligadas, uma coisa sempre depende de outra para que possa existir, funcionar e, dependentes de água para nossa sobrevivência, nos tornamos mais interligados ainda. Sem a abundância da água seremos afetados em todas as áreas da vida social, seja ela educacional, cultural ou econômica.

Muitos hotéis e pousadas que localizavam-se às margens dos rios e represas, em pontos turísticos do estado já fecharam suas portas devido a falta da atração principal: a água. Se o quadro continuar se agravando, escolas e empresas terão que reduzir seus turnos de funcionamento, e a população em geral, terá de fazer um grande esforço para economizar água.

A Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), anunciou esta semana, que pode ser adotado, na cidade de São Paulo e nas grandes cidades no entorno, um rodízio drástico para economizar água. Segundo a Sabesp, se a crise hídrica continuar a se agravar pode ser adotado uma interrupção no abastecimento por cinco dias da semana, ou seja, haveria água disponível para os paulistanos, apenas dois dias por semana.

Se não chover e a água dos mananciais continuar evaporando é bem possível que sejam adotadas medidas drásticas como esta, afinal não dá para se fabricar água artificial, ela tem que ser realmente um presente da natureza.

Abaixo, compartilho matéria publicada no site do Msn, da autoria da jornalista, Mariana Desidério, abordando a questão.


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© Foto: Nacho Doce/Reuters Cenários traçados englobam redução do horário de funcionamento de alguns estabelecimentos, instituição de férias coletivas e economia de alimentos.


O que vai acontecer se São Paulo ficar realmente sem água?

Mariana Desidério

São Paulo – A crise da água em São Paulo está se agravando e o cenário não deve melhorar nos próximos meses. Especialistas consultados por EXAME.com afirmam que as soluções de curto prazo existentes já foram tomadas e o que nos resta agora é o rodízio de abastecimento. A Sabesp já cogita um revezamento severo, de cinco dias sem água por semana. Com isso, a pergunta que todo paulistano se faz é: o que vai acontecer se ficarmos realmente sem água?

Os cenários traçados vão desde o esgotamento dos nossos lençóis freáticos, devido à perfuração excessiva de poços, até a redução do horário de funcionamento de alguns estabelecimentos e a instituição de férias coletivas em decorrência da falta de água. Dentro de casa, estocagem de água e economia de alimentos.

O fato é que a atual crise veio para ficar, e será preciso mudar nossos hábitos radicalmente, alerta Gabriela Yamaguchi gerente de campanhas do Instituto Akatu, instituição que atua na promoção do consumo consciente. “Esse cenário não vai ficar só em 2015. Devemos permanecer pelo menos dois anos com pouca chuva. Portanto, a situação dos reservatórios não vai melhorar no curto prazo”, afirma.

O engenheiro especialista na área hídrica Julio Cerqueira Cesar Neto, reforça esse diagnóstico: “Quando acabar o volume morto do Cantareira nós deixaremos de ter 33 m³/s. Esse é o tamanho do problema. E não tem de onde tirar esse volume de água num curto prazo”, afirma.

Caso esse cenário se concretize, Gabriela afirma que a prioridade será dada para serviços essenciais, como hospitais, polícia, bombeiros e escolas. “Em outros locais, como shoppings, é possível que haja uma redução do horário de funcionamento. Também já ouvimos entidades empresariais falarem em férias coletivas para os funcionários, devido à falta d’água”, afirma.

No entanto, a representante do Akatu argumenta que esse tipo de situação ainda pode ser evitado. A receita estaria na articulação dos diversos atores sociais para garantir a economia de água.

“Para que não se chegue a isso, é preciso ter mais coordenação no diálogo. Não é possível esperar que só uma campanha de diminuição de consumo da população resolva o problema. Precisamos da participação do setor industrial e do agronegócio”, defende.

Poços

Enquanto essa coordenação não se concretiza, muitos estabelecimentos já estão recorrendo à perfuração de poços e, em casos extremos, à contratação de caminhões-pipa.
Porém, os especialistas explicam que a perfuração não pode ser levada ao extremo. “Se perfurar um poço muito próximo de outro, acabam os dois ficando sem água”, alerta o engenheiro Cesar Neto.

Outro problema é a possibilidade de que, com muitos poços, a cidade esgote outra fonte de recursos hídricos: os lençóis freáticos. “Com a perfuração de poços, o que estamos fazendo é apenas substituir uma fonte de água por outra. O raciocínio precisa ser diferente. Precisamos mudar nossos hábitos em relação ao consumo”, diz Gabriela, do Instituo Akatu.

Um dos caminhos para um uso mais consciente da água, segundo Gabriela, é o reuso. A água usada no enxague da máquina de lavar, por exemplo, pode ser reutilizada na descarga. Outra atitude necessária é o aproveitamento da água da chuva, inclusive com a construção de cisternas.

Outro ponto fundamental é observar nosso consumo de produtos que utilizam muita água em sua cadeia produtiva. “O exemplo clássico é o desperdício de alimentos. O maior consumidor de água do mundo é o agronegócio. E o maior desperdício que há no planeta é o de alimentos. Isso precisa diminuir”, argumenta.

De acordo com a coluna Painel, da Folha de S.Paulo, o prazo dado pela Sabesp para iniciar um rodízio drástico no abastecimento é de menos de dois meses. Sendo assim, devemos correr para aprender a economizar água e a trabalhar em conjunto pela preservação de nossos recursos hídricos.

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Oh, chuva, onde estás estais?

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 01:12
 Quarta-feira, 28 de janeiro



Onde estás? Porque tens te ausentado de nossas terras?

Lembro-me dos meus tempos de criança na comunidade de Capela, em Ceará-mirim, no Rio Grande do Norte.  Ah, como ficávamos felizes quando chegavas. Tu, chuva, fazias a festa da meninada. Caías do céu, às vezes, fininha e intermitente, às vezes forte e demorada. De qualquer modo era como o céu estivesse chorando... Ah, como eram doces as lágrimas choradas pelos infinitos céus potiguares... E quanto eras bem vindas entre nós, crianças. Saíamos de peito nu, e nos deixávamos inundar por teus pingos abençoados que, pouco a pouco, iam encharcando nossos corpos inquietos e travessos. Uma das nossas brincadeiras preferidas era fazer represas com as águas que escorriam brejeiras pelos quintais. Acho que elas buscavam um rio onde pudessem se banhar e juntar-se às águas barrentas e abundantes que neles corriam.

Nós, maliciosamente, erguíamos barreiras em teu caminho. Aos poucos tu ias te juntando a outras águas que vinha logo atrás de ti, ganhavas uma força descomunal... E estouravas as pequenas e frágeis represas por nós construídas... Continuando, tu, soberana teu caminho em direção ao rio, com a mesma alegria, com que o rio corre para o mar... Ias, talvez, quem sabe, rindo de nossa infantil inocência. Naquela divertida queda de braço, nos ensinávamos uma importante lição: a de que a união faz a força.

Ainda hoje, sinto vivamente o aroma que deixavas ao molhar a areia. Era um cheirinho tão gostoso, que dava até vontade de comer a areia. Com os rios mais cheios devido a tua rica contribuição, construíamos balsas com os troncos de uma planta que nascia à beira d’água, e a qual dávamos o nome de “aninga”. Arrastávamos essas balsas para dentro do rio... E nos sentíamos os próprios bravos marinheiros, singrando os mares, enfrentando perigos. Claro de vez em quando, algum marinheiro caia naquelas “perigosas” águas, mas logo era resgatado pelo restante da tripulação.

Às vezes o céu ficava bravo e vinhas acompanhada de muitos raios e fortes trovoadas. Nem precisa dizer que, nessas horas, ficávamos bem quietinhos, escondidos dentro de casa.

Nossas mães aproveitavam para recolher em vasilhas, o quanto podiam daquela água abençoada. Água que, posteriormente, era usada, na maioria das vezes, para molhar a horta, lavar roupas, ou alguma outra atividade na qual te achassem útil.

Nossos pais ficavam felizes, pois deixavas a terra pronta para o plantio e, além do que, tua chegada representava indícios de uma boa colheita.


Hoje, estou em Campinas, no estado de São Paulo. Antes, caias em abundância sobre as terras paulistas. Enchias as represas e a as águas corriam farta pelos rios paulistas. Na cidade grande não eras recebidas com a mesma festa com que eras recebidas pela criançada do Rio Grande do Norte. Mas chegavas do mesmo jeito e, muitas vezes, com grande intensidade, provocando inundação e alagamentos. Ninguém imaginava que pudesses cessar de vez e esvaziar nossos rios. O desperdício de água era enorme. Pessoas passavam horas lavando calçadas e carros. Pelas ruas, os canos vazavam metros e metros cúbicos de água por segundo... E o perigo se aproximando, sorrateiramente, sem que déssemos conta disso. Os governos municipais não esboçavam nenhum plano de armazenamento e contenção. Pensávamos que eras um bem eterno, desses que não acabam nunca.

Então, o pior aconteceu, desde o início do ano passado, começasses a rarear. Tua falta começou a fazer com que as águas das represas que abastecem grandes cidades fossem diminuindo, diminuindo e diminuindo. Mesmo assim, houve quem, do alto dos montes, gritasse: “Podem ficar tranquilos, em nosso estado nunca vai faltar água. Em novembro ou dezembro chove e a situação volta ao normal”. Vieram então os meses de novembro e dezembro e não chegaste com a intensidade com que eras esperada. Enquanto isso, os rios agonizavam cada vez mais.  Belas cachoeiras foram vendo suas águas minguarem. Grandes rios foram sendo reduzidos a riachos. Os grandes mananciais de abastecimento tiveram seu volume drasticamente reduzido.

Foi então que os profetas colocaram as barbas de molho e estão admitindo que é preciso fazer racionamento, e apontando soluções nunca antes imaginadas. As pessoas que, antes desperdiçavam metros cúbicos de teu liquido precioso começaram a ficar assustadas e, somente agora, estão pensando em alternativas para te economizar.

A verdade é que não sabemos como tudo isso vai acabar, mas é verdade que a situação é cada vez mais critica. Vendo a água dos rios indo embora me fica a curiosidade: Para onde será que elas estão indo que não retornam? Por que tu, abençoada chuva, tens te tornado tão escassa?

Há algum tempo, profetas sérios, desses que estudam muitos anos, vem anunciando, pregando no deserto. Diziam e dizem eles: “Olha esse tal de aquecimento global é coisa séria. Temos que diminuir a emissão de gases poluentes na atmosfera porque isso pode alterar drasticamente as condições de vida no planeta”. Não demos ouvidos a eles e deu no que deu. Alguns corações e mentes ainda não acordaram para essa realidade. Outro dia, vi no noticiário que, no oeste do Pará, foi desmatada uma área equivalente a 3 mil campos de futebol. Ah, insensatos, quanto mal causais a vós mesmos e a todos nós.

Esperamos com ansiedade que os infinitos céus voltem a chorar de alegria sobre nossas represas, nossos rios e nossos riachos, e que essas mesmas lágrimas abençoadas lavem as ruas de nossa cidade e refresque o ar que respiramos que, por sinal, tem estado extremamente quente. 

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OAB/SP e TV Cultura realizam Seminário que discutirá o tema “Reforma Política Já”

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:21
Terça-feira, 27 de janeiro

A falta de consciência política,
a impunidade gritante fomentada pelos nossos legisladores
e por todas as esferas do poder público,
aliados a ingenuidade de um povo fragilizado pela má educação,
transformam lobos carniceiros em guardiões de ovelhas”.
(Renée Venâncio)



O Brasil está mergulhado em uma profunda crise ética que, por sua vez, provoca enormes danos em todos os setores da sociedade. Essa crise provoca um efeito em cascata, ou se preferirem, um efeito dominó. Suas consequências são percebidas nos escândalos de corrupção que se sucedem ano após ano, envolvendo desvio de verbas nas áreas de saúde, educação e, principalmente, nos cofres das empresas estatais e na relação perniciosa entre estas e empresas privadas. Acredito que a sociedade deveria reunir-se em torno de um grande debate a nível nacional que chame a atenção para essas questões essenciais, a fim de que possamos levar uma vida harmoniosa em sociedade. Essa ampla mobilização de diversos setores sociais, certamente, viria a clarear nossa visão cidadã, e nos ajudaria em muito, a avançar rumo a uma democracia plena, que se fizesse sentir em todos os campos da vida humana, e não se resumisse apenas à escolha de nossos representantes.

Falando em escolha de nossos representantes, temos um processo eleitoral eficiente e moderno, mas nosso sistema político ainda é ineficiente e arcaico. A situação se assemelha a estarmos colocando remendo novo em roupa velha, ou como se estivéssemos colocando vinho novo em odres velhos, e isso representa uma tremenda insensatez. Vejamos o que dizem as sábias palavras de Jesus Cristo, o homem de Nazaré, pronunciadas há dois mil anos, mas que se colocadas nesse contexto, são de absoluta novidade: “Ninguém coloca remendo novo em roupa velha; porque o remendo força o tecido da roupa e o rasgo aumenta. Nem se põe vinho novo em odres velhos; se o fizer, os odres rebentarão, o vinho derramará e os odres se estragarão. Mas, põe-se vinho novo em odres novos, e assim ambos ficam conservados”.

Em uma iniciativa que chama a sociedade à discussão para temas relevantes, a Ordem dos Advogados do Brasil defensora dos direitos da advocacia e dos direitos da cidadania, e a TV Cultura, veículo de comunicação comprometido com o jornalismo de qualidade, se uniram para trazer à tona a discussão da tão propagada, e nunca realizada, Reforma Política.

Na quinta-feira (29), das 8h30 às 13h45, as duas instituições estarão realizando nas dependências da nova sede da OAB, na capital paulista, situada Rua Maria Paula, 35, o Seminário “Reforma Política Já”. O evento faz parte de uma série de eventos semelhantes, cujo objetivo é fazer com que sejam implantadas no campo político, as mudanças esperadas há tanto tempo pela sociedade.

Os painéis do seminário serão transmitidos, em tempo real, através do site da OAB/SP e do CMAIS, da TV Cultura. Por volta do meio dia, já próximo ao final do evento, o Jornal Cultura Primeira Edição, também passará a transmitir o evento. O Jornal Cultura Segunda Edição trará reportagens do que foi o evento. Outro programa da emissora que estará envolvido é o JC Debate — programa de entrevistas, que saíra do estúdio, na Fundação Padre Anchieta, e se deslocará a sede da OAB/SP, local onde estará acontecendo o evento.

Para discutir temas como financiamento de campanha, sistema eleitoral, reeleição, obrigatoriedade do voto, dentre outros, estarão presentes; sociólogos, cientistas políticos, magistrados, juristas, advogados, representantes da sociedade civil e telespectadores da TV Cultura.

Personalidades de grande expressão no cenário nacional foram convidados para o evento, como por exemplo; Carlos Ayres Brito e Nelson Jobim, ex-ministros do STF,  Gilmar Mendes, atual ministro do STF, José Gregori, ex-ministro da justiça e o governador do Estado de São Paulo, Geraldo Alckmin,  além dos juristas: Dalmo de Abreu Dalari, Ives Gandra Martins e Almino Monteiro Alvares Affonso. O evento também contará com a presença de Marcos da Costa, presidente da OAB, Seção São Paulo, e Marcos Mendonça, presidente da Fundação Padre Anchieta e Belisário dos Santos Junior, presidente do Conselho da Fundação Padre Anchieta.

Para quem quiser assistir os debates no auditório da OAB/SP, as inscrições podem ser feitas no Departamento de Cultura e Eventos da OAB/SP, através do telefone (11) 3291-8201. 

A preocupação com o fortalecimento das instituições republicanas não se restringe a OAB paulista, mas abrange os anseios da instituição a nível nacional. “Defendemos uma profunda reforma política, que consolide e aperfeiçoe a nossa democracia. É preciso assegurar a igualdade de condições entre os candidatos, fortalecer e democratizar os partidos, e estimular o debate programático. Em síntese, o projeto de reforma política defende o fim do investimento de empresas privadas em campanhas com o estabelecimento de um teto orçamentário por parte do TSE. As campanhas seriam financiadas pelo fundo partidário e pelos eleitores, que também teriam sua contribuição limitada. As eleições seriam proporcionais em dois turnos, com paridade de gênero na lista pré-ordenada, além do fortalecimento dos mecanismos da democracia direta com a participação da sociedade em decisões nacionais importantes. Nas pesquisas recentes realizadas pela OAB, fica claro o descontentamento da sociedade com a efetividade dos direitos básicos garantidos pela constituição”, afirma o presidente do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) Marcus Vinícius Furtado Coelho, em entrevista a Revista Nacional da OAB.


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Taiguara: Um grande talento da música brasileira esquecido nas páginas do tempo – Parte II

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:34
Domingo, 25 de janeiro 


O único modo de lidar com um mundo de pouca liberdade,
é se tornar tão absolutamente livre,
que sua mera existência é um ato de rebeldia”.
(Albert Camus)

Vai recupera a paz perdida e as ilusões,
não espera vir a vida às tuas mãos
Faz em fera a flor ferida e vai lutar

 (Viagem – Taiguara)






Os Festivais de Música

Um dos eventos de suma importância para a revelação de grandes nomes da música popular brasileira foi, sem dúvida, os Festivais de Música. Esses festivais foram transmitidos por grandes emissoras de TV entre 1965 e 1985, tendo seu ponto alto no final da década de 60 e início dos anos 70. Com a tomada de poder pelos militares em 1964, a sociedade brasileira passou a sofrer forte repressão, principalmente, na música, teatro, cinema, literatura e outras vertentes que envolvessem arte e cultura. Em meio a toda essa repressão e perseguição, os artistas encontraram, armas para fazer oposição ao duro regime que restringia liberdades. Uma dessas armas eram as músicas, que ficaram conhecidas como músicas de protesto. Como esses concursos alcançavam grande sucesso, os militares resolveram intensificar a vigilância sobre eles e sobre os artistas que deles participavam. Eles temiam que as canções pudessem, de alguma forma, atingir a moral e os bons costumes, ou as bases do próprio regime.

Atento ao que acontecia ao seu redor e com sede de mostrar sua arte, Taiguara também fez sua incursão por esses festivais. Sua primeira participação neles aconteceu no I Festival Internacional da Canção (I FIC), em 1966, realizado no ginásio do Maracanazinho, no Rio de Janeiro. Nesse festival as músicas vencedoras do 1º, 2º e 3º lugares foram, pela ordem; Saveiros (Dori Caymmi e Nelson Motta), com Nana Caymmi; O cavaleiro (Tuca e Geraldo Vandré), com Tuca e Dia das rosas (Luiz Bonfá e Maria Helena Toledo), com Maysa. Taigura chegou a grande final com a música Não se morre de amor, de Reginaldo Bessa, sua música porém, não chegou a figurar entre os três primeiros lugares, entretanto sua participação nesse festival o projetou ainda mais na mídia.

Não bastasse todo o sofrimento que os brasileiros enfrentavam com a repressão feita pelo governo dos militares, em 1968, outro duro golpe viria a atingir em cheio a liberdade de expressão. Naquele ano, era decretado pelo General Costa e Silva, o Ato Institucional no 5, o AI-5, como ficou conhecido. Dentre outras arbitrariedades o AI-5 permitia cassar mandatos de parlamentares, cassar direitos políticos de cidadãos por dez anos, fechou o Congresso Nacional por tempo indeterminado. Mesmo assim, os festivais de música continuavam acontecendo. Apesar da forte censura e vigilância que impunham os militares também lucravam com eles, ao passar para o exterior uma imagem de que estava tudo em paz no Brasil.

Na quinta edição do FIC, em 1970, o cantor Toni Tornado e Erlon Chaves, maestro e arranjador, já haviam sido atuados pela Polícia Federal e também receberam advertências por parte dos censores. Os dois músicos, ambos negros, durante a apresentação da música, Eu também quero mocotó, de Jorge Ben, trouxeram para a apresentação musical, mulheres brancas e loiras. Vestindo roupas colantes da cor da pela, as mulheres pareciam seminuas e insinuavam beijar os cantores. A sensualidade do número irritou os censores.

Na sexta edição do FIC, em 1971, foram inscritas 1.500 músicas. Em julho a Secretaria de Turismo, que organizava o concurso junto com a Rede Globo, fez o anúncio das 23 músicas selecionadas para o 6º FIC. Tudo corria bem, a divulgação do evento já estava sendo feita, dentro e fora do país, quando chegou uma notícia que pegou a todos de surpresa: a Polícia Federal queria informações detalhadas de todas as pessoas que fossem participar do festival e isso incluía cantores, compositores, arranjadores e até mesmo dos ajudantes. Eles queriam essas informações com a desculpa de que precisavam fazer uma carteirinha de identificação dos participantes.

Indignados com a situação, e com essa coisa de carteirinha, os artistas revoltaram-se e enviaram uma carta conjunta endereçada a direção do FIC ameaçando não participar do festival. Paulinho da Viola, Tom Jobim, Vinicius de Moraes e Chico Buarque, estavam entre os que assinaram a carta.

Criou-se uma situação embaraçosa para a Secretaria de Turismo e para a Rede Globo, uma vez que sem a participação dos artistas não haveria festival e, por outro lado, o governo não permitia que o festival fosse cancelado. Enfim, depois de muita negociação, chegou-se a um consenso entre as partes e o festival foi realizado. Resolvidas todas as questões o festival aconteceu em setembro, sendo as músicas classificadas, apresentadas em duas eliminatórias no dias 24 e 25, sendo a grande final no dia 26. A canção vencedora daquele festival foi Kyrie, uma canção da autoria de Paulinho Soares e Marcelo Silva, apresentada pelo Trio Ternura.



O início da perseguição



O 6º FIC marcou o início da perseguição do regime contra o artista Taiguara. Das todas as músicas apresentadas a censura, em uma análise superficial, duas foram logo vetadas: Pirambeira, de Hermínio Bello de Carvalho e Maurício Tapajós e Corpos nús, de Taiguara. Era apenas a primeira entre dezenas de músicas do artista que não passariam pelo crivo dos censores.

Entre os anos de 1965 — quando estreou no mercado musical, aos 19 anos, com o LP, Taiguara — em 1970, o cantor não foi incomodava o sistema, pois nesse início de carreira, dedicava-se a compor e gravar músicas românticas. Depois que aderiu a uma vertente na qual começou a abordar temas proibidos pelos militares tais como política, sexo e drogas, chamou para si a atenção dos censores e a perseguição começou para valer. Ao todo, foram 81 músicas censuradas, incluindo dois discos vetados por completo: Let the children hear the music (1974) e Imyra, Tayra, Ipy, Taiguara (1975). Somente em 2013, o disco foi reeditado e relançado no mercado brasileiro, pela gravadora Kuarup.

No ano de 1973, Taiguara já acumulava diversas músicas censuradas. Nesse ano firmara contrato com a gravadora para lançar o disco Fotografias, quando, mais uma vez, mais uma vez a censura vetou algumas músicas. Em Nova York, uma das músicas vetadas, o compositor conseguiu driblar os censores. Ele usara na música uma figura de linguagem chamada aliteração — essa figura de linguagem consiste na repetição de determinados sons consonantais idênticos ou semelhantes. Na década de 80, o cantor relataria o episódio durante a turnê do show, Treze Outubros:

— Sim, meu filho, você colocou aqui: Pão. Pó. Pedra. Polícia. E a poluição. E nós somos a polícia, meu filho. Não fica bem.
— Dona Marina, isso é uma aliteração. A senhora sabe o que é uma aliteração. Que tal, para deixar bem claro que eu não me refiro a nossa polícia, não tenho nada contra a nossa polícia, dona Marina, eu me refiro à de Nova York. Se, em vez cantar a palavra em português, eu cantasse em inglês?
Dona Marina, coçou o queixo, olhou para Sá, companheiro de censura dela, e perguntou:
— O que você acha, Sá?
— Não sei, Marina, pede para ele cantar. Disse Sá, coçando o bigode.
Ficaria assim, dona Marina, disse eu, e cantei:
— Você paga o pão, o pó, a pedra, a police e a poluição.
Os censores aceitaram a mudança e a música foi gravada no disco.

A perseguição dos militares a Taiguara, entretanto, não se restringia a vetar suas músicas e impedir a venda de seus discos, eles também monitoravam os shows do artista. Em qualquer cidade do país na qual o cantor estivesse se apresentando, lá estavam também os olhos e ouvidos dos agentes da ditadura. Através de ameaças ao público que assistiria aos shows, eles conseguiam que apresentações fossem canceladas. Os militares também tinham forças para cancelar as entrevistas agendadas com o astro.

Cansado de tudo isso, Taiguara deixar o país através do Porto de Vitória, no ano de 1974, quando saiu do Brasil levando sua recém-esposa e seu amigo inseparável: o piano. Muitos artistas também seguiram o mesmo caminho de Taiguara, saindo do país. Às vezes por vontade própria, outras vezes, por imposição dos militares.




Em Londres: Muito trabalho e mais um disco censurado

O uruguaio-brasileiro, não foi à Londres para um passeio turístico. Aproveitou o rico ambiente cultural que rondava a cidade, e matriculou-se na conceituada Guildhall School of Music & Drama. Não abandonou também a rotina de composições e ensaios. Era convidado para apresentar-se nos bares londrinos e não perdia a oportunidade de mostrar sua arte. Sua sede de aperfeiçoar seus conhecimentos musicais acabaria por tornar seu trabalho ainda mais rico e diversificado. Taiguara também não perdeu tempo em aumentar seu círculo de amizades e aproximou-se de figuras importantes no cenário musical internacional, como por exemplo, Jonh Cameron, compositor e arranjador das trilhas hollywooddianas.

Também em Londres, Taiguara gravou pelo selo KPM, o álbum Let the Children Hear the Music. Na verdade, a música que inspirou o título do disco gravado em inglês, já havia sido gravada em seu último disco, Fotografias, sob o título, Que as crianças cantem livres. O cantor e os advogados da emissora, acreditavam que os braços terríveis da ditadura não conseguiriam alcançá-los em outro país. É possível que o artista tenha ido à Londres gravar esse disco, pensando em fazer músicas contra o regime, e comunicar-se com o público brasileiro em outra língua. O monstro da ditadura porém tinha seus truques para caçar suas presas em terras estrangeiras. Eles enviaram a EMI-Odeon, uma ordem de veto total ao disco. Com isso, o talento e a criatividade de Taiguara foram podados, mais uma vez.

A volta ao Brasil… E mais um disco vetado

Taiguara retornou ao Brasil em 1975 e logo retomou os trabalhos preparativos para o lançamento do disco Imyra, Tayara, Ipy e Taiguara, disco que havia começado a preparar entre os anos de 73 e 74. Para muitos críticos, esse é o trabalho mais significativo e um dos mais belos da carreira de Taiguara. Nele, o artista faz uma mistura de diversos estilos, como bossa-nova, jazz, com elementos da cultura africana, indígena e ibero-americana. O disco resultou em uma obra-prima. Nesse trabalho, a preocupação com as questões políticas e sociais se fizeram mais fortes, mais presentes. Foi um trabalho grandioso, que exigiu muito trabalho e dedicação. Os melhores representantes da música, mineira, paulista e carioca estiveram envolvidos na tarefa. O grande compositor e arranjador, Hermeto Pachoal também participou do projeto. Em 1976, o trabalho estava pronto.

Obvio, os militares também estavam vigiando todos os passos dessa atividade... E dessa vez, agiram com requintes de crueldade. Esperam o disco ser gravado, prensado e distribuído. Quando o disco já começava a chegar às prateleiras das lojas, veio a ordem para que fosse recolhido. Para surpresa geral, a censura havia vetado todas as músicas, a produção, distribuição, divulgação e comercialização do trabalho. Gravadora e artistas tiveram enorme prejuízo financeiro, sem contar as horas de trabalho perdidas.

Diante de mais uma decepção, Taiguara embarca mais uma vez para a Europa, em mais um autoexílio. Ele já estivera em terras europeias por duas vezes: em 1972, quando fez uma turnê por Londres, Paris e Roma e em 1974, por ocasião de seu primeiro autoexílio. Dessa vez, sua viagem foi mais longa. Inicialmente, ele foi à Londres, Paris e Genebra, seguindo depois para o continente africano.



Um Taiguara diferente volta do auto-exílio na África

Após esse autoexílio por terras europeias e africana, um novo Taiguara desembarcou em terras brasileiras em 1977. Essa mudança se refletia no seu jeito de vestir, antes ele gostava de usar roupas exóticas e coloridas, que lembravam os hippies e a contracultura. Agora seu figurino estava sóbrio. Tornou-se radical em relação as questões políticas e sociais. Estávamos no final da década de 70 e o regime ditatorial começava a perder forças. Foi justamente nesse período que Taiguara tornou-se um ser político mais engajado. Afastou-se do palco por algum tempo, alegando que enquanto suas músicas fossem motivo de veto, ele não cantaria mais. Nesse meio tempo, dedicou-se às atividades jornalísticas e a militância em organizações de esquerda. Em 1984, participou da campanha pelas Diretas Já, ao lado de Tancredo Neves.

Foi nesse período de distanciamento dos palcos que Taiguara conheceu e tornou-se amigo de Luís Carlos Preste, uma lenda em meio aos movimentos revolucionários de esquerda, organizador da famosa Coluna Prestes. A aproximação a Prestes, fez com que a vigilância dos militares à Taiguara fosse redobrada. Eles o vigiavam cada passo seu, dia e noite. Afinal, a maior tarefa dos militares era vigiar comunistas, e Prestes era o maior deles. Taiguara e a família passaram a receber ameaças de morte e sequestro.

Em meados dos anos 80, convencido pela família, o artista resolve retomar a carreira musical. Nessa época, o contrato dele com EMI-Odeon já havia terminado e ele tentou uma aproximação com a Continental. Por esse selo ele lançou o disco Canções de amor e liberdade. Era o seu retorno aos discos após nove anos de ausência. O artista havia-se tornado tão radical que ele mesmo foi obstáculo ao sucesso de sua obra. Querendo afastar-se dos padrões da indústria capitalista, Taiguara exigiu que seu disco fosse lançado, durante uma coletiva de imprensa no Morro do Borel, comunidade de baixa renda do Rio, deixando de lado os ambientes finos e requintados. Essa estratégia de marketing e também o fato de que disco e público-alvo estavam em universos diferentes, não ajudou muito na comercialização do disco e as vendagens foram muito fracas.

Os fãs do astro ficaram um pouco confusos com o estilo musical do cantor. Eles estavam acostumados com as belas letras românticas ou com as questões políticas e sociais, diluídas nas canções. Dessa vez não, a mensagem política estava bem explicita, mensagens muito diretas.



A luta contra o câncer

Veio o ano de 1987 e Taiguara casou-se novamente. Com a nova esposa, Ana Lasevicius, foi pai de Lenine Guarani. O Brasil já saíra dos horrores da ditadura e caminhava para a liberdade. Entretanto, a situação financeira do país não era das melhores. Economicamente, o país atravessava um clima de estagnação. A inflação e o desemprego estavam altos. O país também enfrentava o pesadelo de uma divida externa. Em 1989, Fernando Collor de Melo foi eleito para a presidência da República e, no ano seguinte, confiscou o dinheiro de todos os brasileiros que haviam aplicado dinheiro em cadernetas de poupança. O país inteiro, praticamente, parou. Muitas empresas faliram e houve casos de suicido de pessoas inconformadas com a situação. A situação também afetou o mercado dos discos. A venda de LPs caiu.

O fato é que, em meio a tudo isso, Taiguara era uma estrela que havia perdido o brilho. Depois de tantas idas e vindas e de ter sua criatividade ceifada pelo regime militar, pouca gente se lembrava de quem fora e quão criativo fora o Taiguara do início de carreira. Muitos que o haviam admirado pelas suas canções românticas, não o reconheciam em um estilo radicalmente politizado. Enquanto os outros artistas que, como ele, haviam passado pelo crivo da censura voltavam a gravar músicas românticas, Taiguara ia na contra mão, gravando músicas altamente politizadas, quase panfletárias.

Em 1989, Taiguara foi diagnosticado com câncer na bexiga. Certa teimosia o impediu de admitir que estivesse doente. Por causa disso, demorou para que começasse os tratamentos contra a doença. Enfim, a doença já se fazia inegável e ele resolveu ir á Cuba para o início do tratamento. O tratamento, aparentemente, surtiu efeito, e ele retornou ao Brasil. Porém, o tipo de câncer que o havia acometido era extremamente agressivo e a doença voltou a se manifestar novamente, de forma ainda mais grave do que na primeira fase. Debilitado pela doença, já não podia fazer longas viagens e teve que se tratar no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo.

No dia 14 de junho de 1996, finalmente, após as lutas, primeiro contra a censura, e depois contra o câncer, Taiguara descansou em paz.


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