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Djokovic, o Bolsonaro do tênis

Posted by Cottidianos on 12:34

Domingo, 16 de janeiro

Se a quadra de tênis fosse um reino, Novak Djokovic seria o rei, assentado no trono, tendo na cabeça uma coroa de ouro. O atleta é perfeito naquilo que sabe fazer: jogar tênis. É um gênio nessa modalidade de esporte.

Mas saindo das quadras, tirando a coroa da realeza, e vestindo os trajes de um simples mortal, o sérvio se revelou um idiota. É arrogante, antipático. Essas caraterísticas dele já eram conhecidas. Mas, em 2019, veio a praga do coronavírus — esse vírus que até hoje nos causa preocupação — e o tenista sérvio tirou mais algumas máscaras e revelou caraterísticas que o mundo não conhecia a respeito de sua personalidade.

Djokovic mostrou não ter nenhuma empatia e respeito para com os seus irmãos em humanidade. Revelou-se um negacionista ferrenho, desses que desdenham da doença, rejeitam a vacina, e desprezam a ciência e, para completar, é adepto do movimento antivacina. Se a quadra de tênis fosse um país, o tenista sérvio seria um Jair Bolsonaro na presidência.

Desde os primeiros dias desse ano de 2022, o mundo tem acompanhado com bastante interesse a novela Novak Djokovic, o bad boy do tênis.

O Australian Open, o primeiro grande slam deste ano, começa na segunda-feira, 17. Grandes nomes do mundo do tênis darão o melhor de seus esforços nas quadras australianas, em mais uma temporada do torneio. No Melburn Park jogarão nomes como, Rafael Nardal, Naomi Osaka e Ash Barty.No ano passado, Djokovic, foi o campeão do torneio, levantando seu 9o troféu na Austrália.

Mas no ano passado, ainda estávamos sendo assolados gravemente pela pandemia, e não tínhamos ainda as salvadoras vacinas. Correu o tempo, e correu também cientista de todo mundo em busca de uma solução para a pandemia do coronavírus. Os esforços dele foram bem-sucedidos e, em tempo recorde, tínhamos uma vacina contra o coronavírus.

Com as vacinas vieram também uma série de exigências. Uma delas foi que, para se entrar em determinados lugares, participar de competições, e realizar diversas outras atividades, passou a ser exigido a apresentação da carteira de vacinação. Se já se vacinou, entra. Se não, fica de fora. Simples assim.

Foi numa dessas que, em setembro do ano passado, o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, alguns ministros, e outros membros de sua comitiva, estando em Nova York para participar da Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU), foi obrigado a comer pizza em uma calçada, simplesmente, porque não pode adentrar nas dependências do restaurante novaiorquino que exigia a apresentação da carteira de vacina contra a covid-19.

Com o Australian Open não foi diferente. É exigido do atleta a comprovação de que tomou a vacina, ou apresentar um certificado de dispensa dela, assinado por uma junta médica. Não tendo tomado a vacina, aliás, criticando-a sempre que pode, o bad boy do tênis, resolveu participar do torneio.

Com a permissão dos organizadores do torneio, botou na mala o certificado de dispensa exigido pelas autoridades australianas, junto com o comprovante de que se recuperara de Covid-19 recentemente, e partiu para a Austrália.

Desembarcou na quarta-feira, 5, no aeroporto de Melbourne com um sorriso no rosto. Sorriso esse que logo lhe sumiu do rosto quando, ainda no aeroporto, as autoridades australianas lhe disseram não aceitavam a autorização especial que o isentava da vacina. Djokovic teve o visto de entrada negado e foi informado que teria de deixar o país nas próximas horas.

Era o primeiro capítulo da novela bastante assistida em todo o planeta desde aquele dia. O Jornal Nacional do dia 05 de janeiro chamou o episódio de “vexame planetário”.

Após um interrogatório que cerca de oito horas, as autoridades australianas concluíram que faltava informação na documentação dele. Ele não conseguiu justificar a permissão especial que o dispensava de apresentar o comprovante de vacinação e foi encaminhado a um hotel de refugiados, em Carlton, Melbourne, cujas condições de acomodação são péssimas.

Djokovic recorreu à Justiça Australiana e, na segunda-feira, 10, o juiz federal, Anthony Kelly, concedeu ao esportista o direito de permanecer no país e disputar o Australian Open. O juiz considerou a decisão de barrar o tenista “irracional”, e ordenou que fossem devolvidos documentos pessoais que haviam sido apreendidos no aeroporto, e que Djokovic fosse libertado em 30 minutos.

Na terça-feira, 11, o tenista foi visto treinando na sede do Australian Open, mas sua participação no torneio ainda era incerta.

Nesta sexta-feira, 14, novo capítulo na novela que prendeu a atenção de pessoas dentro e fora do mundo esportivo. O governo australiano decidiu cancelar o visto do número 1 do mundo no tênis, entretanto, ele não poderia ser deportado pois apresentara recurso, e o governo aguardaria o pronunciamento da justiça. Segundo o ministro da Imigração, as razões para cancelar o visto de entrada do tenista sérvio seriam de “saúde e ordem pública”.

E a agitada e tensa trama prosseguiu. Neste sábado, 15, o governo australiano determinou que Djokovic fosse detido novamente no Park Hotel, em Melbourne, o mesmo hotel de refugiados que havia sido detido anteriormente. Ele ficará lá até que a Justiça se pronunciasse sobre o seu processo de extradição por não ter tomado a vacina contra a Covid-19. A audiência foi realizada neste domingo. Os advogados do tenista tentaram obter uma liminar para permitir que ele permanecesse no país e disputasse o Australian Open.

Toda novela, por mais audiência que tenha, chega uma hora que tem o seu último capítulo. Com a novela, Djokovic, bad boy do tênis, não foi diferente. Na madrugada deste domingo, a Justiça australiana indeferiu o pedido de Novak Djokovic para permanecer no país, e disputar a edição 2022 do Australian Open, mesmo sem estar vacinado contra a Covid-19.

A decisão pôs fim a tentativa da defesa do sérvio de reverter o segundo cancelamento de seu visto. O tenista estrearia no torneio já nesta segunda-feira, 17, dia em que o começam as competições. Com o indeferimento do recurso, o tenista sérvio foi obrigado a deixar o país.

Para Djokovic estava em jogo, não apenas mais um Grande Slam, mas a oportunidade de bater o recorde de 21 títulos de Grande Slam ((Australia Open, Roland Garros, Wimbledon e US Open). Ao ser deportado, o tenista sérvio, número um do mundo, perde o direito ao visto australiano por três anos, ou seja, por três anos ele não poderá disputar o Australian Open. Se Djokovic já vinha arranhando a sua imagem durante a pandemia com suas atitudes inconsequentes, com o episódio Australian Open, ele quebra a sua imagem, além de ser submetido a um “vexame planetário”.

Algumas das perguntas que ficam, caros leitores e leitoras, são as seguintes: Vale a pena prejudicar uma carreira, um emprego, um trabalho, ao dar ouvidos as baboseiras que dizem esse povo do movimento antivacina? Vale a pena insistir em não querer se vacinar quando o mundo, mais uma vez, é sacudido pela Ômicron, nova variante do coronavírus, e por surtos de gripe? É lícito por a própria saúde e a saúde dos outros em risco ao negar a ciência?

Após a decisão, o atleta disse: “Agora vou tirar um tempo para descansar e me recuperar”. Descansar e se recuperar: Apenas isso não basta Djokovic. É preciso que você pense e repense suas atitudes irresponsáveis e inconsequentes que podem, inclusive, pôr em risco a saúde daqueles que se esforçam por seguir todos os protocolos exigidos pela ciência no combate ao coronavírus, inclusive, no ato de tomar a vacina contra a doença, ato que ajudado a evitar tantas mortes por Covid-19. Descanse, Djokovic, pois o mundo já está cansado de pessoas irresponsáveis como você.

O tenista sérvio prova com seu exemplo que ser o número 1 no jogo não significa necessariamente ser o número 1 na vida. Para ser o número 1 no jogo é preciso uma boa dose de talento, habilidade, e técnica, e isso, reconheçamos, Djokovic possui. Mas, para ser o número 1 na vida, é necessário bem mais que isso. É preciso uma consciência expandida, senso de responsabilidade, empatia, amor e respeito ao próximo.

O sérvio provou nessa pandemia que ainda não despertou esses requisitos em sua consciência. A irresponsabilidade dele é tamanha que em junho de 2020, em plena pandemia, organizou o Adria Tour, torneio de tênis cujas partidas se desenvolveram na Croácia e na Sérvia. Um desses jogo chegou a ter 4.000 pessoas presentes nas arquibancadas.

Tudo como se o mundo não estivesse atravessando uma pandemia, nesses jogos não havia a menor preocupação com distanciamento social, máscaras, ou álcool gel. Dane-se a ciência, era a regra nas partidas organizadas por Djokovic. Foi nesse evento que reuniu as 4.000 pessoas que o sérvio, sua esposa e outros tenistas contraíram covid. Ele veio a público pedir desculpas.

A defesa de Djokovic, para justificar a isenção especial que recebeu, afirmar que o tenista tinha se recuperado, recentemente, de Covid-19, apresentou exame. O primeiro teste de Covid teria sido feito em 16 de dezembro de 2021, e depois de não apresentar febre ou dificuldade respiratória ele se candidatou a isenção especial para competir no primeiro grande slam do ano. Tais documentos foram apresentados na segunda-feira, 10, data da audiência do tenista na Justiça australiana.

Como novela boa sempre tem que ter uma pitada a mais de pimenta, chega a respeitada revista alemã, Der Spiegel e diz que o tenista sérvio pode ter falsificado esse exame.

A Der Spiegel confrontou os documentos apresentados pela defesa de Djokovic à Justiça australiana com dados do Instituto de Saúde da Sérvia e verificou inconsistências entre as informações contidas em ambos os documentos.

Um desses indícios apontou que o teste negativo para a covid-19, havia sido produzido antes de um segundo teste com resultado positivo. Outra informação curiosa apontada pela revista é em relação ao QR registrado no teste Covid do atleta, datado de 16 de dezembro.

Quando a Der Spiegel acessou esse código verificou que, no espaço de pouco mais de uma hora, havia dois resultados diferentes para o mesmo código. O resultado do primeiro teste realizado às 13h19min, horário local, aparece como negativo. E no teste realizado às 14h33min, o resultado aparece como positivo.

Outra coisa chama atenção em toda essa confusão. Se Djokovic diz que testou positivo para Covid-19 em 16 de dezembro, por que ele foi a uma cerimônia no Novak Tennis Center, em Belgrado, ocorrido em 17 de dezembro, com menos de 24 horas após teste positivo para Covid-19?

No evento, o tenista foi fotografado, sorrindo com a maior naturalidade, sem máscara de proteção, abraçando crianças e distribuindo prêmios a jovens fãs, nesse evento que era beneficente.

E não parou por aí. No dia seguinte a esse evento, o atleta, postivado para Covid, ao invés de estar em quarentena, estava participando de uma sessão de fotos e dando entrevista para o esportivo francês L’Equipe. Novak Djokovic diz que não sabia que estava com Covid. Ora, quem acaba de fazer um teste para Covid, e pode ter suspeita da doença, se gosta realmente das pessoas que o rodeiam, o certo é se colocar logo em quarentena, e não sair por aí, beijando, abraçando, e dando entrevistas.

A respeito do comportamento de Djokovic, deixo aos leitores e leitoras três alternativas:

A)    Djokovic estava mentindo ao falar que testara positivo para Covid-19.

B)     Ele realmente queria contaminar pessoas, mostrando, dessa forma, seu lado mais cruel.

C)     O atleta é um grande irresponsável.

O caro leitor pode escolher uma delas, ou mais de uma.

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Davi Seremramiwe, indígena, primeira criança a ser vacinada no Brasil


Aqui no Brasil, temos boas notícias. Já chegaram ao país as vacinas para as crianças. Um grande alívio para os pais que, em meio a escalada de casos de Covid-19, e surto de gripe, veem se aproximar o início do ano letivo. 

Mas as coisas não foram assim tão simples. Dessa vez também teve o fator complicador chamado Jair Bolsonaro a colocar dúvidas sobre a eficiência das vacinas para as crianças. É o “Dr. Bolsonaro” mais uma vez, cumprindo seu papel, de espalhar dúvidas e confusão, e negar a ciência.

Bolsonaro é tão idiota que sabota o próprio governo. Um dia depois que o governo federal anunciou o cronograma de vacinação para as crianças, ele voltou a criticar a vacina direcionada ao público infantil.

A Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária] lamentavelmente aprovou a vacina para crianças entre 5 e 11 anos. A minha opinião eu quero dar para você aqui. A minha filha de 11 anos não será vacinada!”, disse ele em entrevista a TV Nordeste, do estado de Pernambuco, na quinta-feira, 6.

Durante a entrevista o presidente também lançou dúvidas sobre a idoneidade dos técnicos da Anvisa. “E você vai vacinar seu filho contra algo que o jovem por si só uma vez pegando o vírus a possibilidade de ele morrer é quase zero? O que é que está por trás disso? Qual é o interesse da Anvisa por trás disso aí? Qual é o interesse daquelas pessoas ‘taradas por vacina’? é pela sua vida? É pela sua saúde? Se fosse estariam preocupados com outras doenças do Brasil, que não estão”, acrescentou ele.

Na entrevista a TV Nordeste Bolsonaro também questionou o repórter se se ele tinha conhecimento de crianças de 5 a 11 anos que tivesse morrido de Covid. Além de ser sádico o presidente também é desinformado, pois, de acordo com o próprio ministério da Saúde, desde o início da pandemia 311 crianças com idade entre 5 e 11 anos perderam a vida por causa da Covid.

As palavras do presidente ecoam na fraca mente de seus eleitores, basta ver nos discursos deles quando falam de vacina.

                                               Antonio Barra Torres - Diretor da Anvisa

No sábado, 8, o diretor presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres, deu uma resposta digna de aplausos ao presidente, Jair Bolsonaro, e que merece ser reproduzida na íntegra.

 

Íntegra da nota

Nota – Gabinete do Diretor Presidente da Anvisa, Sr. Antonio Barra Torres

Em relação ao recente questionamento do Presidente da República, Jair Messias Bolsonaro, quanto à vacinação de crianças de 05 a 11 anos, no qual pergunta "Qual o interesse da Anvisa por trás disso aí?", o Diretor Presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres, responde:

Senhor Presidente, como Oficial General da Marinha do Brasil, servi ao meu país por 32 anos. Pautei minha vida pessoal em austeridade e honra. Honra à minha família que, com dificuldades de todo o tipo, permitiram que eu tivesse acesso à melhor educação possível, para o único filho de uma auxiliar de enfermagem e um ferroviário.

Como médico, Senhor Presidente, procurei manter a razão à frente do sentimento. Mas sofri a cada perda, lamentei cada fracasso, e fiz questão de ser eu mesmo, o portador das piores notícias, quando a morte tomou de mim um paciente.

Como cristão, Senhor Presidente, busquei cumprir os mandamentos, mesmo tendo eu abraçado a carreira das armas. Nunca levantei falso testemunho.

Vou morrer sem conhecer riqueza Senhor Presidente. Mas vou morrer digno. Nunca me apropriei do que não fosse meu e nem pretendo fazer isso, à frente da Anvisa. Prezo muito os valores morais que meus pais praticaram e que pelo exemplo deles eu pude somar ao meu caráter.

Se o senhor dispõe de informações que levantem o menor indício de corrupção sobre este brasileiro, não perca tempo nem prevarique, Senhor Presidente. Determine imediata investigação policial sobre a minha pessoa aliás, sobre qualquer um que trabalhe hoje na Anvisa, que com orgulho eu tenho o privilégio de integrar.

Agora, se o Senhor não possui tais informações ou indícios, exerça a grandeza que o seu cargo demanda e, pelo Deus que o senhor tanto cita, se retrate.

Estamos combatendo o mesmo inimigo e ainda há muita guerra pela frente.

Rever uma fala ou um ato errado não diminuirá o senhor em nada. Muito pelo contrário.

Antonio Barra Torres

Diretor Presidente - Anvisa

Contra-Almirante RM1 Médico

Marinha do Brasil

 Bolsonaro disse que a resposta de Barra Torres foi agressiva. Mas continuou atacando a Anvisa e as vacinas. O presidente Jair Bolsonaro possui espírito hitleriano. O führer, e a alta cúpula do III Reich, se alimentavam de confusão, de ódio, e de mentiras. Quanto mais confusão estivesse acontecendo no país e no entorno deles, melhor. As pessoas, mesmo as mais próximas, não eram importantes, eram úteis. Uma vez que não serviam mais, eram descartadas. A paz os irritava. Foi assim que levaram a Alemanha daquele tempo para o abismo. assim agiu o führer. Assim age Bolsonaro. Assim agem os espíritos que estão na escala mais baixa da evolução.



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Sinais à beira do caminho

Posted by Cottidianos on 23:41

Segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

 certos fatos, certos acontecimentos que formam uma imagem tão forte em nosso imaginário que nem precisamos estar presentes ao local e ao momento em que ocorreram para que elas se tornem recorrentes em nossa mente. Nos colocamos em uma atitude de empatia em relação àqueles que foram protagonistas dos eventos, e ficamos imaginando o que pensaram aquelas pessoas que sabiam que estavam presenciando seus últimos de vida terrena.

É o caso do maior desastre natural do milênio, ocorrido no mar do norte da Indonésia e em parte do Sudeste Asiático. Eram quase 8hs da manhã do dia 26 de dezembro de 2004. Naquela região ocorreu um terremoto de grande magnitude que atingiu 9,1 na escala Richter. As pessoas se assustaram um pouco, mas não chegaram a ficar em pânico, nem entraram em desespero. Passado o susto, a vida seguiu seu curso.

O dia corria normal. Pessoas iam e vinha dos seus trabalhos. À beira-mar, turistas aproveitavam para tomar um gostoso banho de mar. Outros, sentados na areia da praia perdiam seu olhar na imensidão do horizonte. Muitos haviam ficado nas pousadas e hotéis nos quais estavam hospedados, descansando um pouco.

Foi então que, por volta das 10hs da manhã, o pior aconteceu. O forte terremoto fora apenas o prenúncio do horror que se seguiria. O mar pareceu recuar quilômetros deixando atrás de si muitos peixes espalhados pela areia. Alguns vendedores ambulantes brincaram com a situação dizendo que a pesca seria fácil. Quando a água voltou, um vendedor ambulante percebeu de imediato a gravidade do momento, e saiu correndo, dizendo aos que estavam próximos que se afastassem da praia o mais rápido possível.

As águas do mar, que haviam recuado, formaram um tsunami, e avançaram em direção à terra com fúria, em forma de grandes ondas que pareciam monstros sedentos e vorazes. As grandes ondas seguiam velozes engolindo pessoas, carros, prédios, animais, objetos e tudo o mais que encontravam pela frente.

Bastaram apenas cerca de duas horas para que ondas gigantescas e com a velocidade de um trem bala atingissem dez países, matassem cerca de 230 mil pessoas — a maioria delas na Indonésia — e deixassem atrás de si um rastro de morte e destruição.

Outra cena que nunca se apagará de nossas memórias é o fatídico 11 de setembro de 2001, quando dois aviões sequestrados por terroristas se jogaram contra as Torres Gêmeas do World Trade Center, nos Estados Unidos. O ato terrorista deixou cerca de 3.000 mortos.

Muitas pessoas que estavam naquele prédio morreram, sem nem ao menos saber o que acontecera. Porém, muitas outras viram o avião se aproximando pela janela, testemunhando com os próprios olhos o desastre iminente, milhares de outras viram as chamas se aproximarem, devastadoras. E os que estavam dentro dos aviões? Esses sabiam o tempo todo que estavam sendo guiados para a morte.

O que pensaram aquelas pessoas? O que sentiram, sabendo que estavam se despedindo da vida?



E o que dizer dos funcionários que, no início da tarde de 25 de janeiro de 2019 estavam almoçando em um restaurante da mineradora Vale do Rio Doce, na barragem de Brumadinho, Minas Gerais, quando a barragem se rompeu? Eles estavam em meio a um vale, com certeza, ouviram o estrondo provocado pelo rompimento da barragem, e viram o mar de lama avançar ameaçador e veloz. Mas o que fazer se, mesmo que corressem dali o mais rápido que pudessem, ainda assim seriam engolidos pelo mar de lama que seguiu veloz, destruindo, simultaneamente, vidas e meio ambiente? A tragédia deixou 262 mortos e provocou danos ambientais sem precedentes.


Neste sábado, 08 de janeiro, o Brasil viveu mais uma tragédia cujas imagens são impressionantes. O palco foi o lago de Furnas, no município de Capitólio, centro-oeste de Minas Gerais.

O lago artificial da represa de Furnas é um dos maiores lagos artificiais do planeta. Um ousado trabalho no qual o homem mostrou que é possível fazer nascer um rio onde antes ele não existia.

São 5,4 mil quilômetros de águas claras e cristalinas. O lago corre por entre paredões de pedra, os famosos cânions. A beleza do lugar atrai turistas de várias partes do Brasil que para lá vão buscar um pouco de paz e diversão, fugindo da correria das cidades.

Não foi diferente nesse fim de semana. Vários turistas acorreram ao lugar para desfrutar das belezas naturais por ele proporcionadas, apesar de ter chovido na região em dias anteriores.

Na sexta-feira, 07, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), havia emitido alerta de chuvas intensas, que durariam até a manhã de sábado. No sábado, foi a vez da Defesa Civil emitir alerta sobre a possibilidade de chuvas intensas na região, e até mesmo ocorrências do fenômeno conhecido como “cabeça d’água”, que nada mais é que o aumento repentino no nível de um rio, provocado por chuvas intensas nas cabeceiras dele, ou em suas partes mais altas.

Ignorando esses avisos, as empresas que alugam lanchas para esses momentos de lazer mantiveram os passeios com os turistas. Em meio a muita alegria, as lanchas se aproximaram de um ponto na base dos cânions por onde descem cachoeiras. È o ponto preferido pelos visitantes para as sessões de fotos.

Naquele dia, as águas da cachoeira estavam particularmente aumentadas. Alguns visitantes, cujas lanchas estavam um pouco mais afastadas do local começam a notar que as águas da cachoeira começaram a aumentar rapidamente de volume. Pedras também começaram a se desprender dos cânions. A fenda entre paredes começou a aumentar. Eles perceberam que o paredão iria cair e tentaram alertar aqueles que estavam em perigo. Mas foi em vão. O barulho da água, do vento, e da música que tocava nas lanchas dificultava que qualquer aviso de perigo chegasse até eles.

De repente, como se fosse num filme de terror, uma grande rocha do paredão dos cânions se desprendeu e atingiu em cheio as lanchas que estavam bem próximas à base, espalhando grande volume de água, pedras. Uma das embarcações foi atingida em cheio. As pessoas que estavam em outras embarcações foram arremessadas com força para longe pela força da água. Os condutores que estavam nas demais embarcações aceleraram, fazendo com que algumas lanchas se chocassem, lateralmente, umas contra as outras. O clima era de desespero.

A tragédia deixou 10 mortos. Todos eram conhecidos entre si. Eram familiares e amigos uns dos outros, e dividiam a mesma embarcação.

Em todos esses casos, à exceção do caso das Torres Gêmeas, a natureza deu sinais. No tsunami, na Indonésia, o mar recuou. Em Brumadinho, os sinais de que a barragem poderia se romper vinham sendo percebidos pelos técnicos, e nada foi feito. No lago de Furnas não foi diferente: o volume de água na cachoeira aumentando rapidamente de uma hora para outra, as pedras caindo, a fenda aumentando.

Em Brumadinho os técnicos e donos da Vale foram diretamente responsáveis pela tragédia. O rompimento da barragem nem mercê o nome de acidente, mas sim de assassinato, uma vez que eles sabiam dos problemas e fragilidades na estrutura da barragem, e se omitiram.

Em Capitólio, Minas Gerais, as autoridades municipais deveriam ter um plano de verificação e de demarcação de áreas de risco e de prevenção de acidentes, bem como a proibição de passeios no lago em caso de mau tempo.

Depois do ocorrido é que técnicos e autoridades se reuniram para entender o que ocorreu, e traçar planos futuros. A propósito, há um ditado popular que diz que “brasileiro só fecha a porta depois que é roubado”, e ele se aplica bem a esse caso.

Em todas essas ocorrências, à exceção da tragédia do World Trade Center, fica para nós a reflexão de que é preciso estarmos atentos aos sinais dados pela natureza, pelo tempo, e pelas circunstâncias. A natureza está falando conosco todos os dias, todas as horas. Uma casa não vem ao chão de uma hora para outra. Primeiro ela vai apresentando rachaduras, que depois vão se tornando mais espaçadas, e, se nada for feito, a casa vem abaixo.

Há pessoas que conseguem prever coisas que ocorrerão muito tempo depois apenas observando os sinais dados pela natureza. Por exemplo, em 2012, o médico Flávio Freitas, fazia um passeio de barco pelos cânions no lago de Furna, quando uma fenda na rocha chamou sua atenção.

Em uma dessas viagens, passei por esse local onde houve o acidente, um dos mais visitados ali em Capitólio, e aquela fenda me chamou atenção, porque realmente ela é extensa, larga. Visualmente, ela apresentava um aspecto perigoso. Fiz a foto na ocasião e escrevi: 'Essa pedra vai cair”. disse o médico, hoje com 52 anos, em entrevista ao jornal O Globo, depois do acidente ocorrido no último sábado.

Naquela ocasião, ele chegou a postar no Facebook uma foto da rocha com os dizeres: “ESSA ´PEDRA VAI CAIR”. Percebam que nem geólogo ele era, mas conseguiu, através da observação de um fato, prevê um acontecimento que ocorreria dez anos depois. Se um médico percebeu esse fato, por que não os geólogos que cuidam da área não perceberam?

O mesmo também se aplica as tragédias anunciadas que ocorrem todos os anos durante o período chuvoso em várias partes do Brasil? Por que o poder público não age realizando obras que impeçam tais acidentes, sabendo que eles se repetem a cada ano e, praticamente, nos mesmos lugares?


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O que é viver bem?

Posted by Cottidianos on 04:03

Sexta-feira, 31 de dezembro

O que vale na vida não é o ponto de partida e sim a caminhada

Cora Coralina



Caros leitores e leitoras,

É sempre com alegria que me dirijo a vocês, mesmo quando falo de assuntos espinhentos, seja no campo da política ou qualquer outro tema em que esteja evidente o egoísmo que corrói o coração do homem.

Estou em viagem de férias aqui no Rio Grande do Norte em visita aos amigos e familiares, motivo pelo qual as postagens esse mês foram poucas. Entretanto, não poderia deixar de tirar um tempo, mesmo que seja no silêncio da madrugada, banhada pela chuva que há pouco caiu por aqui, amenizando o calor intenso que tem feito nessa terra que é meu berço, meu chão, minha raiz.

A partir do dia 10 de janeiro já estarei de volta à cidade de Campinas, São Paulo, e as postagens retornarão à sua regularidade costumeira.

Sentando aqui, em frente à tela do notebook, em meio a esse turbilhão de pensamentos que me dominam, dentre os quais alguns se transformam em palavras, me vem à mente que estamos há exatos dois anos do surgimento de um vírus que abalou o mundo, transformou relações de trabalho, destruiu economias, e ceifou vidas.

Foram dois anos de muitas provações para povos de todos os lugares do mundo, de todas as raças e culturas. Em todos os recantos do planeta, onde havia ser humano, os sentimentos foram os mesmos. Todos tentaram e tentam se proteger, de alguma forma, do novo coranavírus.

Enfim, chegaram as vacinas, e eu pensei, e tenho certeza de que vocês também imaginaram, que chegaríamos ao fim deste ano um pouco mais tranquilos em relação a esses dois anos de medos, receios, e provações pelos quais passamos.

Entretanto, vemos que as coisas não aconteceram como esperávamos. Vieram novas variantes do coronavírus que nos colocaram, novamente, em atitude vigilante. Mais recentemente, vimos surgir a ômicron que colocou novamente o planeta em alerta.

Aqui na cidade de Natal, capital do Rio Grande do Norte, e de onde escrevo estas linhas no momento presente, os relatos que ouço por aqui é de que as unidades públicas de saúde, estão lotadas devido a um surto de gripe.

Eu mesmo fico me perguntado, se é gripe mesmo, ou se tudo isso tem alguma coisa a ver como a nova variante do coronavírus. Não só em Natal a situação está dessa forma, mas também outras cidades do país enfrentam situação semelhante.

Farmácias brasileiras dizem haver um tsunami de casos de Covid. Em outras partes do mundo isso já é uma realidade. Para piorar as coisas ainda temos a tragédia que se abate sobre a Bahia em forma de chuvas torrenciais que deixam mortos e milhares de desabrigados. E, também nesse caso, vemos, novamente, o presidente da nossa nação zombando do sofrimento humano, fazendo pouco caso da vida dos próprios concidadãos. Rejeitando valiosa ajuda que é oferecida pela Argentina, e deixando de visitar a Bahia, apenas por motivos eleitoreiros.

Parece que não houve um aprendizado. E quem passa pelas provações da vida e delas não tira lição alguma, e ainda por cima, volta a percorrer o mesmo caminho errado que havia percorrido antes merece mesmo o nome de tolo, imbecil. Nem digo, burro, para não ofender os animais.

Apesar do entrarmos em 2022 em meio a essas incertezas em relação a saúde, economia, educação, cultura, e outras áreas, esse texto não se pretende ser um estímulo ao pessimismo. Não. De forma alguma.

Jamais devemos deixar nos abater por qualquer circunstância negativa em que a vida nos coloca, pois assim como o amor encobre uma multidão de pecados, conforme dito na Primeira Carta de Pedro, da Bíblia Sagrada, também uma atitude de fortaleza, fé, e otimismo, afasta uma multidão de negatividade.

Sejamos fortes. Sejamos firmes. Sem desanimar jamais. Dessa forma, mesmo que o barco chegue a naufragar, ainda assim, nos agarremos nas tábuas da fé, e não seremos engolidos pelas águas profundas do mar bravio.

Apenas não esqueçamos de continuar nos cuidando, e quando tudo isto passar, poderemos comemorar a vida, a fé, o amor, com a mesma intensidade de antes da pandemia.

Para terminar, e como votos de um Feliz Ano Novo, deixo para vossa reflexão o texto da poetisa, Cora Coralina (20 de agosto de 1889 – 10 de abril de 1985), mulher de grande sensibilidade, e um dos grandes nomes da nossa literatura.

O texto, O que é viver bem? Fala justamente dessa necessidade de sermos otimistas para atravessarmos com mais confiança o deserto da vida.

 ***


  O que é viver bem?

 Cora Coralina

 Não sei se a vida é curta ou longa para nós, mas sei que nada do que vivemos tem sentido se não tocarmos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser: colo que acolhe, braço que envolve, palavra que conforta, silêncio que respeita, alegria que contagia, lágrima que corre, olhar que acaricia, desejo que sacia, amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo, é o que dá sentido à vida.

É o que faz com que ela não seja nem curta, nem longa demais, mas que seja intensa, verdadeira, pura enquanto durar.

Eu não tenho medo dos anos e não penso em velhice. E digo prá você: não pense.

Nunca diga estou envelhecendo ou estou ficando velha. Eu não digo. Eu não digo que estou ouvindo pouco.

É claro que quando preciso de ajuda, eu digo que preciso.

Procuro sempre ler e estar atualizada com os fatos e isso me ajuda a vencer as dificuldades da vida.

O melhor roteiro é ler e praticar o que lê.

O bom é produzir sempre e não dormir de dia.

Também não diga prá você que está ficando esquecida, porque assim você fica mais.

Nunca digo que estou doente, digo sempre: estou ótima. Eu não digo nunca que estou cansada.

Nada de palavra negativa. Quanto mais você diz estar ficando cansada e esquecida, mais esquecida fica.

Você vai se convencendo daquilo e convence os outros. Então silêncio!

Sei que tenho muitos anos. Sei que venho do século passado, e que trago comigo todas as idades, mas não sei se sou velha não.

Você acha que eu sou?

Tenho consciência de ser autêntica e procuro superar todos os dias minha própria personalidade, despedaçando dentro de mim tudo que é velho e morto, pois lutar é a palavra vibrante que levanta os fracos e determina os fortes.

O importante é semear, produzir milhões de sorrisos de solidariedade e amizade.

Procuro semear otimismo e plantar sementes de paz e justiça.

Digo o que penso, com esperança.

Penso no que faço, com fé.

Faço o que devo fazer, com amor.

Eu me esforço para ser cada dia melhor, pois bondade também se aprende.

Caminhando e semeando, no fim terás o que colher.



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Fim da novela André Mendonça

Posted by Cottidianos on 17:31

05 de outubro de 2021

André Mendonça, novo ministro do STF


Finalmente, o Brasil assistiu ao fim da novela André Mendonça.

Em julho deste ano, o ministro do Supremo Tribunal Federal, Marco Aurelio de Mello, se aposentou de suas funções como ministro daquele órgão máximo da Justiça em nosso país. Sempre que um ministro do STF se aposenta, é atribuição do presidente indicar um novo nome para compor os quadros da corte, e ao senado aprovar o nome indicado pelo presidente. O nome indicado pelo presidente Jair Bolsonaro foi o de André Mendonça, mas sua indicação foi travada no Senado pelo presidente da Comissão de Constituição de Justiça do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP). A indicação ficou parada por quatro meses. Porém, após muita pressão de vários setores, principalmente os evangélicos, o processo andou.  

Para nos situarmos melhor nessa questão, voltemos um pouco no tempo.

Na manhã de 10 de julho de 2019, o presidente Jair Bolsonaro participava de um culto evangélico na Câmara dos Deputados. E em aceno à base evangélica ele disse que indicaria dois ministros para uma vaga no STF, e que um deles seria “terrivelmente evangélico”.

Nem tento explicar isso, pois não saberia definir uma pessoa comum “terrivelmente evangélica”, nem muito menos um ministro de uma Corte Suprema com a mesma qualidade.

Mais tarde, naquela mesma manhã, Bolsonaro reafirmou em plenário o que havia dito no culto. “Muitos tentam nos deixar de lado dizendo que o estado é laico. O estado é laico, mas nós somos cristãos. Ou para plagiar a minha querida Damares [Alves, ministra]: Nós somos terrivelmente cristãos. E esse espírito deve estar presente em todos os poderes. Por isso, o meu compromisso: poderei indicar dois ministros para o Supremo Tribunal Federal [STF]. Um deles será terrivelmente evangélico”.

Nada contra escolher um ministro do STF evangélico. Assim, como não haveria nada de mais ter um ministro católico, ou umbandista, pois a carta, a letra, o livro que rege as normas do Supremo Tribunal Federal chama-se Constituição Federal, e não a Bíblia. E um estado deve ser laico pois nem todas as pessoas que o formam professam os mesmos credos, as mesmas crenças. Há, inclusive, pessoas que não professam crença nenhuma. A lei não seria Lei, se abrigasse debaixo de seu manto, apenas pessoas desta ou daquela religião, deste ou daquele segmento, desta ou daquela raça.

Pois bem, o carro andou, e o ministro Celso de Melo se aposentou em outubro de 2020. Na verdade, Celso de Melo adiantou sua saída em cerca de duas semanas, uma vez que só completaria 75 anos em 01 de novembro daquele ano, data limite para sua aposentadoria compulsória. Uma vaga surgiu. Ficou o suspense: Oh, quem terrivelmente evangélico Bolsonaro indicará? Essas cogitações por si mesmas já são completamente ridículas, pois um ocupante de uma cadeira no STF não deve ser terrivelmente praticante dessa ou daquela religião, mas sim, um terrivelmente conhecedor da lei e da Constituição Federal. 

Pois, bem. Bolsonaro não cumpriu a promessa, e indicou o desembargador Kassio Nunes para a vaga aberta. A indicação foi feita no dia 01 de outubro de 2020. Foi criticado pela sua base, pois Nunes não é terrivelmente evangélico, mas, como podemos deduzir da atuação de Nunes no STF, essa coisa de ser “terrivelmente evangélico” parece não ser o critério em si mesmo dentro dos critérios de Bolsonaro, e isso faz todo o sentido analisando-se seu modo de governar. E já explico essa sopa de letra.

Desde a indicação até o caminho para a sabatina de Kassio Nunes pelo Senado, e sua consequente aprovação pelos membros daquela casa, o caminho foi bem curto. Bolsonaro indicou o nome de Nunes no dia 01 de outubro de 2020, e no dia 21 daquele mesmo mês o Senado aprovado o nome do indicado pelo presidente.

Mas, deixando de lado essa coisa de querer agradar a base com um ministro evangélico, parece que, para Bolsonaro, o importante é ter um ministro que ele possa chamar de seu no STF, isso é gravíssimo para uma democracia. É como diz o ditado popular: “Amigos, amigos, negócios à parte”.

E Nunes tem provado diante dos seus votos no STF que é um tapete de Jair Bolsonaro naquele orgão. Ele invariavelmente tem votado com o governo em todas as matérias. Parece que a ordem é não desagradar o chefe. Acho que ele apenas se esquece que o chefe é Constituição Federal, e não o governo federal. Há, portanto, um descompasso Kassio Nunes em relação aos princípios básicos do Supremo.

O que temos visto é que Bolsonaro tenta de todas as formas aparelhar o Estado. E, em muitos casos, tem conseguido. Por que Sérgio Moro deixou o governo? Pelo fato de acusar Bolsonaro de querer interferir nos trabalhos da Polícia Federal. Moro estava errado? Pelo que temos visto da atuação do governo, a resposta é não. E essa interferência parece continuar, pois todos aqueles da PF e de outros órgãos também, que dão pareceres ou fazem alguma ação contrária ao governo federal ou aliados dele, são logo afastados, substituídos em suas funções. A livre manifestação do cidadão também é proibida, ou pelo menos tentam inibi-la, como é próprio das ditaduras.

Dois exemplos recentes. No dia 10 de julho deste ano, uma mulher foi presa em Porto Alegre, por estar protestando contra o presidente. A mulher estava batendo panelas. Na ocasião, Bolsonaro estava na capital gaúcha para mais uma de suas motociatas.

No dia 27 de novembro, Bolsonaro estava em Rezende, RJ, para uma cerimônia de formação dos cadetes da Academia Militar das Agulhas Negras. Antes de seguir para a cerimônia, o presidente se aproximou das margens da Dutra para acenar para os motoristas que por ali passavam e para cumprimentar policiais rodoviários que faziam sua segurança.

Uma mulher que passava pelo local, xingou o presidente e foi detida pelo crime de injúria contra ele. Em depoimento, a mulher negou as acusações.

Allan dos Santos, é um blogueiro aliado do presidente, e é um dos responsáveis pela divulgação e fake news, inclusive durante a pandemia de Covid-19, e que, com a ajuda de Eduardo Bolsonaro, conseguiu sair do Brasil para não ser preso pela PF.

A delegada da Polícia Federal, Dominique de Castro Oliveira, processou o pedido de extradição do jornalista na Interpol.  O que aconteceu com a delegada? Adivinhem. Ela foi exonerada da organização internacional de combate ao crime, na quarta-feira, 01 de dezembro. Dominique é delegada de carreira da PF, e estava há apenas 16 meses na polícia internacional. Mas, cometeu o “erro” de mexer com um aliado do presidente, e foi exonerada. Depois ainda dizem que não há perseguições e interferência na PF... E os tolos que acreditem.

Alan dos Santos mora nos Estados Unidos. Sua extradição foi determinada pelo ministro do STF Alexandre de Moraes, ainda em outubro, mas ainda está em tramitação.

O presidente do PSD, Gilberto Kassab, participou na sexta-feira, 3, do Derrubando Muros, evento organizado por empresários, intelectuais e políticos. Nesse evento, o político disse que nem a ditadura aparelhou tanto o Estado como faz o governo de Jair Bolsonaro. “O Brasil vive hoje uma situação bastante difícil. Um governo que ameaça, que aparelha como nunca. Talvez nem na ditadura se aparelhasse tanto”. Kassab está errado? Decerto que não.

De certo modo, o Brasil vive uma espécie de ditadura, perigosa porque ela acontece de modo silencioso. Não é aquela de colocar tanques nas ruas, mas é aquela de amarrar a mãos dos órgãos do governo, não apenas na polícia, mas na educação, no meio ambiente, cultura, e quem mais ousar levantar a voz e a caneta para contrariar o governo.

E essa ditadura branda, se torna ainda mais perigosa porque conta com fiéis escudeiros como o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, e o procurador-Geral da República, Augusto Aras. Arthur Lira tem mais de 100 pedidos de impeachment contra o presidente Jair Bolsonaro, mas não os tira da gaveta, pois, para ele, Bolsonaro é como uma galinha dos ovos de ouro. Com Bolsonaro, Lira navega em rios de dinheiro de orçamento secreto e emendas parlamentares. Além, de tentar mudar a legislação brasileira para que ela se torne cada vez condizente e conivente com aqueles que praticam a corrupção e vivem dela.

Aras, por sua vez tem os seus interesses. Esperava, talvez, uma vaga no STF por indicação do presidente. Quem, sabe em um segundo governo de Jair Bolsonaro? Segundo governo de Bolsonaro que Deus nos permita não aconteça.

Depois dessa pausa para falar da interferência do governo nos órgãos públicos, voltemos a falar de André Mendonça.

O novo ministro do STF, André Luiz de Almeida Mendonça, tem 48 anos. Completará 49 no próximo dia 27 de dezembro. É advogado e pastor da igreja presbiteriana. É funcionário de carreira da União desde o ano 2000. Após quatro meses em banho maria, seu nome foi finalmente aprovado pelo Senado na quarta-feira,1 de dezembro. Obteve 18 votos a 9 na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), e em plenário o placar também lhe foi favorável: 47 votos a favor e 32 contrários a sua indicação.  

O que fazer quando você se depara com duas versões de uma mesma pessoa, e ainda uma terceira referente a esse mesmo individuo que é uma incógnita?

Assim é o novo indicado do presidente para o SFT e aprovado pelo Senado. O André Mendonça que se sentou na cadeira no Senado para ser sabatinado pelos senadores, não foi o mesmo que comandou a Advocacia Geral da União e o Ministério da Justiça depois da saída de Sérgio Moro.

Antes de Bolsonaro anunciar, em 21 de novembro de 2018, o nome André Luiz de Almeida Mendonça, para o comando da Advocacia Geral da União, ele ocupava naquela época o cargo de consultor jurídico da Controladoria Geral da União, e atuava junto ao secretário-executivo da pasta.

Ele foi elogiado por juristas como sendo um nome técnico. Porém, Mendonça logo se mostrou muito alinhado ao governo Bolsonaro, e com isso ganhou a confiança do presidente. Em diversos momentos, ele assumiu atitudes autoritárias.

Em diversos momentos, Mendonça acionou a Polícia Federal, baseando-se na Lei de Segurança Nacional, com a finalidade de perseguir opositores do governo de Jair Bolsonaro. Foram alvos da sanha autoritária de André Mendonça, o pré-candidato à presidência da República, Ciro Gomes (PDT), Guilherme Boulos (PSOL), Hélio Schwartsman, colunista da Folha de São Paulo, e Ricardo Aroreira, cartunista. A maioria dos inquéritos pedidos por André Mendonça contra essas pessoas, as acusava de cometer injúrias contra o presidente pelo fato de em algum momento elas terem feito críticas ao mandatário da nação. Por determinação da Justiça, todos esses inquéritos foram arquivados.

Ainda no comando da AGU, Mendonça se alinhou a pautas do presidente também no STF. Ele foi contra a criminalização da homofobia. Também foi contra a que fossem permitidos a Estados e munícipios a decisão sobre o fechamento de templos religiosos durante a pandemia de Covid-19.

Houve aquela confusão em que Moro saiu do Ministério da Justiça acusando Bolsonaro de interferir na PF. Em abril de 2020, Mendonça foi indicado para a vaga na pasta da Justiça e Segurança Pública.

No ministério da Justiça, Mendonça continuou sua “missão” de perseguir opositores do presidente. Em fins de julho daquele ano, o site do UOL revelou que o ministério da Justiça, comandado por Mendonça havia elaborado, secretamente, um dossiê contra servidores federais considerados “antifacista”.

Ao menos, 579 servidores federais e estaduais de segurança, e ainda três professores, tiveram seus nomes incluídos no dossiê elaborado pela Secretaria de Operações Integradas (SEOPI).

Ao ser questionado sobre o caso, o ministério da Justiça disse não se tratar de uma investigação contra os servidores, mas sim, prevenir a prática de ilícitos e preservar a segurança das pessoas.

Na sabatina do Senado, na quarta-feira, 01 de dezembro, era outro André Mendonça falando aos senadores. Durante as oito horas que durou a sabatina, os senadores questionaram Mendonça sobre os temas do casamento entre pessoas do mesmo sexo, estado laico, democracia, independência do governo Bolsonaro, dentre outros.

Veja algumas frases de André Mendonça, elaboradas pelo Portal G1.

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Democracia

"Reafirmo meu irrestrito compromisso com o Estado Democrático de Direito, conforme expresso desde o preâmbulo da nossa Constituição. Dentro desta perspectiva, inclui-se o compromisso de respeitar as instituições democráticas, em especial a independência e harmonia entre os poderes da República. Esse preceito constitucional está inserido dentro do sistema de freios e contrapesos, próprios ao Estado Democrático de Direito. Nesse sentido, entendo que o Poder Judiciário deve ser pacificador dos conflitos sociais e garantidor da legítima atuação do demais poderes, sem ativismos ou interferência indevidas nele. Penso que a automoderação do Judiciário é o corolário lógico do próprio princípio democrático."

Democracia conquistada sem 'sangue derramado'

"Eu disse na fala inicial: a democracia é uma conquista da humanidade. Para nós, não – mas, em muitos países, ela foi conquistada com sangue derramado e com vidas perdidas. Não há espaço para retrocesso. E o Supremo Tribunal Federal é o guardião desses direitos humanos e desses direitos fundamentais."

Pedido de desculpas

"Primeiro, meu pedido de desculpas, por uma fala que pode ter sido mal interpretada e que não condiz com aquilo que eu penso. Vidas se perderam na luta para a construção da nossa democracia. Além do meu pedido de desculpas, o meu registro do mais profundo respeito e lamento pela perda dessas vidas."

"Faço um registro pelo respeito à memória dessas vidas e dessas pessoas. E faço também um registro de solidariedade, de respeito às famílias dessas vítimas. Muitos no nosso país lutaram pela democracia e vidas se perderam para a construção da nossa democracia. E essas vidas merecem ser lembradas e merecem o nosso respeito."

"Essa fala foi feita no momento em que fazia referência a revoluções liberais, que tanto a nossa independência como a nossa República não tiveram como precedência ou causa uma guerra, uma guerra civil como houve nos Estados Unidos ou houve uma luta na França. O que não significa que a construção da nossa democracia não tenha custado vidas. Custaram-se muitas vidas."

Estado laico

"Me comprometo com o Estado laico. Considerando discussões havidas em função da minha condição religiosa, faço importante ressaltar minha defesa do estado laico. A igreja presbiteriana da qual pertenço, uma das diversas igrejas evangélicas de nosso país, nasceu no contexto da reforma protestante tendo como uma de suas marcas justamente a defesa da separação entre igreja e do Estado."

'Na vida, a Bíblia; no Supremo, a Constituição'

"Ainda que eu seja genuinamente evangélico, entendo não haver espaço para manifestação pública religiosa durante as sessões do Supremo Tribunal. Neste contexto, também conseguindo que a Constituição é e deve ser o fundamento para qualquer decisão por parte de um ministro do Supremo, como tenho dito quanto a mim mesmo: na vida, a Bíblia; no Supremo, a Constituição."

Casamento gay

"Eu defenderei o direito constitucional do casamento civil das pessoas do mesmo sexo. [...] "O casamento civil, eu tenho a minha concepção de fé específica. Agora, como magistrado da Suprema Corte, eu tenho que me pautar pela Constituição. [...] Eu defenderei o direito constitucional do casamento civil das pessoas do mesmo sexo."

Violência contra população LGBTQIA+

"Em relação à situação da violência LGBT: Não se admite qualquer tipo de discriminação. É inconcebível qualquer ato de violência física, moral, verbal em relação a essa comunidade. Assim, o meu comprometimento é também diante de situações como essa aplicar a legislação pertinente, inclusive na questão da própria decisão do STF, que equiparou a ação dirigida a essa comunidade como racismo. Logicamente, também com a ressalva trazida no STF em relação a liberdade religiosa, mas ainda assim fazendo-se com o devido respeito a todas as pessoas."

Decretos sobre armas de Bolsonaro

"Há espaço para posse e porte de armas. A questão que deve ser discutida é quais os limites. [...] Não posso me manifestar sobre o tratamento que foi dado pelos decretos, mas a segurança pública deve ser um objetivo a ser alcançado por todos nós. O principal debate deve ser no Legislativo, mas há um espaço para a regulação."

Política ambiental

"Há muitas pessoas que não estão desmatando por que querem, mas para ganhar o pão de cada dia."

Convite de Bolsonaro para vaga no STF

"O convite ali feito [por Bolsonaro] considerava o meu currículo e a qualidade do meu trabalho. Aceitei ali a missão e como AGU tive a oportunidade de atuar em diversos julgamentos no STF."

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André Mendonça, certamente, preenche os requisitos para a vaga no SFT. A pergunta que se coloca é qual dos Andrés Mendonças ocupará a vaga no STF, o autoritário que atuou na AGU e no ministério da Justiça, ou democrata polido que se sentou no banco do senado para ser sabatinado? Isso, logo, logo a gente descobre.


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