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A marcha dos idiotas uteis

Posted by Cottidianos on 01:04

Segunda-feira, 20 maio


Quando queremos construir uma casa sólida, dessas que resistem bem às tempestades, vendavais e outras formas de fúria em que a natureza se manifesta, de que devemos cuidar com mais atenção. Do alicerce? Do telhado? Das paredes?
É verdade que tudo esse conjunto de coisas e outros mais são importantes para que se mantenha de pé uma casa.
Mas de nada adianta todo o cuidado com os itens citados, se não tivermos cuidado bem de um deles em especial: o alicerce. Ele é base de toda e qualquer construção. Afinal de contas, é ele que vai sustentar todo o peso da estrutura. A função dele e fazer com que todos os esforços e todo o peso colocado no imóvel sejam transferidos para uma área maior no solo. Um bom alicerce geralmente é feito de aço ou de concreto.
Depois vem o telhado, as colunas e vigas e assim por diante.
Nesse sentido — não querendo ser pessimistas — mas partindo da observação da realidade, podemos perceber que o Brasil não avançará tanto quanto gostaríamos nos próximos anos.
Baseado em que esse blog afirma estas coisas? Ora basta ver o tratamento que o governo vem dando a área educacional. Não parece haver uma preocupação nessa área. Ou melhor, há sim, mas ela está centrada na questão das ideologias.
O governo vem tratando as escolas, em especial, as universidades, como se elas fossem centro de formação de líderes esquerdistas, e os professores como se fossem os formadores desses líderes.
Nas escolas é proibido questionar, discordar, como se tudo isso não fizesse parte do pensamento democrático.
Pro exemplo, na manhã do último dia 28 de abril, o presidente Jair Bolsorano, utilizou sua conta em uma rede social para divulgar o vídeo, enviado por uma aluna, no qual uma professora fazia críticas ao guru do presidente, Olavo de Carvalho. Segundo a aluna, ela estava pagando por aulas de gramática, mas a professora havia ficado 25 minutos da aula falando de política. Ao que a professora retrucou dizendo que estava apenas utilizando-se de recursos de mídia impressa para embasar sua aula, em uma espécie de interdisciplinaridade.
Para qualquer outro presidente, isso seria uma coisa de somenos importância, uma discussão que, facilmente, poderia ser resolvida no âmbito escolar. Mas, não, para o ele tratava-se de uma questão e doutrinação. “Professor tem que ensinar e não doutrinar”, disse o presidente ao compartilhar o vídeo.
Já naquela semana, nuvens negras e ameaçadoras começavam a se formar nos céus da educação. Dois antes da divulgação do vídeo da professora, o governo já havia anunciado,  também através do Twiter — o presidente adora essa rede social. Ela é o seu principal meio de comunicação, ganhando até mesmo dos canais oficiais — que o MEC (Ministério da Educação) estudava “descentralizar investimentos nas áreas de filosofia e sociologia” e passar recursos dessas áreas para outras que “gerem retorno imediato ao contribuinte”, como por exemplo Medicina, Veterinária e Engenharia.
Segundo o raciocínio do presidente, postado em outro Twiter, a “função do governo é respeitar o dinheiro do contribuinte, ensinando os jovens a leitura, escrita, e a fazer conta e depois um ofício que gere renda para a pessoa e bem-estar para a família, que melhore a sociedade à sua volta”.
O anúncio foi feito em meio ao lançamento de uma campanha dos partidos de esquerda cujo lema era a “Valorização das Universidades Federais”, formada pelas deputadas Margarida Salomão (PT-MG), e Alice Portugal (PC do B-BA), e pelos deputados Danilo Cabra (PSB-PE), e Edmilson Rodrigues (PSOL-PA).
Ora, conhecendo a aversão de Bolsonaro pelos partidos de esquerda — tudo o que essa ala é a favor, ele se posiciona imediatamente contra — é possível que tenha tomado conhecimento dessa campanha e, se estava pensando em retirar verbas da área de humanas, apenas apressou o passo.
A Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia (ANPOF), emitiu nota de repúdio contra os cortes de verbas para a área de humanas. A nota foi assinada por mais de 50 entidades e outras associações ligadas a questão. A nota dizia que o presidente Jair Bolsonaro demonstrava “ignorância” em relação a importância das matérias para a sociedade.
Apenas quatro dias após o anuncio de cortes na área de humanas, o MEC anunciou o corte de verbas de custeio em três Universidades Federais. Eram elas: A Universidade Federal Fluminense (UFF), a Federal da Bahia (UFBA) e a Universidade de Brasília (UNB). As três universidades tiveram os recursos cortados em 30%.
Em entrevista ao Estado de São Paulo, o Ministro da Educação, Abraham Weintraub, afirmou: “Universidades que, em vez de procurar melhorar o desempenho acadêmico, estiverem fazendo balbúrdia, terão verbas reduzidas. A lição de casa precisa estar feita: publicação científica, avaliações em dia, estar bem no ranking”, porém não esclareceu quais rankings nem que balburdia as universidades estavam promovendo.
Deputados da bancada da educação, outros parlamentares, reitores das universidades atingidas, e outros setores da educação criticaram duramente a medida.
Diante da repercussão negativa, as coisas, em vez de melhorarem, tornaram-se ainda pior. O Ministério da Educação recuou da decisão de punir as três universidades que promoveram “balburdia”, e estendeu o corte de verbas a todas as Universidades Federais.
Em nota o MEC afirmou: “o critério utilizado para o bloqueio de dotação orçamentária foi operacional, técnico e isonômico para todas as universidades e institutos em decorrência do contingenciamento de recursos decretados pelo governo, que definiu bloqueio de 5,8 bilhões de reais do orçamento da pasta”.
Dessa vez, as críticas aos cortes nas Federais vieram ainda mais pesadas por parte de educadores, estudantes, parlamentares, e diversos outros setores da sociedade. A PFDC (Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão), órgão ligado ao Ministério Público, disse que a decisão era inconstitucional.
Indignados, alunos e professores de todo o país foram às ruas em protesto contra os cortes de verbas na educação. Universidades e escolas fecharam as portas naquele dia. Foi a primeira grande manifestação contra o governo de Bolsonaro. Somente se passaram pouco mais de quatro meses de sua posse.  
De Dallas, nos Estados Unidos, o presidente minimizou os protestos e classificou os manifestantes como “idiotas uteis”. “É natural, é natural. Agora... a maioria ali é militante. É militante. Não tem nada na cabeça. Se perguntar 7 x 8 não sabe. Se perguntar a fórmula da água, não sabe. Não sabe nada. São uns idiotas úteis, uns imbecis que estão sendo utilizados como massa de manobra de uma minoria espertalhona que compõe o núcleo de muitas universidades federais do Brasil”.
As repercussões no Brasil foram imediatas no Congresso, nas Universidades, nos centros de educação, e nas ruas.
O presidente, mais uma vez, ao invés de apaziguar os ânimos, botou mais lenha na fogueira. Aliás, o presidente e seus filhos são especialistas em armar confusão. Dentre essas duas opções: resolver as coisas na base da negociação e conversa, que gerem paz e entendimento e arrumar confusão, eles parecem sempre escolher a segunda.
Se há uma coisa que Bolsonaro não deve ter prestado atenção é que quando surgiram as primeiras grandes manifestações contra a ex-presidente, Dilma Rousseff, ela e o pessoal do PT também minimizaram a força dos protestos, e dos manifestantes, e deu no que deu.
O presidente alega a situação econômica que o país atravessa para os cortes nas verbas das Universidades Federais. E se esquece ele que, parando as pesquisas e os estudos, um país retrocede e anda a passos de tartaruga. Ou talvez ele saiba muito bem disso, e esteja pensando em fabricar idiotas uteis e massas de manobra que o sirvam, ou sirvam a sua ideologia.
Enquanto isso, o barco da governança segue meio desgovernado, sem articulação política, sem projetos para recuperar a economia, e para resolver o problema do desemprego, até mesmo, a importante Reforma da Previdência corre o risco de caducar, devido a sua incapacidade de dialogo com o Congresso.
Outra coisa que talvez Bolsonaro não se lembre é a de que a raiz dos insucessos de Dilma foi, justamente, a falta de dialogo com o Congresso.

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Farra na Corte

Posted by Cottidianos on 00:15

Segunda-feira, 13 de maio



Caro leitor, cara leitora, responda rápido: Quantos Brasis existem dentro dessa imensa pátria em que vivemos?
Se você respondeu que não existem vários Brasis dentro de um só, acertou, afinal, apesar de todas as diferenças culturais somos todos filhos da mesma pátria. Sendo assim, não existe um Brasil do Norte, ou do Sul ou do Sudeste, e assim por diante. Afinal, estamos todos sob a egíde das mesmas leis e sob o signo dos mesmos direitos.
Se respondeu que temos cinco, por causa, justamente das diversidades culturais, economicas e de meio ambiente que caraterizam as nossas cinco regiões, também acertou. Afinal, se analisarmos bem a divisão geográfica de nosso país, veremos que cada uma possui um quê de especial, de diferente, apesar de partilharem da mesma lingua, estamos dentro do mesmo sistema jurídico.
E se — pensando nos privilégios que algumas classes desfrutam em relação a maioria — você respondeu que existem dois Brasis dentro de nosso imenso Brasil, também acertou, e, quem sabe, tenha chegado mais próximo da verdade.
Afinal, nem precisamos nos debruçar sobre dados e números estatisticos para saber que há um Brasil para os brasileiros, que trabalham de sol a sol nos seus empregos formais e informais. E, nessa categoria estão inclusos desde a empregada doméstica, seguranças, auxiliares de escritório, e as mais diversas categorias de profissionais, até os patrões, aqueles que comandam pequenas, médias e grandes empresas.
Para os brasileiros deste primeiro Brasil recaem mais obrigações que direitos, inclusive o peso de altas cargas tributárias.
Apenas uma análise superficial, ou um olhar para o lado que vemos essa realidade.
O outro lado da moeda, e que vemos estampadas constantemente nas manchetes de jornais, revistas impressos e onlines, é o Brasil dos homens públicos. É como a imensa maioria da população brasileira estivesse atravessando um deserto — regiões de clima predominante seco e quase sem preciptações chuvosas ao longo do ano — enquanto outros poucos, muito poucos em relação a essa grande maioria que atravessa o deserto, estão desfrutando de um oasis.
Os oásis são regiões milenares assim como os próprios desertos que, mesmo estando em meio a estes, condições impostas pela própria natureza, permitem que neles se encontre água, e se desenvolvam plantas e animais, proporcionando assim uma melhor condição de vida para que os nele habitam. Uma verdadeira dadiva que contrasta com o calor e o clima secos das regiões deserticas.
 Nesse segundo grupo de um Brasil que não é o Brasil real estão os membros dos poderes: Executivo, Legislativo, e Judiciário.
É comum e rotinieiro nestes oásis da vida pública os salários astronômicos. No oásis do legislativo, por exemplo, os trabalhadores não tem que se preocupar com quase absolutamente nada. O tanque do carro vive sempre cheio, pode-se falar ao celular à vontade que as contas estarão sempre pagas e em dia. Quando se quer viajar, tirar uns dias para aquelas férias dos sonhos, para qualquer lugar que se queira, basta escolher o destino. Planos de saúde dos melhores e com reembolso integral de gastos com despesas médicas. A jornada de trabalho resume-se a três dias por semana. Além do auxílio moradia, que por si só também já é uma agressão ao bolso do contribuinte, os congressistas ainda dispõem de ajuda de custo para mudanças. Traduzindo isso em míudos, cada um deles recebe dois salários a mais no início e no fim do mandato.
Isso apenas citar bem de passagem, os privilégios da classe política. Usando uma expressão francesa bem conhecida: uma coisa bem “"en passant” para falar disso. O interessante, é que a moralidade da coisa pública foi promessa de campanha da quase totalidade dos candidatos.
Essa questão, porém, caro leitor, merece um capítulo à parte.
 Aos que habitam o oasis do executivo e do judiciário também eles desfrutam de mordomais e mimos.
Hoje, entretanto, nos detenhamos, mais uma vez, no Supremo Tribunal Federal.
Em fins do mês passado, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgou dados que mostram que no trimestre encerrado em março o número de desempregados subiu para 12, 7%, o que representa uma quantia de 13, 4 milhões de pessoas desempregadas.
Outro levantamento feito pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) indica que a crise economica fez com que 226,5 mil lojas fechassem às portas no Brasil.
Enfim, o país ainda atravessa uma situação econômica complicada. As autoridades brasileiras deveriam ser as primeiras a usar de bom senso e darem exemplos de que estão se esforçando para darem a sua parcela de contribuição para que o país se estabilize economicamente, afinal em tempos de crise, cada um deve dar sua parcela de contribuições e sacrifícios até que a situação volte ao normal. Mas, como temos visto, não é bem isso que acontece.
Na sexta-feira, 26 de abril, o Supremo Tribunal Federal (STF), divulgou informações sobre um pregão eletrônico, para “serviços de fornecimento de refeições institucionais”. Até aí, tudo bem. Normal fazer isso. O que assustou a todos foi o preço dessas tais “refeições institucionais”. R$ 1.134 milhão a serem pagos ao fornecedor dos produtos.
No meu são oferecidos: café da manhã. “brunch”, almoço, jantar, e coquetel. Os pratos? Finíssimos. Bobó de camarão. Camarão à baiana. Medalhões de lagosta com molho de manteiga queimada. Bacalhau à Gomes de Sá.
Achou pouco? Ainda tem mais.
Frigideira de Siri. Moquecas capixaba e baiana. Arroz de pato. Vitela assada; codornas assadas. Carré de cordeiro. Medalhões de filé. Tournedos de filé. Molho mostarda, pimenta, castanha de caju com gengibre.
Todo bom cardápio tem que ter uma boa bebida para acompanhar. Aqui, principalmente aqui, isso não poderia faltar. O vinho merece um cuidado especial na escolha.
Os tinto fino seco, tem que ser de Tannat ou Assemblage, que contenha esse tipo de uva, e tem que ser de safra igual ou posterior a 2010. Esses devem ser envelhecido em barris de carvalho francês, americano, ou ambos, de primeiro uso, por um período mínimo de 12 meses.
Já os do tipo Merlot, é exigido que seja de safra igual ou posterior a 2011, envelhecido em barris de carvalho, de primeiro uso, por um período mínimo de 8 meses.
Já os vinhos brancos, feitos de uva Chardonnay, devem ser de safra igual ou posterior a 2013.
Detalhe: Para todos os vinhos é exigido que tenham, no mínimo, quatro premiações internacionais.
Caipirinha também não pode faltar, e a exigência para elas é que sejam feitas com cachaça de alta qualidade, envelhecidas em barris de madeira nobre por 1 a três anos.
O edital acabou provocando um certo desconforto entre alguns ministros da corte e também por parte dos servidores daquele órgão.
Na segunda-feira 06 de maio, a juíza federal, Solange Salgado, do Distrito Federal, decidiu suspender o edital do STF com a compra de comida e bebidas finas. A decisão da juíza fundamentou-se em uma ação popular movida pela deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP). Na ação, a deputada considerava o valor do pregão, R$ 1,13 milhões, como sendo aviltantes. Ela também citou como desnecessária a compra dos produtos.
A juíza considerou que a compra dos itens citados no edital não era necessária ao bom funcionamento do Supremo Tribunal Federal, além de destoar gritantemente da atual realidade brasileira.  Uma falta de consideração para com o cidadão que paga uma sobrecarga de impostos.
Retaliação. Foi assim que alguns integrantes do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), do qual o ministro Dias Toffoli é presidente, analisaram a atitude da juíza Solange Salgado ao proferir a decisão. Segundo eles, a juíza já havia sido punida pelo CNJ por ter praticado supostas irregularidades na Associação de Magistrados Federais da 1a Região.
Logo na terça-feira, 7, o Tribunal Regional da 1a Região, cassou a decisão da juíza da primeira instância da Justiça Federal do Distrito Federal, que determinava a suspensão da licitação da compra de itens alimentares de luxo para o STF. A decisão foi tomada pelo desembargador federal Kassio Marques, que é vice-presidente do TRF1.
Em sua decisão o desembargador sustenta que a compra de tais itens não é “lesiva a moralidade administrativa”, pois a Corte também desempenha o papel de “relacionamento e representação institucionais”.
Em seu despacho, a juíza considerou a realidade social do país, e o fato de que o Brasil vem enfrentando grave crise econômica e deficiências orçamentarias. Kassio Marques, entretanto, considerou que a Solange Salgado possui uma “visão distorcida dos fatos, nutrida por interpretações superficiais açodadas”.
Em meio a toda essa discussão, vale trazer a lembrança de que, em outubro de 2018, por decisão do ministro Dias Toffoli, o gabinete da presidência passou por uma reforma milionária, que incluía a substituição de carpetes por piso-frio, e até a instalação de um chuveiro.
A obra tinha conclusão prevista para o mês de janeiro e custou, pelo menos, R$ 443 mil aos cofres públicos.
Em tudo isso, fica uma dúvida: Será que os ministros do Supremo pensam que estão vivendo nos Emirados Árabes, ou em algum outro país, onde o dinheiro “corre solto”?  Pois a impressão que dá é que eles estão fora da realidade brasileira.
É certo que eles atendem diversas autoridades nacionais e internacionais. Porém, acredita-se que qualquer um deles entenderia se lhes fosse servido um cardápio de comidas e bebidas mais modesto, considerando a situação econômica do país.
Discute-se muito a reforma da previdência, e ela não deixa de ter sua importância. Mas enquanto não forem discutidos e extinguidos esses privilégios absurdos que desfrutam membros do poder Legislativo, Executivo e Judiciário, será muito difícil que as contas públicas deixem de operar no vermelho.
Quem, na Câmara, no Senado, ou no Palácio do Planalto, terá coragem de levantar essa bandeira do fim dos privilégios? Pense o caro leitor, e tire suas conclusões.

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Onde há fumaça, há fogo

Posted by Cottidianos on 23:51
Sábado, 20 de abril

Alexandre de Moraes e Dias Toffoli

Há um velho ditado popular que diz: “Onde há fumaça há fogo” ... E, ao que parece, e a julgar pela tentativa desesperada de membros do STF, em calar qualquer voz que levante críticas aos ministros daquela instância superior de justiça, há fumaça por lá, e, pelo visto não é pouca não.
Os ministros do STF vêm tomando decisões que tem desagradado a juristas, legisladores e a maioria da população em geral. É natural que recebam críticas por parte de tais setores. Afinal, vivemos em uma democracia e o combustível da democracia é o direito de manifestação aos contraditórios.
Quando se impõem a mordaça do silêncio, e se proíbe que cessem as críticas a decisões de qualquer instância do Poder Judiciário, ou a qualquer outro ramo da sociedade, então é sinal de que a liberdade de expressão foi sequestrada para algum porão, e, talvez, por lá esteja sofrendo tortura.
Nos últimos meses tem havido muitas postagens ofensivas a membros do Supremo acusando-os de serem coniventes com a impunidade, quando não, de estarem envolvidos, de alguma forma, nessa rede de corrupção que assolou o país.
Diante da chuvarada de críticas aos membros do máximo órgão julgador do país, o STF, o presidente daquele colegiado, Dias Toffoli tomou uma decisão que ao mesmo tempo em que surpreendeu a todos, também provocou reações negativas entre aqueles que militam na área do direito e da justiça, bem como à sociedade de modo geral. Isso foi no dia 14 março do mês passado.
O presidente do Supremo Tribunal Federal abriu um inquérito para investigar notícias fraudulentas, — as tais fake News — e ofensas e ameaças, que atingissem a honra e a segurança dos próprios ministros, e também de seus familiares. Imediatamente, Toffoli, nomeou o ministro Alexandre de Moraes, como relator do processo. E não deu maiores detalhes da abertura do processo pois também o havia colocado na condição de “segredo de justiça”, condição pela qual mantém as informações relativas ao mesmo em total sigilo. O Ministério Público e outros setores do meio jurídico, ficaram de cabelos em pé com ambas as decisões.  
No dia seguinte, surge em cena, a procuradora-geral da República, Raquel Dodge. Ela queria saber, exatamente, o que que Toffoli e Moraes tentaram colocar sob sigilo: maiores informações sobre o caso. Ela indagou à Corte, dentre outras coisas, quais seriam os objetos da investigação e quais argumentos jurídicos a fundamentavam. Pontos estes que estavam obscuros na abertura da investigação determinada por Toffoli. Dodge defendeu ainda que o ato de investigar caberia ao Ministério Público e à Polícia Federal.
“Os fatos ilícitos, por mais graves que sejam, devem ser processados segundo a Constituição. Os delitos que atingem vítimas importantes também devem ser investigados segundo as regras constitucionais para a validade das provas e para isenção do julgamento”, disse Dodge.
Outros ministros do STF também se posicionaram contra a abertura da investigação. Marco Aurélio do Melo foi um deles. O ministro disse que o Supremo deveria manter distância das investigações que envolvessem apuração de crimes praticados contra os membros da Corte.
Enquanto isso, Alexandre de Moraes, como fiel guardião, defendia a investigação, dizendo que o presidente do STF, abriu a investigação com base no artigo 43 do regimento interno do STF, que diz: “Ocorrendo infração à lei penal na sede ou dependência do tribunal, o presidente instaurará inquérito, se envolver autoridade ou pessoa sujeita à sua jurisdição, ou delegará esta atribuição a outro ministro”. O problema, e que foi ignorado por Toffoli, é que os fatos não ocorreram nas dependências do STF.
Outro fato que torna a decisão de Toffoli ainda mais autoritária é que o relator do caso foi “escolhido” por ele, e não por sorteio, como é de praxe nos trabalhos do STF.
No dia 21 de março, o ministro Alexandre de Moraes expediu mandato de busca e apreensão em São Paulo e em Alagoas, na investigação aberta na semana anterior por Dias Toffoli. A operação destinava a recolher celulares, tablets, e quaisquer outros dispositivos eletrônicos e materiais relacionados a disseminação de notícias falsas contra membros do Supremo.
Era também objetivo dos investigadores tirar do ar contas nas redes sociais de dois autores identificados como suspeitos. Os policiais rastrearam endereço de pessoas que fizeram postagens ameaçadoras a membros do STF, através do IP (Internet Protocol) dos aparelhos usados para estas postagens.
Os suspeitos identificados na ocasião foram o advogado alagoano, Adriano Argolo, e um guarda civil metropolitano da cidade de Indaiatuba, SP. Segundo a PF, o guarda utilizava uma conta com nome falso e localização indicada no Piauí.
Os dias foram correndo, a investigação, apesar de irregular e fora dos parâmetros constitucionais também não parou, apesar de protestos do MP e de outros setores do judiciário. Uma investigação, diga-se de passagem, sem um foco direcionado e baseado em generalidades. Nela, todos podiam estar na condição de investigados, inclusive, membros do próprio Ministério Público. E eis que surge mais uma trapalhada da dupla Toffoli e Moraes.
Na quinta-feira, 11 deste mês, a revista, Crusoé, publicou uma reportagem que resgatava um e-mail enviado a força tarefa da Lava Jato em Curitiba, em 13 julho de 2007, pelo empresário Marcelo Odebrecht — Marcelo, atualmente, cumpre prisão domiciliar, mas pelo acordo de delação premiada se compromete com a força tarefa a revelar fatos ligados a Lava Jato, e que forem sendo encontrados em seus e-mails pessoais. Em 2007, o hoje ministro do STF, Dias Toffoli, ocupava o cargo de Advogado Geral da União (AGU).
O e-mail em questão tratava de negociações ilícitas, e foi enviado pelo empresário a dois executivos da empreiteira, Adriano Maia e Irineu Meireles. No e-mail, Marcelo, pergunta: “Afinal, vocês fecharam com o amigo do amigo de meu pai?”
Segundo explicou Marcelo à PF, a mensagem se referia a negócios envolvendo tratativas entre Adriano Maia, então diretor jurídico da Odebrecht, e a Advocacia Geral da União. As tratativas de negócios se referiam a assuntos referentes as hidrelétricas do rio Madeira, em Rondônia. Ainda segundo o empresário, o “amigo do amigo do amigo de meu pai”, era Dias Toffoli. Sendo que o amigo de Emílio Odebrecht, pai de Marcelo, era o ex-presidente Lula, hoje preso em Curitiba.
Marcelo, Odebrecht, que cumpre acordo de delação premiada, e não seria louco de fazer graça com um assunto tão sério, botou a lenha na fogueira e a Crusoé fez fumaça com a publicação da reportagem. Posteriormente, o site, O Antagonista reproduziu a matéria.
O fiel guardião, o relator do caso, Alexandre Moraes, então virou uma arara, a fumaça estava subindo demais. Era preciso abafá-la antes que alguém ligasse a fumaça ao fogo.
Ele então determinou que a revista Crusoé e o site O antagonista, retirassem do ar, a publicação que tratava do amigo do amigo de meu pai, e que, segundo Marcelo Odebrecht, referia-se ao ministro do Supremo, Dias Toffoli. Moraes determinava ainda que ambos, revista e site, pagassem multa de R$ 100 mil diários caso descumprissem a ordem judicial.
Determino que o site O Antagonista e a revista Crusoé retirem, imediatamente, dos respectivos ambientes virtuais a matéria intitulada ‘O amigo do amigo de meu pai’ e todas as postagens subsequentes que tratem sobre o assunto, sob pena de multa diária de R$ 100 mil, cujo prazo será contado a partir da intimação dos responsáveis. A Polícia Federal deverá intimar os responsáveis pelo site O Antagonista e pela Revista Crusoé para que prestem depoimentos no prazo de 72 horas”, ordenava Alexandre de Moraes em sua decisão.
Mais uma vez a decisão foi amplamente criticada pelo Ministério Público, pela imprensa e por diversos setores da esfera judicial. Alexandre de Moraes e Dias Toffoli foram acusados de censura aos dois veículos de comunicação.
Na quinta-feira, 18, o ministro Alexandre de Moraes, diante da repercussão do caso, resolveu revogar a própria decisão que obrigava os sites a retirar do ar a reportagem. Em nome da liberdade de expressão era necessário que Dias Toffoli sofresse essa derrota.
O juiz federal Luiz Antonio Bonat, que é responsável pelos processos da Lava Jato, na 13a Vara Federal, em Curitiba, retirou do inquérito que envolve o empresário Marcelo Odebrecht, o tal e-mail que causou tanta repercussão, e que cita Dias Toffoli. O juiz atendeu a um pedido do Ministério Público Federal, que informa que o documento não tem relação com a apuração das irregularidades na Usina de Belo Monte, no Pará.
Ainda nesta semana movimentada no meio judiciário, mais precisamente, na terça-feira, 16, a procuradora da República, Raquel Dodge, enviou ao Supremo um ofício no qual mandava arquivar o inquérito aberto para apurar ofensas contra a Corte e os seus ministros. Dodge alegou que não havia no inquérito a delimitação do alvo da investigação, nem muito menos os alvos da operação. Cabia ao ministro relator do caso, Alexandre de Moraes, determinar o arquivamento, mas ele não fez isso.
Ao contrário, o ministro ignorou a determinação da procuradora sobre o arquivamento do inquérito. Com isso, as investigações continuam abertas. O presidente, Dias Toffoli, concedeu mais 90 dias para que as investigações sejam concluídas. Pelo visto essa queda de braço vai longe. Quem abrirá os olhos dos ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes pelo ridículo da situação pela qual estão passando e fazendo o STF passar?
Ainda no dia 16, o STF entrou em ação novamente. Ainda no inquérito que apura as ofensas contra integrantes do Supremo, a PF, cumpriu oito mandatos de busca e apreensão em São Paulo, Goiás, e Distrito Federal, com o intuito de aprofundar a suspeitas de injurias e difamação contra membros da Corte.
Alexandre de Moraes autorizou a operação. Ele é relator no inquérito que apura o caso. Os mandatos se basearam em opiniões negativas de pessoas sobre o STF e a Corte que o Supremo entende, como ameaça. Mais uma vez foram apreendidos celulares, tablets, computadores. Mais uma vez foram bloqueadas contas dos suspeitos nas redes sociais.
No despacho. Alexandre de Moraes diz: “"foi verificada a postagem reiterada em redes sociais de mensagens contendo graves ofensas a esta Corte e seus integrantes, com conteúdos de ódio e de subversão da ordem”.
Quem também entrou com dois pedidos de suspensão desse inquérito que extrapola os limites constitucionais foi a Associação Nacional dos Procuradores da República. A instituição entrou com duas ações no Supremo: um mandado de segurança e um habeas corpus.
Em entrevista à rádio CBN, em conversa com os jornalistas da emissora, Milton Jung, Gerson Camarotti, e Cássia Godoi, o diretor jurídico da Associação Nacional dos Procuradores da República, Rodrigo Tenório, disse que a primeira delas nasceu do equivoco da abertura da investigação pelo Judiciário. No modelo brasileiro, não cabe ao Poder Judiciário a função e investigar, nem de produzir provas. Um é o papel do juiz e outro o papel do acusador. Há uma separação entre os dois.
Referindo-se às decisões tomadas recentemente por Toffoli e Moraes, Rodrigo Tenório diz: “A gente retorna a época da inquisição, de Torquemada (Tomás de Torquemada), de 1435, que permite que o juiz prenda, que o juiz acuse, e o juiz julgue simultaneamente”. Disse Tenório à CBN.
Outro grande erro, foi, o de depois de instaurar o inquérito, o ministro Dias Toffoli escolher quem iria conduzi-lo, escolhendo para relator o ministro Alexandre de Moraes. E aí foi ofendido o princípio do juiz natural. O juiz não pode ser escolhido, a distribuição deve ser aleatória, no caso, sorteado.
A Associação Nacional dos Procuradores da República também concorda com a Procuradoria Geral da República, no sentido de que não há um objeto especifico na investigação. É como se fosse uma novela passada nos tempos da inquisição, na qual, a cada semana, são inseridos novos capítulos de acordo com a vontade dos inquisidores.
Outro fato ilegal nesse inquérito é que há membros do MP investigados. O fato é que, segundo diz Tenório ainda durante a entrevista à CBN “Membro do Ministério Público, por disposição expressa da Lei Complementar 75, artigo 18, só podem ser investigados pela procuradora geral da República. então teria que ser enviado, seja lá o que houvesse nesse inquérito, para a Procuradoria Geral da República, e o Supremo não poderia por vontade própria, com a exclusividade, investigar esses membros”.
Quando perguntado pelo jornalista Gerson Camarotti, sobre qual a solução possível para esse episódio, Tenório respondeu que “solução possível é o Supremo proteger-se do Supremo. “O habeas corpus e os mandados de segurança que nós manejamos, tiram a decisão da mão do ministro Alexandre de Moraes, tiram a decisão da mão do dois que instauraram essa investigação. Então o pleno pode ser chamado a se manifestar e acabar com essa investigação, e aí sim, que é o único destino que ela merece”, disse ele.
Engraçado é que, quando Jair Bolsonaro foi eleito o temor era de que ele desse às costas para a democracia, e, já que elogia tanto o período ditatorial, fizesse ele andar de braço dado com o país.
Mas, eis que para nossa surpresa, quem vestiu a camisa da ditadura foi aquele que deveria ser o guardião da liberdade de expressão e dos princípios constitucionais, ou seja, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, e seu fiel escudeiro, Alexandre de Moraes. Criticar é proibido. Não se pode falar das decisões esdruxulas que o STF toma. Trazer à tona fatos com seu fundo de verdade, e que venham a atingir algum dos eminentes ministros deve ser imediatamente coagido.  
O bom é que, apesar disso, as intuições no Brasil, quando querem, funcionam e muito bem. Há o olho da imprensa. Há o olho da justiça. E há a voz da opinião pública. E, se o olho da imprensa e da justiça são poderosos, a voz da opinião pública também o é.
É por isso que o ministro Alexandre de Moraes voltou atrás na própria decisão de censurar a revista Crusoé, e o site, o Antagonista. E, se o bom senso prevalecer, ainda será arquivado esse processo ilegal, esquisito, e sem sentido aberto por Dias Toffoli para investigar ofensas contra membros do Supremo.
Ninguém, em sã consciência, quer que terceiros andem por aí, mentindo e difamando quem quer que seja, principalmente, os magistrados da mais alta Corte judicial do país. Mas, que haja fundamentos plausíveis nas denúncias, que haja denunciados a quem se possa nomear, e que em tudo isso seja obedecido para as investigações, inquéritos e processos instaurados, que tudo esteja sob as bênçãos, ritos e proteções da Carta Magna da nação, a Constituição Federal. 


Mas parece que, no Brasil, há a clara intenção de desviar o foco quando se trata de desvios praticados por autoridades federais. Os acusados, em vez de provarem sua inocência, parecem jogar gasolina na fogueira, para que, todos, preocupados em apagar o fogo, esqueçam-se de quem o provocou.

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Acreditar sempre, desesperar jamais

Posted by Cottidianos on 01:04
Segunda-feira, 15 de abril

Jeremias Reis

O que é música senão essa arte milenar que nos leva em instantes da alegria à melancolia e vice-versa?
As obras musicais são como entidades espirituais: não as vemos, mas as sentimos. Elas agem em nossa vida mesmo que não as percebamos com os nossos sentidos físicos. Assim são as melodias que ouvimos.
Os olhos da música são os ouvidos. É por eles que os sons nos veem, nos percebem, e é também por esse órgão da audição que nos vemos e percebemos a música. E parece ser tudo tão simples. Basta apenas ter uma escala musical formada por Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá, Si... e a mágica se faz. Esses sete sons distintos parecem se combinar, se entrelaçar, e fazer o milagre da multiplicação dos sons.
No momento da composição cada artista parece ser, naquele momento, um Deus. Pois quando estavam reunidos em um lugar afastado: Jesus, discípulos e multidão, o discípulos lembraram ao mestre que já era tarde e que eles se encontravam em lugar afastado e que era preciso encerrar a pregação a fim de que o povo conseguisse chegar a alguma aldeia mais próxima a fim de se alimentar. Depois de saber que, entre a multidão, alguém trazia consigo cinco pães de dois peixes, Jesus viu ali solucionado o problema. Daquela pequena porção, ele fez multiplicar alimento em abundancia que deu para satisfazer a todos e ainda sobraram cestos de alimento.
Assim é o músico, o compositor, o cantor: com aquelas sete notas musicais ele faz multiplicar os sons e consegue saciar milhares de ouvidos e corações famintos de sentimentos. Quando a obra musical consegue conquistar um universo considerável de corações, seja a nível nacional ou internacional, ela se torna o que se costuma chamar de “clássico”. Há uma música para cada momento e para cada ocasião: para rezar, para curar, para relaxar, para extravasar a alegria, e assim por diante.
Viajar nas notas musicais e pegar carona nas canções. É esquecer, momentaneamente, o mundo conturbado no qual vivemos e sermos transportados para um mundo de sons e magia, do qual voltamos melhores do que quando entramos nele.  
Na tarde deste domingo, 14, aconteceu a grande final do The Voice Kids, transmitido pela TV Globo. Mas, antes de falar na final e no vencedor do concurso musical, volto à semifinal do mesmo, exibida no domingo anterior. Um dos concorrentes, um menino de onze anos, chamado Jeremias Reis, interpretou a canção Pétala.
O menino cantou com tanta intensidade e sentimento dando a música de Djavan uma nova roupagem que a música nem parecia de Djavan, e sim, dele, Jeremias. “Por ser exato, o amor não cabe em si, por ser encantado o amor revela-se, por ser amor, invade, e fim”, diz a letra da canção. E o pequeno interprete cantou o amor e tocou o coração do público. Quando eu vi aquela interpretação já soube naquele momento quem seria o campeão do The Voice Kids.
Quis escrever um texto naquele mesmo domingo sobre o fato, mas a inspiração me sussurrou baixinho ao ouvido que esperasse mais um pouco. Que emoção não deve ter sido para Jeremias quando, na fase das audições às cegas, todos os jurados viraram suas cadeiras para ele. Também pudera, ele cantou a canção, Sementes do Amanhã, de Gonzaguinha, com tanta ternura que seria até um pecado ouvidos treinados em música desperdiçarem aquela joia preciosa. Como técnicas o pequeno cantor escolheu a dupla de cantoras sertanejas, Simone e Simara. E com elas rumou seguro para final. Claro, melhorando a cada dia, pois se a música é perfeição, o bom interprete tem que persegui-la dia a dia.
E eis que chegou o dia da grande final que se deu, como já dito acima, na tarde deste domingo. E os técnicos devem ter tido muito trabalho para irem fazendo suas escolhas de quem continuava na competição, bem como o público que votava e assistia a atração em suas casas.
Afinal, se a idade dos candidatos era pouca, o que sobrava neles eram talento. Realmente, não foi uma escolha fácil. Mas, alguém tinha que levantar o troféu de campeão. No final, nem meu sexto sentido, nem minha inspiração falharam: o vencedor foi mesmo Jeremias Reis. Mais uma vez o pequeno cantor voltou a brilhar e a emocionar os técnicos e o público.
Ontem um menino que brincava me falou
que hoje é semente do amanhã...
Para não ter medo que este tempo vai passar...
Não se desespere não, nem pare de sonhar
Nunca se entregue, nasça sempre com as manhãs...
Deixe a luz do sol brilhar no céu do seu olhar!
Fé na vida Fé no homem, fé no que virá!
nós podemos tudo,
Nós podemos mais
Vamos lá fazer o que será

Esses são os versos da canção que Jeremias, Sementes do Amanhã, de Gonzaguinha que o interprete mirim cantou em sua primeira apresentação no programa. E não poderia ter feito melhor escolha. Os versos da canção se encaixam, perfeitamente, na história de vida do garoto.
Jeremias Reis, o vencedor da quarta edição do The Voice Kids, com 58, 19% dos votos vem de uma família humilde do estado do Espírito Santo. No final do ano passado, as fortes chuvas que caíram no estado levaram, literalmente, a casa onde o menino morava, e hoje ele mora numa casa emprestada, no bairro Jardim Central, na Serra.
O menino faz parte de um projeto social chamado Projeto Legal que este ano completa 20 anos de fundação, e fica no bairro Central de Carapina, na Serra. Foi lá que ele desenvolveu o dom de cantar. Desde os 06 anos ele participa do projeto.
A vida para Jeremias não é nada fácil, assim como para milhões de meninos negros e pobres Brasil afora. Para se ter uma ideia, no final do ano passado, nem dinheiro a mãe dele — Fabíola Rodrigues Pereira, 30 anos, auxiliar de serviços gerais — tinha para leva-lo ao Shopping Center da cidade, para que o menino pudesse ver e tirar fotos com o Papai Noel.
Mas Jeremias também é um exemplo para milhões de meninos negros e pobres — bem como para os grandinhos de todas as classes sociais — de que jamais se deve cruzar os braços quando se tem um sonho e se quer alcança-lo. Quando as adversidades sobrevierem torne-as pequenas e faça-se maior que elas, pois acima das adversidades e daqueles que as sofrem está um Deus que está pronto a dar a mão aqueles que nele confiam plenamente. E em vez de lamentar-se, deve-se trabalhar com afinco naquilo que se tem em mente, e melhorar, um pouco a cada dia, para que, ao final da batalha, estejamos no melhor de nós mesmos e possamos merecer o título de campeão.
Como prêmio do programa, Jeremias receberá R$ 250 mil, e um contrato com Universal Music. E muitas outras portas certamente se abrirão. Antes mesmo de ser anunciado o vencedor do programa, a dupla Simone e Simara, que haviam sido técnicas de Jeremias, anunciaram que, quem vencesse a competição gravaria uma música com elas.  
Também, ainda neste domingo, também antes de saber do anuncio do vencedor do programa, o governador do Espírito Santo, Renato Casagrande, escreveu em sua rede social: “Hoje é dia de The Voice Brasil Kids e o Espírito Santo está na final! Vamos torcer e votar com muito orgulho no talento do Jeremias. Estamos confiantes na sua vitória! Mas, independentemente do resultado, o Jeremias já está convidado a juntar-se à Faculdade de Música do Espírito Santo, em parceria, para desenvolver um trabalho como solista em uma das excelentes orquestras formadas pela Fames. É o nosso reconhecimento pela forma brilhante com a qual que ele vem nos representando na competição. O convite está feito, Jeremias!
Para quem não tinha nem casa para morar, é um bom começo.
Que a luz desse garoto continue a brilhar pelo Brasil afora. Que este seja apenas o começo de uma carreira vitoriosa. Que a luz também desça sobre o coração dos homens públicos para que, os que estão envolvidos no negrume da corrupção consigam sair de lá, e os que não estão não se envolvam em tamanho lamaçal de podridão, para que todos, enfim, possam ser sinal esperança na vida de meninos e meninas que tem um sonho e por ele batalham, e de todos aqueles que, acima e apesar de tudo, ainda acreditam na pátria amada Brasil.

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João de Deus: A face do mal

Posted by Cottidianos on 00:12
Sexta-feira, 05 de abril


Foi no ano de 1973. A jovem de 17 anos estava recostada no banco do carona. Perdia os olhos na paisagem verdejante que ladeava a estrada que ligava Abadiânia a Alexânia. As duas cidades localizavam-se no estado de Goias, e separadas uma da outra por cerca de 30 quilometros. A jovem pequena e franzina, mais parecia uma criança. Um misto de curiosidade e apreensão lhe dominavam os pensamentos. Pensou na tia que havia deixado na casa de caridade, em Abadiania.
Sua tia viva bastante adoençada e alguém havia falado do médium João de Deus que tinha o dom de cura. Resolveram então procurá-lo. Depois de atender a tia da jovem, o médium disse a esta que sua acompanhante também precisava de um tratamento específico, e que a levaria para este tratamento fora da casa, trazendo-a de volta em seguida.
O homem ao volante da caminhonete no qual viajavam era, era um pouco mais velho que ela, tinha 30 anos. Seu nome era João Teixeira de Faria, mas todos o conheciam por João de Deus. Guiava o veículo em alta velocidade. Seu semblante era tenso. Tinha pressa de chegar ao lugar que tinha em mente, muita pressa. Depois de fazer o que lhe passsava pela mente, era necessário voltar e continuar o atendimento espiritual que fazia em uma casa de caridade em Abadiania. Vários pacientes haviam agendado consultas e curas para aquele dia e estavam a sua espera.
Em dado momento, cansada de olhar a paisagem, a jovem se vira para o motorista e pergunta:
— Aonde estamos indo?
— Fica queita, fica quieta. Vou só fazer uma limpeza espiritual em você.
— Ainda falta muito?
— Não. Estamos quase chegando.
Enfim, a caminhonete estacionou em um lugar ermo. Uma área rural distante da cidade. Desceram do carro, e o médium levou a jovem para debaixo da ponte. O silêncio reinava absoluto no local, sendo quebrado apenas pela brisa do vento que soprava constante, e pelo canto das aves que pousavam na galhada das árvores.
Ali o médium foi dominado pelo desejo que nutria pela jovem. Seus olhos eram cheios de lascívia. Partiu para cima dela e começou a tirar-lhe a roupa: primeiro o vestido verde que ela usava, depois a calcinha, e em seguida, tirou a própria roupa. Ela percebeu seu membro excitado, e logo soube que não haveria limpeza espiritual alguma, que aquilo havia sido apenas uma desculpa para atraí-la para aquele lugar.
 Bastante assustada, gritou por socorro, porém, naquelas paragens desertas, não havia viva alma que lhe acudisse os gritos.
— Me deixa, por favor! Eu nunca tive relações sexuais com homem algum. Estou noiva. Vou casar em breve: daqui a dois meses. Não faz isso comigo não. Implorou ela em prantos.
Nada disso sensiblizou os ouvidos de João de Deus. Ele parecia mais um animal que um homem. E, brutalmente, a possuiu ali mesmo, enquanto lágrimas amargas escorriam pelo rosto da jovem. Após o ato sexual a jovem foi acometida de uma forte hemorriagia. O sanguem jorrava aos borbotões.
— Diabos! E agora, como vou resolver essa situação. Se a jovem de volta desse jeito, a polícia vai me prender. É o fim da minha carreira. Disse o médium com os olhos cheios de pavor.
Tomou então uma decisão radical. A única, que no seu entender, resolveria de vez o problema: assassiná-la. Imediatamente, abaixou-se e pegou um revolver de dentro da bolsa que trouxera junto consigo.
Antes, porém, bateu na cabeça da jovem com uma pedra. O sangue, além das partes íntimas, começou a escorrer também da cabeça pelo resto do corpo. Em seguida, o homem disparou três tiros na jovem que caiu inerte.
João de Deus certificou-se de que não havia niguém pelas redondezas. Não havia mesmo. O caminho estava livre. Ele então arrastou o corpo da jovem e o jogou no rio, onde também lavou-se para livrar-se das marcas de sangue que haviam respingado em seu corpo. Qualquer vestígio de crime fora apagado. O homem respirou aliviado. Olhou mais uma vez em volta para ver se não havia deixado nenhuma pista. Tudo estava em ordem para o que se espera da beira de um rio. Apressado subiu o barranco, e seguiu, normalmente, em direção a Abadiania, onde seus pacientes esperavam.
Ao chegar, a tia da jovem perguntou-lhe:
— Onde está minha sobrinha que não retornou com o senhor?
Calmamente, ele respondeu:
— Ela ficou absolutamente desesperada com o casamento. E fugiu para não ter que asssumir essa responsabilidade.
Dizem que os anjos estão por toda a parte. Um deles, em forma de pescador, estava passando pelo lugar onde o corpo da jovem fora atirado. Foi ele que percebeu que ela ainda respirava. Puxou-a então para fora do rio. Ainda com dificuldade ela conseguiu dizer:
— O monstro me matou. Você é o espirito que veio me resgatar?
O pescador respondeu:
— Fique tranquila, menina. Você não morreu, e eu sou apenas um pescador. E, agora mesmo, vou subir até a estrada e buscar ajuda. Vou chamar um carro para lhe levar para o hospital.
Um sorriso de alívio brotou dos lábios da jovem enquanto via o pescador se afastar, subir rapidamente o barranco, e desaparecer por entre a vegetação.
A jovem passou um longo tempo no hospital. O casamento não aconteceu. Profundamente traumatizada, ela silenciou sobre os fatos acontecidos naquele dia. Não deu explicações nem pra família, nem muito menos para a polícia. Mudou-se para um estado da região Nordeste.
O crime, acontecido em 1973, já prescreveu, assim como muitos outros crimes praticados por João de Deus, mas o Ministério Público pode usar o caso descrito acima para traçar o perfil criminológico do medium que, por sua vez, deverá ser usado no julgamento dos crimes de abusos sexuais.
***
O relato acima foi baseado no depoimento de uma testemunha ao Fántástico, exibido no último dia 24 de março. A fonte não quis se identificar. Quarenta anos se passaram. Somente após a prisão do médium, em dezembro do ano passado, é que ela criou coragem para procurar a polícia e relatar essa triste história.
A avalanche de denúncias contra João Teixiera de Farias começou durante o programa Conversa com Bial, da Globo, apresentado por Pedro Bial, e exibido na sexta-feira, 07 de dezembro do ano passado.
O programa trouxe depoimentos de mulheres que foram a Casa Dom Inácio de Loyola, em Adadiania, Goías, em busca de tratamento espiritual, mas que disseram se sentir abusadas sexualmente pelo médium. E por que eles silenciaram durante tanto tempo? Pelo medo de sofrerem algum tipo de “retaliação espiritual”, que eram expressas através de ameaças feitas pelo mediúm às vítimas.
Uma dessas mulheres, que não quis se identificar, disse a Pedro Bial que João de Deus a ameaçou dizendo que se ela falasse alguma coisa, a doença da qual ela havia sido curada, voltaria. Já a coreografa holandesa, Zahira Lienike Mous disse que ela tinha medo de que eles (o pessoal da casa Dom Inácio de Loyola), mandassem espíritos para infernizar a vida dela.
No total, foram ouvidos pelo programa relatos de 10 pessoas, mas por causa do tempo de TV foram levados ao ar, apenas 04 depoimentos, o de Zahira e de mais três brasileiras. A holandesa foi a única mulher que aceitou mostrar o rosto.
Após o programa uma avalanche de denuncias desabou sobre o medium. Mulheres que também haviam passado pela mesma situação, como em uma reação em cadeia, criaram coragem e procuraram o Ministério Público. O MP registrou mais de 300 denúncias de abuso contra o mediúm. Em 16 de dezembro de 2018 a polícia o prendeu.
Logo após a prisão de João de Deus, o produtor do Fantástico, James Albert começou uma investigação jornalística. Um trabalho de formiguinha nos arquivos da polícia e da justiça que durou três meses e cuja finalidade de encontrar denúncias inéditas contra o médium que o ligassem a algum tipo de crime, e encontrou o que procurava.
Uma delas foi o relato que abre esse artigo e que foi baseado no que James encontrou em suas buscas. Mas esse foi apenas uma faceta da história, tem mais, muito mais, como vocês verão a seguir.
Em 27 de janeiro de 1980, o assassinato do taxista Devanir Fonseca não ficou esclarecido, mas nessa história aparece a sombra de João de Deus como suspeito. Ele, o taxista, transportava dois passageiros quando foi morto a tiros. Os assassinos abandonaram o corpo no chão e fugiram com o táxi.
Uma das testemunhas ouvidas pela polícia afirmou que o mandante do crime teria sido João de Deus. Quais os motivos que o médium teria para querer ver o taxista morto? O homem teria se envolvido com a mulher de João e com ela teria tido um caso. Ouvida pela polícia a mulher afirmou não haver traído o marido, e este se auto afirmou inocente. Dois anos depois do crime, em 1982, ele foi absolvido por falta de provas.
A Casa Dom Inácio de Loyola, para onde acorriam gente de todas as partes do mundo, foi inaugurada em 1976, e com ela a fama de João de Deus começou a aumentar ainda mais, principalmente, durante os anos 80.
Ainda durante essa década, em 1985, veio outra enrascada em que Joao de Deus se meteu: tráfico de material radioativo. Existia na região uma mina clandestina de autunita, um mineral encontrado em Campos Belos, no Norte de Goiás, e do qual se extraí o uranio que pode ser utilizado na produção de energia nuclear e bombas atômicas. Segunda a reportagem do Fantástico, o médium chegou a estocar 300 quilos de autunita perto da casa de caridade onde exercia suas atividades espirituais.
Extremamente ambicioso, ele queria ganhar dinheiro, muito dinheiro com a exploração do minério. Pegou os 300 quilos que havia escondido em uma chácara, em Abadiânia e outros 700 que estava em outra cidade. o médium então juntou estas duas partes, perfazendo uma tonelada de minério, colocou o material em uma caminhonete, e rumou para o aeroporto. Foi preso pela polícia antes de chegar lá, juntamente com mais 4 pessoas. Ele confessou o crime e respondeu o processo em liberdade.
À polícia, ele afirmou que não sabia que tipo de minério era aquele e também apresentou uma declaração fornecida por um dos acusados constando que ele apenas faria o transporte do material até o aeroporto. Tudo muito conveniente e bem arranjado. Apenas em 2000 é que saiu o veredito da justiça, extinguindo a punibilidade e absolvendo os réus. Mais uma vez o médium saiu impune. As investigações feitas pelo Fantástico mostrou ainda que o médium havia se envolvido também com tráfico de drogas, mas essas denúncias não foram investigadas pela polícia.
O trabalho de tirar a poeira de debaixo do tapete feita pelo produtor do Fantástico levou a outro fato assustador. Desta vez o ano foi 1986 e envolveu, novamente, assassinato. Era 27 de junho daquele ano. Os brasileiros estavam empolgados pois naquele dia o Brasil entrava em campo para disputar mais uma partida pela Copa do Mundo. Jogaram Brasil e Gana com vitória do Brasil por 3 x 0, nas oitavas de final do campeonato.
Na Alemanha, Hannelore Boldi, havia ouvido falar de João de Deus e de seus dons espirituais e trouxera o filho, usuário de drogas, para tratamento. Ela havia chegado dias antes a cidade de Abadiânia. Não se sabe o que houve, mas ela começou a espalhar pela cidade que o médium era um charlatão. Ela queria denunciá-lo publicamente, e revelar que a Casa Dom Inácio e o médium que a comandava eram uma farsa.
Após o jogo entre Brasil e Gana, naquela noite, a alemã foi misteriosamente assassinada com um tiro à queima-roupa no peito. Mas nos registros da polícia para este caso, entretanto, estava escrito que a alemã havia tido morte natural. E essa notícia foi a que se espalhou pela cidade. Mas os moradores sabiam que isso não era verdade. Ela havia mexido com João de Deus, e quem mexia com ele, não acabava bem, como a alemã também não acabou.
Os exames feitos pelo IML desmentiram a versão de morte natural dada pela polícia. O estranho é que não houve uma linha de investigação sobre o fato de a alemã estar determinada a desmascarar o médium João de Deus. Em 2016 o caso foi arquivado. Ninguém foi preso.
Estupro de vulnerável, falsidade ideológica, lavagem de dinheiro, tráfico de drogas, ameaça a testemunhas, abusos sexuais, assassinatos. Essa é face maquiavélica de João de Deus que nem o Brasil, nem o mundo conheciam. Apenas conheciam o homem que tinha o dom de fazer a ponte entre o mundo espiritual e o mundo material. Ele, certamente, ajudou muita gente. Tinha o dom. Mas o que era para ser uma história gloriosa, a casa que era para ser exemplo de caridade, era apenas uma faixada para esconder uma história de abusos e crimes.
João de Deus esqueceu-se de lembrar da lição mais importante. O bem que se faz aos outros retorna para quem o faz em dobro. Idem para o mal. E quanto mal o médium espalhou, e quantas pessoas não teria ele prejudicado. Mais de 300 denuncias de abusos sexuais,ea agora essas acusações de assassinato, e quantas outras maldades não ficaram debaixo de tapete, perdidas no tempo sem que ninguém conseguisse tirá-las de lá.
O médium João de Deus — o nome agora até nos parece uma heresia — é mais um personagem que jogou uma bela biografia na lata do lixo. É mais um exemplo de que a justiça tarda mais não falha. A lei divina também punirá, no tempo devido, àqueles que propiciaram que um criminoso como João de Deus, praticasse tantas barbaridades por tanto tempo, e saísse de todas elas impunes. Ele era poderoso, tinha dinheiro, e dinheiro compra consciências fracas de delegados, juízes, policiais, políticos, e de quem mais atravesse no caminho dos poderosos e possa auxiliá-los de alguma forma. A justiça dos homens pode até não chegar para todos, mas a justiça divina, certamente, chegará.

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