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O poder do machado que transforma pedras em flor

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:26
Quarta-feira, 24 de junho

Ai, Xangô, Xangô menino
Da fogueira de São João
Quero ser sempre o menino, Xangô
Da fogueira de São João
Céu de estrela sem destino
De beleza sem razão
Tome conta do destino, Xangô
Da beleza e da razão
Viva São João / Viva o milho verde
Viva São João / Viva o brilho verde
Viva São João / Das matas de Oxossi
Viva São João”
(São João, Xangô Menino – Caetano Veloso)


Hoje, 24 de junho, é dia São João Batista. Acho que, dentre todos os dias do ano, hoje é o dia em que mais sinto saudades de meu querido nordeste. Para os nordestinos, especialmente, hoje é dia festa e alegria. Mesmo distante, sinto o calor das fogueiras, o som de um animado forró — ritmo característico da região nordeste. Dia de São João também me lembra de partilha, amor, fraternidade e união.

Quando criança e adolescente, nesse dia, passava em varias casas de familiares e amigos e, em cada uma delas, provava umas das deliciosas comidas típicas: pamonha, canjica, milho verde cozido ou assado, bolo de milho, arroz doce, e tantas outras delícias. Também, especialmente, nesse dia, me vem forte a lembrança de minha mãe, à beira do fogão de lenha, preparando as tão aguardadas guloseimas.

Ao povo nordestino, meu carinho especial, e meu abraço.

No misticismo afro-brasileiro, São João Batista é sincretizado com Xangô menino.

Inspirado na forte espiritualidade que emana das religiões afro-brasileiras, escrevi o texto abaixo. Se pudesse defini-lo em duas palavras chaves, eu usaria PAZ e JUSTIÇA, sentimentos tão ausentes e tão necessários aos homens de qualquer tempo, especialmente aos homens de mulheres de nosso tempo.

Apenas o texto em parágrafo recuado, e em itálico, não é de minha autoria. Encontrei-o, bastante reproduzido, e de autor desconhecido, na Internet.

Mais uma vez, meu grande e carinhoso abraço ao povo nordestino.

Salve São Batista! Saravá Xangô menino!

***



O poder do machado que transforma pedras em flor

Um deslumbrante sol de raios multicoloridos passeava em sua carruagem de fogo pelos céus de Aruanda, cidade de luz, ao norte da Ionosfera da terra. Plano espiritual de transição, em Aruanda residem muitos espíritos de luz que se dividem entre a ajuda aos irmãos que ainda se encontra em desenvolvimento nessa dolorosa via de expiação que é a Terra, e outros que preparam os irmãos que já desencarnaram para seguir seu caminho espiritual e eterno, se já se encontram com suas auras limpas. Caso contrário, se ainda estão sob o peso do ódio, da vingança, do egoísmo e da maldade, são levados a casas de recuperação, onde seus sofridos espíritos passam por um processo de desobsessão.

Nesse elevado plano incorpóreo, habitam seres empenhados em praticar o bem e a caridade. Na terra, eles se manifestam na roupagem fluídica de caboclos, preto-velhos e crianças. Na morada celeste, entretanto, podem assumir a verdadeira essência luminosa de seus espíritos. Em resumo, podem ser eles mesmos, sem disfarces. No comando dessa grandiosa colônia espiritual estão os Orixás, palavra que significa “a luz que se revela”. Essas forças invisíveis, indivisíveis, e transcendentes estão em atividade constante, influenciando e ajudando a todos no plano material e imaterial. Os orixás são espíritos elevados que estão muito além da compreensão humana, e talvez, por isso mesmo, tão incompreendidos.

Cada um desses seres divinos representa uma das forças da natureza. Não é de admirar que em Aruanda, tudo funcione com perfeição de fazer inveja ao mais ardoroso ambientalista da Terra.  O desencarnado que pisa pela primeira vez na cidade de luz, surpreende-se com a incomensurável beleza do lugar. A cidade — localizada em um profundo vale cercado de montanhas, ao longo das quais se encontram florestas vicejantes de um verde extraordinário — é repleta de flores perfumadas em seus canteiros e praças. Com os sentidos ainda mais desenvolvidos do que quando habitavam a antiga via de expiação, são claramente perceptíveis novos perfumes e novas cores, que antes passavam ignorados. O perfume exalado pelas rosas é tão forte e tão especial que se espalha por toda a cidade. Em Aruanda pode-se abrir o peito e respirar o perfume trazido pelas rosas, lírios, cravos, tulipas, alfazema, e uma grande variedade de outras espécies. Das matas vem o cheiro agradável e forte dos eucaliptos tornando o ambiente ainda mas cheio de magia.

Um permanente arco-íris de intensas sete cores adorna o céu, repleto de nuvens de um branco sem igual correspondência na terra. As construções são de material semelhante ao cristal, e quem anda por aquelas paragens sentem grande energia e vibração, que caem na alma como bálsamo. Um passeio pelas arborizadas e floridas praças de Aruanda revela cenas impensadas para quem passou antes pela vida terrena. Nelas é possível ver crianças brincando com dóceis leões, da mesma forma com que brincariam com gatinhos.

Em Aruanda, se pode passear a qualquer hora que se queira, sem ter que se preocupar com assaltos e todo tipo de violência. Estando naquelas terras de paz é que se percebe com clareza que, violência, guerras, e intolerância são coisas de espíritos que ainda se encontram na infância do desenvolvimento espiritual, por mais cheios de medalhas, honras e glórias que tenham no mundo visível.

Na cidade de luz também há um grande mar azul, do qual partem todos os dias, barcos repletos de bálsamos, banhos e incensos levados por espíritos, cuja missão é levar consolo, esperança e alento aos que ainda se encontram em meio às provações da vida terrena. Durante todo o trajeto em direção à crosta terrestre são entoados belos cânticos que ajudam a energizar o ambiente. O branco luminoso das vestes se mescla ao azul do mar, dando um ar surreal à belíssima cena.


Na geografia da cidade da colônia espiritual também se pode observar uma extensa cordilheira — grande sistema de montanhas reunidas. As cordilheiras de Aruanda estão sempre em constante roupagem diversa. Uma hora, estão cobertas de neve e refletem o brilho dos cristais. Outra hora, estão chuvosas e os pingos da chuva lembram o brilhos dos diamantes. Outra hora, sobre elas incide sol intenso que as deixa com o brilho dourado do ouro. Em todas essas situações há um tipo de energia que é muito bem aproveitada por Xangô, orixá de justiça, e dono das cordilheiras.

É do alto de uma de suas pedreiras que está o Rei da justiça, sentado no alto de uma pedreira rodeada de perfumados lírios. Ele traz na cabeça uma brilhante coroa, nas mãos um machado de lâmina dupla. Deitado aos seus pés, um atento leão o serve de guarda. De lá, ele observa a humanidade inteira. Para quem já atravessou tantas eras, os homens na terra são como crianças em um jardim de infância. As coisas são tão fáceis de resolver, e eles complicam tanto. Ah, quanto trabalho os homens dão para os seres das altas esferas dos planos espirituais... Mas é para isso que existem as forças espirituais, para ajudá-los a atravessar, com segurança as intempéries da vida. Os orixás ensinam o caminho, mostram sinais, mas a dureza do coração humano não compreende as lições, nem muito menos percebe os sinais, e os homens acabam caindo no vale da perdição, no qual se enredam em suas próprias inconsequências, tornando-se presas fáceis de espíritos malignos.

Ainda assim é possível recuperar suas almas aflitas. Para isso é realizado um trabalho bastante intenso e cansativo até que as auras desses frágeis seres estejam limpas. E quando isso acontece quão música suave soa pelos céus da iluminada cidade...

Dentre as cenas que se passam no planeta Terra, uma delas chama a atenção de Xangô. É um diálogo entre um pai zeloso e seu filho, Zeca: Um menino de oito anos, que volta da escola, irritado. Acompanhemos a cena.

O pequeno Zeca entra em casa, após a aula, batendo forte os seus pés no assoalho da casa. Seu pai, que estava indo para o quintal fazer alguns serviços na horta, ao ver aquilo chama o menino para uma conversa.
Zeca, de oito anos de idade, o acompanha desconfiado. Antes que seu pai dissesse alguma coisa, fala irritado:
- Pai, estou com muita raiva. O Juca não deveria ter feito àquilo comigo. Desejo tudo de ruim para ele.
Seu pai, um homem simples, mas cheio de sabedoria, escuta, calmamente, o filho que continua a reclamar:
- O Juca me humilhou na frente dos meus amigos. Não aceito. Gostaria que ele ficasse doente sem poder ir à escola.
O pai escuta tudo calado enquanto caminha até um abrigo onde guardava um saco cheio de carvão. Levou o saco até o fundo do quintal e o menino o acompanhou, calado. Zeca vê o saco ser aberto e antes mesmo que ele pudesse fazer uma pergunta, o pai lhe propõe algo:
- Filho, faz de conta que aquela camisa branquinha que está secando no varal é o seu amiguinho Juca, e cada pedaço de carvão é um mau pensamento seu endereçado a ele. Quero que você jogue todo o carvão que há neste saco naquela camisa, até o último pedaço e para cada pedaço de carvão grite com muita força. Depois eu volto para ver como ficou.
O menino achou que seria uma brincadeira divertida e pôs mãos à obra. O varal com a camisa estava longe do menino e poucos pedaços acertavam o alvo.
Uma hora se passou e o menino terminou a tarefa. O pai, que espiava tudo de longe, se aproxima do menino e lhe pergunta:
- Filho, como está se sentindo agora?
- Estou cansado e com dor de garganta, mas estou alegre porque acertei muitos pedaços de carvão na camisa.
O pai olha para o menino, que fica sem entender a razão daquela brincadeira, e carinhosamente lhe fala:
- Venha comigo até o meu quarto, quero lhe mostrar uma coisa. O filho acompanha o pai até o quarto e é colocado na frente de um grande espelho onde pode ver seu corpo todo. Que susto! Só se conseguia enxergar seus dentes e os olhinhos, de tão sujo que estava de carvão. O pai, então, lhe diz ternamente:
- Filho, você viu que a camisa quase não se sujou; mas, olhe só para você. O mau que desejamos aos outros é como o que lhe aconteceu. Por mais que possamos atrapalhar a vida de alguém com nossos pensamentos, os resíduos e a fuligem ficam sempre em nós mesmos.
Pobre menino, sábio pai, correspondentes, respectivamente, a humanos e orixás. O menino com o coração cheio de ódio contra o amigo, por motivo banal, — aliás, o ódio não se justifica, nem é saudável, mesmo em grandes questões — não percebia que estava enchendo a si mesmo de veneno mortal. O sábio pai, atento a tudo, corrige o filho, usando ensinamento simples, porém eficiente. Ora, não é esse mesmo o papel dos orixás, corrigindo? Para haver uma defesa não é preciso que haja um ataque? Se quem ataca está emitindo energias negativas, quem se defende também o faz do mesmo modo. Conclui-se deste raciocínio que ambos os lados envolvidos em uma demanda saem prejudicados. O bom mesmo seria que não fosse preciso enfrentar demandas, mas é preciso que elas existam, para que o homem treine sua vontade, sua capacidade de enfrentar situações difíceis e superá-las, sem que para isso tenha que sujar aquilo que ele tem de mais precioso: sua alma eterna.


Vejam o machado de Xangô, por exemplo, ele tem um apenas um cabo, mas este cabo segura duas laminas, significando que ação e reação partem sempre da mesma pessoa. Para cada ação, há sempre uma reação, que provocará consequências agradáveis ou desagradáveis, conforme for a natureza da ação. Essa é chamada lei da ação e reação.

Portanto, não se preocupe com os pensamentos que os outros estão emitindo em sua direção. Ao contrário, preocupe-se com os pensamentos que você está emitindo na direção das outras pessoas. É isso que você receberá de volta. Se emitir pensamentos benéficos de paz, amor e perdão é isso que receberá de volta, e sua aura ficara iluminada. Se alguém emite, em sua direção, pensamentos raivosos, ignore-os, e eles voltarão ao seu agressor, em dobro, sem sequer lhe provocar um arranhão.

A justiça de Xangô, e fundamentada na lei da ação e reação, e por isso mesmo, eficiente. É uma pena que muitos homens queiram fazer justiça com as próprias mãos. Agindo assim, eles interferem de modo negativo na eficiente e infalível, e ainda se enredam em suas próprias armadilhas, tornando-se, na maioria das vezes, tão ou mais impuros que seus próprios opressores. A verdadeira justiça está além das mãos humanas, e só o plano divino pode executá-la com eficiência e sabedoria.

Percebam o detalhe na cena que Xangô acaba de ver se desenrolar, no plano terreno, entre pai e filho. Quando o menino joga os pedaços de carvão, nem todos acertam a camisa que estava no varal, aliás, muito poucos acertaram o alvo. Aí é que está a armadilha: Nem todos os pedaços acertam o alvo, mas todos passam pelas mãos do menino, deixando em sua pele grossa fuligem.

Procure não causar a si mesmo desequilíbrios energéticos, pois quando faz isso, quem se enfraquece é você mesmo. Seja forte! Seja firme! Cuide para que pensamentos e ações vindos de outra pessoa, não lhe cause desequilíbrio. Por outro lado, cuide de sua mente para que não envie pensamentos negativos a outros, pois o pão que você oferece é o mesmo que lhe será destinado como alimento. E a estrada para quem age assim será sempre de frustrações e fracassos.

Pedras, no vosso caminho, eu sei que há muitas, alias, a vida de modo geral pode ser comparada a uma grande pedreira e, por ela, caminhamos descalços. Para os fracos, as pedras na sola dos pés são um empecilho na caminhada, um atraso. Para os fortes, elas representam sinais de crescimento e oportunidades de vitória, pois, ao caminharmos, nossos pés doem no início, mas depois vão se acostumando. As dificuldades tornam-se mais fortes e, por consequência, vamos sendo capazes de enfrentar maiores desafios, sem prejuízo de sujarmos de fuligem nosso campo energético. Nesse sentido, toda pedra no caminho pode se tornar uma flor. Se acreditares nesses preceitos, toda pedra que atirarem no teu caminho, Xangô, as transformará em lírios. É como diz um ponto, um hino, muito cantado nos terreiros de umbanda:

Estava olhando a pedreira, uma pedra rolou,
Ela veio rolando, bateu em meus pés e se fez uma flor.
Quem foi que disse que eu não sou filho de Xangô,
Ele mostra a verdade, se atira uma pedra ela vira uma flor.
Ai quantos lírios já plantei no meu jardim,
Cada pedra atirada é um lírio pra mim.

Desse modo, firmes na fé de Oxalá, chefe de Aruanda, sereis vencedor em um mundo de duras batalhas. Assim, junto com os santos, anjos e orixás, e todas as falanges do bem, podereis gozar das maravilhas do mundo invisível quando atravessares a fronteira da vida e mergulhares no mares da eternidade. Vigia a ti mesmo, vigia a tuas ações e pensamentos para que teu viver terreno seja abençoado e tranquilo, apesar das batalhas que enfrentares, e tua pós-vida, será brilhante e multicolorida como os céus eternos. Esse é o segredo dos corações pacíficos. Transformai cada pedra jogada em tua direção, em perfumado lírio, e ao final, tereis o mais belo jardim de inebriante perfume, que alguém jamais cultivou... E será grande a tua alegria.

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