0

Um discurso para formandos da universidade de Stanford... E uma lição de vida para todos nós

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:54
Quarta-feira, 17 de junho

Coração de estudante
Há que se cuidar da vida
Há que se cuidar do mundo
Tomar conta da amizade
Alegria e muito sonho
Espalhados no caminho
Verdes, plantas, sentimento
Folha, coração, juventude e fé

(Coração de estudante – Milton Nascimento, Wagner Tiso)


O menino Steve Jobs soube, desde o início, que era filho adotivo. Os pais adotivos optaram por lhe contar a verdade desde pequeno. Ele só não sabia a dimensão que uma palavra mal colocada em relação a esse assunto poderia causar no emocional de uma criança. Soube disto da pior forma possível. Ele estava com seis ou sete anos, e brincava no verde gramado de sua casa com uma menina, sua vizinha. Steve falou para a amiguinha: “Sou filho adotivo”. A menina viu nisso uma forma de rejeição e, ingenuamente, perguntou: “Então seus pais verdadeiros não queriam que você ficasse com eles?” Essa pergunta foi o suficiente para perturbar a mente do pequeno Steve. Ele levantou-se chorando e correu para casa. Ao saber o que havia ocorrido momentos antes, os pais adotivos ficaram muito sérios, e disseram, bem devagar, articulando bem as palavras: “Nós, especialmente, escolhemos você”. A palavra, especial, pronunciada com tanto amor, imediatamente fez cessar as lágrimas do garoto.

A vida do milionário Steve Jobs, nunca foi fácil. As coisas não caíram do céu diretamente para as mãos dele. Ao contrário, ele teve que lutar muito para conseguir que seus sonhos se realizassem. Ele enfrentou a falta de recursos materiais, humilhações, decepções, ingratidões, como todos nós também enfrentamos. Mas uma coisa Steve tinha de especial: Ele tinha amor pelo que fazia, e quem tem amor pelo que faz, procura fazê-lo com esmero. Além disso, ele acreditava que as coisas dariam certo. Em algum momento, elas dariam certo.

Diz um ditado popular que “Deus escreve certo por linhas tortas”. Acho que foi isso que ele fez na vida de Steve Jobs, mesmo sem que ele percebesse isso. Quando tudo parecia dar errado na vida, na vida dele, na verdade, elas estavam dando muito certo. É obvio que com a visão limitada que tem todo ser humano em relação ao próprio futuro, Steve não percebia isso, mas Deus, como bom escritor, estava, silenciosamente, conduzindo tudo, cada linha, cada palavra, cada letra.

A mãe biológica de Jobs resolveu entregá-lo para adoção, mas as forças invisíveis, lhe preparam um lar e pais que muito o amaram. Não tinha dinheiro suficiente para manter-se na faculdade, e teve que abandonar os estudos, mas mesmo nessa situação adversa, colheu ferramentas que usaria com maestria em sua obra prima.

Aos 20 anos, ao lado de Steve Wozniak e fundou a Apple. Tornou-se milionário aos 25 anos. Aos trinta anos, foi expulso da empresa que ajudara a fundar por alguém em quem muito confiava. Os ventos do destino o levaram de volta a Apple e ajudaram a salvar a empresa da falência.

Ele enfrentou a luta contra o câncer no pâncreas. Venceu. O câncer voltou. Dessa vez, a doença venceu e levou Steve desse mundo, no dia 11 de outubro de 2011.

Olhando para a história de vida de Steve Jobs, tão cheia de altos e baixos, fico a pensar: Será que Deus também não escreveu certo por linhas tortas ao levar Steve de volta para casa? Será que Ele não tinha planos melhores para Steve nas altas moradas celestiais? Como os planos do altíssimo são insondáveis, fico apenas nos questionamentos e conjecturas.

Abaixo, compartilho um belo discurso de Steve Jobs, pronunciado para uma turma de formandos da universidade americana de Stanford.

Era um belo e ensolarado dia 12 de junho do ano de 2005. Steve Jobs, então presidente da Apple Computer e da Pixar Animation Studios, falava, em cerimônia realizada ao ar livre, aos formandos daquela instituição.

Mais do que um discurso, as palavras de Steve são uma lição de vida e merecem ser ouvidas com carinho por todos nós.

***



Discurso de Steve Jobs na universidade de Stanford, nos Estados Unidos, em junho de 2005.

É uma honra estar com vocês hoje nesta formatura de uma das mais excelentes universidades do mundo. Verdade seja dita, eu nunca me formei na faculdade. Esta foi a vez na vida que eu cheguei mais perto de uma formatura de faculdade. Hoje eu gostaria de contar para vocês três histórias da minha vida. É isso, não é grande coisa. Só três histórias.

A primeira história é sobre ligar os pontos.

Eu deixei a Reed College depois dos primeiros seis meses, mas continuei assistindo as aulas por mais dezoito meses antes de eu sair realmente. Então porque eu saí?

Começou antes de eu nascer. Minha mãe biológica era uma jovem e solteira estudante de faculdade, e ela decidiu me colocar para adoção. Ela achava muito fortemente que eu deveria ser adotado por pessoas formadas. Então tudo estava preparado para que, quando eu nascesse, fosse adotado por um advogado e sua esposa. Quando eu apareci eles decidiram no último minuto que, na verdade, eles queriam uma menina. Então meus pais adotivos que estavam numa lista de espera receberam uma ligação no meio da noite, perguntando: “Nós temos um garoto inesperado, vocês o querem?” Eles disseram: “é claro!” Minha mãe biológica, descobriu mais tarde que minha mãe adotiva nunca se formou na faculdade e que meu pai adotivo nunca se formou no colégio, no ensino médio. Ela se recusou a assinar os papeis finais da adoção. Ela só cedeu alguns meses depois quando meus pais adotivos prometeram que, um dia, eu iria para a faculdade. Esse foi o começo na minha vida.

Dezessete anos depois eu fui pra faculdade. Mas ingenuamente eu escolhi uma faculdade quase tão cara quanto Stanford, e todas as economias dos meus pais de classe operária, estavam sendo gastas na minha educação superior. Depois de seis meses eu não via valor em nada do que aprendia. Eu não tinha ideia do que queria fazer com minha vida, e nenhuma ideia de como a faculdade poderia me ajudar a descobrir. E lá estava eu, gastando todo o dinheiro que meus pais economizaram durante suas vidas inteiras. Então eu decidi sair e confiar que tudo ia acabar dando certo. Era bem assustador naquela época, mas olhando para trás foi uma das melhores decisões que eu já tomei. Assim que eu saí, eu parei de assistir as aulas obrigatórias que não me interessavam, e comecei assistir as q pareciam interessantes.

Nem tudo foi tão romântico. Eu não tinha um dormitório, então eu dormia no chão do quarto dos amigos. Eu devolvia garrafas de coca-cola aos depósitos por cinco centavos para poder comprar comida, e eu andava onze quilômetros através da cidade toda noite de domingo para pegar uma boa refeição semanal no templo Hare Krishna. Eu amava aquilo. E muito do que eu encontrei seguindo minha curiosidade e intuição se mostrou de valor incalculável mais tarde. Deixe-me dar um exemplo.

O Reed College, naquele tempo oferecia, quem sabe, o melhor curso de caligrafia do país. Por todo o campus, cada pôster, cada etiqueta em cada gaveta apresentava uma bela caligrafia manual. Por eu ter saído e não ter que assistir as aulas normais, eu decidi aprender caligrafia pra aprender. Eu aprendi sobre tipos com e sem serifa, sobre a variação do espaço entre diferentes combinações de letras, sobre as características que tornam uma tipografia importante. Era bonita, histórica, artisticamente sutil, de uma maneira que a ciência não podia capturar. E eu achei aquilo fascinante.

Nada disso tinha sequer uma esperança de aplicação prática em minha vida. Mas dez anos depois, quando nós estávamos projetando o primeiro computador Macintosh eu me lembrei de tudo aquilo. E nós colocamos tudo no Mac. Foi o primeiro computador com uma tipografia bonita. Se eu nunca tivesse entrado naquele simples curso da faculdade, o Mac nunca teria múltiplos tamanhos de letras ou fontes proporcionalmente espaçadas, e já que o Windows copiou o Mac, provavelmente, nenhum computador pessoal teria. Se eu nunca tivesse deixado a faculdade eu nunca teria entrado na aula de caligrafia e os computadores pessoais poderiam não ter a maravilhosa tipografia que eles têm. Claro que era impossível à mim, conectar os pontos quando eu estava na faculdade, mas ficou muito, muito claro, olhando para trás dez anos depois.

Repito: você não pode conectar os pontos olhando adiante, você só pode conectá-los olhando para trás. Então você tem que confiar que os pontos, de algum jeito, vão se conectar no futuro. Você tem que confiar em alguma coisa: seu Deus, destino, carma, seja o que for. Porque acreditar que os pontos vão se ligar em algum momento vai te dar confiança para seguir seu coração, e mesmo que ele te leve para um caminho diferente do que o previsto, isso fará toda diferença.

Minha segunda história é sobre amor e perda.

Eu fui sortudo, encontrei o que eu amava fazer cedo na vida. Woz e eu começamos na garagem dos meus pais quando eu tinha vinte anos. Nós trabalhamos duro, e em dez anos, a Apple cresceu de duas pessoas e uma garagem, para uma empresa dois bilhões de dólares com mais de quatro mil empregados. Nós acabávamos de lançar nossa maior criação — o Macintosh — um ano antes, e eu ainda não completara trinta anos.

Então eu fui demitido. Como você pode ser demitido de uma empresa que você criou? Bem, conforme a Apple crescia, nós contratamos alguém que eu achava muito talentoso para dirigir a empresa comigo. No primeiro ano as coisas saíram bem, mas então nossas visões de futuro começaram a divergir e, terminamos rompendo. Quando isso aconteceu, nosso quadro de diretores ficou do lado dele. Então, aos trinta anos eu estava fora, e muito escandalosamente fora da empresa. O que tinha sido todo o foco de toda a minha vida adulta se foi, e isso me destruiu.

Eu realmente não sabia o que fazer por alguns meses. Senti que tinha decepcionado a geração anterior de empreendedores, e tinha deixado cair o bastão no momento em que ele estava sendo passado para mim. Eu encontrei David Packard e Rob Noyce e tentei me desculpar por ter estragado tudo daquela maneira. Foi um fracasso público, e até mesmo pensei em deixar o Vale do Silício. Mas alguma coisa, lentamente, começou a nascer em mim. Eu continuava amando o que eu fazia. As coisas que aconteceram com a Apple não mudaram isso em nada. Eu havia sido rejeitado, mas continuava amando. Foi quando decidi começar de novo.

Não enxerguei isso na época, mas ser demitido da Apple foi a melhor coisa que poderia ter me acontecido. O peso de ser vitorioso foi substituído pelo vazio de se um iniciante outra vez, sem muita certeza sobre nada, e isso me deu liberdade para começar um dos períodos mais criativos de minha vida. Durante os cinco anos seguintes, criei uma empresa chamada NeXT, outra empresa chamada Pixar, e me apaixonei por uma mulher maravilhosa que se tornou minha esposa. A Pixar fez o primeiro filme animado por computador, Toy Story, e é o Studio de animação mais bem sucedido do mundo. Em uma inacreditável guinada nos fatos, a Apple comprou a NeXT e eu voltei à empresa, e a tecnologia que desenvolvemos nela está no coração do atual renascimento da Apple. Laurene e eu temos uma família maravilhosa.

Tenho certeza de que nada disso teria acontecido se eu não tivesse sido demitido da Apple. Foi um remédio horrível, mas eu entendo que o paciente precisava dele. Se, às vezes, a vida bate com um tijolo na sua cabeça, não perca a fé. Estou convencido de que a única coisa que me permitiu seguir adiante foi o meu amor pelo que fazia. Você tem que descobrir o que você ama. Isso é verdadeiro tanto para o seu trabalho quanto para a vida afetiva. Seu trabalho vai preencher uma parte grande de sua vida. E a única maneira de fazer o que você acredita é fazer um ótimo trabalho, e a única maneira de fazer um excelente trabalho é amar o que faz. Se você ainda não encontrou, continue procurando. Não se acomode. Assim como todos os assuntos do coração, você saberá quando encontrar. É, como em qualquer grande relacionamento: Só fica melhor e melhor á medida que os anos passam. Então continue procurando até você achar. Não sossegue.

Minha terceira história é sobre a morte.

Quando eu tinha dezessete anos, eu li uma citação mais ou menos assim: se você viver cada dia como se fosse o último, algum dia, provavelmente, vai acertar. Aquilo me impressionou e, desde então, nos últimos 33 anos, eu tenho me olhado no espelho cada manhã e me perguntado a mim mesmo: se hoje fosse o último dia da minha vida, eu ia querer fazer o que eu vou fazer hoje? E sempre que resposta foi não por vários dias seguidos eu soube que eu tinha que mudar alguma coisa.

Lembrar que eu logo vou estar morto é a ferramenta mais importante que eu já encontrei para me ajudar a fazer grandes escolhas na vida, porque quase tudo, toda expectativa exterior, todo orgulho, todo medo de dificuldades ou falhas, estas coisas simplesmente somem em face da morte, deixando apenas realmente o que é importante. Lembrar que você vai morrer é a melhor maneira que eu conheço para evitar armadilha de achar que tem algo a perder. Não há razão para não seguir o que seu coração diz.

 Mais ou menos há um ano, eu recebi um diagnostico de câncer. Eu fiz uma ressonancia às sete e meia da manhã, e ela mostrou, claramente, um tumor no meu pâncreas. E eu nem sabia o que era um pâncreas. Os médicos me disseram que era quase certeza, um tipo incurável de câncer, e que eu não devia esperar viver mais que três a seis meses. O médico me aconselhou a ir para casa e colocar meus negócios em ordem, o que no jargão médico, significa: “prepare-se par morrer”.

Significa tentar dizer aos seus filhos, em poucos meses, tudo o que pensou que teria os próximos dez anos para lhes dizer. Significa ter certeza de que tudo está no organizado para que a família sofra o mínimo possível. Significa dizer adeus.

Eu passei o dia inteiro com aquele diagnóstico o dia inteiro. Depois, naquela noite eu fiz uma biopsia, em que eles enfiaram um endoscópio na minha garganta, através do meu estomago e, dentro dos meus intestinos, colocaram uma agulha no meu pâncreas e pegaram algumas células do tumor. Eu estava sedado, mas minha esposa, que estava presente, me disse que, quando eles viram as células no microscópio, os médicos começaram a chorar, porque descobriram que era uma forma muito rara de câncer pancreático, mas que seria curável através de cirurgia. Eu fiz a cirurgia, e hoje eu estou bem.

Isso foi o mais perto que eu cheguei de encarar a morte, e eu espero que passem algumas décadas sem que a situação se repita. Tendo sobrevivido, hoje eu posso dizer isso a vocês com um pouco mais de certeza do que quando a morte era um conceito útil, mas puramente intelectual: Ninguém quer morrer. Mesmo as pessoas que querem ir para o céu não querem morrer pra chegar lá. E mesmo assim a morte é o destino comum a todos nós. Ninguém nunca escapou dela. E é certo que seja assim, porque a morte é, muito provavelmente, a melhor invenção da vida. É o agente de mudança da vida. Ela remove o velho do caminho e abre espaço para o novo. Por enquanto vocês são o novo. Mas algum dia não muito distante, vocês, gradualmente, vão se tornar velhos e sair do caminho. Desculpem-me por ser tão dramático, mas essa é a verdade.

O tempo de que vocês dispõem é limitado. Então não o desperdicem vivendo a vida de outra pessoa. Não se deixem aprisionar por dogmas — isso significa viver sob os ditames do pensamento alheio. Não deixe o ruído da opinião alheia sufocar sua voz interior. E mais importante: Tenha coragem de seguir o coração e a intuição de vocês. Eles, de alguma forma, já sabem o que você realmente quer se tornar. Tudo o mais é secundário.

Quando eu era jovem, havia uma maravilhosa publicação chamada, The Whole Earth Catalog (O Catalogo de Toda a Terra), que era uma das bíblias de minha geração. Foi criada por um sujeito chamado, Stewart Brand, não muito longe daqui, em Menlo Park, e ele deu vida à publicação com seu toque poético. Isso foi no final dos anos 60, antes dos computadores pessoais e da editoração eletrônica, então tudo era feito com máquinas de escrever, tesouras e câmeras polaroids. Era como o Google em papel, trinta e cinco anos antes de o Google aparecer. Era um projeto idealista e repleto de recursos elegantes e ideias brilhantes.

Stewart e sua equipe publicaram várias edições de O Catalago de Toda a Terra, e então quando a ideia havia esgotado suas possibilidades, eles publicaram uma edição final. Era meados dos anos 70, e eu tinha a idade de vocês. Na quarta capa da edição final, havia uma fotografia do amanhecer em uma estradinha de terra, do tipo que você podia ficar pegando carona, se você fosse um aventureiro. Abaixo da foto estavam as palavras: “Permaneçam famintos. Permaneçam tolos”. Era a mensagem de despedida deles. Permaneçam famintos. Permaneçam tolos, foi o que eu sempre desejei para mim mesmo. É o que eu desejo a vocês em sua formatura e em seu novo começo.


Muito obrigado a todos vocês.

0 Comments

Postar um comentário

Copyright © 2009 Cottidianos All rights reserved. Theme by Laptop Geek. | Bloggerized by FalconHive. Distribuído por Templates