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Todas as formas de amor

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:23
Quinta-feira, 04 de junho

"E a gente vive junto
A gente se dá bem
Não desejamos mal a quase ninguém
E a gente vai à luta
E conhece a dor
Consideramos justa
Toda forma de amor
(Toda forma de amor – Lulu Santos)



Certa noite deste ano, estava eu voltando para casa, quando aproveitei para passar em um supermercado e fazer algumas compras. Depois disso, me dirigi à parada de ônibus. Já passava um pouco das onze da noite e os ponteiros do relógio, que haviam corridos separados desde o meio dia, como dois amantes, estavam ansiosos para se novamente se encontrarem, e por um poucos momentos, roçarem seus corpos metálicos, em excitantes cenas de amor no filme das horas.

Àquela hora, o trânsito estava tranquilo, as pessoas quietas. Umas pensando na vida, outras cansadas do trabalho, não viam a hora de chegar em casa e, simplesmente, descansar.

Quando cheguei à parada de ônibus, poucos bancos havia para que os passageiros pudessem esperar com maior comodidade. A maioria estava em pé, cada qual a espera do ônibus que os levaria para casa. Se vocês me pedirem para descreverem algum dos que ali estavam, serei sincero e direi que não lembro. Ah, lembro sim. De duas moças eu lembro. Elas representavam o diferente, e aquilo que é diferente, ou que, pelo menos, consideramos diferente do que somos, nos chama a atenção, nos provoca, nos irrita, nos apavora.

Uma dessas jovens era negra, não era exatamente magra, mas também não se podia dizer que fosse gorda. Tinha uma beleza proporcional ao seu corpo. Seus cabelos eram crespos e curtos. A outra era branca, cabelos lisos e longos. Era um pouco mais magra que a outra. As duas eram de estatura mediana. Elas estavam abraçadas. Trocando caricias. Eram namoradas.

Fiquei olhando aquelas belas moças. E o que mais me chamou a atenção nelas foi o brilho no olhar, principalmente da moça branca. Parecia que tinha estrelas no lugar dos olhos. Na verdade não era o brilho das estrelas que estavam sobre elas, era o brilho do amor.

Não vi atitude hostil para com essas jovens por parte de nenhum dos usuários do transporte coletivo que estavam ali naquele momento. Todos pareciam mais preocupados com suas próprias vidas do que com o modo de vida daquelas moças. Acho que deveria ser sempre assim.

Ainda observando aquela cena romântica na quase meia noite, fiquei pensando. Não teriam elas não tem o direito de se amarem? Em que o amor entre elas pode prejudicar a humanidade? Em que medida esse amor pode prejudicar a mim, ou a qualquer daqueles que estavam ali? Que ameaça para a sociedade representa a união entre duas pessoas do mesmo sexo?

Muitos usam a bandeira da religião para justificar seus atos de intolerância ou racismo. Que me desculpem os moralistas de plantão, eu diria aos fanáticos religiosos que se Jesus Cristo voltasse ao mundo hoje, ele, provavelmente, diria: “Os homossexuais vos precederão no reino dos céus”. Por que penso assim?

Ora, atitudes racistas e preconceituosas não foram inventadas agora. Elas existem desde tempos imemoriais. Na Judeia do tempo de Jesus não era diferente. Havia o preconceito contra os pobres, contra os cobradores de impostos, e contra as prostitutas. Certa vez, disse Jesus aos seus interlocutores: “As prostitutas e os cobradores de impostos vos precederão no reino dos céus, porque João veio até vocês para mostrar o caminho da justiça e vocês não creram nele. Os cobradores de impostos e as prostitutas acreditaram nele”. Essa pregação se deu no Templo em Jerusalém, e não era dirigida a homens não instruídos, mas a homens altamente instruídos e conhecedores da lei. Certamente, Jesus sentia na pele as discriminações sofridas pela gente simples de sua região, pois ele também era parte do povo simples e pobre, e como tal, também ele, discriminado.

Tomemos como exemplo a figura de Hitler. O alemão foi o responsável pelo genocídio de milhões judeus inocentes. Todos erguem as mãos para atirar pedras nele. Porém, os preconceituosos não deveriam fazer isso. Ao contrário, deveriam aplaudi-lo. Por quê? Porque eles se parecem com Hitler na paranoia de suas tortas ideias. O que muda nesse caso é apenas e tão somente o objeto da ação: a aversão do Führer pelos judeus, e os intolerantes do tempo presente, contra os negros, contra os gays, contra os pobres e tantos outros grupos de marginalizados e crucificados.

Sem querer dar uma de profeta, mas ainda continuando nessa linha, faço a sociedade moderna, o mesmo questionamento que Jesus: Quem não tem pecado que atire a primeira pedra. Foi assim: Estando no Monte das Oliveiras a pregar, os mestres da lei e os fariseus, homens “retos e cumpridores da palavra”, trouxeram uma mulher para ser apedrejada, pelo fato de ela ter sido surpreendida em adultério. Perguntaram eles: “Mestre, esta mulher foi surpreendida em ato de adultério. A lei, Moisés nos ordena apedrejar tais mulheres. E o senhor, que diz?” Na verdade, tanto o gesto de levar a mulher diante de Jesus, como o questionamento eram uma armadilha. Tanto fazia se a resposta do profeta fosse sim, ou fosse não, ela seria usada pelos religiosos hipócritas da época para incitar o povo contra ele. Percebendo essa artimanha, Jesus não disse uma única palavra. Simplesmente, ajoelhou-se e começou a escrever no chão com o dedo. Como os homens continuassem a interrogá-lo, calmamente ele disse: “Se algum de vocês estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar pedra nela”, continuando novamente a escrever na areia. Um por um seus questionadores foram embora. Depois perguntou a mulher se ninguém a havia condenado. Obtendo uma resposta negativa, disse a ela que fosse embora e não pecasse mais.


Para a Lei do Amor, o que importa não é o que as pessoas aparentam ser, mas sim o que elas são. Se elas tem bons pensamentos e são capazes de amar verdadeiramente, são bem-vindas no universo celeste, se não, elas mesmas se afastam desse ambiente luminoso, não importam se sejam padres, pastores, gays ou heteros.

Escrevo estes fatos ao ver a confusão provocada por uma peça publicitária da fabricante de perfumes, Boticário. A Campanha publicitária é relacionada ao ato de presentear com perfumes por ocasião do Dia dos Namorados — que será no próximo dia 12 de junho. No comercial do Boticário aparecem diversos casais heterossexuais e homossexuais se presenteando com artigos da empresa. Há uma troca de carinho que se traduz em olhares e abraços. Enfim, uma peça publicitária cheia de ternura.

O vídeo foi lançado no dia 25 de maio, em TV aberta e na Internet. Muitos elogios foram feitos a peça publicitária, mas também muitas reclamações. Muitos consumidores consideraram a peça um desrespeito à sociedade e à família. Note-se que no comercial não há nenhuma cena de beijos entre os casais, ou outras atitudes mais ousadas, apenas carinho e afeto. Mesmo assim, a pagina da empresa foi invadida com uma enxurrada de mensagens homofóbicas e até reclamações no CONAR (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária).

Em defesa própria o Boticário lançou a seguinte nota: “O Boticário acredita na beleza das relações, presente em toda sua comunicação. A proposta da campanha “Casais”, que estreou em TV aberta no dia 24 de maio, é abordar, com respeito e sensibilidade, a ressonância atual sobre as mais diferentes formas de amor – independentemente de idade, raça, gênero ou orientação sexual - representadas pelo prazer em presentear a pessoa amada no Dia dos Namorados. O Boticário reitera, ainda, que valoriza a tolerância e respeita a diversidade de escolhas e pontos de vista", reforçando a posição da empresa de respeito às diversas formas de amar.

Fiquei sem entender toda essa confusão, pois, em abril, outro comercial de bombons Sonho de Valsa, foi ainda mais ousado, mostrando beijos entre casais heterossexuais e um casal homossexual do sexo feminino. Ninguém reclamou desse comercial, muito ousado em relação ao do Boticário.

O que me impressiona em tudo isso é ver que apesar de o homem ser capaz de grandes avanços na tecnologia e na ciência, ele ainda se perde quando o assunto envereda pela questão do sentimento, do dialogo. Tudo isso porque nós, humanos, de modo geral, não somos treinados para mergulhar nesse imensurável oceano de mistérios que somos todos nós. Dominamos as maquinas, mas não dominamos a nós mesmos. Por causa disso, os ambientes Judiciários estão abarrotados de processos e mais processos, muitos deles, absolutamente desnecessários. Bastaria apenas uma simples conversa, um simples diálogo entre as partes e tudo se resolveria. Mas por essa dificuldade de o homem não saber dialogar consigo mesmo, consequentemente, não sabe conversar com o seu semelhante. Daí ser necessário levar questões íntimas e pessoais ao conhecimento de terceiros, chamados juízes, advogados e mediadores.

Também por esse desconhecimento de si mesmo, o homem tem dificuldade de aceitar o outro, e assim vamos vivendo em um mundo sem paz, não porque a paz não seja um sonho possível, mas porque nós humanos somos complicados demais.

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