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Sobre delírios de um prisioneiro de guerra e sobre viver intensamente

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:09
Segunda-feira, 23 de março

"Sempre há algo acontecendo,
não existem momentos comuns, nada é banal."
(do filme, Poder Além da Vida)



 Socrates — Retire o lixo.
Dan Milman — Retire você. Diz o jovem, pensando que se tratava do lixo doméstico.
Socrates — O lixo está aqui, diz Socrates apontando para a mente de Dan. É primeira parte de seu treinamento.  Aprenda a jogar fora tudo o que não precisa aqui dentro.
Dan Milman — Como?
Socrates — Encontre-me amanhã.  No Campus. Na ponte, Riacho dos Morangos.
No dia seguinte, Dan corre para encontrar Socrates na ponte indicada. Pede que eles seja breve.
 Socrates — Claro! Responde ele, jogando Dan de cima da ponte para dentro do rio. O jovem sai de dentro d’água muito bravo. Pede explicações. Sócrates diz, simplesmente:
Socrates — Eu esvaziei sua mente.
Dan Milman — Você o quê? Pergunta o jovem ainda muito bravo.
Socrates — Eu a esvaziei.
Dan Milman — Não esvaziou não.  Você me jogou no rio.
Socrates — Enquanto caía, em que pensava Dan?
Dan Milman — Não sei.
Socrates — Estava pensando na escola?
Dan Milman — Não!
Socrates — Em fazer compras?
Dan Milman — Não!
Socrates — Em onde estava indo?
Dan Milman — Não!
Socrates — Estava 100% dedicado a experiência que estava tendo. Tem até uma palavra para isso, diz Sócrates imitando o grito dado por Dan, ao ser jogado dentro do rio.
Os dois continuam o dialogam no belo e verde ambiente do Campus que os rodeia. Mais a frente na conversa, Sócrates diz.
Sócrates — Não estava prestando atenção. Mesmo agora não está atento. Sua mente está enchendo de novo. Está perdendo tudo o que está acontecendo.
Dan Milman — Não há nada acontecendo.
Sócrates, repentinamente, agarra os ombros de Dan com uma mão e o obriga a olhar para as cenas que estão acontecendo, naquele exato momento, no parque ao redor; amigos conversando e rindo; Um cachorro brincando; Um jovem, sentado em baixo de uma árvore, lendo um livro; Uma Joaninha subindo tranquilamente pela folha de uma planta; Um casal namorando.
Sócrates larga a pressão que fazia nos ombros do jovem e diz:
Sócrates — Sempre há algo acontecendo. Retire o lixo, Dan. Seu lixo é a única coisa que lhe afasta da coisa que realmente importa: esse momento. Aqui. Agora. E quando você estiver no aqui e agora, ficará maravilhado com o que pode fazer e como pode fazer bem.
***

O texto acima é uma narrativa da cena de um dos meus filmes preferidos, chamado, Poder Além da Vida (Peaceful Warrior). Um filme americano, lançado em 2006, tendo nos papéis principais, Nick Nolte (Sócrates), Scott Mechlowicz (Dan Milman) e Amy Smart (Joy). Apesar de o título do filme, em português, remeter a questões espirituais, o filme é, na verdade, uma história de superação de um jovem ginasta de uma universidade americana que, em um acidente automobilístico, fica impossibilitado de fazer aquilo que ele mais gosta: esporte. O filme contém diálogos muito ricos e bem elaborados que nos fazem refletir sobre o modo como fazemos o nosso caminho pela vida.

A cena do filme com a qual decidi abrir o texto, nos traz à reflexão o fato de usarmos melhor a nossa mente, prestando atenção a tudo o que nos cerca, de ficar atentos a tudo o que acontece ao nosso redor.  Muitas pessoas passam pela vida como se estivessem numa espécie de topor. Por estarem desatentas aos pequenos detalhes da vida, elas acabam não retirando da vida o essencial.

Todos nós, em nosso dia a dia, estamos sujeitos a acumular em nossa mente, muito lixo mental. Precisamos achar um método de nos livrar desse lixo. Não precisamos ir muito longe. Basta pensar na lixeira de nossas casas. Tiramos o lixo todos os dias, ou a cada dois dias, depende do tamanho do lixo e do costume de cada um. Imagine se você nunca se preocupasse em tirar o lixo. Como ficaria o seu ambiente doméstico? Insuportável, para dizer o mínimo. Assim é com o lixo mental que acumulamos, temos que nos livrar dele. Se não o fizermos nosso reservatório mental vai ficando tão cheio que acabamos por não sermos tão produtivos e não aproveitarmos tão bem a vida como, naturalmente, nos é dado fazer.

Por que esperar passarmos para a outra dimensão da vida, a dimensão espiritual para vivermos a vida com intensidade? Ou sofremos algum acidente grave e, num leito de hospital, refazermos nossos planos de sermos mais intensos em nosso agir e em nossas relações cotidianas? Você deve conhecer alguém que depois de um sério problema de saúde, percebeu que estava fazendo tudo de forma errada, e resolveu traçar uma nova rota para singrar com mais eficiência e segurança os mares da vida. Eu também conheço. Não seria muito mais proveitoso rever o modo como estamos vivendo e refazer a rota ainda com saúde e disposição?

Como cheguei a estas reflexões? Lendo mais uma história do site americano VOA News, chamada, An Occurrence at Owl Creek Bridge (Uma ocorrência na Ponte Riacho da Coruja). O texto foi escrito pelo autor americano, Ambrose Bierce, publicada originalmente em 1890. No VOA Voice of America o fato é narrado por Shep O’Neal. Fiz uma tradução livre do texto e o apresento a vocês.

Tenho apresentado aqui no blog, alguns textos por mim traduzidos do referido site. Por quê? Em primeiro porque é uma forma de aprendizado, segundo porque me distraio com essa atividade, e terceiro, informo aos caros leitores.

O texto é ambientado entre os anos de entre os anos de 1861-1865, nos Estados Unidos, durante a Guerra Civil entre os estados do norte e do sul. Os soldados do exercito do norte executam um prisioneiro, enforcado, em uma ponte. Antes de morrer o soldado divaga em pensamentos de fuga e liberdade. Um trecho que liga essa história com a cena do filme é quando, na fuga, a única coisa que o prisioneiro no fundo do rio quer, é respirar. Quando ele põe a cabeça para fora da água, é como se seus sentidos estivessem mais aguçados que antes. Ele vê e ouve sons que nunca antes tinha ouvido. Só então, já em direção ao mundo espiritual, é que o homem enxerga a vida em sua total intensidade.

Vamos à história.

***



Uma ocorrência na Ponte Riacho da Coruja

A ocorrência, ou evento, de nossa história de hoje tem como cenário a Guerra Civil dos anos sessenta, entre os Estados Americanos do norte e do sul.  Um grupo de soldados está enforcando um fazendeiro sulino, na tentativa de parar os movimentos militares do norte, através da Ponte Riacho da Coruja.

No último momento de sua vida, o prisioneiro sulino sonha que escapou. Tudo que acontece na história é reflexo das imagens que se formam na mente do prisioneiro, antes de ele morrer.

***

Um homem, em pé sobre uma ponte ferroviária, no Alabama, olhava para dentro das águas velozes que corriam no rio Riacho da Coruja. As mãos do homem estavam amarradas para trás. Havia uma corda ao redor do seu pescoço. A corda estava em uma parte da ponte, acima dele. Três soldados do exército do norte estavam parados próximos ao prisioneiro, esperando ordens do capitão para enforcá-lo.

Todos estavam prontos. O prisioneiro estava em parado, calmamente. Os olhos dele não estavam vendados. Olhava para baixo, para as águas sob a ponte. Ele fechou os olhos.

Ele queria que seus últimos pensamentos fossem para sua esposa e seus filhos. Porém, enquanto tentava pensar neles, ouviu sons, repetidamente. Os sons eram suaves. Mas tornavam-se cada vez mais altos e começavam a ferir seus ouvidos. A dor era forte. Ele queria gritar. Entretanto, os sons que ele ouvia eram somente as águas velozes do rio, correndo embaixo da ponte.

O prisioneiro, rapidamente, abriu os olhos e olhou para a água. “Se eu pudesse soltar minhas mãos”, pensava ele. “Então eu poderia tirar a corda de meu pescoço e pular no rio. Eu poderia nadar por baixo d’água e escapar do fogo de suas armas. Poderia alcançar o outro lado do rio e chegar em casa, através da floresta. Minha casa é fora da área militar, e minha esposa e meus filhos estão salvos lá. Eu também estarei...

Enquanto estes pensamentos passavam pela mente do prisioneiro, o capitão deu ordens aos soldados para enforcá-lo. Um soldado obedeceu rapidamente. Ele amarrou firmemente a corda, ao redor do pescoço do prisioneiro. Em seguida, o prisioneiro caiu por um vão da ponte.

Quando o prisioneiro caiu, tudo pareceu tornar-se escuro e vazio. Então ele sentiu uma dor aguda no pescoço e não conseguia respirar. Havia dores terríveis dores saindo de seu pescoço, percorrendo seu corpo, seus braços e pernas. Ele não conseguia pensar. Podia apenas experimentar um sentimento de vida em um mundo de dor.



Então, de repente, ele ouviu um barulho... Alguma coisa caindo na água. Houve um grande som em seus ouvidos. Tudo ao redor dele estava frio e escuro. Agora ele conseguia pensar. Acreditava que a corda havia rompido, e que ele estava dentro do rio.

Mas a corda ainda em volta do seu pescoço e suas mãos estavam amarradas.  Ele pensou: “Quão divertido. Quão divertido é morrer enforcado no fundo de um rio”. Então ele sentiu seu corpo movendo-se para a superfície da água.

O prisioneiro não sabia o que estava fazendo. Mas suas mãos alcançaram a corda no pescoço e o livraram do incomodo.

Imediatamente ele sentiu a mais violenta dor que jamais havia sentido. Queria colocar a corda de volta ao pescoço. Ele tentou, mas não conseguiu. Suas mãos agitaram a água e o impulsionaram para a superfície. Sua cabeça emergiu da água. A luz do sol cortou seus olhos. Sua boca se abriu, e ele inspirou o ar. Foi demais para os seus pulmões. Ele soltou o ar com um grito.

Agora o prisioneiro podia pensar mais claramente. Todos os sentidos voltaram. Eles estavam mais aguçados que antes. Ele ouviu sons que nuca tinha escutado antes — que nenhum ouvido humano jamais tinha escutado: O bater das asas de um pequeno inseto, o movimento de um peixe. Seus olhos viam mais que apenas as árvores na beira do rio. Ele via cada folha nos galhos das árvores. Ele via as finas linhas das folhas.

E ele viu a ponte, com a parede no fim. Viu os soldados e o capitão na ponte. Eles gritaram, e apontaram para ele. Eles pareciam monstros gigantes. Enquanto olhava, ele ouviu tiros. Algo atingiu a água, perto de sua cabeça. Agora, ele ouviu um segundo tiro. Viu um soldado atirando contra ele.

Ele sabia que tinha de chegar à floresta e fugir. Ouviu o comandante mandar os outros soldados atirar.

O prisioneiro mergulhou no rio, tão profundo quanto ele pode. A água faz um grande barulho em seus ouvidos, ainda assim, ele ouviu os tiros.



Quando voltou novamente a superfície, viu as balas atingirem a água. Algumas delas rasparam suas mãos e sua face.

Uma delas raspou o colarinho de sua camisa. Ele sentiu o calor da bala nas costas.

Quando pôs a cabeça fora d’água para respirar, viu que estava bem mais longe dos soldados. Então ele começou a nadar com mais força.

Ele viu os soldados apontarem os canhões em sua direção. Mas não o acertaram. Então, de repente, ele não conseguia nadar. Foi pego por um redemoinho que se manteve girando e girando em volta dele. Era o fim, pensou. Então, tão de repente quanto o apanhou, o redemoinho o soltou e o atirou para fora do rio. Ele estava em terra firme.



Ele beijou o chão. Olhou ao redor. Havia uma luz rosa no ar. O vento soprando nas árvores parecia música. Ele queria estar ali. Mas os canhões atiravam novamente, e ele ouviu as balas passando acima de sua cabeça. Levantou-se e correu para a floresta. Finalmente, ele encontrou a estrada que o levava para casa. Era uma estrada larga e reta. Também parecia que ninguém nunca passado por ela. Nenhuma fazenda. Nenhuma casa ao lado da estrada, apenas árvores pretas e altas.

Nas árvores pretas e altas, o prisioneiro ouvia vozes estranhas. Algumas delas diziam palavras que ele não conseguia entender.

Seu pescoço começou a doer. Quando ele o tocou, o sentiu grande demais. Seus olhos doíam tanto que ele não conseguia fechá-los. Seus pés se moviam, mas ele não conseguia sentir a estrada.

Enquanto ele caminhava, sentia uma espécie de sono. Agora, meio-acordado, meio dormindo, ele encontrou-se a si mesmo na porta de casa. Sua adorável esposa correu para ele. Ah, finalmente.

Ele colocou os braços em volta da bela esposa. Então ele sentiu uma terrível dor atrás do pescoço. Tudo em volta dele tornou-se uma grande luz branca e sons de canhão. E então... Então... Escuro e silêncio.



O prisioneiro estava morto. Seu pescoço estava quebrado. Seu corpo pendurado no fim de uma corda balançava-se de um lado para outro. Balançando, suavemente, em um vão da Ponte Riacho da Coruja.

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