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O mundo se despede de um guerreiro

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 03:05
Segunda-feira, 16 de dezembro

Imagem: http://noticias.uol.com.br/album/2012/07/18/a-trajetorio-de-nelson-mandela-em-fotos.htm

A pequena aldeia de Qunu, localizada na Província de Cabo Oriental, e cuja população, é de aproximadamente 300 habitantes, nunca mais será a mesma após o dia 15 de dezembro de 2013. Qunu sai do anonimato para entrar para a história. Naquele ambiente rural, foi depositado o corpo mortal de um guerreiro destemido, um ícone na luta contra o apartheid, um sábio estadista e um ser humano iluminado: Nelson Mandela.

Qual a árvore que não procura suas raízes? Qual criança não procura seu berço? Qual homem não busca sua origem? Na condição de líder político, querido e respeitado, nacional e internacionalmente, Mandela poderia ser enterrado em qualquer dos melhores cemitérios da África do Sul. Seu desejo, porém, foi o de que, ao despedir-se da vida terrena, seu corpo fosse repousar sob a terra onde viveu a plenitude de sua infância: a vila rural de Qunu.

Imagem: http://construindoumnovomaranhao.blogspot.com.br/2013_12_01_archive.html


Durante os 27 anos que permaneceu no cárcere, submetido a trabalhos forçados no triste e penoso, ambiente prisional, Mandela, certamente, lembrou muitas vezes, dos tempos em que, ainda criança, corria livremente por aqueles campos, nos quais a liberdade reinava absoluta. Suas lembranças o devem ter levado à pequena escola da vila, onde se reunia à outras crianças de sua idade, e entre tarefas escolares e brincadeiras próprias da infância, irradiava alegria e felicidade – tesouros que carregou pela vida inteira, mesmo quando as situações lhe eram adversas. Ainda da escola, deve ter recordado dos seus primeiros professores e professoras que lhe incutiram na alma, a ideia de que a educação é uma arma poderosa, da qual um homem deve sempre se utilizar para mudar, primeiro a si mesmo, e depois ao mundo ao seu redor. Enquanto o suor lhe escorria pelo corpo devido ao trabalho penoso nas pedreiras do Presídio da Ilha Robson, os pensamentos de Mandela também devem ter visitado o ambiente familiar, no qual lhe foi moldado o caráter.

Imagem: http://www.reidaverdade.net/nelson-mandela-resumo-biografia.html

Enquanto escrevo estas linhas sobre Mandela, me vem a memória as palavras de um grande líder religioso, que por coincidência, também nasceu em uma pequena aldeia, em Nazaré da Galiléia, chamado Jesus Cristo. Cristo, falando aos seus discípulos, Cristo diz, no evangelho de Mateus, capítulo 10, versículo 28, o seguinte: “Não tenham medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Pelo contrário, tenham medo daquele que pode arruinar a alma e o corpo no inferno.” Ao condenar Mandela a prisão, seus opressores conseguiram privar-lhe da liberdade, impor-lhe duros castigos físicos, quem sabe até, psicológicos, porém, jamais conseguiram matar os sonhos  de justiça, paz e  igualdade que lhe acalentavam o coração. Isso se chama “atitude”, alimentada pela chama de um ideal.

Essa força interior, permitiu ao guerreiro Mandela,, sair do lúgubre ambiente carcerário, com um sorriso no rosto e a esperança no coração, pronto para conduzir seu povo e seu país pelos caminhos ensolarados da democracia. Mandela retornou à liberdade, após 27 anos feito prisioneiro, sem os estigmas da raiva, do ódio e da magoa. Só corações verdadeiramente iluminados conseguem essa façanha. Um coração cheio de trevas jamais poderia brilhar como brilhou o coração de um ícone na luta contra as desigualdades sociais e discriminações. Isso me faz um lembrar um homem que, após ter sofrido flagelos e açoites, e pregado no alto da cruz, pediu ao Pai, por seus algozes. “Pai, perdoa-lhe, pois eles não sabem o que fazem”.

Palavras comoventes sobre o líder sul africano, encontrei no depoimento do amigo brasileiro de Mandela, o ex-presidente do Brasil, Fernando Henrique Cardoso. A chegada de Mandela à presidência da África do Sul coincidiu com o primeiro mandato de Fernando Henrique, os dois se tornaram amigos e encontraram-se por diversas vezes. Li o depoimento na edição de nº 2.351, da revista Veja, publicada em 11 de dezembro de 2013. A reportagem, intitulada “Mandela, um herói incomum,” é de autoria de Tatiana Gianni. A seguir apresento esse depoimento simples, mas que capta muito bem a alma de Mandela.

Imagem: http://noticias.bol.uol.com.br/fotos/imagens-do-dia/2013/07/29/trajetoria-de-nelson-mandela.htm

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Qual o legado de Mandela? A ideia de que somos todos iguais, independentemente de raça. Nesse ponto, ele pode se comparado a Marthin Luther King. Com, a diferença de que na África essa era uma luta mais difícil, pois havia uma minoria dominando a maioria. Por isso, é ainda mais notável a generosidade de Mandela. Naqueles dias em que o apartheid já dava mostras de enfraquecimento, Mandela teve a grandeza de perceber que era imperativo conseguir uma reconciliação entre brancos e negros. Caso contrário, o destino seria trágico. Era o único entre os seus companheiros, com força moral para dizer. “Em vez de nos matarmos, vamos negociar”.

Como ele era pessoalmente? Muito simples de se relacionar, e muito alegre. Certa vez, quando eu fui à África como presidente, ele me levou a um banquete. De repente, entrou um grupo cantando músicas locais. Ele me pegou pelo braço, disse “vamos lá”, e foi dançando de mesa em mesa para me apresentar aos outros. Mandela quebrava o protocolo. Ele era um príncipe. Não era de uma nobreza hereditária, mas de alma. Muito elegante. Esse é o tipo de coisas que não tem a ver com a roupa que se usa, mas sim, com aura que se transmite. O povo entrava em êxtase só com a presença dele.

Qual a importância de ele não ter buscado um segundo mandato? Mandela poderia ter sido reeleito com facilidade, mas sabia que governar não era sua vocação. Preferiu ser um símbolo, tanto é que deixou o vice tocando a administração e não se envolveu com os problemas cotidianos. Seu trabalho foi divulgar uma democracia em que os negros e brancos convivessem pacificamente. Foi um homem de pregação, muito mais do que um gestor.

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Para terminar retomo aqui, um trecho do discurso feito, por Barack Obama, presidente dos Estados Unidos da América, em 05 de dezembro, dia do falecimento de Mandela: “Nós, provavelmente, não veremos outros como Mandela novamente. Então cabe a nós fazer o melhor possível para seguir o exemplo que ele deixou – tomar decisões baseadas no amor, e não no ódio, nunca deixar de considerar a diferença que uma pessoa pode fazer, lutar por um futuro que valha o sacrifico”.

Descanse em paz, velho guerreiro Mabida. Obrigado por ter estado entre nós!




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