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Vinícius Junior: Um guerreiro negro

Posted by Cottidianos on 23:19

Terça-feira, 23 de maio

Guerreiros são pessoas

São fortes, são frágeis

Guerreiros são meninos

No fundo do peito

Precisam de um descanso

Precisam de um remanso

Precisam de um sonho

Que os tornem perfeitos

(Guerreiro Menino – Gonzaguinha)



Prezados leitores e leitoras,

Permitam-me relatar aqui um caso passado comigo no sábado à noite. Faltou-me a manteiga em casa, então resolvi ir a uma padaria comprar. Assim que entrei na loja, o segurança já me olhou com aquele olhar intimidante, constrangedor, que me fez sentir até um arrepio na espinha. Ele me olhou como se eu tivesse entrado lá para roubar alguma coisa e não comprar algum produto. Desconcertado, desisti de fazer compras naquele estabelecimento, e fui a um supermercado que fica algumas quadras à frente.

Aquilo me feriu por dentro. No caminho para casa, fiquei pensando: se um olhar do segurança me fez passar mal, imagina então o que deve sofrer o Vinícius Junior na Espanha, e outras pessoas que sofrem uma forma mais agressiva de racismo.

Veio a manhã de segunda-feira e a tristeza que havia sentido no sábado voltou novamente ao ver mais desprezível caso de racismo sofrido pelo Vinícius Junior, neste domingo, 21.

O caso aconteceu durante uma partida entre o Real Madrid e o Valência. O inferno já aconteceu antes do jogo. Quando o ônibus do Real Madri chegou ao estádio, uma multidão de brancos irascíveis já recebia o Vinícius Junior com insultos e gritos de macaco.   

A partida começou e as ofensas continuaram tendo como ápice o segundo tempo do jogo. Aos 29 minutos do segundo tempo, tentava armar uma jogada pela esquerda, momento em que torcedores do Valência jogaram uma segunda bola em campo, com o claro propósito de atrapalhar a jogada.

O juiz da partida paralisou o jogo. Nesse momento os cânticos racistas ficaram mais audíveis. Vinícius correu para trás do gol onde estava a torcida do Valência e começou a apontar para os torcedores que o ofendiam, chamando-o de macaco.

Mas o racismo já tinha contaminado totalmente o jogo tenso. Aos 50 minutos o clima dentro de campo esquentou. Vini se envolveu em uma confusão com o goleiro Giorgi Mamardashvilli. Uma confusão se formou. Vários jogadores do Valência foram para cima de Vini, como também é conhecido o jogador. Hugo Doro conteve o jogador brasileiro aplicando-lhe um mata-leão. Ao se desvencilhar Vini revidou com tapa na cara do adversário.

O árbitro do vídeo mostrou ao juiz da partida apenas a imagem na qual Vini acertava o rosto do adversário, escondendo a agressão que ele havia sofrido. Vini saiu de campo aplaudindo, de forma irônica, e fazendo o número dois com os dedos mão, provocando o time adversário que luta para não cair para a segunda divisão.

O Valência ganhou o jogo por 1x 0. Ao final do jogo uma repórter se aproximou do técnico do Real Madrid, Carlo Anceloti, e queria falar sobre o jogo. Com semblante carregado o técnico respondeu: “Queres falar de futebol? Eu não quero falar de futebol. Do que quero falar? Do que aconteceu aqui. Isto é mais importante do que uma derrota. O que se passou não pode acontecer. É evidente. Quando todo o estádio chama macaco a um jogador e um treinador pensa tirar um jogador por causa disso, algo de mal se passa nesta Liga

Um repórter ainda teve o disparate de pergunta ao jogador brasileiro, enquanto ele dava autógrafos e tirava fotos antes de entrar no ônibus, se ele se arrependia de ter feito provocação ao Valência. Surpreso, o jogador pergunta: “Você é tonto”? Em outras palavras: “Você é burro? ”

Não parou por aí. O clima esquentou ainda mais depois do jogo.

Vini Junior foi às redes sociais e escreveu: “Não foi a primeira vez, nem a segunda e nem a terceira. O racismo é o normal na La Liga. A competição acha normal, a Federação também e os adversários incentivam. Lamento muito. O campeonato que já foi de Ronaldinho, Ronaldo, Cristiano e Messi hoje é dos racistas. Uma nação linda, que me acolheu e que amo, mas que aceitou exportar a imagem para o mundo de um país racista. Lamento pelos espanhóis que não concordam, mas hoje, no Brasil, a Espanha é conhecida como um país de racistas. E, infelizmente, por tudo o que acontece a cada semana, não tenho como defender. Eu concordo. Mas eu sou forte e vou até o fim contra os racistas. Mesmo que longe daqui”.

Javier Treblas Medrano também foi ás redes sociais, não para condenar o racismo e os racistas, mas sim, para atacar Vinícius Junior. “Não podemos permitir que se manche a imagem de uma competição que é sobre o símbolo de união de povos, onde mais de 200 jogadores são de origem negra em 42 clubes que recebem em cada rodada o respeito e o carinho da torcida, sendo o racismo um caso extremamente pontual (nove denúncias) que vamos eliminar”.

Não Sr. Medrano, o racismo no futebol não são casos isolados. Primeiro que foram vários casos de racismo contra Vini Jr., e a lei e a sociedade espanhola não fizeram nada para evitar o crime se repetisse, e ele se repetiu.  Segundo, outros jogadores negros, brasileiros, que passaram por lá também sofreram com o racismo.

Em 1997, o jogador Roberto Carlos, jogava no Real Madrid. Ele teve a parte traseira de seu carro riscada com a palavra “makako”, usada para ofender os negros. O fato aconteceu em Madrid. O então lateral da seleção brasileira havia dito doze dias antes que Madrid era a cidade mais racista da Espanha. O comentário do jogador se deu pelo fato de o jogador ter sido insultado, juntamente com o jogador, Clarence Seedorf, também negro, durante uma partida entre Barcelona e Real Madrid, válida pela Copa Rey.

O mesmo Roberto Carlos, dessa vez jogando pelo Anzhi, na Rússia, deixou o campo durante uma partida porque um jogador jogou uma banana em campo.

A diferença entre Vinícius Junior e Roberto Carlos foi que o primeiro não abaixou a cabeça, nem se calou diante das ofensas sofridas. Ele, corajosamente, enfrentou os seus algozes, e fez um país inteiro olhar para si mesmo e ver que sua roupa branca estava toda manchada pela lama desprezível do racismo. Vini fez a Espanha refletir. Tanto é que, durante a partida, nem durante o intervalo do jogo, os jornais e televisões espanholas não falaram de racismo. Apenas vieram a fazer isso depois que os vídeos viralizaram nas redes sociais, e o caso ganhou grande repercussão mundial, unindo nessa luta, futebol e política.

Essa postagem do Vinicius, feita no Instagram, após o ocorrido no domingo, mostra bem a coragem dele:

Cada rodada fora de casa uma surpresa desagradável. E foram muitas nessa temporada. Desejos de morte, boneco enforcado, muitos gritos criminosos.... Tudo registrado.

Mas o discurso sempre cai em “casos isolados”, “um torcedor”. Não, não são casos isolados. São episódios contínuos espalhados por várias cidades da Espanha (e até em um programa de televisão).

As provas estão aí no vídeo. Agora pergunto: quantos desses racistas tiveram nomes e fotos expostos em sites? Eu respondo pra facilitar: zero. Nenhum pra contar uma história triste ou pedir aquelas falsas desculpas públicas.

O que falta para criminalizarem essas pessoas? E punirem esportivamente os clubes? Por que os patrocinadores não cobram a La Liga? As televisões não se incomodam de transmitir essa barbárie a cada fim de semana?

O problema é gravíssimo e comunicados não funcionam mais. Me culpar para justificar atos criminosos também não.

No és fútbol, és inhumano.

As palavras de Lula, durante a reunião do G7, que começou na sexta-feira, 19 de maio, e terminou no domingo, 21. Ao final do evento, no domingo, 21, Lula abriu uma entrevista coletiva de imprensa, falando sobre o lamentável episódio de racismo ocorrido na partida entre Real Madrid e Valência.

“Ele [Vinicius Jr.] foi fortemente atacado, sendo chamado de macaco. Não é possível que, quase no meio do século 21, a gente tenha o preconceito racial ganhando força em vários estádios de futebol na Europa. Não é justo que um menino pobre, que venceu na vida, que está se transformando num dos melhores jogadores do mundo, certamente do Real Madrid é o melhor, ser ofendido em cada estádio que comparece. Penso que é importante que a Fifa, a Liga Espanhola e as ligas de outros países tomem sérias providências porque nós não podemos permitir que o fascismo tome conta, e o racismo, dentro dos estádios de futebol”.

A fala de Lula, numa reunião do G7 teve grande peso e foi muito importante, trazendo a questão para o campo diplomático.

O caso ganhou ampla repercussão mundial ganhando matérias em grandes jornais como o The New York Times e o The Guardian. Toda essa repercussão levou à Justiça espanhola a fazer o que se esperava que ela fizesse: agir. E apenas fez isso por causa da repercussão que o caso, senão teria tudo “acabado em pizza’.

A polícia espanhola prendeu sete pessoas.  Quatro delas pelo envolvimento no caso do boneco pendurado em uma ponte em frente ao centro de treinamento do Real Madrid enforcado, usando a camisa 20 do Vinícius Junior. Os criminosos ornaram o boneco com uma faixa nas cores vermelho e branco, cores do Atlético de Madrid. Na faixa escreveram: “Madrid odeia o real”. E ainda teve ainda esse episódio grotesco acontecido em janeiro. Uma violência psicológica sem tamanho para qualquer pessoa. Os outros três foram presos pelas ofensas racistas ocorridas no domingo.

Desde os fatos ocorridos na Espanha, no domingo, a redes sociais tem sido invadidas por hastgs, pronunciamento, palavras de apoio, que são coisas válidas, mas isso não vai acabar com o racismo, aqui no Brasil, nem na Espanha, nem em qualquer lugar.

Para acabar com racismo é preciso mais que tudo ações e leis que punam os criminosos que praticam esse ato desprezível que é o racismo. O racismo é desprezível e quem o pratica é igualmente desprezível.

Para finalizar, vai solidariedade deste blog, ao grande jogador Vinícius Junior, hoje, uma das estrelas de primeira grandeza do futebol mundial. Mas, o que surpreende não é tanto o futebol que ele joga. Antes dele, já houveram muitos negros bons de bola. O que surpreende em Vinícius Junior é a força mental que ele demonstra, ao não se curva ao racismo escancarado que reina no futebol espanhol, ao se posicionar contra esse crime, ao enfrentar os seus algozes.

Assim agem os grandes homens. Assim agem os guerreiros.


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