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Palhaçada do Waldir

Posted by Cottidianos on 22:29
Segunda-feira, 09 de maio

Ah, o mundo sempre foi
Um circo sem igual
Onde todos representam
Bem ou mal
Onde a farsa de um palhaço
É natural...
(Sonhos de um palhaço – Sérgio Sá e Antonio Marcos)

Waldir Maranhão

A democracia brasileira, juntamente com as instituições que a formam, está, com certeza, sendo provada no fogo... E o que é provado no fogo, ou torna-se cristal, ou cinza. Vamos ver se, ao final dessa prova de fogo, teremos cristal ou cinzas. O tempo dirá.

Hoje, uma decisão do presidente interino da Câmara, Waldir Maranhão, do PP, do Maranhão, surpreendeu a todos, e deixou o Brasil à beira de um ataque de nervos.  A decisão de Waldir tentava, simplesmente, anular as três sessões da Câmara que aprovaram a admissibilidade do processo de impeachment da presidente, Dilma Rousseff, em 17 de abril passado. Quando o processo já está nas mãos do Senado, que ainda esta semana, se reúne para decidir sobre o afastamento da presidente, ele, de uma hora para outra, resolve acolher um pedido que havia sido feito por José Eduardo Cardozo, advogado-geral da União, em fins de abril.

O fato causou uma tremenda confusão. Primeiro, porque ninguém, em sã consciência, esperava que uma decisão como esta fosse tomada a esta altura do campeonato, segundo porque o deputado havia votado a favor do prosseguimento do processo de impeachment, e terceiro porque, era aliado fiel de Eduardo Cunha, a quem substituiu na presidência da casa legislativa desde a semana passada, por ocasião do afastamento de Cunha. Lembrando que, ainda durante seu voto na própria sessão de votação do impeachment, Waldir declarou lealdade a Cunha. Que lealdade, hein?!! Bastou Cunha dar as costas para ele tentar derrubar um processo conduzido por aquele a quem declarou fidelidade.

Bom, pelo que se diz por aí, a reputação do deputado não é das melhores. Ele é investigado na Lava Jato por suspeita de propina. Mas quem não é, neste nosso Congresso, não é verdade? Waldir, votou a favor da admissibilidade do impeachment contrariando uma ordem de seu partido, e o voto dele foi mudado há apenas três dias antes da votação na Câmara. Mas não pensem vocês que isso tenha sido uma atitude patriota, ou em favor do povo brasileiro. Que nada. Segundo informações da imprensa, Waldir Maranhão teria votado em contrário ao partido pela promessa de concorrer ao Senado nas próximas eleições de 2018. O convite teria vindo de Flávio Dino, do PC do B, do Maranhão, que será candidato à reeleição.

Outro fato que nos leva a admitir que o “nobre” deputado, nem de longe está preparado para o cargo que está assumindo, mesmo que interinamente, é que o recurso protocolado pela Advocacia Geral da União (AGU), dia 25 de abril, estava fora do prazo, pois a essa altura, o processo já havia sido enviado ao Senado. E por estar fora de prazo, foi desconsiderado, sem que alguém tivesse a preocupação de arquivá-lo. Ao assumir a presidência da Câmara, Waldir, estranhamente, resolveu analisar o processo, e como se fora ele a própria instituição soberana, sem consultar ninguém, resolve anular um processo aprovado pela grande maioria dos deputados, com a chancela da maioria da população brasileira. Fico a pensar se teria rolado algum dinheiro nessa jogada... Do jeito que o dinheiro voa rasteiro no meio político, quem vai saber? Ou teria ele simplesmente a intenção de causar confusão? Acho muito difícil.

Felizmente, e para felicidade geral da nação, o presidente do Senado, Renan Calheiros, resolveu ignorar uma decisão tão estapafúrdia e prosseguir com rito do impeachment no Senado. Sábia decisão. Mesmo não sendo um político pelo qual tenho admiração, dessa vez, pelo menos, palmas para ele.

Por falar nisso, o processo de impeachment continua a todo vapor no Senado, com direito aos discursos de defesa e acusação, coisa impensável em uma situação de golpe. Golpe é golpe, e acabou. Não tem conversa. Não sei a quem os petistas querem enganar quando dizem que o impeachment é um golpe. Talvez a eles mesmos, e aos menos esclarecidos, seus seguidores, sejam eles intelectuais ou não. Pois quem disse, que todo intelectual é esclarecido? A história presente está nos mostrando que não.

Na próxima quarta-feira (11), está prevista a instauração do processo de impeachment da presidente no Senado. Havendo uma decisão favorável a isso, a presidente será afastada por 180 dias, até o julgamento final do processo. Só um milagre salvará a presidente desse afastamento... Porém, um milagre de fato, não um milagre forjado, como foi a tentativa de hoje.

Se tudo correr como o previsto, terminaremos a semana com um novo presidente no comando do Brasil. Claro, não é o presidente que gostaríamos de ter, mas o presidente que a força das circunstancias no impôs.

E se Dilma se for... Será muito difícil que ela volte.

O afastamento dela, com certeza não varrerá de nosso país a impunidade, uma vez que ela está tão entranhada na política e na sociedade brasileira, como estão entranhadas na terra as raízes de um frondoso ipê. Mas, com certeza, Dilma levará consigo uma era petista de mentiras, chantagens, corrupção, dissimulação, e, quem sabe, até crimes mais graves...

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O voo da águia-mulher-mãe

Posted by Cottidianos on 00:06
Domingo, 08 de maio

Mãe, a vida, foi você quem me deu..
E a cartilha me fez entender
Tudo o que eu sou, o que eu tenho e o que eu sei
Mãe, eu devo a você....
Mãe, eu juro que não esqueci
De tudo aquilo que você me ensinou
Eu agradeço pelo bem que me quer....
Mãe eu adoro você....
(Mãe – The Fevers)


Salve Maria, Virgem Negra de Aparecida!

Salve todas as mães brancas e negras que, com carinho e desvelo, amam, cuidam, e educam seus filhos, protegendo-os, se for preciso, com a própria vida.

Salve todas as mães biológicas, adotivas, e espirituais. Pois se diz o senso comum que: mãe só muda de endereço, digo eu aqui que mãe só muda também de nomenclatura, pois as designemos biológicas, adotivas, ou espirituais, apenas uma palavra às define: amor.

Se a mulher, ainda hoje, sofre o estigma do preconceito, que dirá da mulher que viveu em tempos passados, em sociedades altamente machistas. E se a mulher carrega o estigma do preconceito, que dirá das mulheres negras da sociedade atual. E se as mulheres negras da sociedade atual sofrem preconceito e discriminação, que dirá as mulheres negras escravas, que, com o peito dilacerado pela dor, viam seus filhos ser arrancados de seus braços, e mortos, para que pudessem viver os filhos de seus senhores, e também com o mesmo peito dilacerado, serviam de objetos de prazer paras seus lascivos senhores.

Minha homenagem neste Dia das Mães, vai, especialmente, para todas as ialorixás, mães de santos, também elas, mais do que as outras mulheres, carregam ao mesmo tempo três estigmas: mulher, negra, e sacerdotisas de uma religião que ainda hoje, sofre preconceito e a discriminação.

Porém, em todos os tempos, sempre houve mulheres que não aceitaram o papel submisso que a sociedade lhes fazia desempenhar. Essas mulheres tinham asas, e asas de águia, buscando, portanto, os picos mais altos de onde melhor pudessem observar o mundo na qual viviam. Por causa de tal ousadia, muitas delas foram queimadas em fogueiras, tal qual bruxas, outras foram simplesmente, desprezadas, e expulsas do convívio social.

Uma dessas mulheres, águia-mulher, que, graças aos céus, não foi queimada em fogueira, nem isolada da sociedade, mas que, com certeza, em sua vida já provou do cálice amargo do preconceito, é Mãe Stella de Oxossi, ialorixá baiana, que, no último dia 02 de maio, completou 92 anos.

Stella arregaçou as mangas e foi à luta. Enfermeira formada pela Universidade Federal da Bahia, ela desdobrou-se no cuidado aos doentes, e no cultivo às letras. Na noite de 12 de setembro de 2013, Mãe Stella tornou-se uma imortal da Academia de Letras da Bahia, ao assumir a cadeira de número 33, cujo patrono é o escritor, poeta, e abolicionista, Castro Alves, vítima de tuberculose, aos 24 anos de idade. A vida do poeta, foi breve, sua obra, porém, é eterna.

Mãe Stella de Oxossi, foi iniciada no candomblé, em 1939, no terreiro de Mãe Aninha, onde havia pisado pela primeira vez, em 1937. Mãe Aninha entregou a adolescente, então com 14 anos de idade, aos cuidados de Maria Bibiana do Espírito Santo, conhecida na casa como Mãe Senhora. Em 1976, aos 51 anos de idade, os orixás a escolheram para ser a quinta mãe de santo, do terreiro Ilê Opó Afonjá.

Neste segundo domingo de maio, Dia das Mães, deixo a todas as mães o meu carinho, e o meu abraço. Deixo-lhes também meus votos de voem tão alto como as águias, e continuem ajudando, com seu amor e carinho, a tornar o mundo mais humano, e um lugar melhor para se viver.

Abaixo, compartilho, trecho do discurso proferido por Mãe Stella de Oxossi, na cerimônia em que se tornou a primeira mulher negra e mãe de santo a assumir uma cadeira em uma Academia de Letras no território brasileiro. Os trechos destacados entre parêntesis e negrito são de minha responsabilidade. O discurso completo pode ser encontrado no site do Geledés.

***

Mãe Stella de Oxossi

Discurso de posse de Mãe Stella de Oxossi na cadeira no 33 da Academia de Letras da Bahia
...

Não sou uma literata “de cathedra”, não conheço com profundidade as nuanças da língua portuguesa. O que conheço da nobre língua vem dos estudos escolares e do hábito prazeroso de ler. Sou uma literata por necessidade. Tenho uma mente formada pela língua portuguesa e pela língua yorubá. Sou bisneta do povo lusitano e do povo africano. Não sou branca, não sou negra. Sou marrom. Carrego em mim todas as cores. Sou brasileira. Sou baiana. A sabedoria ancestral do povo africano, que a mim foi transmitida pelos “meus mais velhos” de maneira oral, não pode ser perdida, precisa ser registrada. Não me canso de repetir: o que não se registra o tempo leva. É por isso e para isso que escrevo. Compromisso continua sendo a palavra de ordem. Ela foi sentenciada por Mãe Aninha e eu a acato com devoção. Em um dos artigos que escrevi, eu digo: Comprometer-se é obrigar-se a cumprir um pacto feito, tenha sido ele escrito ou não. O verbo obrigar, que tem origem no latim obligare, significa unir. Portanto, quando dizemos um “muito obrigado”, estamos sugerindo a alguém que nos fez um favor que a ele estaremos ligados, em virtude do favor que nos foi prestado. Obrigação é uma das palavras chaves do candomblé: aquela que abre muitas portas. Fazer uma obrigação ou a obrigação, fica sendo, então, uma forma de estar cada vez mais unido aos oríÿa.

 Se minha parte branca estuda as origens latinas da língua portuguesa, minha parte negra estuda a língua africana de que fazemos uso no candomblé: o yorubá arcaico. Nessa língua, comprometer-se é wulewu, palavra que tem a seguinte análise: a raiz wù (agradar), a mesma que forma a palavra wúlò, que significa útil; e lé, que é traduzida como seguir em frente, procurando não ser mais um na multidão. Para o povo yorubá e, consequentemente, para os brasileiros que se guiam pela religião nagô, uma pessoa comprometida é aquela que é útil, pois cumpre a função que lhe foi destinada, e por isto pode seguir em frente, distinguindo-se da massa uniforme; uma pessoa comprometida é especial, pois já encontrou sua especificidade, tornando-se, assim, imortal.
...

Muitas pessoas, no passado e no presente, lutaram para que hoje eu pudesse, de maneira natural, fazer parte desta Academia. Uma delas foi o patrono da cadeira onde me firmo. Antônio Frederico de Castro Alves entoou gritos poéticos na tentativa de despertar a sociedade brasileira para a mais cruel de todas as atitudes humanas: a privação da liberdade. Em 1868, através de seu poema “Vozes d’África”, ele clamou:

Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes
Embuçado nos céus?
Há dois mil anos te mandei meu grito,
Que embalde desde então corre o infinito…
Onde estás, Senhor Deus?…
Qual Prometeu tu me amarraste um dia
Do deserto na rubra penedia
– Infinito: galé! …
Por abutre – me deste o sol candente,
E a terra de Suez – foi a corrente Que me ligaste ao pé…

Se minha bisavó chegou ao Brasil presa a muitos outros negros africanos, amarrada por correntes que lhe tiraram o maior de todos os bens que pode ter qualquer ser vivo – a liberdade, hoje aqui me encontro acorrentada por um adorno que me une a todos os baianos, brasileiros, humanos, letrados ou não letrados. O Poeta dos Escravos desejava ver todos os homens tratados com igualdade de condições; queria ver desacorrentados os negros escravizados. Por isso, Castro Alves escreveu um dos mais conhecidos poemas da literatura brasileira, “O Navio Negreiro”, no qual denunciava as atrocidades sofridas pelos africanos na travessia oceânica que foram obrigados a se submeterem:

Era um sonho dantesco… o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar. Tinir de ferros… estalar de açoite… Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar…
Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!
E ri-se a orquestra irônica, estridente…
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais …
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos… o chicote estala.
E voam mais e mais…
Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!

O baiano Castro Alves nasceu em 14 de março de 1847 na fazenda Cabaceiras, antiga freguesia de Muritiba, que é hoje a cidade de Castro Alves. Era dotado de uma constituição física frágil, mas de uma forte alma humanizada, que contestava as barbaridades típicas da época em que viveu – o século XIX. Foi corajoso o suficiente para que, com apenas 21 anos de idade, obrigasse os fazendeiros donos de escravos a escutá-lo recitar “O Navio Negreiro”, pois estando todos em uma comemoração cívica não seria politicamente correto retirar-se do recinto.

A poesia de caráter social de Castro Alves era típica da terceira geração do Romantismo brasileiro, chamada Condoreira, pois o condor é uma ave símbolo de liberdade. Representante da burguesia liberal, Castro Alves foi o último grande poeta da geração Condoreira que, por meio da literatura, instigava o povo para exigir a abolição da escravidão e a proclamação da república, aproximando, assim, o Romantismo do gênero literário seguinte – o Realismo.

Se as causas sociais eram o ideal de Castro Alves, o amor era sua fonte de inspiração. E como são lindos seus poemas de amor. Escutemos com a alma seu poema “As Duas Flores”, que na Escola Nossa Senhora Auxiliadora, de propriedade da professora Anfrísia Santiago, eu costumava recitar para minhas colegas no horário de recreio:

São duas flores unidas
São duas rosas nascidas
Talvez do mesmo arrebol,
Vivendo, no mesmo galho,
Da mesma gota de orvalho,
Do mesmo raio de sol.
Unidas, bem como as penas
das duas asas pequenas
De um passarinho do céu…
Como um casal de rolinhas,
Como a tribo de andorinhas
Da tarde no frouxo véu.
Unidas, bem como os prantos,
Que em parelha descem tantos
Das profundezas do olhar…
Como o suspiro e o desgosto,
Como as covinhas do rosto,
Como as estrelas do mar.
Unidas… Ai quem pudera
Numa eterna primavera
Viver, qual vive esta flor.
Juntar as rosas da vida
Na rama verde e florida,
Na verde rama do amor!

Intensamente viveu Castro Alves a sua curta vida de 24 anos. Em 6 de julho de 1871 ele não pode mais sentir na carne os prazeres do amor. Também não pôde ver os escravos desacorrentados, não pôde assistir a seu ideal concretizado. Mas sua curta vida é longa. Estamos hoje, aqui, nos deleitando com seus versos. Uma senhora de 96 anos, falando sobre seu primo Castro Alves, um dia me disse: “Por amor ele viveu, por amor ele morreu. Mas quem morre por amor não morre: torna-se imortal.”

Eu sou o quinto elo da correte que forma a cadeia de iyáloríÿa (mãe de santo) do Ilé Àÿç (Axé) Opo Afonjá. Eu sou a quinta pessoa a ocupar a cadeira 33 da Academia de Letras da Bahia. O número cinco é meu guia. Há setenta e quatro anos atrás, nesta mesma data, eu fui iniciada para o oríÿa (orixá) caçador – Õÿösi (Oxossi). Hoje é uma quinta-feira, dia consagrado a meu oríÿa (orixá). Nada disso foi programado, nada disso é coincidência. É magia e destino!

Na cadeira 33, e em todas as outras que compõem esta nobre instituição, cabe pessoas de todas as profissões, cores, religiões, estilos literários… Na cadeira 33, e em todas as outras desta instituição, só não cabe vaidade, nem modéstia. Não sendo vaidosa, digo que, com certeza, não fui escolhida para ser uma acadêmica pelo fato de escrever livros com sofisticação gramatical. Não sendo modesta, tenho a convicção de que se hoje aqui estou é por escrever minhas experiências de modo a cumprir meu compromisso sacerdotal. Não se esqueçam que compromisso e união são as bases em que meu discurso foi fundamentado. Sentar-me na cadeira 33 da Academia de Letras da Bahia era meu destino.

O que escreveu meu confrade Paulo Costa Lima, quando fui escolhida para esta confraria, transmite com perfeição meus pensamentos sobre esse novo envolvimento em minha vida. Ele assim pensou e escreveu: “Hoje, 25 de abril, a Academia de Letras da Bahia jogou os búzios e o nome que apareceu foi o de Mãe Stella de Oxossi, para ocupar a cadeira cujo patrono é Castro Alves, sendo o grande historiador baiano Ubiratan Castro o último ocupante. A escolhida se fez presente logo após a votação para o abraço e a manifestação do compromisso. Foi uma bela cena, e muito rara. Um encontro de erudições da África e da Europa. Na verdade, um gesto inovador que não pode deixar de ser levado em conta como paradigma de abertura de horizontes e de convivência das diferenças… na luta de afirmação da tradição afro-brasileira e, portanto, pelo respeito aos direitos à alteridade e identidade própria. Diante da contribuição civilizatória que a África trouxe ao Brasil, alguns preferem calar, outros reconhecem mas acentuam a natureza oral dos conhecimentos e saberes.Mãe Stella rompeu essas barreiras (entre tantas), e passou a defender uma representação mais sintonizada com os novos tempos, conectando oralidade e manifestações letradas….”

Como já disse, sou bisneta de portugueses e africanos. Essas duas descendências não são somente minhas. São do Brasil. Quantas e quantas vezes estamos falando palavras de origem africana, pensando estar falando em português? Tôrô é chuva, görô é cachaça, gògó é garganta, todas elas palavras da língua yorubá, que precisam ser preservadas em sua origem. Talvez muitos tenham estranhado, em alguns momentos do discurso, ser falado os oríÿa, as iyáloríÿa. Não é erro. É que na língua yorubá as flexões gramaticais, no que se refere a número, são construídas de maneira diferente da língua portuguesa. Essa herança faz com que muitas vezes o povo fale uma mistura de português com yorubá. Sobre os dialetos africanos, a confreira Ieda Pessoa de Castro conhece o assunto de cathedra. Escrevo com a intenção maior de salvaguardar a língua e a sabedoria de meus ancestrais africanos, pois tendo sido este povo ignorado por séculos, seus conhecimentos correm o risco de serem esquecidos ou transmitidos de maneira deturpada.

Ser iniciada aos catorze anos de idade, fez com que eu tivesse a vantagem da inocência. Sem saber da responsabilidade que me esperava, eu brincava de caçador. Afinal, fui consagrada para o oríÿa Õÿösi (orixá Oxossi) – a divindade caçadora. Na minha mocidade, pude conciliar a profissão com a religião, cuidando do ser humano como enfermeira sanitarista durante trinta e cinco anos, quando me aposentei, ao tempo em que servia também aos deuses.

Curiosamente, alguns mais velhos insistiam em me repassar os conhecimentos que possuíam sobre os fundamentos do candomblé. Em uma época em que nossa tradição era transmitida apenas oralmente, Bida de Iyemonjá (Iemanjá), por exemplo, contrariava o costume e de maneira obstinada mandava que eu anotasse nossas conversas. Muito tímida e respeitosa, não era fácil fazer o que ela mandava.

Com o passar do tempo, entendi que os mais velhos queriam munir-me de conhecimentos, pois cada dia eu recebia mais informações. Só em dezenove de março de mil novecentos e setenta e sete, quando fui escolhida iyáloríÿa (ialorixá) do terreiro de candomblé onde fui iniciada – o Ilé Àÿç (Axé) Opo Afonjá, na Bahia –, é que pude enfim compreender o porquê de toda aquela atenção para comigo. Nos anos que se seguiram, não apenas os mais velhos, mas também pessoas mais novas me enviavam importantes materiais de pesquisa sobre a religião que nos foi legada pelos africanos. As minhas atividades como iyáloríÿa (ialorixá) são muitas e nunca me permitiram organizar tudo que eu recebia por revelação divina ou por gentileza dos homens, o que muito me preocupava.

Como iniciada que sou, tenho tendência a resguardar os mistérios, evitando retirar os véus que os encobrem. Por isso, não foi uma decisão nada fácil fazer uso da tradição escrita para registrar os conhecimentos que adquiri através da tradição oral. A ousadia veio da necessidade, mas a coragem veio da permissão dos oríÿa. Diante da modernidade, essa ficou sendo minha única alternativa para evitar deturpações da essência de uma religião milenar. Não sou uma escritora! Sou uma iyáloríÿa que escreve! Sou uma iyáloríÿa (ialorixá) que escreve com o objetivo primeiro de não deixar perder a valiosa herança de nossos ancestrais. Assim foi que optei por oferecer a todos, indistintamente, a riqueza da filosofia yorubá, de maneira escrita, porém respeitosa, evitando expor fundamentos que interessam, apenas, aos sacerdotes, por serem eles responsáveis pela execução de rituais. A busca pela ampliação do conhecimento deve ter como interesse principal o aprimoramento pessoal, visando uma amplificação das capacidades enquanto ser humano.

Se eu chamo meus colegas de academia de confrades e confreiras, é porque estamos juntos na mesma confraria. No Ilé Àÿç (Axé) Opo Afonjá, cumprimentamos uns aos outros chamando-nos de irmãos, estamos em uma irmandade. Confraria, irmandade, comunidade… elos unidos formando uma corrente por um objetivo comum. Na Academia de Letras da Bahia, o objetivo é cultuar para preservar a tradição escrita. No Ilé Àÿç (Axé) Opo Afonjá, o objetivo é cultuar para preservar a tradição oral. Sou uma acadêmica oriunda da família Opo Afonjá, que tem como Iyá Nlá – a Grande Mãe – Ôba Biyi, Mãe Aninha, que no início do século XX escreveu um adurá (uma reza), na língua yorubá, pedindo bênçãos para a construção do Terreiro de Candomblé que tem como patrono o oríÿa ßàngó (Xangô): seu élédá, o dono de sua cabeça.

Mãe Aninha assim rezava em yorubá:

Ôba Kawoo
Ôba Kawoo Kabiesile
Kö mö èsi kunlè
Ôba Kawoo
Ôba Kawoo Kabiesile
Çkùn

Esse adurá, em tradução, quer dizer: “Xangô, Rei Leopardo cuja decisão e ação ninguém poderá questionar. Dê-me como resposta a construção completa desta casa”. Através dessa reza em forma de cântico, Mãe Aninha pediu condições para construir o Ilé Àÿç (Axé) Opo Afonjá. Ainda hoje, nós, seus descendentes espirituais, continuamos entoando sua oração, todas as quartas-feiras na “Casa de Candomblé” construída por ela, pedindo forças para nos mantermos firmes em nossas decisões; pedindo humildade para mudar as ações que nos sejam questionadas, apenas quando elas forem justas. Somos descendentes de Mãe Aninha! Somos filhos de ßàngó! (Xangô) Somos filhos da justiça! Somos educados, polidos e firmes. Somos filhos da resistência!

Se Mãe Aninha pediu a seu oríÿa, ßàngó (Xangô), forças para construir seu “Terreiro de Candomblé”, eu peço a meu oríÿa (orixá), Õÿösi (Oxossi), que dê força, saúde e prosperidade a mim e a todos aqui presentes, principalmente aqueles cujos corações são puros.

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Eduardo Cunha é afastado das suas funções de parlamentar: Uma vitória da lei, da justiça, e da sociedade brasileira

Posted by Cottidianos on 22:15
Quinta-feira, 05 de maio

Eduardo Cunha
Acompanhamos essa pitoresca tragicomédia através das redes televisivas, dos jornais online, dos jornais e revistas impressos, e das rádios. To mundo quer transmitir essas aberrações primeiro, porque dá audiência, e segundo porque se trata de momentos que, certamente, entrarão para os livros de história de nosso país. É triste ver o nível moral de nossa classe política em todos os seus níveis, as desastrosas consequências que isso acarreta para a população, principalmente, e porque não dizer essencialmente, a classe menos favorecida da população, ou ainda como diriam os sociólogos, aqueles que estão, mais do que nunca espremidos na base da piramide.

Hoje, Eduardo Cunha acordou com um oficial de justiça batendo à sua porta. Em suas mãos o homem trazia uma notificação. No início, ele se recusou a assinar. Mas enfim, os seus advogados devem tê-lo convencido a tal ato. Toda essa confusão na porta do presidente da Câmara se deveu a uma ordem do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Teori Zavascki, que, na noite de quinta-feira (04), havia determinado o afastamento do “nobre” deputado, de suas funções como parlamentar, e, consequentemente como presidente da Câmara.

Essa era uma notícia que o Brasil aguardava com ansiedade e se perguntava porque o STF ainda não havia tomado tal decisão, uma vez que pelos seus aliados no congresso, talvez Cunha não chegasse a ser afastado nunca, mesmo com o mar de denúncia e evidências de corrupção dos quais ele é acusado.

Com essa decisão, Zavascki atende a um pedido do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, feito em dezembro do ano passado. Em seu pedido, Janot argumentava o óbvio: Cunha usava de seu poder e influência como presidente da Câmara para obstruir, colocar todo o tipo de entrave nas investigações feitas contra ele pelo Conselho de Ética da Câmara, no processo que pede sua cassação por quebra de decoro parlamentar. Cunha havia mentido na CPI da Petrobrás ao dizer que não tinha contas no exterior. Depois surgiram fartas provas da existência dessas contas, mesmo assim o parlamentar continuou negando a existência delas. 

Apesar do afastamento de Cunha da Câmara, ele não perderá o foro privilegiado. Teori respeita a Constituição Federal na questão de que cabe ao Congresso Nacional a decisão de cassar o mandato de um parlamentar, mesmo se ele tiver sido condenado pela justiça e da decisão não caiba mais recursos.


O ápice da decisão do Supremo, ocorreu, de fato, na tarde desta quinta-feira, que para muitos juristas representou um momento histórico. Reunidos em plenário, os ministros do STF apreciaram a decisão de Teori Zavascki e, por unanimidade, votaram pelo afastamento de Cunha.

Os nobres ministros nos livraram assim de uma possível vergonha ou humilhação, pois se a Dilma for realmente da Presidência por 180 dias até a conclusão do processo, como prevê o rito do impeachment no Senado — e é mais do que provável que isso aconteça — numa ausência de Michel Temer, Cunha assumiria o cargo de presidente do Brasil. Imaginem sermos governados, ainda que interinamente, por um presidente réu no Supremo, por crimes de corrupção na Lava Jato, e ainda enfrenta processo por falta de decoro parlamentar no Conselho de Ética da Câmara.

Graças aos céus, o Supremo Tribunal Federal nos livrou desse vexame.

Em um dos grampos telefônicos divulgados com a autorização do juiz Sérgio Moro, em conversa com a presidente Dilma Rousseff, Lula dizia: “Nós temos uma Suprema Corte totalmente acovardada”. Lula se referia a incapacidade de a Suprema Corte não enterrar a Operação Lava Jato, ou pelo menos minimizar seus efeitos. Eu tomo em outra direção essa fala do ex-presidente — também ele envolvido até o pescoço em escândalos — e digo “por muitos anos, nós sempre tivemos um judiciário acovardado e conivente com as falcatruas dos poderosos”.

A corrupção que reina soberana em nosso país, com direito a trono e cetro, não é de hoje, muito pelo contrário, sua origem remonta a formação de nossa terra como nação. É verdade que o PT institucionalizou essa prática de tal forma, que até políticos da oposição entraram a participar da macabra festa onde o dinheiro ilícito jorrava como fontes abundantes. Se a corrupção reinava como rainha, todo rainha tem que ter seu rei, e este é a impunidade que impera no Brasil, de norte a sul, de leste a oeste. Sempre foram noticiados de casos de poderosos que faziam e desfaziam, mandavam e desmandavam e não lhes aconteciam absolutamente nada.
Parece que, aos poucos, as instituições brasileiras vão criando coragem, deixando de ser covardes. Sabemos que não surgirá em nosso meio uma mágica fada com uma varinha de condão, que, com apenas um toque mágico, transforme a abobora em carruagem. Mas esperamos que essa crise intensa na qual estamos imersos seja o limiar de um novo começo. Desejamos que toda essa humilhação pela qual estamos passando, seja o início de um novo Brasil.

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A onda conservadora que nos ameaça levar aos mares do retrocesso

Posted by Cottidianos on 00:06
Quinta-feira, 05 de maio


Caríssimos e caríssimas, a correria hoje não me permitiu escrever nenhum texto de minha autoria, mas, mesmo assim decidi compartilhar o artigo de Luiz Ruffato,colunista do El Pais Brasil.

Não por acaso compartilho com vocês o texto do jornalista, mas por afinidade de pensamento. Ele fala de algo sobre o qual tenho refletido há algum tempo: O conservadorismo de nosso Congresso.  Lembremo-nos de que em todos os momentos da história, quando o estado se mesclou à religião, o resultado foi retrocesso. Um estado democrático de direito, para ser realmente justo, tem de ser laico. Isso pode parecer contraditório, mas apenas dessa forma, o estado, como um deus, consegue abrigar a todos os seus filhos sob seu manto, e a cada um deles, atender as necessidades que lhe são mais prementes.

E além das mazelas que já nos rondam, ainda surge por acréscimo, o fantasma de um conservadorismo hipócrita, praticado por políticos hipócritas, desses que pregam uma coisa e fazem outra completamente diferente.

A bancada do boi, bala e bíblia, prega valores tradicionais que caminha na direção contrária a que ruma a humanidade, talvez, com isso seja mais fácil desvia os olhos da sociedade brasileira da corrupção e praticam ilícitas e viciosas que eles praticam no submundo da política, desvirtuando dessa forma, os valores evangélicos aos quais tanto se agarram de do qual tanto se gabam.

Poderia até continuar essa linha de pensamento, mas deixo que Juan Arias, vos fale.

***
A maré conservadora
Luiz Ruffato

Fruto do pensamento simplista e hegemônico que floresce onde mingua a educação, o obscurantismo autoritário vai pouco a pouco alargando sua área de atuaçãoUm espectro ronda o Brasil – o espectro do conservadorismo. Os discursos eufóricos, beirando à histeria, proferidos na Câmara dos Deputados favoráveis ao impeachment da presidente Dilma Rousseff, evocavam Deus, Pátria e Família, não por acaso lema do Integralismo, movimento que encarnava o fascismo nacional, cujo ideário baseava-se no nazifascismo europeu. Publicado em 7 de outubro de 1932 e destinado à Nação Brasileira, o manifesto da Frente Integralista foi redigido pelo chefe dos "camisas verdes", Plínio Salgado, e tinha como seguidores Dom Hélder Câmara, o jurista Miguel Reale, o depois ministro da Justiça no governo Médici, Alfredo Buzaid, e o escritor Adonias Filho, entre muitos outros.

Hoje, falam em nome de Deus, Pátria e Família os evangélicos, fundamentalistas religiosos reunidos em uma Frente Parlamentar que conta com 199 deputados e quatro senadores, cujo principal objetivo é zelar pelos "valores morais" da sociedade. Assim, de forma aguerrida, lutam contra o direito ao aborto e à eutanásia; contra a união civil entre pessoas do mesmo sexo; contra a criminalização da discriminação a homossexuais, bissexuais e transexuais e contra a criminalização dos castigos físicos impostos pelos pais aos filhos. Além disso, buscam aprovar um estatuto que, entre outras coisas, define família como núcleo formado por um homem e uma mulher. Vinte e três membros desta bancada respondem a processos no Supremo Tribunal Federal por acusações que incluem peculato, improbidade administrativa, sonegação de impostos e formação de quadrilha. Alguns de seus afiliados mais notórios são o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e os senadores Magno Malta (PR-ES) e Marcelo Crivella (PRB-RJ).

Também em nome de Deus, Pátria e Família advoga a Frente Parlamentar da Agropecuária, a bancada ruralista que reúne 215 deputados e 22 senadores. Além de coincidir com os evangélicos na defesa dos "valores morais" da sociedade, esses congressistas atuam principalmente para impedir o combate efetivo ao trabalho escravo, para minimizar os efeitos da legislação sobre o meio-ambiente e para frear de vez a nossa já tímida reforma agrária. Sua mais recente ação pede a Michel Temer, que em breve deverá ser alçado ilegitimamente à Presidência, o uso do Exército na resolução de conflitos fundiários. Seus mais notórios membros são os senadores Renan Calheiros (PMDB-AL), presidente da Casa, Ronaldo Caiado (DEM-G0) e Jáder Barbalho (PMDB-PA).

Com interesses comuns às frentes evangélica e ruralista, a bancada da bala compõe-se de políticos ligados à indústria armamentista, ex-policiais e militares, cuja líder é o "católico fervoroso", deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ), pré-candidato à Presidência da República em 2018. Bolsonaro apregoa a tortura – considerado crime contra a Humanidade pela Organização das Nações Unidas (ONU) - como método válido para obter confissões de traficantes de droga e sequestradores e pleiteia a pena de morte em casos de crime premeditado. Sua plataforma inclui ainda a redução da maioridade penal, a adoção de trabalhos forçados para presidiários e a mudança radical no Estatuto do Desarmamento, que ampliaria a possibilidade de porte de armas pelo cidadão comum.

Fruto do pensamento simplista e hegemônico que floresce onde mingua a educação, o obscurantismo autoritário vai pouco a pouco alargando sua área de atuação. Há pouco, a Assembleia Legislativa de Alagoas – último colocado brasileiro no ranking de Índice de Desenvolvimento Humano e em taxa de alfabetização – aprovou uma lei que obriga os professores da rede estadual de ensino a manter "neutralidade" de opinião em assuntos políticos, religiosos e ideológicos, sob penas que vão até à demissão. Projeto idêntico tramita na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, de autoria do deputado Marcel van Hattem (DEM), que estabelece a proibição de qualquer "doutrinação política e ideológica" por parte dos professores e propõe que a Secretaria de Educação estabeleça um canal de comunicação "destinado ao recebimento de reclamações relacionadas ao descumprimento da lei, assegurado o anonimato".

A maré conservadora já alcança-nos a garganta.



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Os polêmicos bloqueios do WhatsApp no Brasil

Posted by Cottidianos on 00:10
Terça-feira, 03 de maio


As redes sociais hoje em dia são uma mão na roda, não é verdade? Usamo-las para uma infinidade de usos, sejam eles práticos, ou não.  Mas pense numa faca de dois gumes, dessas bem afiadas, que tanto podem te ajudar, como podem te prejudicar: as redes sociais também são isso.

A verdade é que nem todos os usuários fazem uso das redes das sociais, e da Internet para o bem. E a gente de bem, às vezes, por inocência, e por falta de reflexão acabamos, através dessas mesmas redes sociais, correndo para a boca do lobo mau, e muitas vezes, nesta mesma inocência, ajudamos os espertos lobos a nos devorarem. As manchetes de jornais estão cheias de casos assim.

Em fevereiro deste ano, a polícia de Porto Alegre prendeu uma quadrilha suspeita de roubar, nada menos, que 200 carros em apenas oito meses. A quadrilha se utilizava de um perfil na conta do Twiter que informava em quais ruas da capital gaúcha havia barreiras policiais e, com isso, facilmente, era fácil fugir das inevitáveis abordagens policiais.

O perfil do Twiter, do qual os bandidos se utilizavam, conta com mais de 200 mil seguidores. E as barreiras policiais são avisadas pelos próprios seguidores. A Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC) utiliza o serviço da montagem das barreiras, em parceria com a Brigada Militar, e a Polícia Civil com a finalidade de identificar motoristas alcoolizados e outras irregularidades no trânsito gaúcho.

Os inocentes, e porque não dizer, desonestos usuários, avisam uns aos outros das barreiras policiais, e com isso, acabam ajudando também os bandidos que podem, de uma hora para outra, tirar-lhe o carro e, em casos extremos, a vida. Legal isso, não?  Foi o que aconteceu com uma gaúcha que fazia uso desse serviço de tolos. Em julho do ano passado, ela teve o carro roubado por bandidos que faziam uso do mesmo aplicativo que ela, para detectar barreiras policiais.

O modo aberto de uso do perfil, de fácil acesso de postagens e leitura, revela, diariamente, os trechos onde os policiais estão tentando fazer o serviço deles, e livrar a sociedade de maus elementos. Preocupada com esse mau uso das redes sociais, o DETRAN do Rio Grande do Sul enviou à Câmara dos Deputados, uma proposta de reforma do Código Nacional de Trânsito. O objetivo e conseguir tornar crime esse tipo de serviço como o perfil do Twiter, que, na verdade, não é serviço, mas desserviço.

Eu aposto que grande número de usuários desse perfil do Twiter que avisa sobre blitzs policiais, também saem às ruas para protestar contra a corrupção. Acho que eles não costumam se olhar no espelho moral que há em cada um de nós.

Até aqui apenas usei um link para falar da matéria desta postagem: o famoso WhatsApp.

Pela segunda vez, em apenas quatro meses, a justiça brasileira ordenou que as operadoras de telefonia fixa e móvel bloqueiem o serviço de mensagens instantâneas, famoso em todo o mundo. O bloqueio é válido por 72 horas. Para os viciados em WhatsApp vai ser difícil ficar três dias sem o aplicativo. A medida começou a valer a partir das duas horas da tarde desta segunda-feira (02).

A incômoda decisão partiu de um juiz da comarca de Lagarto, em Sergipe. O juiz, Marcel Montalvão, quer que o WhatsApp entregue informações sobre uma quadrilha interestadual que está sendo investigada pela Polícia Federal. A companhia se nega a repassar as informações, alegando que não possui tais informações.

As operadoras, Vivo, Tim, Claro, Oi e Nextel decidiriam cumprir a determinação judicial, pois se assim não fizeram pagarão multa diária de R$ 500 mil. Com a crise pela qual atravessa a economia brasileira, acho que as empresas nem pensaram em desobedecer à ordem judicial.

Em dezembro de 2015, um juiz da 1a Vara Criminal de São Bernardo do Campo, São Paulo, havia determinado o bloqueio do aplicativo em todo o território nacional por 48 horas. O bloqueio naquela ocasião fora determinado por causa semelhante às envolvidas na determinação judicial desta tarde. Em julho de 2015, o WhatsApp não atendeu a uma determinação judicial de 2015. Em agosto, a empresa foi novamente notificada e, mesmo assim, não atendeu a ordem judicial. Diante dessa recusa, o Ministério Público resolveu pedir à justiça o bloqueio do serviço de mensagens instantâneas.

O mundo digital se movimenta na velocidade da luz, e leva junto com ele o mundo real. E nessa velocidade é preciso pensar e fazer leis para o mundo digital com certa urgência, senão corremos o risco de ficar para trás nessa louca corrida.

As decisões de suspender o uso do Whats em todo o território nacional, além de desconforto aos usuários do serviço, também causaram polêmica. Também sou o usuário do serviço de mensagens instantâneas, e sei que a ausência do serviço também afeta milhões de usuários. Mas volto ao caso que aconteceu na capital gaúcha: Será que não é necessário que a justiça capture os lobos que andam em nosso meio digital? Eu tenho boas intenções ao usar o Whats, você que me lê também, mas outros usuários podem não ter a mesma boa intenção, e aí não seria o caso do Facebook, empresa dona do WhatsApp, colaborar com justiça, quando necessário, em casos que a justiça se faça premente?


Não seria melhor aos usuários do WhatsApp pensarem mais no bem maior, do que apenas no desconforto do ficar sem o serviço por algumas horas, ou alguns dias?

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