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Partidos políticos ou organizações criminosas?

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:13
Terça-feira, 01 de maio


Há muito que os partidos políticos brasileiros deixaram de ser um espaço para a discussão ideias, e para a elaboração de planos e ações a ser desenvolvidas no sentido de provocar o bem estar da nação e o desenvolvimento humano, social, cultural e econômico dos que nela habitam.  
Seguindo esse raciocínio, também há tempos voou para bem longe aqueles que ingressavam nesses mesmos partidos com intuito de investir-se de responsabilidades governamentais ou tomar assento em casas legislativas com a finalidade de estabelecer nexos partidários para formar governos comprometidos com os ideais democráticos, discutir acordos legislativos, promover leis que visem o bem estar comum.
No redemoinho de informações nos quais somos envolvidos todos os dias pelos mais diversos tipos de mídias, podemos concluir que, no atual cenário político brasileiro, entre partidos políticos e organizações criminosas, a diferença entre partidos políticos e organizações criminosas é muito tênue. Quase inexistem diferenças entre os dois conceitos. Ainda nesse rastro conceitual é bem próximo o universo de ideias que circulam em torno do mar nebuloso de pensamentos entre os que formam uma e outra coisa.
Fica evidente ainda ao olharmos para a cena política o fato de que quando não pecam pelo crime de corrupção, os integrantes das agremiações políticas pecam por omissão. Qual pecado e maior ou menor, deixemos para as esferas do julgamento moral latente no íntimo de cada um de nós.
À exceção de uns dois três partidos de esquerdas não afinados com o PT, todos os outros estão fortemente comprometidos com ideais nada republicanos, principalmente os grandes partidos políticos, dos quais pensávamos que pudesse sair algum, se não salvador da pátria, pelo menos algum lider que fizesse o país voltar aos trilhos do desenvolvimento econômico, moral e ético.
Aproximam-se as eleições e as agremiações políticas são vítimas das armadilhas que elas próprias armaram para si mesmas.
Um desses caciques da politica nacional, o PSDB, por exemplo, tem no caso de Aécio Neves um exemplo de omissão. O senador tucano namorava a candidatura à presidência desde 2002, mas sempre foi preterido por José Serra, que disputou a cadeira presidencial nas eleições de 2002 e 2010. Finalmente, em 2014, o herdeiro político do avô, Tancredo Neves, alcançou o seu desejo de disputar a vaga para o posto máximo no Palácio do Planalto.
Naquela campanha política o senador levantou a bandeira da luta contra a corrupção acusando a sua opositora, Dilma Rousseff e o partido ao qual pertence, o PT, de tal prática. O eleitor, àquela época já sabia que alguma coisa não andava bem das pernas em nosso sistema político, e votou em Aécio, apenas na tentativa de, por assim dizer, escolher o menos pior.
Dilma acabou sendo eleita com votos na casa dos 54 milhões de votos, e Aécio com votos na casa do 51 milhões. Sem dúvida uma votação expressiva do senador. Também chamou a atenção os cerca de 10 milhões entre eleitores que votaram em branco ou nulo, e os 27 milhões que deixaram de comparecer as urnas.
Enfim, passaram as eleições, e as peças ocuparam lugar nos seus tabuleiros. Dilma foi para o Palácio do Planalto e Aécio voltou ao senado. Tudo seguiu seu curso de aparente normalidade, pois de normalidade não tinha nada, ao contrário, no submundo da política transações escusas eram realizadas e os ratos se fartavam de queijo de boa qualidade.
Foi em maio de 2017 que caiu a mascara de bom moço para o senador tucano. Ele foi flagrado em uma conversa com o dono da JBS, Joesley Batista, pedindo a quantia de dois milhões de reais, que supostamente seriam para pagar advogados em sua defesa em acusações de corrupção na Lava Jato. Investigações posteriores revelaram que esse dinheiro não passou pelas mãos do advogado. O primo do senador, Frederico Pacheco de Medeiros, foi filmado recebendo parte do dinheiro e foi preso. Ao todo foram feitas quatro entregas de 500 mil reais cada uma. Na ocasião também foi presa a irmã do senador, Andreia Neves.  Como nada nesse mundo cão da política é de graça, Aécio trabalharia no senado para defender os interesses da JBS, quando na verdade deveria defender os interesses do povo brasileiro, e não de uma empresa, ou grupo econômico, em especial.
Quase um ano depois do ocorrido, no último dia 17 de abril, a Procuradoria Geral da República denunciou o senador por corrupção passiva e obstrução à justiça. A denúncia, baseada em delações premiadas de executivos da J&F, foi aceita pela Primeira Turma do STF, formada pelos ministros: Luís Roberto Barroso, Rosa Weber, Luís Fux e Alexandre de Moraes.
Na mesma semana em que virou réu no STF, surgiram novas denuncias contra o senador. Sérgio Andrade, um dos donos da Andrade Guitierrez, revelou em depoimento à Polícia Federal que fez pagamentos vultosos ao senador tucano. Para essa transação foi feito um contrato fraudulento com uma empresa de um amigo de Aécio. Esse outro inquérito apura se o senador recebeu dinheiro das construtoras Odebrecht e Andrade Guitierrez. 
Em troca o político em questão beneficiaria as empresas na construção da hidrelétrica Santo Antônio, localizada no Rio Madeira, em Rondônia. De acordo com o delator, foi feito um pagamento de 35 milhões de reais através da empresa de Alexandre Accioly. Alexandre recentemente prestou depoimento à PF. Quem também prestou recente depoimento foi Joesley Batista.  À PF o empresário disse ter repassado a Aécio a quantia de R$ 110 milhões em 2014. Segundo Joesley Aécio havia solicitado a soma para repartir entre os partidos que o apoiavam na campanha presidencial daquele ano. O empresário apresentou à PF documentos que comprovam o pagamento.
Ainda segundo Joesley, novos pedidos de dinheiro foram feitos por Aécio, após os R$ 110 milhões. Havia pagamento de campanha pendentes e Aécio queria saldá-las, e para isso houve mais pedido de dinheiro ao dono da JBS. Em 2015, houve um encontro entre Joesley e Aécio, em Belo Horizonte, no qual foi discutida a compra de um apartamento, no valor de R$ 17 milhões, na capital mineira para mascarar o acordo. Novos pedidos de dinheiro foram feitos por Aécio a Joesley, mas como já estava sendo investigado, o empresário negou o pedido.
Joesley também afirmou que Aécio recebeu pagamentos mensais, no valor de R$ 50 mil, durante dois anos. Esses pagamentos foram feitos por meio de notas fiscais emitidas à Radio Arco Iris, que é afiliada da Rádio Jovem Pan, em Belo Horizonte. O senador detinha 40% dos direitos sobre a emissora.
Outra acusação relacionada ao caso de obstrução à justiça foi feita pelo deputado Osmar Serraglio que, à época em que o caso ocorreu, era ministro da Justiça. O deputado disse que Aécio tentou alterar o curso das investigações da Lava Jato através da interferência na escolha dos delegados da PF.
Desde o momento em que ocorreram as fortes acusações contra Aécio no ano passado, o PSDB não tomou nenhuma atitude punitiva em relação ao senador, praticamente, cruzando os braços diante do ocorrido, mantendo inclusive, Aécio como presidente do partido.
Outro erro do PSDB foi continuar apoiando o ex-governador de Minas Gerais, Eduardo Azeredo, mesmo após o escândalo do mensalão tucano, em Minas. Segundo denúncias, durante a campanha para a reeleição em 1998, empresas estatais mineiras foram usadas para desviar dinheiro para a campanha de Azeredo. O operador desse esquema ilegal era Marcos Valério, o mesmo que fazia as operações no caso do PT.
As investigações a respeito desse caso foram concluídas apenas em 2017. Baseados nos relatórios da PF, a Procuradoria Geral da República denunciou Azeredo pelos crimes de peculato e lavagem de dinheiro. A primeira condenação de Azeredo só veio acontecer em 2015. Ele foi condenado a 20 anos e dez meses de prisão, e recorreu da decisão. Apenas em 2017, vinte anos após o crime ter ocorrido é que o processo chegou à segunda instancia, os desembargadores mantiveram a condenação, mas ressaltaram que o político mineiro só poderia ir para cadeia depois de esgotados todos os recursos na segunda instancia. A defesa apresentou então novos recursos.
No dia 21 deste mês, os desembargadores da Quinta Câmara do Tribunal de Justiça mineiro mantiveram a condenação dada em 2017, mantendo também a decisão de somente prender o acusado depois de esgotados todos os recursos.
Por parte do PSDB houve omissão em ambos os casos. No caso de Aécio, aumenta a pressão para que ele não seja candidato nas eleições de outubro. Integrantes do partido alegam que se ele resolver se candidatar ao senado vai atrapalhar o candidato ao governo do estado de Minas, Antônio Anastásia. A candidatura de Aécio também poderia prejudicar a campanha à presidência de Geraldo Alckmin. Segundo delatores, o nome de Alckim também constava da lista elaborada pelo setor de propina da Odebrecht. Disseram eles que, nas campanhas de 2010 e 2014, foram destinados, por meio de caixa dois, R$ 10 milhões para a campanha de Alckim.
Todo esse quadro leva Aécio a um futuro político incerto em relação às eleições de outubro.
Quanto ao MDB, na última semana houve mais chumbo grosso lançado contra o presidente Michel Temer. Apenas seis meses após aberto o inquérito dos portos, no qual o presidente é suspeito de ter editado decreto para beneficiar empresas do setor portuário, autoridades dizem haver indícios de que o presidente tenha lavado dinheiro na reforma de imóveis em casa de familiares, além de dissimular transações imobiliárias em nome de terceiros na tentativa de ocultar bens. Entre os proprietários desses imóveis estão a mulher de Temer, Marcela, e o filho deles, Michel. Quanto às reformas, estas teriam ocorrido na casa da filha do presidente, Maristela, e da sogra dele, Norma Tedeschi. Reportagem da Folha de São Paulo revelou que um dos fornecedores teria recebido pagamento em dinheiro vivo pelos serviços diretamente da mulher do coronel Lima, Maria Rita Fratezi.
Investigações da PF apontam que o presidente teria recebido ao menos R$ 2 milhões em propina por meio do coronel João Baptista de Lima Filho. Ainda segundo os investigadores esse dinheiro veio das empresas JBS e de uma empresa ligada à Engevix.
Assim como o PT parece ter em Marcos Valério um operador atuante, o presidente parece ter no coronel Lima um homem com empenho semelhante, uma vez que ele aparece como elo em negócios que beneficiam diretamente o mandatário da nação.
A Polícia Federal intimou a filha de Temer, Maristela Temer a depor no dia 03 de maio. Os investigadores querem saber por que o coronel Lima pagou a reforma de uma casa pertencente a ela, em São Paulo. Os pagamentos da reforma do imóvel foram feitos em dinheiro vivo e de alto valor.
Logo após a filha ser chamada a depor, o presidente Michel Temer fez um discurso enfático e em tom raivoso.
No pronunciamento feito à nação no último dia 27, Temer, mais uma vez usa argumentos frágeis para se defender. Para começar ele diz que as acusações são mentiras lançadas contra a honra dele, e que atingem a família o e filho, hoje com nove anos de idade.
Temer faz ameaças veladas a divulgação das informações pela PF quando diz: “Eu até solicitarei para que realmente as instituições possam funcionar regularmente, vou sugerir ao ministro Jungmann que apure internamente como se dão esses vazamentos irresponsáveis, porque, mais uma vez, eu digo: não é imprensa que vai lá de forma, digamos, escondida para examinar os autos, os dados são fornecidos por quem preside o inquérito, quem comanda o inquérito, seja onde for”.
Temer deve ter lido na cartilha dos petistas, tanto na forma de fazer negócios no submundo da política, quanto na fórmula que usa em sua defesa, dizendo que é vítima de perseguição.
Tanto os petistas como os emedebista atribuem à PF um papel que não faz parte de suas funções: a de perseguir este ou aquele político, ou a quem quer que seja. O trabalho da polícia é investigar e apresentar relatórios baseados em provas. E isso a PF tem feito muito bem.
Por tudo isso, e muito mais o presidente deseja ser candidato a presidência. Talvez mais por querer se abrigar no foro privilegiado do que para trabalhar pelo desenvolvimento do país.
Quanto ao PT, para as próximas eleições, a situação do partido é delicada. Tendo em Lula o seu baluarte, e estando este preso e impossibilitado de disputar as eleições por causa da Lei da Ficha Limpa, o partido não cuidou de trabalhar novas lideranças e, por isso, fica por aí, tentando de todas as formas e maneiras que a prisão do ex-presidente seja revista e que ele venha a ser libertado.
E as denúncias por corrupção parecem um poço sem fundo.
No fim da tarde de hoje, a Procuradoria-Geral da República apresentou mais uma denúncia contra o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, o contra os ex-ministros, Antonio Palocci, Paulo Bernardo, e a ex-ministra e atual senadora, Gleisi Hoffman. Também foi denunciado o empresário Marcelo Odebrecht.
Os atos criminosos, segundo a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, tiveram origem no ano de 2010. Naquele ano, a Odebrecht teria prometido ao então presidente Lula, que doaria cerca de R$ 40 milhões caso o presidente produzisse decisões políticas que viessem a favorecer a Odebrecht.
O dinheiro foi colocado à disposição do Partido dos Trabalhadores e isso ficou provado em depoimentos de delatores e também através da quebra de sigilo telefônico, da apresentação de planilhas, mensagens trocadas entre os envolvidos, dentre outras. Segundo Raquel Dodge, o esquema criminoso era composto por quatro núcleos; o econômico, o administrativo, o financeiro, e o político.
A denúncia foi encaminhada ao ministro, Luiz Edson Fachin, relator da Lava Jato no STF.
Por tudo isso e muito mais, as próximas eleições deverão ser uma das mais imprevisíveis e perigosas para o futuro do país, pois na falta de lideranças e de candidatos em quem se possa confiar, muitos estão tentando construir mitos, e mitos não são a solução para os problemas do país, muito pelo contrário, eles podem ser uma grande ameaça. Lembremo-nos de que Collor também foi alçado à condição de mito e deu no que deu.
Também não precisa o Brasil de salvadores da pátria. Salvadores ficam bem no ambiente religioso e nas histórias em quadrinhos. Acho que não é o caso da política brasileira, no momento.
E de quem precisamos para liderar o país? Precisamos de pessoas que governem para aqueles que o elegeram gratuitamente: o povo da nação. E não para aqueles que compraram, à alto preço, fidelidade dos candidatos, e que exigirão deles também alto preço, logo que seus nomes sejam confirmados como eleitos pelas urnas.

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