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O sofrimento de Maria

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 13:50

Domingo, 13 de maio

Hoje, 13 de maio, coincide de o calendário juntar duas datas a ser comemoradas: o Dia das Mães e os 130 anos da abolição da escravatura. Para celebrar esses dois eventos especiais esse blog brinda aos leitores e leitoras com o conto, O Sofrimento de Maria, que fala do sofrimento e das alegrias de uma escrava negra chamada Maria, mãe do menino Emanuel.
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O sofrimento de Maria



Corria o ano de 1884.  O sol dourado descia por trás dos montes na Fazenda Engenho Novo pintando o horizonte de um amarelo-dourado que lembrava mais o ouro das minas do que a vida sofrida que levavam os escravos naquele pedaço de chão do agreste pernambucano. A natureza caprichosa parecia ter copiado os tons, sombras e cores de algum quadro de Van Gogh.
Pode, porém, o criador copiar a criatura? Mais provável é que o inverso aconteça. É mais natural que o famoso pintor, embevecido pela delicadeza da mãe natureza e pelo traço perfeito e inconfundível da força criadora do universo, tenha se posicionado com sua tela, tintas, e pinceis, em algum fim de tarde e, copiando a natureza, tenha se tornado ele mesmo criador.
Nenhum outro pintor soube captar tão belamente a energia e a luz da estrela central de nosso sistema solar como o fez Vincent Van Gogh. Sem ele, o sol, não haveria vida nessa via de expiação a que os humanos resolveram chamar de Terra.
Sem dúvida, derramar os olhos na imensidão daquela beleza de quadro pintado no horizonte, ajudava a aliviar o sofrimento da gente negra que dividia aquele espaço com os senhores de engenho, com seus filhos e filhas e demais familiares, e também com os feitores, sempre dispostos a castigar os negros à primeira ordem dos patrões. Para merecer esses castigos não era preciso grandes crimes: às vezes um copo de cristal quebrado bastava para que os escravos sentissem no corpo o peso das chibatas.
Ali naquele pedaço de chão encravado naquele pé de serra, em Belo Jardim, agreste pernambucano, a estrela central do funcionamento de toda aquela estrutura era a casa grande senhorial. Diferentemente do astro rei, se algum dia a estrela central daquele sistema opressor viesse a faltar, para os negros escravos sobraria ainda uma longa vida de liberdade a ser vivida e aproveitada com intensidade.
A casa grande do Engenho Novo, como quase todas as casas grandes daquela época, era construída na parte mais elevada do terreno. Isso porque a preocupação maior, herdada dos primeiros tempos da colônia, era mais com a segurança que com o conforto, se bem que não possa dizer que a casa grande daquele engenho fosse feia ou desconfortável, muito pelo contrário, a arquitetura da construção mais parecia com um castelo, internamente decorado com finas louças trazidas de viagens que os senhores de engenho faziam frequentemente ao exterior.
Nas proximidades da fortaleza ficavam; a senzala, ampla habitação coletiva, sem divisórias, que abrigavam escravos. Essa habitação sim, feita de madeira, não contava com conforto nenhum. Os escravos dormiam em esteiras, ou até mesmo no chão. Nela não havia banheiro ou coisa parecida. Quando os escravos queriam fazer suas necessidades fisiológicas, a mata era vastíssima para isso. Quando era necessário banhar-se, as águas dos rios e cachoeiras eram limpas e claras.
Na frente da senzala, e debaixo de um frondoso pé de juá, ficava o terror de todos os negros e negras que derramavam seu suor do nascer ao pôr do sol para o enriquecimento do patrão: o pelourinho, que nada mais era que um tronco onde os escravos eram amarrados e sofriam dolorosos castigos físicos. Muito sangue já havia escorrido naquele tronco, debaixo daquele juazeiro. Muitas vidas negras também já tinham sido tombadas naquele temido pedação de chão.
Nas redondezas da casa grande ficavam ainda o engenho onde a cana era transformada em açúcar, a casa de farinha, onde a mandioca era transformada em farinha, o paiol, e as instalações que funcionavam como uma espécie de escritório que geria toda aquela estrutura.
O banco onde era guardada a fortuna arrecadada era os cofres que se situavam dentro da casa grande, onde também eram guardadas as joias de propriedade da família senhorial.  Bem próximo à casa grande e a senzala ficava também a capela, onde os brancos faziam suas orações aos santos, e os negros, quando podiam entrar lá, pelo sincretismo faziam aos seus orixás, pedidos ardentes por liberdade.
Os ágeis pincéis do criador do universo já tinham feito sumir o amarelo dourado e, no lugar dele, pinçava alguns tons em um cinza forte e mais escuro. Era o manto da noite que caia suavemente sobre o Engenho Novo.
O sino da capelinha bateu anunciando às seis horas, chamando os devotos e devotas para a reza do terço. Dentro da sala da casa grande, as mãos delicadas da sinhazinha abriram uma partitura, se debruçaram sobre as teclas do piano, e começaram a entoar com perfeição e sentimento, a bela melodia escrita por Charles Gounod para a Ave Maria. A melodia, executada com tanta perfeição, pareceu ganhar vida e saindo pelas amplas portas e janelas, foi-se a correr pelos campos e ao pé da serra, divinizando ainda mais uma hora tão bela.
Enquanto na sala da casa uma canção ecoou, na mesma hora sexta, debaixo do pé de jucá, a mão do feitor desceu com o chicote na pele de uma negra, e um grito de dor ecoou dentro da recém-chegada noite.
Chegara a vez de a negra Maria sofrer os castigos corporais. Dos castigos corporais se diz por que das torturas psicológicas ela já sofria faz tempo, principalmente, há três anos, depois que chegara naquele engenho.
Lembrava-se de quando subira a ladeira em direção à senzala. Enquanto subia ficava a pensar no que a aguardava naquelas paragens. Já havia sido alertada por outros escravos, durante as negociações de sua compra no mercado de escravos, de que, na Fazenda Engenho Novo ficava um dos senhores de engenho mais cruéis da região. Não apenas ele, mas também a sinhá, esposa dele, era muito cruel e intolerante. Ao lembrar-se das coisas que os companheiros de cativeiro lhe haviam falado daquele lugar, sentiu um arrepio a lhe percorrer o corpo... E entregou-se nas mãos dos seus orixás e da sua homônima, a virgem Maria.
Apesar de jovem, tinha ela 22 dois anos de idade, em suas andanças pelas terras brasileiras já tinha ouvido muita coisa, nas senzalas, e nas salas da casa grande, pois, por diversas vezes, já trabalhara como escrava doméstica acompanhando as sinhazinhas em pequenos afazeres. Uma dessas coisas que ouvira foi de que os movimentos abolicionistas já estavam bem avançados, tendo inclusive diversos senhores de engenho já concedido liberdade a seus escravos. Em seu último trabalho em casa de um senhor de engenho no Rio de Janeiro, ela estava a limpar os cristais da cristaleira da sinhá, quando, discretamente, ouviu a conversa do patrão com um figurão bem próximo aos monarcas, de que a escravidão estava com os dias contados e que logo seria abolida em solo brasileiro.
Maria não tinha ido à escola, mas tivera a sorte de encontrar uma patroa que lhe ajudara a dar os primeiros passos no mundo das letras. Aprenderam um pouco, o suficiente para observar com mais atenção o mundo que a cercava e dele tirar suas conclusões.
Ao subir aquela leve ladeira que levava ao complexo casa-grande e senzala, pensou em como ainda havia gente de pensamento tão atrasado pelos recantos do Brasil, e ela tivera a infelicidade de cair nas mãos de um desses.
Enfim, começara a trabalhar na casa grande como escrava doméstica, auxiliando a sinhá e a sinhazinha em afazeres domésticos. Os filhos do patrão, um estava estudando na Europa e outro no Rio de Janeiro. Nesses três anos em que ela estivera trabalhando ali, só tivera oportunidade de vê-los duas vezes quando eles vieram em férias.
Tudo corria tranquilo para ela. Fazia o seu trabalho como houvera feito normalmente em outras casas senhoriais por onde passara. Porém, sua beleza não passou despercebida ante os olhos do patrão. Começou a sofrer investidas constantes. Na frente da patroa não fazia nada. Comportava-se. Porém, bastava que essa virasse as costas para que ele começasse a passar a mão pelos seus seios, suas coxas, e tocasse suas partes íntimas.
Maria sempre se esquivara e até mesmo ameaçara contar para a patroa os intentos do patrão, mas essa era uma mulher vingativa. A escrava tinha sabido conquistar a patroa, após observar-lhe os pontos fracos. Sabia que o ciúme que ela sentia do marido era do tamanho dos montes que circundavam o engenho e, por isso fugia das investidas do sinhô como o diabo foge da cruz.
Mas o homem era mesmo perverso. Certa vez, a sinhá foi ao Rio de Janeiro com suas filhas assistir ao espetáculo de uma famosa cantora parisiense que viera ao Brasil para um concerto no Teatro João Caetano. Elas estavam empolgadas com a vinda da cantora de quem gostavam bastante.
O sinhô logo pôs uma série de obstáculos para que Maria não as acompanhasse. Mentiu que estava doente e que iria precisar dos cuidados dela. Como ele era bom em convencer as pessoas, mesmo quando estava com más intenções, as três logo acreditaram nele.
Naqueles dias em que a patroa e filhas estiveram na capital do Brasil, as investidas do patrão tornaram-se ainda mais fortes. A escrava sempre dava um jeito de fugir dele, aproximando-se de outras pessoas, ou inventando outros artifícios.
Uma noite, porém, não teve como fugir. Ele colocou algo dentro de um chá de erva doce que ela frequentemente tomava antes de recolher-se à senzala. Completamente dopada e sem o uso de suas faculdades. Ele a levou para o quarto na casa grande e ali passou à noite com ela. Depois disso, a patroa retornou e Maria ficou em segurança pois junto da esposa e da filha, ele continuaria a ficar apenas nas ameaças.
Um mês depois, o pavor tomou conta de Maria. Ela descobriu que estava grávida e só podia ter sido naquela noite com o patrão. Mas ficou em silêncio sobre essa descoberta, pois se falasse alguma coisa, era bem capaz de a patroa pedir para o feitor sumir com o corpo dela em algum lugar escondido na mata.
Certa feita, o patrão aproximou-se dela com segundas intenções e ela, perdendo a cabeça, lhe deu um tapa no rosto. Foi o suficiente para o furor dele contra a escrava crescer. Esperou o momento certo, e, quando ela quebrou, acidentalmente, a taça de vinho preferida dele, e que havia sido trazido de Portugal, ele impiedosamente, mandou castiga-la no tronco.
E ali, estava ela, com o corpo ensanguentando. A Ave Maria que vinha do piano da sala da casa grande trazia-lhe certo alivio. Amarrada aquele tronco ela sonhava com a liberdade. Pensava nas palavras do fidalgo no Rio de Janeiro de que a escravidão logo acabaria. No desespero, pensava em mil maneiras de fugir para o quilombo. Agora tinha mais motivos ainda para pensar nisso. Ia ser mãe. Tinha de sair dali antes que a barriga começasse a crescer. Isso era urgente, a fuga. Era um filho que fora concebido de forma indesejada, e de um homem de quem não gostava, mas era seu filho, estava na sua barriga e ela o estava gerando. Tinha de amá-lo e cobri-lo de carinhos. Já tinha visto outras escravas fazerem aborto, mas isso além de arriscado, ia contra seus princípios.
Um mês depois dessa noite horrorosa passada no tronco. Ela finalmente conseguiu fugir. O plano foi simples. Um dia em que o feitor relaxou na vigilância, ela inventou de ir ao riacho lavar algumas roupas da patroa, e de lá, desapareceu na mata para nunca mais voltar. Foi bem acolhida entre os irmãos quilombolas. Seis meses depois dava à luz a um menino e lhe pôs o nome de Emanuel.
E, no quilombo ensinou ao menino que um homem deve fazer da liberdade o seu farol, o seu Norte na vida, e que de gaiolas, nem os pássaros gostam. Passou ao filho o que sabia do mundo das letras para que ele não crescesse na ignorância delas e que soubesse conversar até com os doutores que dele se aproximassem.
Junto de Emanuel, Maria experimentou o amor sem limites, a gratuidade do amor. Era mãe, e mãe não mede esforços nem sacrifícios quando se trata de cuidar e proteger o filho.
Poucos anos mais tarde, se cumpriu o que o fidalgo fluminense havia profetizado em casa de um antigo patrão dela. Era 13 de maio de 1888, a escravidão no Brasil havia sido abolida. Houve festa no quilombo e por todo o Brasil o tambor tocou em comemoração a esse fato.
Um sorriso iluminou o lindo rosto de Maria, ao olhar o filho correndo para lá e para cá, junto com as outras crianças negras do quilombo, seus companheiros de brincadeiras. Eles cresceriam num país de homens livres. Não sabia ela, que por muito tempo ainda o negro ainda carregaria o estigma do preconceito e da discriminação.
Quem sabe algum espírito santo ainda venha e pouse sobre os homens e liberte os preconceituosos de seus próprios preconceitos, assim como os negros foram libertos da escravidão.

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