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A política republicana de Lima Barreto

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 17:02

Sábado, 12 de maio


Conforme prometido no último paragrafo da postagem anterior, segue texto publicado pelo escritor e jornalista, Lima Barreto, no ano de 1918. Excetuando os parágrafos em que o autor trata das coisas do império, os demais em que fala daqueles primeiros anos de república poderia muito bem expressar o pensamento de qualquer brasileiro dos dias atuais em relação aos fatos que se sucedem na cena política de nossos dias.
Não que na monarquia não houvesse corrupção e corruptos. Por certo devia haver, mas não era a regra geral. A política republicana parece ter exacerbado esse vicio criminoso que atrasa qualquer nação e não apenas o Brasil. Se a corrupção antes era um rato que devorava nosso queijo, com o passar dos anos ela se tornou um monstro de grandes proporções a engolir tudo o que encontra pela frente.
De lá pra cá, o gestão criminosa quem em nossos dias e em nosso país recebe o nome de política, decerto aumentou e muito.  O bom disso tudo é que o povo parecer ter percebido que a sangria que se pratica contra os cofres públicos precisa ser estancada, antes que o sangue que pulsa vital nas veias da nação, se esvaia por completo, tornando-se ela anêmica, ou até mesmo vindo a ter sérios problemas no organismo social.
No mais, deixo que o leitor, por si só, reflita nas reflexões que Lima Barreto faz acerca da política republicana que se começava a praticar naqueles primeiros 29 anos de república.

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A política republicana


Lima Barreto

Não gosto, nem trato de política. Não há assunto que mais me repugne do que aquilo que se chama habitualmente política. Eu a encaro, como todo o povo a vê, isto é, um ajuntamento de piratas mais ou menos diplomados que exploram a desgraça e a miséria dos humildes.
Nunca quereria tratar de semelhante assunto, mas a minha obrigação de escritor leva-me a dizer alguma coisa a respeito, a fim de que não pareça que há medo em dar, sobre a questão, qualquer opinião.
No Império, apesar de tudo, ela tinha alguma grandeza e beleza. As fórmulas eram mais ou menos respeitadas; os homens tinham elevação moral e mesmo, em alguns, havia desinteresse.
Não é mentira isto, tanto assim, que muitos que passaram pelas maiores posições morreram pobríssimos e a sua descendência só tem de fortuna o nome que recebeu.
O que havia neles, não era a ambição de dinheiro. Era, certamente, a de glória e de nome; e, por isso mesmo, pouco se incomodariam com os proventos da “indústria política”.
A República, porém, trazendo tona dos poderes públicos, a borra do Brasil, transformou completamente os nossos costumes administrativos e todos os “arrivistas” se fizeram políticos para enriquecer.
Já na Revolução Francesa a coisa foi a mesma. Fouché, que era um pobretão, sem ofício nem benefício, atravessando todas as vicissitudes da Grande Crise, acabou morrendo milionário.
Como ele, muitos outros que não cito aqui para não ser fastidioso.
Até este ponto eu perdoo toda a espécie de revolucionários e derrubadores de regimes; mas o que não acho razoável é que eles queiram modelar todas as almas na forma das suas próprias.
A República no Brasil é o regime da corrução. Todas as opiniões devem, por esta ou aquela paga, ser estabelecidas pelos poderosos do dia. Ninguém admite que se divirja deles e, para que não haja divergências, há a “verba secreta”, os reservados deste ou daquele Ministério e os empreguinhos que os medíocres não sabem conquistar por si e com independência.
A vida, infelizmente, deve ser uma luta; e quem não sabe lutar, não é homem.
A gente do Brasil, entretanto, pensa que a existência nossa deve ser a submissão aos Acácios e Pachecos, para obter ajudas de custo e sinecuras.
Vem disto a nossa esterilidade mental, a nossa falta de originalidade intelectual, a pobreza da nossa paisagem moral e a desgraça que se nota no geral da nossa população. Ninguém quer discutir; ninguém quer agitar ideias; ninguém quer dar a emoção íntima que tem da vida e das coisas. Todos querem “comer”.
“Comem” os juristas, “comem” os filósofos, “comem” os médicos, “comem” os advogados, “comem” os poetas, “comem” os romancistas, “comem” os engenheiros, “comem” os jornalistas: o Brasil é uma vasta “comilança”.
Esse aspecto da nossa terra para quem analisa o seu estado atual, com toda a independência de espírito, nasceu-lhe depois da República.
Foi o novo regime que lhe deu tão nojenta feição para os seus homens públicos de todos os matizes.
Parecia que o Império reprimia tanta sordidez nas nossas almas.
Ele tinha a virtude da modéstia e implantou em nós essa mesma virtude; mas, proclamada que foi a República, ali, no Campo de Santana, por três batalhões, o Brasil perdeu a vergonha e os seus filhos ficaram capachos, para sugar os cofres públicos, desta ou daquela forma.
Não se admite mais independência de pensamento ou de espírito. Quando não se consegue, por dinheiro, abafa-se.
É a política da corrução, quando não é a do arrocho.
Viva a República!
A.B.C., 19-10-1918

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