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Indigenista brasileiro e jornalista britânico desaparecem na floresta amazônica

Posted by Cottidianos on 00:23

Quarta-feira, 08 de junho

 

Falemos na postagem de hoje de um assunto pesado, preocupante, mas antes vamos ver ao final da viagem dos sonhos que se tornou real do brasileiro Victor Hespanha, do qual esse blog falou na postagem do dia 16 de maio. A viagem havia sido adiada por causa de problemas de segurança, mas finalmente aconteceu no sábado, dia 04 deste mês.

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Finalmente, o engenheiro de produção brasileiro Victor Hespanha pode viajar ao espaço em voo da Blue Origin. A viagem dos sonhos aconteceu no sábado, 4, e fez de Victor o primeiro turista espacial brasileiro, e o segundo brasileiro a sair da órbita terrestre. O primeiro foi o ex-ministro da Ciência, Tecnologia e Inovações, Marcos Pontes. A diferença é que Marcos é astronauta, e Hespanha, apenas um turista espacial. Pontes foi ao espaço como integrante da missão do projeto de construção da Estação Espacial Internacional (ISS), e Hespanha ganhou a viagem num sorteio ao comprar um token da Crypto Space Agence. Junto com Victor Hespanha havia mais outras cinco pessoas na nave.

Após o feito, o engenheiro de produção conversou, com a exclusividade com a repórter Renata Capucci, em entrevista para o Fantástico. Na entrevista ele conta de sua felicidade em viver essa experiência: “É um marco na minha vida. É um marco para minha cidade, para o Brasil, né? Eu queria muito compartilhar. Eu queria que as pessoas vissem com os meus olhos. Ver a escuridão do espaço, ver a curvatura da Terra”.

Na entrevista para o Fantástico, Victor também revela uma grande novidade para os céticos terraplanistas: “Gente, a terra é redonda, verdade, não é mentira”, disse ele.

Este blog Cottidianos tratou desse assunto na postagem de 16 de maio, por isso, retomei o assunto novamente.

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                        Dom Phillips, jornalista, e Bruno Pereira, indigenista


Saindo dessa atmosfera de sonhos transformados em realidade, mergulhemos agora numa história que inspira preocupação aos brasileiros, aos britânicos, e a todos aqueles que se preocupam com a questão indígena. Trata-se de um misterioso desaparecimento no coração selvagem da floresta amazônica. 

Os personagens dessa história são o indigenista Bruno Araújo Pereira, servidor de carreira licenciado da Fundação Nacional do Índio (FUNAI), atuante ativista da causa indígena, e Dom Phillips, jornalista britânico, colaborador do The Guardian, e também envolvido em causas ambientais. Os dois viajavam pelas terras indígenas do Vale do Javari, no munícipio de Atalaia do Norte quando desapareceram. 

Reportagem do G1 Amazonas, diz que “Ao longo da última década, Bruno Pereira foi coordenador regional da Funai de Atalaia do Norte, que compreende justamente a área onde ele foi visto pela última vez”.

Em 2016, Bruno deixou o cargo durante intenso conflito entre povos isolados da região. Bruno não é de cruzar os braços e ficar vendo a vida passar, principalmente, quando se trata da vida dos povos originários da floresta. Em 2018, ele já estava de volta como coordenador-geral dos índios isolados e de Recém Contratados da Fundação Nacional do Índio. Nesse cargo, ele realizou a maior expedição para contato com índios isolados dos últimos 20 anos. Em 2019, ele foi exonerado do cargo. Setores ruralistas ligados ao governo de Jair Bolsonaro pressionaram pela sua saída.

O outro personagem desta história é o jornalista Dom Phillips, natural do condado de Merseyside, vizinho à cidade de Liverpool, Noroeste da Inglaterra.  Em 2007, ele resolveu mudar-se para o Brasil. Dom é um apaixonado pelo país para o qual se mudou, e pela Floresta Amazônica. Ele é casado com a brasileira Alessandra Sampaio, e mora na cidade de Salvador, Bahia. O jornalista tem uma vasta experiência em coberturas internacionais, e presta serviços para o The Guardian. Ele também já colaborou para os jornais Washington Post, Financial Times, e The New York Times.

Não eram dois iniciantes em viagens pela região. Bruno conhecia o lugar como a palma de sua mão devido ao seu intenso trabalho com os povos da região, e Phillips já havia feito inúmeras viagens por lá, fazendo reportagens sobre a crise ambiental brasileira e os problemas enfrentados pelas populações indígenas. Ultimamente, ele estava escrevendo um livro sobre a Floresta Amazônica, e essa era uma das suas razões para estar na região em companhia de Bruno.

O projeto do livro é apoiado pela Fundação Alicia Patterson. Na viagem, o jornalista esperava colher depoimentos de moradores da região ameaçados constantemente por madeireiros, garimpeiros, e pescadores ilegais. Por seu ativismo na causa em questão, há cerca de um ano Bruno recebia ameaças de morte por parte de garimpeiros e madeiros ilegais.


Indigenista e jornalista viajavam de barco pela região. Eles faziam uma expedição para visitar a Equipe de Vigilância da União dos Povos Indígenas (Unijava), estabelecida às margens do Lago do Jaburu, distante cerca de 15 quilômetros da comunidade de São Rafael. O lago também fica próximo da Base da Funai no rio Ituí. No Vale do Javari há quatro dessas bases de vigilância.

Desde a sexta-feira,3, eles viajavam junto com uma equipe de vigilantes indígenas por essa região. Chegaram ao local na sexta-feira à noite. Ali, o jornalista fez mais algumas entrevistas, enquanto Bruno conversava com a pequena equipe da Vigilância.

A Equipe de Vigilância foi criada com a finalidade de denunciar invasores das Terras Indígenas Vale do Javari (TI Javari), principalmente na região na qual vivem os indígenas isolados. A ideia motivadora dessa equipe era muito boa: Atuar em parceria com a Funai fazendo um trabalho voluntário, uma doação. Mas a “nova Funai”, como costuma dizer o presidente Jair Bolsonaro, não aceitaria esse tipo de ajuda. Como de fato, não aceitou.

Só que a Funai se recusou a receber essa doação. O que nós pensamos: já que a Funai não quer receber, vamos montar nossa equipe de vigilância, não para fazer apreensão, mas fazer marcação dos invasores dentro da TI”, disse Paulo Marubo, coordenador da Unijava ao site Amazônia Real, que acompanha bem de perto as investigações sobre o desaparecimento da dupla.

                                                                               Vale do Javari

A Equipe de Vigilância, Bruno Pereira, e Dom Phillips faziam um trabalho em conjunto: registravam imagens, e com marcações pelo GPS, registravam também a localização de áreas invadidas. Cabia ao Bruno levar o material coletado para apresentar denúncia ao Ministério Público Federal, e à Polícia Federal, localizados na cidade de Tabatinga, região do Alto Solimões, cidade próxima a Atalaia do Norte.

De acordo com uma testemunha — um indígena ouvido na reportagem do Amazônia Real — que fazia parte da equipe que acompanhava Bruno e Phillips, e que não quis se identificar por razões óbvias, nem todos dormiam durante a madrugada, geralmente, eram dois indígenas armados ficavam de sentinela.

O jornalista também aproveitava o tempo na TI Vale do Javari para entrevistar os habitantes do local. Ele queria saber deles como eles viviam, o que sentiam, porque protegiam o território, o que temiam, e coisas assim.

Então veio o amanhecer do domingo, dia 05. Dia em que, Bruno e Phillips, chegariam a Atalaia do Norte. Por volta das quatro horas da manhã, quando todos já estavam despertos, Bruno anunciou ele e o jornalista iriam sozinhos até a comunidade de São Rafael, distante cerca de quinze minutos dali, uma vez que ele, Bruno, conhecia bem o caminho.

A equipe insistiu para que continuassem acompanhando-os, mas Bruno insistiu em ir sozinho, junto com o amigo. A equipe propôs então que eles fossem em grupos separados, pois um ataque em tais circunstância seria improvável. Bruno, rejeitou também rejeitou essa ideia. “Acho que eles não vão nos atacar”, disse ele. O leitor, a leitora que leu nas entrelinhas já percebeu, em especial nesse parágrafo, um cheiro de perigo no ar.

A equipe tinha razão de estar preocupada. Além de terem consciência de que vivem numa terra perigosa, certamente também sabiam das ameaças que Bruno vinha recebendo. Além disso, alguns dessa equipe, dias antes, haviam cruzado com um grupo em uma embarcação, incomum para navegar naquelas águas de rios estreitos. A embarcação era mais larga que o habitual, mas também com mais potência no motor. Ao cruzar com os indígenas, o grupo mostrou as armas que carregava, e fez ameaças.

Sem conseguir demover Bruno da ideia de seguir com a comitiva, esta viu os dois partirem sozinhos para a comunidade de São Rafael, onde conversariam com um homem por apelido “Churrasco”, que é líder comunitário.

Chegando a São Rafael, Bruno e Phillips não encontraram “Churrasco”. Foram recebidos pela mulher dele que ofereceu aos dois o que tinha para comer naquele café da manhã: café com pão. Após conversarem com ela, na mesma manhã de domingo, os dois seguiram viagem pelo rio em um barco da Funai, em direção a Atalaia. O percurso levaria cerca de duas horas. Porém, os dois não chegaram ao destino.

Segundo o indígena ouvido pela Amazônia Real, há ribeirinhos que trabalham para os criminosos que atuam na área, que trabalham para os narcotraficantes. Eles pescam para alimentar os criminosos. Certamente, alguém na comunidade sabia da passagem do indigenista e do jornalista por lá, e avisou aos criminosos.  Ainda segundo a fonte, narcotraficantes colombianos e peruanos também atuam na região.

Os amigos que esperavam Bruno em Atalaia foram os primeiros a notar que havia algo de estranho, uma vez que a previsão de chegada deles à cidade era às oito horas da manhã, e já passava das dez, e os dois nem chegavam ao destino, nem davam notícias. Eles descartaram a ideia deles estarem perdidos, pois conheciam bem a região. Acidente? Também descartaram essa possibilidade, pois o barco era novo e tinha combustível mais do que suficiente para chegar ao destino. Restou trabalhar com a hipótese de emboscada.

Imediatamente, comunicaram o fato a Polícia Militar do Amazonas, apesar de este ser um crime de natureza federal, e junto com a PM, iniciaram as buscas. O governo federal demorou em iniciar as buscas pelos desaparecidos. Apenas colocou o efetivo do estado em ação após pressão da Embaixada da Inglaterra, dos veículos de comunicação nacional e estrangeiros, e de familiares dos desparecidos.

Eliesio Marubo, procurador jurídico da União dos Povos do Vale do Javari (Unijava), um dos primeiros a se envolver, pessoalmente nas buscas por Bruno Perereira, e Dom Phillips, contou em entrevista ao Jornal da CBN — apresentado por Milton Jung e Cássia Godoi — que a área onde os dois desapareceram é uma área de mata fechada, rios, e igarapés que fica quase na fronteira com o Peru.

O rio estava cheio então a dificuldades de acesso a determinados lugares dificultou as buscas. Outro fator que tornou mais difícil o trabalho foi o fato  da equipe da Unijava ser bastante reduzida. Eles foram nos lugares mais óbvios onde os dois poderiam estar, mas devido as condições expostas acimas, eles não conseguiram sucesso nas buscas.

Durante a entrevista, e pela fala de Eliesio, percebe-se que há todo um cuidado nas operações que o grupo desenvolve. Por exemplo, apenas algumas pessoas sabiam que Bruno Pereira e Dom Phillips estavam indo para a região, e o que eles iam fazer por lá. Ou seja, eles se sentem ameaçados a ponto de não divulgarem publicamente seus compromissos.

Quando perguntado por Milton Jung, sobre quem são os grupos que fazem essas ameaças, o procurador da Unijava disse: “A região é uma região mista de muitos interesses. São grupos de garimpeiros, grupo de pescadores, e caçadores ilegais que, de alguma maneira, servem ao crime organizado”, disse Eliesio. “Tem o próprio narcotráfico que utiliza o indígena para atravessar do Peru e Colômbia por meio da terra indígena e levar droga para a região do Acre, que é onde já tem rodovia, e já dá para escoar a droga”, acrescenta ele. Ainda segundo Eliesio, essa é “uma região altamente perigosa e sem a presença do Estado”.

A região conta com base do Exército, posto da Polícia Federal, Marinha, mas esses órgãos permanecem na cidade de Tabatinga. Eliesio diz que “pouco se vê atividades deles em campo ou na fronteira”. 

O órgão que poderia realizar algum de trabalho de relevância para a comunidade indígena é a Funai, mas segundo o procurador jurídico da União dos Povos do Vale do Javari, a Funai “é um órgão que não tem qualquer estrutura para realizar qualquer tipo de atividade”.

Isso é um retrato do que se tem transformado a Funai que, na verdade, é uma fotografia do descaso do estado brasileiro para com a população indígena, descaso esse agravado com a falta de política do governo Bolsonaro para com os indígenas. Nesse sentido, o governo se coloca não ao lado deles, mas ao lado dos bandidos que os ameaçam, que os oprimem, e que os matam.

                                                                  Forças Armadas buscam desaparecidos
                                                        

Agora as Forças Armadas fazem buscas na região na tentativa de encontrar algum sinal dos dois desaparecidos. A Polícia Civil do Amazonas ouve testemunhas para tentar descobrir o que, de fato, aconteceu na manhã de domingo, 5, no Vale do Javari.

Familiares e amigos, e todos os que acompanham o caso, torcem para um final feliz, entretanto, todos os indícios levam a crer que o indigenista Bruno Pereira, e o jornalista Dom Phillips, foram vítimas de uma emboscada e assassinados.

A respeito do trabalho de Dom Phillips, a fonte indígena ouvida pelo Amazônia Real, e que fazia parte da comitiva que acompanhava os dois amigos, disse: “Era uma coisa muito boa o que ele estava fazendo, mas infelizmente caiu numa emboscada. Foi uma fatalidade”. Apenas discordo da fonte nesse ponto. Fatalidades são coisas que acontecem, independentemente de nossa vontade, como por exemplo, um barco que afunda, uma arma que dispara sem querer. Há uma enorme diferença entre fatalidade de crime.

Para finalizar este texto, deixo a fala do sertanista Sydnei Possuelo, também ouvido na reportagem da Amazônia Real. “A circunstância toda, para mim, eles foram mortos. Estou me preparando para a pior notícia, eu não desejo isso, mas as informações, a vivência que eu tive, tudo me leva a deduzir que a notícia, lamentavelmente, é a pior possível. É resultado da política dos Bolsonaros, favorecendo essas coisas, mais violência, mais violências”, disse ele.

É Sydnei, nós também não desejamos o pior desfecho para esse caso. Mas, de qualquer modo, fiquemos preparados psicologicamente e espiritualmente, se isso acontecer.


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Ainda mais quando a corja atua contra o interesse indígena, com expressa manifestação da intenção de desobediência quanto ao julgamento do Marco temporal, vemos um grupo de bandidos protegendo outros bandidos como esses que mataram essas pessoas. Triste realidade.

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