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Se a carne e fraca, o leite também é

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:42
Domingo, 19 de dezembro


Todos os dias, somos bombardeados por diversas notícias de corrupção no meio político. Ficamos horrorizados, nos indignamos, nos irritamos, ficamos perplexos com toda a falta de compromisso de quem deveria nos representar. O fato é que a classe política não está à parte da sociedade, ao contrário, é parte dela, formou-se em meio a ela, e em meio a ela desenvolve, ou pelo menos deveria desenvolver suas funções, em prol dessa mesma sociedade.

Pensando dessa forma, pode-se afirmar que a corrupção praticada nos altos escalões do governo, e nos pequenos também, se reflete no meio que vivemos, respiramos, lutamos, trabalhamos, exercemos nossa cidadania.

As mentes mais fracas e mais suscetíveis de serem corrompida, ao ver toda essa dinheirama voando para cá e para lá, em malas, meias, e até em cuecas, saindo do Brasil para os paraísos fiscais, e depois fazendo o caminho inverso, podem normalizar em seus sistemas de valores que isso é o agir certo, isso é a conduta ideal para os homens de bem.

Entramos então em outra questão, muito debatida por sinal, mas que serve perfeitamente nessas presentes linhas. Vivemos numa sociedade que valoriza o ter, e não o ser. O indivíduo vale que pelos bens que ele ostenta, e não pelas qualidades morais e éticas, que são o fio condutor de uma sociedade que se propõe justa. Esse fio condutor conecta-se a outro mais perigoso. Os meios de conseguir esses tais bens materiais. Para quem não tem sólidos valores morais, essa passa a ser então a porta de entrada do inferno da desconstrução de valores.

Entra-se num jogo de vale tudo, no qual as regras são mentir, roubar, enganar, trapacear, falsificar. A vida humana e sua integridade são relegadas a segundo plano. Não importa se alguém morre na porta do hospital implorando pela ajuda do médico que estava ali, a principio, para salvar vidas, o importante era o plano de saúde que o paciente tinha, ou que não tinha. Não importa se alguém passa mal, e até mesmo morre por comer produtos estragados e alterados. O importante é o lucro que se obtém da venda deste produto.

O diabo das pequenas corrupções está todos os dias a nos tentar. Se formos fracos, se cedermos aos seus apelos, logo, estaremos envolvidos na intrincada teia das grandes corrupções, e dela é difícil sair. É como entrar para o crime organizado. Tente entrar e depois peça para sair para ver o que acontece.

Ainda prosseguindo no tema tratado até agora, quando pensamos que as coisas estavam ruins, elas conseguem ficar pior ainda.

Falo da Operação Carne Fraca, que vocês já devem ter ouvido falar, dada a frequência com que ela tem aparecido no noticiário de sexta-feira para cá.

Pelos números envolvidos pode-se dizer que Carne Fraca foi uma megaoperação; 1.100 policiais envolvidos, 309 mandados judiciais expedidos, divididos em 27 de prisão preventiva, 11 de prisão temporária, 77 de condução coercitiva, e 197 mandados de busca e apreensão.

Essa megaoperação desmantelou um mega esquema de corrupção na qual estavam envolvidos grandes empresas brasileiras do ramo alimentício, produtoras e exportadoras de carnes, e fiscais do Ministério da Agricultura.

Ora, e o que faz um fiscal? A resposta óbvia: fiscaliza. E se for um fiscal do ramo alimentício, fiscaliza para que não sejam repassados à população produtos estragados e de qualidade duvidosa.

Mas dentro do esquema desbaratado pela PF não era bem isso que acontecia. Os fiscais do Ministério da Agricultura recebiam propina de grandes empresas, e também de pequenos frigoríficos para que liberar para o consumidor, produtos em total desacordo com as regas sanitárias. Os fiscais faziam vistas cegas a várias situações que deveriam horrorizá-los.

Um dos artifícios usados pelas empresas para tornar as linguiças mais robustas, cheinhas, e atraentes era acrescer a fabricação delas o conhecido papelão. Em vez de embalar produtos, tiras de papel eram esmagadas e entravam na composição da linguiça, e o consumidor, inocentemente, comia papelão misturado com linguiça.

Era brincar com a vida humana o que ocorria naqueles frigoríficos. Chegava-se a misturar ácido ascórbico, (vitamina C) com carnes estragadas, a fim de maquiar a real situação do produto, a apresentá-lo como carne saudável, e pronta para o consumo.

Era comum as empresas investigadas fazerem um processo no qual o frango absorvia mais água do que o permitido por lei, apenas para aumentar o peso do produto.

O que causou surpresa, — além desta horrível prática de fazer de palhaços os consumidores — foi o fato de que entre as empresas investigadas estão duas daquelas a quem o consumidor reputava como empresas de “qualidade”, e que vendiam produtos “confiáveis”, a saber, a BRF, detentora das marcas Sadia e Perdigão, e a JBS, detentora das marcas Friboi e Seara.

Essa notícia seria detestável em qualquer hora, em qualquer momento, e se torna mais relevante ainda, em um momento em que o país atravessa uma séria crise econômica. O escândalo pode afetar a importação de carnes brasileiras. Vários países já pediram explicações ao governo brasileiro sobre a questão da maquiagem das carnes e sobre o envolvimento de fiscais do Ministério da Agricultura no escândalo.

Seguindo na mesma esteira de descaso para com os consumidores, no Rio Grande do Sul, a PF desmantelou uma quadrilha que chegava até a usar soda caustica par adulterar o leite.

Essa Operação chamada Leite Compensado, ocorreu também na semana passada em indústrias de laticínios no Rio Grande do Sul. Água, e até mesmo soda caustica, eram usadas para reaproveitar produtos vencidos.

Segundo o Ministério Público, uma empresa, em Nova Araçá, reaproveitava leite condensado envelhecido, ou estragado, colocando nele, neutralizantes que davam ao produto, aparência de saudável.

Diante de tudo isso, fica a pergunta: em quem confiar? Para os consumidores é difícil responder. O que sabemos é que não podemos mais habitar uma sociedade apodrecida e estragada por falsos e deturpados valores. Não podemos viver em uma sociedade em que foram sepultados os princípios éticos e morais. Seria o caos.

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