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Samba do crioulo doido

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 23:05
Quinta-feira, 02 de março



Antes de olhar para o cenário político e sua tenebrosa trama marcada por corrupção, e os tétricos personagens nela envolvidos, lancemos um olhar sobre o samba enredo da campeã do grupo especial das escolas de samba do carnaval paulista.

Antes de chegar a São Paulo, demos um pulo no Rio. Rio de Janeiro. A bruxa esteve solta na Avenida Marques de Sapucaí, e, por pouco, não aconteceu uma tragédia. O desfile das escolas de samba do grupo especial do Rio foi marcado pelos problemas envolvendo carros alegóricos.

Os problemas afetaram as escolas Paraíso do Tuiuti, União da Ilha, Unidos da Tijuca, Mocidade Independente de Padre Miguel. Os acidentes ocorreram tanto no domingo, quanto na segunda-feira de carnaval.

Um carro alegórico da escola Paraíso do Tuituti perdeu o controle e prensou algumas pessoas na grade que separa a pista das arquibancadas. Algumas delas ficaram presas nas ferragens e os bombeiros tiveram que intervir para tirá-las do apuro. Vinte pessoas ficaram feridas nesse acidente.

Outro acidente impactante ocorreu em um dos carros da Unidos da Tijuca. A parte de cima de um dos carros afundou, derrubando as pessoas que estava em cima e atingindo as que estavam logo abaixo no mesmo carro. 12 pessoas ficaram feridas, sendo duas em estado grave.

No Rio, a escola vencedora do carnaval deste ano foi a Portela.

É sempre assim: depois do leite derramado corre-se atrás do prejuízo. No caso, corre-se agora em busca de corrigir os erros para o próximo ano.

Vamos a São Paulo. Se lá alguma bruxa esteve solta, era bruxa do bem e da alegria, pois em Sampa não houve maiores incidentes durante os desfiles das escolas de samba. Em São Paulo, a vitoriosa foi a escola de samba Acadêmicos do Tatuapé.

A Acadêmicos do Tatuapé foi a quarta escola de samba a entrar na avenida, na madrugada de sábado (25). Seus 3 mil e 200 componentes, divididos em 5 alas recheadas de variadas cores e muito brilho, exibiam um sorriso de orelha a orelha, e muito samba no pé.

Entusiasmada, e disposta a levar o título, a escola entrou na avenida embalada pelo enredo, “Mãe-África conta a sua história: Do Berço Sagrado da Humanidade à Terra Abençoada do Grande Zimbawe!

No enredo e nas fantasias, um passeio pelos reinos da África, sua cultura, e sua religião. Afinada com o empolgante som da bateria, os componentes, com garra, soltavam a voz, entoando o samba enredo, cuja letra diz:

Raiou... no horizonte meu destino
A vida nesse solo vi brotar
Sou eu .... a negra mãe da humanidade
Em meu ventre a verdade... humildade e amor
A força de um filho guerreiro
Herança de luta e dor
Abraça a liberdade... a igualdade em comunhão
A realeza estampada na pele
Coroada num só coração
Bate o tambor... deixa girar
Pra exaltar meus orixás
Um canto livre de amor
Na fé... na religião
Somos todos irmãos
Vejo meus filhos trilhando caminhos
Com a proteção de obatalá
Em poesia... brilha a cultura no olhar
Na ginga o batuque espalha magia
Meu samba hoje vai exaltar
Taí o menino da terra do ouro... um vencedor
Levo a mensagem... lição para o mundo
Tolerância... paz e amor
É de arerê... ilê, ijexá
Essa kizomba de um povo feliz
Eu sou a áfrica... derramo meu axé
Canta Tatuapé

O problema com a embriaguez do vinho da emoção é que nesse porre é comum as pessoas chamarem até urubu de meu louro. Canta-se a letras dos sambas enredos sob os auspícios da alegria, e nem se percebe que a letra do que está sendo cantado não corresponde a realidade vivida. Mas, às vezes, nem todos estão embriagados, algumas mentes alertas estão com seus radares ligados, prestando atenção se o que está sendo cantado reflete, de fato, a realidade.

E esse olhar, ou melhor, ouvido a letra do samba entoado pela campeã, coube ao jornalista, Leandro Narloch.

Ao analisar o título do enredo da samba da escola, Leandro, pensou: “Peraí, tem alguma coisa errada aqui. Eles chamam o Zimbábue, país africano, de “terra abençoada?”

E, realmente, se nos debruçarmos sobre dados estatísticos de organismos internacionais, veremos que de terra abençoada o Zimbábue não tem nada. Como pode ser abençoado um país, cuja população vive abaixo da linha da pobreza, que enfrenta graves problemas econômicos e sociais, subnutrição, e que, mesmo sem recursos, ainda tem que conviver com a praga do HIV?

Baseado nestas reflexões, Leandro Narloch escreveu o artigo intitulado, Tatuapé enlouqueceu ao dizer que Zimbábue é 'terra abençoada'.  O artigo foi publicado na Folha de São Paulo, na quarta-feira (01).

Excelente reflexão. Apenas discordo do jornalista no ponto em que ele releva a importância da herança que a África nos legou através dos negros aprisionados lá e trazidos para cá em condições sub-humanas. É inegável a contribuição que os negros africanos trouxeram para apimentar a nossa cultura, nossa música, e nosso jeito de ser.

Abaixo, este blog, compartilha, com autorização do jornalista, Leandro Narloch, o artigo publicado na Folha. Leandro é jornalista, mestre em filosofia, e autor do “Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil”, entre outros. Escreve para a Folha às quarta-feiras.

Ademais, e apesar das críticas, parabéns a Acadêmicos do Tatuapé, pela vitória. Vitória essa que é fruto de um ano inteiro de muito trabalho.

***



Tatuapé enlouqueceu ao dizer que Zimbábue é 'terra abençoada'

Leandro Narloch

Se existe um lugar triste nesse mundo, um país amaldiçoado a só produzir notícias de atentados à liberdade e à igualdade, esse país é o Zimbábue, que a Acadêmicos do Tatuapé, campeã do carnaval de São Paulo, homenageou e chamou de "terra abençoada".

Eu sei, não dá para levar sambas-enredo a sério. A expressão "samba do crioulo doido" define há muito tempo a mistureba sem sentido das músicas dos desfiles. Escolas criam homenagens a qualquer um que oferecer um bom cascalho —pelo patrocínio, já houve sambas-enredo em louvor à Guiné Equatorial, ao iogurte, a Simón Bolívar, ao "cacau é show" e até mesmo, pasme o leitor, a Itanhaém.

Ainda assim, não consigo deixar de me impressionar com a obsessão dos carnavalescos com a África. Eles passam o ano todo assistindo série americana na TV. Quando podem viajar para fora do Brasil nas férias, correm para Nova York e para a torre Eiffel. Mal sabem apontar o Zimbábue no mapa. Mas, na hora de criar o samba-enredo, só dá "mãe África".

"A descoberta do clarinete por Mozart foi uma contribuição maior do que toda África nos deu até hoje", dizia Paulo Francis. Podemos ir mais longe em se tratando de um país específico. A última temporada de "Malhação" foi uma contribuição maior que todo o Zimbábue nos deu até hoje.

O Zimbábue é um dos poucos países do mundo onde a expectativa de vida caiu nas últimas décadas. Passou de 61 anos em 1987 para 42 em 2003 - o índice voltou a subir e, em 2012, chegou a 58 anos, segundo o Banco Mundial. Milhares de zimbabuanos (dei um Google para descobrir o gentílico do Zimbábue) morrem todos os anos de Aids e malnutrição.

Em 2009, o governo desistiu de ter uma moeda nacional e deixou os moradores adotarem o dólar. É que a inflação havia ultrapassado 230 milhões por cento. Nos anos 1990, depois de uma reforma agrária que confiscou a terra de colonos brancos e asiáticos, a produção agrícola despencou. "Terra abençoada", sério mesmo, Acadêmicos do Tatuapé?

O samba-enredo da escola fala em "lição para o mundo, tolerância, paz e amor" vinda do Zimbábue ou da África em geral. Mas peraí: de 55 países africanos, 34 proíbem a homossexualidade, alguns com pena de morte. O socialista Robert Mugabe, líder do Zimbábue há 36 anos, diz que os gays são repugnantes e "degradam a dignidade humana". Também persegue opositores e frauda eleições.

Não que a África não mereça atenção e grandes obras. Os livros de Mia Couto ou V.S. Naipaul encantam qualquer um ao contar a história recente da África e o mal que revoluções disseminaram por ali. Mas parece que o samba-enredo da Acadêmicos de Tatuapé fala de outro país, outro continente. "Alegria", "tolerância" e "paz" não combinam muito bem com Zimbábue.

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