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Rio 2016: Jogos Olímpicos da exclusão e da ilusão

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:33
Quinta-feira, 04 de agosto

Ontem um menino que brincava me falou
que hoje é semente do amanhã...
Para não ter medo que este tempo vai passar...
Não se desespere não, nem pare de sonhar
Nunca se entregue, nasça sempre com as manhãs...
Deixe a luz do sol brilhar no céu do seu olhar!
Fé na vida Fé no homem, fé no que virá!
(Semente do Amanhã – Gonzaguinha)


Caros leitores e leitoras,

Hoje é um daqueles dias em que apenas compartilharei texto de outro veículo de comunicação com vocês.

Mas, mesmo assim, não perco a oportunidade de dirigir-lhes algumas palavras relacionadas ao artigo que apresentarei.

No domingo, assistia eu ao Fantástico, quando comecei a perceber que a Globo estava apenas vendendo o seu peixe, o que é natural. Afinal, temos uma Olimpíada acontecendo em nosso país, sem dúvida, um momento raro, histórico. Além disso, a Globo é umas das grandes TVs do mundo, e, como tal, preparou uma superestrutura, montada com as melhorias tecnologias e recursos. Isso sem falar no time de profissionais de primeira linha, ex-atletas olímpicos, que a globo escalou para fazer os comentários e transmissão das provas esportivas da Rio 2016, em suas mais diversas modalidades. Acresça-se a tudo isso o muito dinheiro que entra para os cofres da emissora com todo esse trabalho que reconheço feito com esmero.

Não queria desligar a TV, mas também queria assistir todo aquele comércio em forma de notícia, então fiquei vendo algumas coisas no computador, meio naquela “um olho no peixe, outro no gato”.

Ao mesmo tempo em que mais ouvia do que assistia a programação da Globo, fiquei pensando na grandiosidade dos Jogos Olímpicos, em todas as delegações que aqui vem competir, sem falar dos atletas brasileiros. Quantos sonhavam estar aqui, mas ficaram no meio do caminho, seja por contusões, seja por acusações de doping, mas enfim, é a roda da vida, girando, girando, e girando sem parar.

Também tenho assistido em reportagens da emissora, algumas exaltações a uma linha de trem no Rio, e que mais... Que mais tem sido exaltado? Deixe-me ver. Vasculho em minha memória outras reportagens exaltando grandes feitos em infraestrutura que poderão ficar como herança destes Jogos Olímpicos. Desisto. Se há algum mais é tão ínfimo que nem consigo lembrar. Mas entendo a Globo, é preciso mostrar algo de positivo, quero dizer, vender uma imagem positiva em meio ao caos.

Meus queridos pais costumavam dizer: “Quando a cabeça não pensa, o corpo é quem padece”.  Se neste dito popular, se substituirmos as palavras cabeça e corpo por governantes e nação, teríamos reescrito o ditado popular da seguinte forma: “Quando os governantes não pensam, a nação é quem padece”.

Tomo como linha de raciocínio para este parágrafo o anterior, e lamento as grandes oportunidades que a nação perdeu de avançar em infraestrutura com estes dois grandes eventos: a Copa do Mundo e as Olimpíadas. E a nação perdeu a oportunidade de construir um legado a partir destas oportunidades porque é governada por políticos hipócritas e incompetentes. Políticos que se acham os grandes espertalhões, mas que não passam de pessoas carentes de Deus, e essa segundo os mais evoluídos espiritualmente, é a pior das carências, porque faz perder a alma.

É uma pena que tenha sido assim. Dizem que cada nação tem o governo que merece. Eu, particularmente, me recuso a acreditar que nós temos os governos que merecemos. Nós não merecemos isso. O Brasil merece coisa melhor.

Enfim, estou quase escrevendo outro texto, e ainda não fiz o link com o artigo que quero compartilhar hoje com vocês.

Daqui a algumas horas será realizada no histórico estádio do Maracanã, na Cidade Maravilhosa, aos pés do Cristo Redentor, a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de 2016. Sempre gostei de assistir esse momento, acho sempre tudo tão mágico e tão belo. Além dos efeitos especiais, esse momento representa o breve retrato de um momento que deveria ser permanente no mundo todo: delegações de vários países se dando as mãos e caminhando juntas, de mãos dadas: negros, brancos, jovens e velhos, pessoas com suas limitações, e outras com grandes limitações físicas, mas que puseram o coração e a vontade acima de todas as dificuldades e se fizeram a si mesmas campeãs. Ainda que não conquistem medalhas de ouro, de prata, ou de bronze, elas já serão vitoriosas.

Não poderei assistir a cerimônia de abertura dos jogos, apesar de grande vontade que sinto, devido a compromissos assumidos anteriormente que não será possível desmarcar, mas verei os jogos, mergulharei na cartase do esporte, afinal, da força de vontade dos atletas, também podemos tirar grandes lições para a nossa própria vida.

Porém, é preciso mergulhar nisso tudo, sem esquecer de que tudo isso é uma grande farsa, uma grande ilusão, não por causa do esporte em si — louvado seja Deus pelo esporte que encaminha para o bem tantas vidas que poderiam ter ficado perdidas no meio do caminho, ou até mesmo, ter tomado o caminho errado.

Ao falar de farsa e de ilusão, falo da segurança reforçada, das forças armadas nas ruas do Rio, da grande concentração das agências de inteligência, nacionais e internacionais, apenas porque é Rio 2016. Segurança pública não deveria ser para nós, apenas artigo de luxo pra agradar e dar boa impressão aos gringos. Isso deveria ser uma coisa permanente. Todo esse aparato militar nas ruas mostra apenas que o que falta em nosso país é vontade política para acabar com o terror que o tráfico e as milícias impõem aos moradores dos morros e favelas do Rio e de todo o país, que, por extensão, acaba se estendendo a todos os que vivem nas grandes cidades brasileiras.

Falo eu das vidas que foram sacrificadas em nome dos interesses e do capital privado para que as Olimpíadas pudessem acontecer, assim, meio de qualquer jeito. Falo das milhares de crianças e jovens que não tendo atividades de lazer e de esporte, ficam apenas a olhar o carregado céu das ilusões perdidas, tornando-se assim, vítimas fáceis das garras do mal. Falo das obras que poderiam ter custado menos, e nos custaram muito mais a todos nós, brasileiros e brasileiras, que trabalhamos cinco meses por ano, para pagar impostos dos quais não vemos retorno, ou o retorno que vemos é ínfimo. Falo do dinheiro desviado dessas obras que foram abastecer os cofres das empreiteiras, dos partidos políticos, e de empresários e políticos sem vergonha na cara.

Desejo a todos, bons tempos de Jogos Olímpicos no Brasil. Faço votos de que eles ocorram dentro da mais absoluta normalidade, sem atentados terroristas, nem a peste da zika. Afinal, somos brasileiros, e queremos ver as coisas darem certo, em todos os campos, olímpicos ou não.  Entretanto, não podemos nos deixar deslumbrar a ponto de esquecermos a noção de realidade.

Ah, faltou dizer uma coisa. Na verdade, um elogio ao povo brasileiro. Foram a gentileza e cordialidade do brasileiro que salvaram a Copa do Mundo, bem como será essa qualidade que também salvará a Rio 2016. Porque se for esperar boa vontade dos políticos para nos deixar algum legado, tanto a Copa, quanto a Rio 2016, seriam um fracasso total.

Acabei me empolgando e escrevendo meu próprio texto como perceberam. Entretanto, como promessa é dívida, segue artigo publicado na seção de opinião do jornal El PaísBrasil. O artigo foi intitulado, Os Jogos Olímpicos do Rio serão lembrados como os Jogos da exclusão?, e é de autoria da pesquisadora, Julia Mello Neiva.

***
Os Jogos Olímpicos do Rio serão lembrados como os Jogos da exclusão?

As instituições democráticas poderiam ter protegido e amparado brasileiros na preparação para os Jogos. Mas isso não aconteceu

JÚLIA MELLO NEIVA
2 AGO 2016

Em agosto, a cidade do Rio de Janeiro vai sediar pela primeira vez os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos em meio a um dos momentos políticos mais turbulentos que o país já viveu. A crise política e social no Brasil tem mostrado que muitas de nossas instituições democráticas ainda carecem de consolidação. Estas são as mesmas instituições que poderiam ter protegido e amparado brasileiros na preparação para os Jogos, assegurando um legado positivo. Isso não aconteceu.

No início deste ano, conheci e entrevistei lideranças comunitárias e moradores da Vila Autódromo, bairro do Rio localizado ao lado do Parque Olímpico. Acompanhada da Justiça Global, reconhecida organização de direitos humanos, presenciamos um protesto de moradores, com apoio de pessoas e organizações que lutam em favor da comunidade. O protesto era contra o fato de que moradores cujas casas estavam dentro da construção do Parque Olímpico estarem sendo impedidos pelas autoridades locais de entrar e sair livremente de suas casas.

Mulheres líderes, corajosas e fortes, deram seus testemunhos sobre as violações dos direitos humanos a que estavam sendo constantemente submetidas, devido às obras para sediar os Jogos. Famílias foram despejadas e removidas sem consulta ou acesso à informação. Foram deixadas sem voz para denunciar os problemas de sua comunidade, que costumava ser uma área tranquila e segura, cercada de natureza. Para algumas dessas famílias foram prometidas novas casas, e as chaves deveriam ter sido entregues na semana passada. Durante anos de construção para receber os Jogos, havia relatos frequentes de cortes de água e luz bem como de violência perpetrada pelas forças de segurança. A moradora Heloisa Helena, conhecida como Luizinha de Nanã, disse que por mais de dois anos teve o acesso restrito a sua casa e centro religioso. A casa mais tarde foi demolida.

Como afirmamos em outra ocasião, esses mesmos moradores já haviam denunciado que a prefeitura do Rio teria negociado com empresas privadas a construção de prédios a classe média no bairro onde vivem, causando com isso a remoção de ao menos mil famílias pobres. Segundo os moradores, as obras planejadas excluíam os pobres do que a prefeitura e empresas privadas têm chamado de “progresso”.

Além disso, muitas famílias perderam suas casas para a especulação imobiliária ou para reformas e construções classificadas pelo governo local como necessárias ao desenvolvimento da cidade e recebimento dos Jogos. Os atingidos pelas "remoções desnecessárias e injustas" nunca foram adequadamente consultados, tampouco participaram de tomadas de decisão, como afirmam Raquel Rolnik, ex-Relatora da ONU por Moradia Digna, RioonWatch e Lena Azevedo e Luiz Baltar em seu estudo sobre as remoções no Rio. Sem dúvida, os atingidos não estarão no público assistindo os Jogos; as construções transformaram suas vidas para sempre, não apenas no período das Olimpíadas. Acrescente-se a este legado sombrio, os trabalhadores que morreram durante as obras de construção para as Olimpíadas e para a Copa do Mundo.

Aqueles que têm resistido bravamente em protestos nas ruas em oposição aos abusos relacionados aos Jogos têm muitas vezes sofrido com violência policial e das forças de segurança. Infelizmente isso provavelmente ocorrerá novamente com grupos e também membros do Comitê Popular da Copa e das Olimpíadas que estão organizando mais uma vez importantes debates e protestos, dias antes dos Jogos começarem, para mostrar o quanto tais jogos excluíram pessoas e direitos. Neste contexto cabe lembrar que a lei de antiterrorismo, recentemente aprovada, já tem sido usada infelizmente para deter manifestantes e continuará a colocar em riscos direitos humanos muito tempo depois de terem terminado as Olimpíadas.

A promessa de proteger o meio ambiente durante a preparação para os Jogos também não foi cumprida. Muitas árvores foram derrubadas, piorando a já comprometida qualidade do ar, afetando diretamente as comunidades do entorno. Exemplos tristes e perturbadores do descaso com o meio ambiente são a Baía de Guanabara contaminada e rios poluídos, os quais o governo havia prometido limpar. E chama a atenção a construção controversa de um campo de golfe em área de proteção ambiental, o que revela planejamento e políticas equivocadas, para dizer o mínimo.

Os Jogos receberam altos investimentos públicos mas que prioritariamente favorecem interesses privados. Para muitos brasileiros, isto maculou o que poderia ter sido um momento de orgulho para o país. É lamentável que uma vez mais a oportunidade de deixar um legado duradouro e positivo tenha sido totalmente perdida. Recentemente até o prefeito do Rio assumiu ser esta uma oportunidade perdida, embora pouco tenha feito para impedir que isso acontecesse. Ainda está por saber se haverá algum legado positivo decorrente dos dois grandes eventos esportivos que o Brasil sediou a Copa do Mundo 2014 e Jogos Olímpicos 2016. No momento, identificamos algumas instalações esportivas novinhas em folha e algumas melhorias de transporte, resta saber porém se esses novos estádios e outras construções terão de utilidade pública após os eventos.

Tanto o governo como as empresas deveriam ter feito muito mais e tragédias não teriam ocorrido. Más condições de trabalho e mortes teriam sido evitadas se os direitos humanos e os princípios e as boas leis trabalhistas que o país tem tivessem sido respeitados. O mesmo pode ser dito sobre as remoções e outras violações já mencionadas. Infelizmente, porém, parece que os Jogos Olímpicos Rio 2016 serão lembrados como os "Jogos da exclusão".

JÚLIA MELLO NEIVA é pesquisadora sênior e representante para o Brasil, Portugal e países Africanos de língua portuguesa no Centro de Informação sobre Empresas e Direitos Humanos.

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