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Momento de fé na lavagem das escadarias da Catedral de Campinas

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:03
Domingo, 27 de março


No agitado centro de Campinas, se ergue imponente e grandiosa, a Catedral Metropolitana de Campinas. Em meio às lojas e edifícios comerciais, produtos do consumismo, com seu silêncio ela parece dizer: “Nem só de pão vive o homem”. Seu estilo dominante é o neoclássico, e sua cor, restaurada, é de um amarelo tão vivo quanto o manto da cor de Oxum.

O maior e mais importante templo religioso católico de Campinas, começou a ser erguida em 1807, e muitos negros escravos trabalharam na construção daquele edifício que procura unir terra e céus. Os negros, literalmente, colocaram a mão na massa, mas era reservada sua participação no banquete, pois os primeiros lugares à mesa do Senhor, eram reservados aos barões, baronesas, sinhazinhas e sinhozinhos e, se sobrasse algumas migalhas do corpo do Senhor, essas eram distribuídas aos negros. Era assim naquela sociedade extremamente escravocrata da imperial Vila de São Carlos.

A pequena Vila de São Carlos cresceu, tornou-se a grande cidade de Campinas, porém a Catedral de Nossa Senhora da Conceição, continuou irretocavelmente majestosa, ocupando posição de destaque no centro da cidade.

Porém o passado sempre volta, e aqueles que foram humilhados, discriminados, pedem passagem, exigem reparação pelos erros cometidos, e fazem isso lutando com as armas do bem, da justiça e da paz. Não querem sangue derramado, querem paz no coração de seus antepassados, deles mesmos, seus descendentes, e no coração da sociedade na qual vivem.

Neste Sábado de Aleluia, sob quente sol, a praça em frente à Catedral de Campinas foi invadida pelo branco da paz, pelo branco de Oxalá. Aquele seria cenário da lavagem das escadarias da Catedral, ato realizado pelo povo de santo desde o ano de 1985. O evento é realizado desde aquele ano pelas organizadoras, Mãe Dango Hongolo e Mãe Corajacy.

Os filhos, mães, e pais de santos, se reuniram, inicialmente, em frente à Estação Cultura, antiga estação ferroviária de Campinas. Desceram à Rua Treze de Maio, outra rua histórica de Campinas. Traziam na cabeça seus cântaros repletos de água de cheiro, flores brancas nas mãos, e muita fé no coração. Após atravessar o mar de gente que toma a Rua Treze de Maio, todos os dias, e não apenas aos sábado, chegaram à frente da Catedral, onde eram aguardados por centenas de pessoas.


Ao som dos atabaques, entraram na área de segurança e, cercado por grades de ferro, cedidas pela Prefeitura Municipal, fizeram uma grande roda, e giraram, e cantaram, exaltando às nações africanas das quais vieram seus antepassados. Também entoaram canções religiosas louvando aos Orixás. Moços, velhos, crianças, negros e brancos irmanados numa só fé, numa só religião que, apesar de praticar o amor e a caridade, ainda é bastante discriminada na sociedade campineira, e em toda a sociedade brasileira.

Em seguida, derramaram seus perfumados cântaros nas escadarias da Catedral, pegaram suas vassouras e começaram a lavagem.

Sob as palmeiras que ladeiam a catedral, que não eram suficientes para impedir o sol forte que caia sobre todos, fiquei pensando em quão simbólico era aquele ato. Tão simples, mas ao tempo divino.

Aquele misto de cerimônia cultural-religiosa era também um ato de afirmação do povo negro em uma sociedade preconceituosa, duplamente preconceituosa, primeiro para com os negros, e segundo para a religião praticada por eles. O culto aos Orixás representava ontem, o bálsamo do qual os negros se utilizavam nas senzalas para diminuir as dores e chagas causadas pelo açoite dos chicotes, e, hoje, continua sendo o bálsamo aos quais os negros recorrem para aliviar as dores e chagas causadas pelo preconceito e pela discriminação social e racial.

Pensei naquele momento também em toda a sujeira que invade nosso país, e invoquei naquela hora o poder do machado de Xangô, orixá da justiça, e pedi a ele que afaste de nós os governantes maus e perversos que, com suas atitudes ilícitas, causam o mal a tantos irmãos, brasileiros como eu.

Naquela hora sagrada, e naquele sagrado local, olhei para o alto, para além das palmeiras e do sol radiante, e orei a Xangô:

Kaô meu Pai, Kaô Ô Cabecilê Obá!
O Senhor que é o Rei da Justiça, faça valer por intermédio de seus doze ministros, a vontade Divina.
Purifique minha alma na cachoeira. Se errei, conceda-me a luz do perdão.
Faça de seu peito largo e forte meu escudo, para que os olhos de meus inimigos não me encontrem.
Empresta-me sua força de guerreiro, Para combater a injustiça e a cobiça.
Minha devoção ofereço.  Que seja feita a justiça para todo o sempre
É meu Pai e meu defensor. Conceda-me a graça de receber sua luz e proteção.
Kaô meu Pai, Kaô! Ô Cabecilê Obá!
Poderoso Orixá de Umbanda, Pai, companheiro e guia.
Senhor do equilíbrio e da justiça. Auxiliar da Lei do Carma,
Tu que acompanhas pela eternidade, todas as causas, todas as defesas, acusações e eleições, promanadas das ações desordenadas, ou dos atos impuros e benfazejos que praticamos.
Senhor de todos os maciços, pedreiras e cordilheiras, símbolo e sede da tua atuação planetária no físico e astral.
Soberano Senhor do Equilíbrio e da equidade, Velai pela fortaleza de nosso caráter. Ajuda-nos com tua prudência.
Defendei-nos das nossas perversões, ingratidões, antipatias, falsidades, incontenção da palavra e julgamento indevido dos atos dos nossos irmãos em humanidade. Só Tu és o grande Julgador!
Kaô Cabecilê! Obá meu Pai Xangô!

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