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Religiões afro-brasileiras: Um justo direito de resposta nos canais Rede Record e Rede Mulher

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:06
Sexta-feira, 18 de dezembro
Ainda vai levar um tempo
Pra fechar
O que feriu por dentro
Natural que seja assim
Tanto pra você
Quanto pra mim...
Ainda leva uma cara
Pra gente poder dar risada
Assim caminha a humanidade
Com passos de formiga
E sem vontade...”
(Assim caminha a humanidade – Lulu Santos)

Se a humanidade fosse um livro e estivéssemos nos debruçando sobre suas páginas a fim de conhecer seus muitos capítulos, veríamos que muita coisa boa foi realizada. Ficaríamos fascinados com homens e mulheres que, resignada e confiantemente, entregaram suas vidas em prol de causas nobres. Muitos morreram em combate. Muitos são conhecidos em todo o mundo, mas a maioria tombou anonimamente. Famosos ou anônimos, o fato é que esses valentes e corajosos, fizeram suas vidas valerem a pena ter sido vivida, e deram um novo rumo, e apontaram caminhos de paz, solidariedade e esperança possíveis em uma humanidade cheia de conflitos das mais variadas formas. Também nos emocionaríamos e nos orgulharíamos com as muitas conquistas científicas e tecnológicas que ajudaram o mundo a ter algumas facilidades que não havia em tempos imemoriais.
Nessa empolgante leitura do mundo, também nos entristeceríamos com as barbaridades que foram cometidas por indivíduos que não souberam aproveitar os dons e potenciais que lhes foram confiados, e usaram esses mesmos dons para fazer morrer milhares de vidas e, matando vidas, esses homens insanos mataram também gerações e gerações. Eles não mataram apenas vidas, mas também sonhos de futuro.
Revoltados, até gostaríamos de rasgar estas páginas do livro, mas aí seríamos nós a cometer um sacrilégio, pois ceifaríamos a outros o conhecimento de um passado iníquo, feito por homens iníquos, e assim, tolheríamos a esses outros o descimento de, ao lerem aquelas terríveis páginas que falam sobre tempos sangrentos e cruéis, fazerem diferente, completamente diferente.
Uma desses crimes que se cometeu contra a humanidade chama-se escravidão, especialmente nas Américas, nas quais o povo negro, depois de sequestrados em sua terra natal, a África, atravessaram oceanos e vieram sofrer violências, maus tratos, castigos e humilhações em terras do continente americano.
Também não podemos deixar de citar o criminoso genocídio imposto por Hitler aos judeus. Milhões deles tiveram suas vidas exterminadas por motivos mesquinhos e torpes, da mesma forma que milhões de negros foram exterminados por motivos semelhantes.
E que arma poderosa o Führer Adolf Hitler usou para exterminar tantas vidasO Führer usou uma arma da qual eu disponho, você que lê este texto dispõe, e também que não lê este texto também dispõe. É uma arma inerente a todos nós humanos que temos uma língua na boca. Essa terrível arma, que pode ser mais forte e matar mais que as bombas dos canhões chama-se, simplesmente, palavra.
E o estrago que as palavras fazem não parou por aí, continuou servindo como instrumento para mentes insanas, disseminarem ódio, violência e terror. Ora, o que fazem os terroristas do autointitulado, Estado Islâmico, senão usar, fortemente, palavras e ideias, para conquistar jovens tão normais quanto quaisquer outros, a militarem e se engajarem em uma luta macabra.
Por isso eu digo a vocês, cuidado com os discursos proferidos pelas línguas que se dizem cultas e conhecedoras dos mistérios divinos, pois também elas, cedendo aos seus humanos egoísmos, podem espalhar o ódio, a discórdia, e a violência, disfarçados em mensagens de paz e de amor. Ora, com não foi assim com Jesus Cristo. Não foi ele vítimas de líderes religiosos ambiciosos e maus que incentivaram as altas autoridades da época e o povo a fazê-lo morrer pregado no alto de uma cruz.
No Brasil, há um grupo que há muito vem sendo perseguido por diversos setores da sociedade. Um povo que sofre preconceitos em suas mais variadas formas. Falo não apenas dos negros, mas também dos brancos que foram chamados pelas forças do alto a cultuar o Deus do universo nos terreiros de umbanda e candomblé e demais religiões afros. Os maiores perseguidores dos adpetos dessas religiões são os seguidores de algumas religiões, que se autointitulam neopentecostais, e isso é sabido de todos. Comparo a situação dos irmãos das religiões de matrizes afros ao calvário de Cristo. Pois Cristo não sofreu toda sorte de humilhações, sejam elas, chicotadas, cuspe na cara, e palavras irônicas? Também não se dizia dele que tinha parte com Belzebu? Ora, não é a mesma coisa que fazem e dizem dos adeptos das religiões de matrizes afros?
Porém, chega um dia que aquele que sofre humilhações, não mais as suportando, diz: “Chega!”, partindo então para a luta. Mas não uma luta sangrenta, mas uma luta pelas vias do direito, da justiça e da paz. Isso foi o que fez um grupo de advogados e instituições que, vendo as barbaridades que se dizia contra o povo dessas religiões, foi à justiça e venceu a demanda.
Em 2004, o Ministério Público Federal (MFP), o Instituto Nacional de Tradição e Cultura Afro Brasileira (Intecab), e o Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdade (Ceert) perceberam que as religiões de matrizes afro-brasileiras estavam sofrendo constantes agressões em programas exibidos pelas Rede Record, e Rede Mulher. As entidades perceberam que os canais de TV citados estavam incitando o ódio e a discriminação.
A luta foi árdua, mas a vitória veio coroá-la em maio deste ano, quando a Justiça Federal de São Paulo, na pessoa do juiz Djalma Moreira Gomes, da 25ª Vara Cível Federal, condenou as emissoras a exibir, em horário nobre, quatro programas de televisão como direito de resposta às religiões atingidas. Os programas serão exibidos no programa “Mistérios” e no quadro “Sessão de Descarrego”. O juiz determinou ainda que cada programa deverá ter a duração de uma hora. Cada programa deverá ser exibido duas vezes, durante oito dias, no mesmo horário dos programas nos quais ocorreram as ofensas. Não bastasse isso, o juiz determinou ainda que os canais de TV realizem três chamadas na véspera e no dia da apresentação dos programas. Todos os custos dos programas serão de responsabilidade dos canais de TV já citados. Os programas ainda não tem data definida a serem exibidos.
Dia 20 do mês passado, dia em que se celebrava o Dia da Consciência Negra, conversei com o advogado Hédio Silva Jr., um dos autores da ação, na cidade de São Caetano do Sul. Entrevistei o Dr. Hédio após a celebração da missa afro realizada no templo de umbanda, Casa de Pai Benedito de Aruanda. A seguir, apresento a entrevista que fiz com o advogado.
***


José Flávio — O Sr. é um dos autores da ação judicial que obriga a TV Record a dar o direito de resposta às religiões afro-brasileiras?

Hédio Silva — Sou advogado de várias organizações que ingressaram com uma ação pedindo para que as religiões afro brasileiras possam se manifestar em relação aos ataques que elas sofrem cotidianamente.

José Flávio — Foi difícil essa luta?

Hédio Silva — Doze anos, a ação está tramitando há doze anos. Nós já havíamos tido um provimento liminar, determinando a veiculação de um programa, depois essa liminar foi cassada, e agora, ao fim de doze anos, tivemos uma decisão de mérito favorável.

José Flávio — O Sr. acha que isso vai inibir as agressões das quais as religiões de matrizes afro são alvo constante?

Hédio Silva — É um caminho para inibir, quer dizer, ações como essa, tem um valor econômico extraordinário. São dezesseis programas, veiculados em horário nobre, das 21 às 23 horas, e isso vai custar muito dinheiro para essas empresas. E a gente espera que isso sirva de lição para que as religiões. Qualquer religião tem direito de ocupar um veículo de comunicação para fazer sua pregação, mas não tem o direito de propagar o ódio, a discriminação, a violência, que é o que está acontecendo hoje. Certamente, a partir dessa ação, a tendência é diminuir a intolerância.

José Flávio — Na opinião do Sr, por que há tanta intolerância contra os seguidores das religiões afro-brasileiras?


Hédio Silva — A discriminação contra as religiões afro-brasileiras, elas são um subproduto do racismo. A umbanda é discriminada, e o candomblé também, porque é religião, ainda associada a preto. Hoje ela é uma região democrática, tem todos os seguimentos sociais, mas historicamente, ela está associada aos africanos. E também o fato de que algumas denominações fazem a sua propaganda incutindo o medo nas pessoas. Incutem o medo para vender, e caro, a salvação. Daí, a forma que elas têm de, digamos assim, materializar a ideia do mal é apontar para as religiões afro-brasileiras.

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