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Corrupção e maracutaia: Um golpe contra o Brasil

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:18
Domingo, 13 de dezembro

Vida de coralista, nos finais de ano, é bastante corrida. Apresentação aqui e acolá. As belas canções natalinas são o carro chefe da grande maioria dos corais nesta época do ano. Eu, na condição de participante de coral também estou nessa correria, de forma que, nem sempre consigo tempo para escrever textos mais elaborados, vocês que acompanham o blog, espero que compreendam.
Ontem mesmo (12), fui à cidade de Valinhos, próxima à Campinas, com o Coral Pio XI, onde nos apresentamos em uma casa de idosos. No mesmo local estava se apresentando o Coral do Regatas, e como também já cantei com eles, eles me chamaram para dar uma força para eles. Quando cheguei a Campinas, ainda fui à Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte, onde estava se apresentando o Coral Assussena.
Feito esse adendo, prossigo, na postagem de hoje, com um assunto menos agradável que é a crise política pela qual atravessa o Brasil.
A mim, me parece tudo tão irreal... Os discursos dos políticos soam vazios de significado, e suas atitudes beiram o cinismo e o sarcasmo. É como se estivesse lendo um romance, péssimo romance, de uma história que se passa em alguma república das bananas, de algum tempo no passado, onde os que foram eleitos para governar não tem o menor discernimento do que seja a coisa pública, nem do porque e para que foram eleitos. Nessa república das bananas, eles, políticos, parecem apenas decorativas,  de tão preocupados que estão em amealhar tesouros para os seus celeiros particulares, quando na verdade tais tesouros são um bem pertencente à nação. Não fosse esse o enredo também o título do romance não mereceria o nome de república das bananas.
Ainda neste pitoresco lugar, lá fora, longe dos feudos, há um povo agredido nos seus direitos de cidadão que paga uma alta carga tributária. Essa carga tributária pesada deveria servir para tornar mais suave a vida dos cidadãos. Eu disse deveria, mas os corruptos tem se apoderado destes tesouros para fins particulares, deixando seus governados à deriva.
Não gostaria de fazer semelhante comparação de república das bananas a esse maravilhoso país. Afinal de contas, temos um povo trabalhador e que sabe acolher muito bem aos que pisam em nosso solo; Temos recursos naturais incontáveis; estamos, relativamente, longe da fúria da natureza, tais sejam, terremotos, maremotos, tsunamis; enfim, uma série de fatores nos coloca em uma posição privilegiada em relação a muitos países. Porém, a pequenez de pensamento de grande parte dos políticos que ocupam nossas casas legislativas, tanto em nível federal, quanto estadual, ou municipal, contribui para que o Brasil, que é gigante, ande mal das pernas.
À possibilidade de impeachment, o PT reage com a palavra “golpe de estado”. Daí eu fico pensando: “Por acaso, não seria um golpe, os milhões de reais, desviados dos cofres públicos para comprar políticos nos mensalões da vida, a fim de obter base aliada no governo? Não seria golpe de estado sucatear a Petrobrás, um dos maiores patrimônios brasileiros? Não seria golpe, mentir, enganar, e enriquecer ilicitamente à custa do dinheiro dos contribuintes e das n formas de maracutaias inventadas todos os dias para driblar a lei e a justiça"?
Talvez não tenhamos parado para pensar nisso, mas estamos assistindo, todos os dias, através dos diversos meios de comunicação, o povo brasileiro sofrer um golpe por parte da Câmara dos Deputados, na pessoa de seu presidente, Eduardo Cunha, e de seus aliados. São tantos os documentos e testemunhos que comprovam que ele está envolvido em corrupção... Esse homem já deveria ter sido cassado há muito tempo, ou se ele tivesse um mínimo de vergonha na cara, ele mesmo teria renunciado. Mas, cínica e sarcasticamente, ele insiste em dizer que não é dele o dinheiro em uma conta no exterior, dinheiro que, aliás, é usado por ele e por seus familiares. Acho isso, no mínimo, chamar os brasileiros de palhaços.
Como podemos ter na Câmara um político sem escrúpulos como Eduardo Cunha? Um homem que usa a máscara de religioso para, sob ela, usar de má fé para com a lei? Esse respeitável? homem piedoso? É especialista em encontrar brechas no regimento interno da Câmara, e com isso, vai protelando o início da análise de seu processo de cassação. É como se o político em questão legislasse em causa própria. Já são sete as sessões nas quais a Câmara tenta votar o relatório que vai analisar o processo de cassação de Eduardo Cunha. A Câmara bem que tenta votar esse relatório, mas Cunha e seus aliados, usando de brechas encontradas no regimento interno da Casa, vão adiando esse momento, tão esperado por todos nós. Ora, senhores e senhoras, isto não é ou não é um golpe contra a democracia?
Concordo com a abertura do processo de impeachment da presidente Dilma. Que seus atos sejam julgados, e forem considerados dignos de punição, então que assim se faça. Mas, antes do impeachment de Dilma, que se pegue essa raposa, chamada Eduardo Cunha, antes que ela faça ruir ainda mais a confiança em nossos políticos e a confiança no país.
Bem ou mal, o movimento das ruas tem dado resultado, mas o grito das ruas não deve apenas se resumir apenas a presidente Dilma, ou ao ex-presidente Lula, ou contra o PT. O povo deve usar de sua força, baseada e alicerçada nos princípios democráticos, contra todos os políticos e partidos políticos que usam de dissimulação e hipocrisia e, agindo dessa forma, levam o nosso querido Brasil à ruína.
Na semana que passou, mais precisamente na sexta-feira (11), a Folha publicou um excelente artigo, escrito por Vladimir Safatle, professo do Departamento de Filosofia da USP (Universidade de São Paulo). O artigo é uma excelente reflexão sobre essa grave política que o país atravessa, e por isso, resolvi compartilhá-lo com vocês.
Aproveito para desejar a todos um bom domingo e uma boa semana.

***

O Estado Oligárquico de Direito

Vladimir Safatle

Neste exato momento, a população brasileira vê, atônita, a preparação de um golpe de estado tosco, primário e farsesco. Alguém poderia contar a história da seguinte forma: em uma república da América Latina, o vice-presidente, uma figura acostumada às sombras dos bastidores, conspira abertamente para tomar o cargo da presidente a fim de montar um novo governo com próceres da oposição que há mais de uma década não conseguem ganhar uma eleição. Como tais luminares oposicionistas da administração pública se veem como dotados de um direito divino e eterno de governar as terras da nossa república, para eles, "ganhar eleições" é um expediente desnecessário e supérfluo.
O vice tem como seu maior aliado o presidente da Câmara: um chantagista barato acostumado, quando pego em suas mentiras e casos de corrupção, a contar histórias grotescas de fortunas feitas com vendas de carne para a África e contas na Suíça com dinheiro depositado sem que se saiba a origem. Ele comanda uma Câmara que funciona como sala de reunião de oligarcas eleitos em eleições eivadas de dinheiro de grandes empresas e tem ainda o beneplácito de setores importantes da imprensa que costumam contar a história do comunismo a espreita e do bolivarianismo rompante para distrair parte da população e alimentá-la com uma cota semanal de paranoia. O nome de sua empresa diz tudo a respeito do personagem: "Jesus.com".
O golpe ganha um ritmo irreversível enquanto a presidenta afunda em suas manobras palacianas estéreis e nos incontáveis casos de corrupção de seu governo. Ela havia dado os anéis para conservar os dedos; depois deu os dedos para guardar os braços. Mais a frente, lá foram os braços para preservar o corpo, o corpo para guardar a alma e, por fim, descobriu-se que não havia mais alma alguma. Reduzida à condição de um holograma de si mesma e incapaz de mobilizar o povo que um dia acreditou em suas promessas, sua queda era, na verdade, uma segunda queda. Ela já tinha sido objeto de um golpe que tomou seu governo e a reduziu à peça decorativa. Agora, nem a decoração restou.
Bem, este romance histórico ruim e eternamente repetido parece ser a história do fim da Nova República brasileira. Que ela termine com um golpe de estado primário, fruto de um pedido de impeachment feito em cima da denúncia de "manobras fiscais" em um país no qual o orçamento é uma ficção assumida por todos, isto diz muito a respeito do que a Nova República realmente foi. Incapaz de criar uma democracia real por meio do aprofundamento da participação popular nos processos decisórios do Estado e equilibrando-se na gestão do atraso e do fisiologismo, ela acabou por ser engolida por aquilo que tentou gerir. Para justificar o impeachment, alguns são mais honestos e afirmam que um governo inepto deveria ser afastado. É verdade, só me pergunto por que então conservar Alckmin, Richa, Pezão e cia.
O fato é que, no lugar da Nova República, o Brasil depois do golpe assumirá, de vez, sua feição de Estado Oligárquico de Direito. Um estado governado por uma oligarquia que, como na República velha, transformou as eleições em uma pantomima vazia. Uma oligarquia que já mostrou seu projeto: uma política de austeridade que não temerá privatizar escolas (como já está sendo feita em Goiás), retirar o caráter público dos serviços de saúde, destruir o que resta dos direitos trabalhistas por meio da ampliação da terceirização e organizar a economia segundo os interesses não mais da elite cafeeira, mas da elite financeira.
Mas como a população brasileira descobriu o caminho das ruas (haja vista as ocupações dos estudantes paulistas), enganam-se aqueles que acreditam poder impor ao país os princípios de uma "unidade de pacificação". Contem com um aumento exponencial das revoltas contra as políticas de um governo que será, para boa parte da população, ilegítimo e ilegal. Mas como já estamos dotados de leis antiterroristas e novas peças de aparato repressivo, preparem-se para um Estado policial, feito em cima de leis aprovadas, vejam só vocês, por um "governo de esquerda". Faz parte do comportamento oligarca este recurso constante à violência policial e ao arbítrio para impor sua vontade. Ele será a tônica na era que parece se iniciar agora. Contra ela, podemos nos preparar para a guerra ou agir de forma a parar de vez com este romance ruim. 


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