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Limar e Julman: Explosão de alegria sob o céu tropical do Brasil

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 02:07
Segunda-feira, 28 de dezembro



Ah, sonhos!

O que seríamos de nós sem eles?

Os sonhos são as engrenagens que movem nossas esperanças de que, em algum lugar é possível ser feliz, esquecer os dias tristes. E esse lugar no qual achamos que o sol brilhará sobre nós tal qual pássaro que voa no infinito, pode estar bem perto de nós, ao lado de quem amamos, da terra que amamos, ou pode estar a milhares de quilômetros, longe da pátria, longe de nossas raízes, longe de pessoas que amamos muito, mas que ficaram para trás, e pelas quais estamos separados por um oceano de saudades.

Um ser humano sem sonhos é como árvore sem vida, parada no meio do jardim. Aos poucos, a árvore vai perdendo a seiva que a mantém viva, e, ao perder a seiva, perde também a intensidade do verde de suas folhas, a magnitude da beleza de suas flores e, sobretudo, a capacidade de frutificar, capacidade essa que dá a qualquer árvore a alegria de dividir os frutos de quem dela se aproxima.

Por falar em sonhos, e na esperança de realizá-los lembro-me do drama dos refugiados sírios, e de todos os que fogem de seus países por causa da guerra, da fome e do terror. O que querem todos eles? O que sonham todos eles? Sonham a vida! É isso que eles sonham. E por esse bem tão precioso, ao qual damos o nome de vida, eles se sujeitam a toda espécie de humilhações e provações. Provando da lei do contraditório, muitos arriscam a vida em travessias de morte. Mas quem somos nós para julgar aqueles que vivem sob o peso da opressão e das constantes ameaças contra a vida?

Ao ver o drama dos refugiados sinto-me voltando ao passado das grandes travessias dos navios negreiros, sob outra perspectiva. Naquela época, os povos africanos eram sequestrados de suas terras e obrigados a aportarem em terras estrangeiras, e lá viver uma realidade diversa da que estavam acostumados. Tanto tempo se passou e vemos situações semelhantes acontecerem nos mares da Europa. Vemos gente que lucra muito dinheiro convencendo os refugiados a fazerem travessias em barcos nos quais a segurança é precária, quando não, inexistente. Por outro lado, há pessoas desesperadas, e talvez por isso, nem se apercebam do perigo que correm ao entrarem naquelas embarcações. Mas eles sonham em viver, precisam fugir da morte e, quem sabe por isso, desafiem-na.

Quão gratificante é quando tudo dá certo e eles chegam sãos e salvos a portos e povos que lhes abrem os braços, que lhes estendem as mãos, que lhes dão aquilo do qual seus corações estão carentes: afeto e amor.

Fiquei pensando nestas situações ao ver uma reportagem exibida pelo Fantástico, deste domingo (27). A reportagem falava de dois meninos refugiados sírios que moram em Brasília. Os garotos estão no Brasil há três anos e encontraram na música um motivo para sorrir e, assim poder, se não esquecer, pelo menos amenizar as lembranças dos dias tristes, e dos tensos momentos pelos quais passaram na Síria. Lá, a ameaça começou a rondá-los, de longe. Primeiro começaram a ouvir o estrondo de mísseis caindo a distancia. Depois a ameaça se tornou realidade, bem próxima a eles, quase no quintal de sua casa, situação para a qual eles não podiam fechar os olhos, nem tapar os ouvidos, pois essa realidade cruel que a guerra trazia, já era parte do dia a dia deles. Cedo demais, eles tiveram contato com a morte, ao ver ao redor de si, adultos e crianças mortas por mísseis e bombas. Tiros, bombas,e o grito dos feridos, os deixavam atemorizados.
      
Ao chegar ao Brasil, os irmãos, Limar Al Najem, de 7 anos, e Julman Al Najem, de 10, teve contato com a música sertaneja de Cristiano Araújo, e Gusttavo Lima, e se apaixonaram pelos artistas e pela arte musical. Empolgados, e tendo recebido ajuda de amigos, os meninos já estão em estão em estúdio gravando um CD com músicas pop e também um pouco de rap.

Uma das primeiras músicas com que os irmãos sírios tiveram contato foi com a música do cantor sertanejo, Gusttavo Lima. O artista inspirou os meninos a formarem uma dupla. Os sonhos são como uma bola de neve: Se você os rola, eles vão crescendo, e crescendo, e crescendo... E contagiando a todos. Ao verem o entusiasmo, e a história de vida dos pequenos sírios, um grupo de amigos resolveu ajudar. Um amigo da família alugou um estúdio de gravação. Ao projeto, foram se integrando músicos, letristas e arranjadores. Um professor de música também foi contratado para dar aula de canto aos meninos.


Não contentes com todo esse apoio, os amigos enviaram um e-mail à produção do cantor contando a história dos dois irmãos, e falando também do carinho e admiração que os meninos nutrem por ele. Então, Gusttavo Lima resolveu fazer uma pequena surpresa aos dois pequenos artistas. Durante a gravação do primeiro clipe da Syrian Boys, nome dado à dupla, Gusttavo Lima apareceu no estúdio de gravação. A alegria dos dois pequenos cantores ao ver o ídolo foi enorme. Não se sabe qual foi maior, se a surpresa ou se alegria. Limar e Julman cantaram juntos com Gustavo Lima e também cantaram, em árabe, um dos sucessos do brasileiro.

No encontro entre os irmãos sírios e o cantor sertanejo brasileiro não houve apenas troca de carinho, houve troca de presentes também. Os meninos deram a Gustavo lima um elefante sírio, uma bela peça de artesanato feita pelo pai deles, que é artesão. Gustavo Lima retribui o presente dando dois violões à dupla de pequenos cantores.

Quando o casal Riade e Bássima Al Najem, fez as malas às pressas para vir ao Brasil, trazendo junto os dois filhos, não sabiam que futuro os aguardava em solo tropical brasileiro. Mas era preciso ir para algum lugar, longe da guerra. Havia ainda um fato delicado: Bássima estava grávida, e bem próxima a dar à luz, quando deixou Damasco. Quando desembarcou no aeroporto de Brasília, cidade na qual mora a família, a mulher teve de ser levada, às pressas, ao hospital, onde deu à luz ao pequeno Alji, hoje com três anos. Apesar da pouca idade, Alji também parece ter sido estimulado pelos irmãos a gostar de Gusttavo Lima, pois quando o cantor apareceu no estúdio ele logo foi para os braços do cantor, e parecia bem feliz em estar ali.

Quando os meninos desembarcaram em solo brasileiro, não sabia nada do Brasil, nem a língua eles sabiam. Mas aprenderam tudo bem rápido com a ajuda de uma tia deles que também mora em Brasília e fala bem o árabe e o português.


No Brasil, a família Al Najem encontrou acolhida, carinho e amor... E a possibilidade de realizar sonhos. E pela alegria demonstrada pela pequena dupla no encontro que tiveram com Gustavo Lima, já estão ficando para trás os dias em que eles, na Síria, se escondiam debaixo da cama, atemorizados, quando ouviam os aviões sobrevoando a vizinhança.

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