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Jesus Cristo: Um homem que mudou o curso da história

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 14:34
Sábado, 19 de abril

Imagem: http://www.hihostelbrasil.com.br/blog/paixao-de-cristo-no-pernambuco/

A 202 km do Recife, situada entre exuberante vegetação e inúmeras serras, situa-se a cidade de Brejo da Madre de Deus. Um clima frio, uma terra árida e belas formações rochosas fazem da região um ótimo cenário para a realização de filmes e grandes espetáculos teatrais. Esse pedaço de chão pernambucano é tão especial que é capaz de nos fazer retroceder no tempo, em um espaço de dois mil, e viajarmos pela região da Judéia, na época em que andou por lá um homem da região da Galileia. Era homem simples, sem estudos, sem nenhum diploma ou curso universitário, mas que em sua grande sabedoria incomodava sacerdotes e políticos da época com um discurso inovador que colocava o homem como centro do amor divino e não mais a lei e os costumes, prática até então comum, na religiosidade judaica.

Essa viagem ao tempo em que Jesus esteve, fisicamente, entre nós, acontece em um distrito da cidade de Brejo de Madre Deus, chamado Fazenda Nova. Nesse pequeno lugarejo, acontece o maior espetáculo de teatro ao ar livre do mundo. No local foi construída uma cidade-teatro chamada, Nova Jerusalém, que é uma réplica da região da Judéia no tempo de Cristo. Uma muralha de 3.500 metros, 70 torres, lagos artificiais, nove palcos, além das demais réplicas de construções da época, como, por exemplo, o Templo de Jerusalém; Palácio de Herodes; Fórum Romano, Horto das Oliveiras, dentre outros, tornam o projeto arquitetônico da obra algo impressionante. Nesse ambiente é realizado, anualmente o magnífico, grandioso e emocionante espetáculo da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo. Para usar uma linguagem bastante comum em Hollywood: uma superprodução. Atores famosos encenam os papeis principais e animais que farão parte da cena são treinados para que a produção se torne ainda mais bela. O espetáculo atrai turistas de diversos estados brasileiros e de vários países. Esse ano, o espetáculo acontece entre os dias 12 a 19 de abril.


Um questionamento me vem à mente: Quem foi esse homem que, depois de decorridos, mais de dois mil anos de sua morte, ainda faz com que sua historia seja revivida todos os anos e emocione plateias em todo o mundo? Um homem comum jamais conseguiria tal feito. Somente um ser divino faria com que sua mensagem atingisse tanta gente, em tantos lugares. A importância de Jesus Cristo é tão grande que fugiu do aspecto religioso e dividiu a história, como Moisés, segundo relatos do Velho Testamento, dividiu o Mar Vermelho em duas partes, para que seu povo pudesse atravessá-lo. Basta obsevarmos como estão divididos os períodos históricos: AC (antes de Cristo) e DC (depois de Cristo). Não seria divino um homem que dobrou seu maior perseguidor, o poderoso Império Romano, que após tantas perseguições aos cristãos, transformou o cristianismo em religião oficial do Império Romano. Sendo, justamente, o Império Romano o sistema que havia levado Jesus á cruz, em uma condenação e a pena injustas?


Olhando para a sociedade judaica nos tempos de Jesus podemos vislumbrar diferentes grupos sociais que possuíam diferentes modos de compreender e de viver questões e ideias, no campo da religião, da política e da economia. Esse foi o  tecido social no qual transitou o homem vindo dentre o povo humilde e simples das pequenas aldeias da Galileia. Era com os integrantes desses grupos, em sua grande maioria constituídos por pessoas altamente esclarecidas e politizadas, que Jesus entrava em confronto no campo das ideias. Para as coisas ficaram mais claras em nossa mente, basta levarmos em conta que hoje não é diferente de ontem: os ricos e poderosos odeiam ser incomodados. Quando há pedra no caminho deles, eles logo tratam de retirá-la, não importando se para isso tiverem que usar de meios violentos e cruéis.

Dentre esses grupos temos os Fariseus que se caracterizavam pelo rigor no cumprimento e na observância das leis judaicas. Eram absurdamente conservadores. O grupo era formado por leigos de diversas camadas sociais, sendo que a maioria era de artesões e pequenos comerciantes. Também faziam parte do grupo dos Fariseus, uma parte do clero, com menor poder aquisitivo e que se opunham a elite dos sacerdotes.

Os Doutores da Lei, também conhecidos como Escribas eram pessoas de grande prestígio na sociedade por dominarem o saber. Quando se queria fazer um debate de alto nível sobre Escrituras, era a essa grupo que se tinha de recorrer. Áreas como educação, administração e Direito, geralmente, ficavam a cargo dessas pessoas. Eram referências, principalmente, em três lugares: escolas, sinagoga e sinédrio. No primeiro, formavam novos discípulos, no segundo, interpretavam com brilhantismo as escrituras e, no terceiro, eram exímios juristas na aplicação da lei, tanto em questões governamentais quanto jurídicas.

O Saduceus, esses eram gente perigosa. Nesse grupo estavam grandes latifundiários e a nata (a elite) da classe sacerdotal. Também ontem como hoje, quem tem dinheiro e poder controla o mundo e a sociedade, esse grupo tinha uma grande influência na sociedade em geral, justamente por agregar esses dois fatores. Além disso, ficava a cargo deles a administração da justiça, no Sinédrio (Tribunal Supremo), uma espécie de STF (Supremo Tribunal Federal) da época. Havia entre eles uma grande preocupação em preservar seus cargos e privilégios junto ao imperador. Conservadores ao extremo, aceitavam apenas o que estava escrito na lei judaica, e chegou um tal de Jesus, falando de lei de Deus. Isso era inadmissível para eles. Observando melhor esse grupo fica fácil concluir que eram eles os maiores interessados na morte de Jesus Cristo.

 Além desses grupos mais fortes, havia outros grupos que faziam parte da realidade cotidiana de Cristo. Os Zelotas que eram formados por pequenos camponeses e pelas camadas da sociedade com menor poder aquisitivo. Era um grupo que dava trabalho para as lideranças da época, pois queriam um Estado onde Deus, fosse o único rei, também eram, na Galileia, opositores do governo de Herodes.


Os Samaritanos eram um grupo arredio, não se misturavam com os outros, nem frequentavam o Templo de Jerusalém. Para eles, lugar de culto era o monte Gazirim, perto de Siquém. Para eles também, o único livro do Antigo Testamento que merecia crédito era o Pentateuco.

Os Essênios eram uma espécie de socialista da época. Viviam em comunidades afastadas de Jerusalém, em grutas e lugares isolados. Possuíam um ideal de vida em comum e os bens eram divididos entre todos, sendo proibido o comércio de produtos. O estilo de vida que levavam era bastante severo e baseado na hierarquia religiosa que entre eles existia. Apesar de levar uma vida retirada, por serem muito severos na observância das normas e preceitos, assemelhavam-se em muito aos Fariseus.

Por fim, havia os Herodianos (partidários de Herodes), sobre esses nem é preciso dizer de que lado estavam, não é verdade? Uma de suas funções era prender agitadores políticos e devem ter tido bastante trabalho com os Zelotas. Eram a personificação em pessoa do poder romano sobre o povo judeu.

E o povo? Esse não tinha voz e nem vez. Tinha que cumprir suas obrigações e ser submissos ao rei. Eram os excluídos da sociedade. Do pouco dinheiro que tinham ainda eram obrigados a pagar altas taxas de impostos ao Império Romano.


No meio de todo esse caldeirão de ideias conservadoras e povo oprimido surge o rebelde Jesus Cristo. Se a Lei dizia que não se podia trabalhar em dia de sábado, Jesus e seus discípulos trabalhavam. Não podia sentar-e e comer com os cobradores de impostos e pecadores, Jesus fazia exatamente isto. Conversar com mulheres samaritanas? Nem pensar! Era totalmente antiético. Jesus não queria nem saber disso. Uma vez, era quase meio dia, e Jesus, cansado da viagem, sentou-se junto á fonte de Jacó, chegou uma mulher da Samaria para tirar água e Jesus lhe pede: “Dá-me de beber”. A samaritana quase caiu para trás de tanto susto. A partir daí, há um longo dialogo entre Jesus e a samaritana. Após algum tempo quando os discípulos chegam e veem o mestre conversando com uma mulher samaritana, são eles que quase caem para trás.

Se os leprosos eram totalmente afastados da sociedade e tinham que viver em grutas escuras e afastadas da cidade, não tinham problema, o mestre ia até eles.  

Ou seja, se havia uma palavra que não existia no vocabulário de Jesus Cristo, essa palavra era discriminação. Jesus tratava bem a todos: fossem mulheres dedicadas a vida doméstica ou fossem prostitutas, o carinho era o mesmo. Pobres, leprosos e outras camadas discriminadas por parte da sociedade sempre encontravam uma palavra de conforto e carinho por parte desse homem extraordinário. Ele ia contra todos os valores preestabelecidos pela sociedade, pela lei e pela cultura de sua época. Um homem assim assusta e confunde o sistema, sendo, portanto, perigoso em qualquer tempo.

                                                                                                Irmã Dorothy
Imagem: http://www.sindipetroba.org.br/novo/noticia.php?id=2733

De dois mil anos para cá, quanto Jesus Cristos já não foram assassinados na pessoa do pastor Martin Luther King Junior, defensor dos direitos civis do povo negro, nos Estados Unidos. Na pessoa de Dom Oscar Romero, arcebispo de San Salvador, também defensor da não-violência e dos direitos humanos, morto no altar, enquanto celebrava uma missa, no dia 24 de março de 1980. Que dizer do Indiano Mahatma Ghandi, defensor da não-violência, assassinado a tiros, em Nova Deli, em 30 de janeiro de 1948.

E a irmã Dorthy Stang, norte-americana, naturalizada brasileira, envolvida na luta pela terra na Amazônia e morta com seis tiros na cabeça e cinco ao redor do corpo? Era sete horas da manhã de 12 de fevereiro de 2005, e a irmã Dorothy estava em missão, caminhando por uma estrada de terra de difícil acesso. Segundo relatos de testemunhas, antes de efetuar os disparos que lhe fariam tombar por terra, os assassinos da religiosa, perguntaram se ela estava armada, ao que ela que ela respondeu sim, dizendo “Esta é a minha arma”, mostrando a eles a Bíblia. Antes de ser baleada ainda leu alguns versículos  do livro sagrado, sendo, sem seguida alvejada pelos tiros que lhe tiraram a vida. Esses foram alguns casos, muitos outros aconteceram pelo mundo afora.

O sistema é implacável e não quer saber se o guerreiro é protestante, católico, hindu, ou de qualquer outra religião, ele só não quer saber de quem venha perturbar a sua ordem. Se o sistema é implacável, o desejo e sonho de um mundo onde reine a paz e a igualdade é muito mais forte e aceso no coração daqueles que acreditam que a verdade e o bem prevalecerão.

Fico a pensar: Será que quando os atores encenam a Paixão de Cristo, no pequeno distrito de Fazenda Nova, na cidade de Brejo de Madre de Deus, em meio às belezas do agreste pernambucano, eles têm consciência de que estão revivendo uma história tão forte e profunda que extrapola os limites da religião e se estende pelas questões sociais e na luta pelos direitos humanos? Será que eles têm a verdadeira consciência da força e do fascínio que esse homem-Deus, chamado Jesus Cristo e a mensagem deixada por ele, exerce sobre a humanidade, a ponto de tanto anos depois de sua morte, ainda inspirar pessoas a viver a e morrer como ele?

E em nós todos, que emoções esse rebelde, provocador, contestador e maravilhoso ser divino provoca em nossa consciência e em nosso coração?

3 Comments


Alguém já ouviu falar de uma Iemanjá histórica? Não? Claro, não faz o menor sentido. Então por que o Jesus histórico faz? O que já foi feito para dar sentido a essa crença é de dar medo.

“A verdade histórica é a mais ideológica de todas as verdades científicas [...]Os termos de subjetivo e de objetivo já não significam nada de preciso desde o triunfo da consciência aberta [...]. A verdade histórica não é uma verdade subjetiva, mas sim uma verdade ideológica, ligada a um conhecimento partidário”. (ARON cit. por Marrou, s/ data, p. 269)

Se a fé nunca dependeu da história, porque fazem tanta questão desta última? Por que insistem em preservar essa bruma que envolve os primeiros séculos do cristianismo? Não devia ser assim. No entanto, quando fazemos uma aproximação dos fatos com fatos e não com ideias, é possível outra conclusão.

http://cafehistoria.ning.com/profiles/blogs/paguei-pra-ver


Alguém já ouviu falar de uma Iemanjá histórica? Não? Claro, não faz o menor sentido. Então por que o Jesus histórico faz? O que já foi feito para dar sentido a essa crença é de dar medo.

“A verdade histórica é a mais ideológica de todas as verdades científicas [...]Os termos de subjetivo e de objetivo já não significam nada de preciso desde o triunfo da consciência aberta [...]. A verdade histórica não é uma verdade subjetiva, mas sim uma verdade ideológica, ligada a um conhecimento partidário”. (ARON cit. por Marrou, s/ data, p. 269)

Se a fé nunca dependeu da história, porque fazem tanta questão desta última? Por que insistem em preservar essa bruma que envolve os primeiros séculos do cristianismo? Não devia ser assim. No entanto, quando fazemos uma aproximação dos fatos com fatos e não com ideias, é possível outra conclusão.

http://cafehistoria.ning.com/profiles/blogs/paguei-pra-ver


Ivani Medina, obrigado pelo seu comentário a respeito deste artigo.
Acho bastante válido a exposição das ideias, isso se chama democracia, e graças a Deus que vivemos em uma, ainda incipiente, é verdade, mesmo assim, é melhor viver sob sua égide, do que sob as garras de uma feroz ditadura.
Em minha opinão o Jesus histórico faz sentido, se consideramos a sua humanidade. É fato que, para que se compreenda bem um homem em qualque época, é faz-se necessário que se forme acerca dele um perfil piscológico, social e religioso, conhecermos do lugar onde nasceu, de suas crenças e costumes, é fundamental para que possamos ao menos compreendê-lo. Nos tempos antigos também não era diferente, unma vez que um homem é fruto de sua cultura, pode até se rebelar contra ela, até mesmo a ação de se rebelar vai ser fruto dessa vivência. E se a doutrina católica apregoa que Jesus se fez homem e habitou entre nós, acho importante conhecer de sua história de vida e de seus costumes.
Compreendo que não devemos usar dos fatos históricos para julgar a essência de um homem, ao mesmo tempo humano e divino, aliás como o somos todos nós, até porque, se nos apegarmos apenas a história poderemos correr o risco de torná-la, ela própria, uma religião, e daí a incorrer em uma série de banalidades e equívocos é apenas um passo.
Quanto a Iemanjá, de fato, ninguem nunca ouviu falar de uma Iemanjá histórica, pelo simples fato de que ela não se fez carne e habitou entre nós, como o fez Cristo Jesus. Quanto a Rainha do Mar, o seu locus é e sempre foram os espaços etereos, do qual, às vezes, ela, como se diz na linguagem dos terreiros, “baixa” nos médios alinhados a ela, com a finalidade de trazer paz e conforto aos que mais necessitam.
E, se trazer paz e conforto aos que necessitam também era a missão de Cristo, portanto, entendo que Cristo e Iemanjá, não são fés excludente, mas complementares.

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