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Um novo espaço para a Escola de Capoeira Angola Resistência

Posted by Cottidianos on 00:43
Domingo, 07 de setembro




— Olá! Como vai?
— Eu vou indo. E você, tudo bem?
— Tudo bem! Eu vou indo, correndo pegar meu lugar no futuro… E você?
— Tudo bem! Eu vou indo, em busca de um sono tranquilo… Quem sabe?
— Quanto tempo!
— Pois é, quanto tempo!
— Me perdoe a pressa, é a alma dos nossos negócios!
— Qual, não tem de quê! Eu também só ando a cem!


***
Acho perfeita essa música, Sinal Fechado, do Chico Buarque. Ela ilustra muito bem a alma do homem moderno toda feita de pressa e correria. Mas é bom quando a gente encontra, mesmo em meio à correria da vida, pessoas que a gente gosta e admira.

Chico é um gênio. Na letra dessa música ele relata o encontro de duas pessoas que se encontra em uma rua ou avenida de uma cidade qualquer. Enquanto esperam o sinal abrir, dando passagem aos pedestres, os dois personagens travam um breve diálogo. Depois o sinal fecha para os carros, abre para eles e cada um segue seu caminho.

Foi mais ou menos o que aconteceu comigo e o mestre Topete. Estava eu na terça-feira (02), por volta do meio dia e meia, no cruzamento entre as movimentadas avenidas Francisco Glicério e Moraes Salles, quando se o mestre Topete se aproximou de mim.

— Sábado (06), vamos inaugurar um novo espaço, aparece por lá, disse ele.

— Ok. Vou aparecer, sim, respondi.

O sinal abriu e fomos cada qual para o seu lado. Enquanto íamos a direções opostas ainda tivemos tempo de altear a voz para finalizar o dialogo:

— À que horas começa? Perguntei.

— Começa as dez e termina ao meio dia, respondeu ele, já quase chegando ao outro lado da rua.

Mestre Topete é um mestre capoeirista aqui na cidade de Campinas e região. O novo espaço a ser inaugurado fica no Terminal Central de Campinas.

***



.
Sábado pela manhã as artificiais luzes dos postes de iluminação das vias públicas começavam a se apagar... Os raios do sol chegavam, timidamente por sobre a cidade... As ruas da cidade começavam novamente a encher-se de gente... Os ônibus que fazem o transporte público foram chegando ao Terminal Central de Campinas... Os automóveis começaram a transitar pelo viaduto Miguel Vicente Cury... E tudo enfim, voltou à velha e nova rotina de todos os dias.

Fazia frio, mas aos poucos ele foi sendo expulso pelo calor do sol, que foi chegando devagarzinho. Os ponteiros do relógio avançaram e o dia se fez pleno de luz e alegria.

As pessoas acorreram às bancas da feira livre de frutas e verduras que funciona no embaixo do viaduto. Os capoeiristas também foram chegando aos poucos. Afinal, era ali a roda de Capoeira. Aquele era o lugar onde o Mestre Topete receberia seus amigos e convidados para a inauguração do novo espaço da Escola de Capoeira Angola Resistência. A expectativa era grande. Aos poucos foram chegando mestres de capoeira de outras escolas, juntamente com seus discípulos. Eram aguardados também para o evento, Mário Dino Gadioli, diretor presidente do CEASA, Gabriel Rapazzi, diretor cultural de Campinas, Maria Cecília Campos e o Coletivo Salvaguarda da Capoeira de Campinas.


Era a realização de um sonho. Após dez anos de trabalho no Terminal Central de Campinas a Escola de Capoeira Angola Resistência, de mestre Topete, ganhava um espaço maior e melhor, ao lado de sua antiga escola, que foi transformada em uma loja onde se vendem produtos relacionados à arte da capoeira.

Tive que atender a outros compromissos e cheguei um pouco tarde ao local: por voltas das onze e meia da manhã. Encontrei a roda já formada e fiquei observando e absorvendo todo o Axé que dela emanava. Achei o lugar perfeito para uma roda de capoeira, em meio ao coração da agitação da cidade, a roda possuía a paz de um templo em oração. 

Um olhar atento à fisionomia dos presentes me trouxe a sensação de que a capoeira é uma arte que traz felicidade, luta que traz segurança e uma dança que deixa livre o espírito.

Ajoelhados aos pés do berimbau mestre, os capoeiristas parecem filhos a pedir a benção do pai para mais uma luta, e se entregam a ela com concentração e devoção, misturando, à alma do guerreiro, à malícia e a ginga do malandro. É um jogo fascinante. O capoeira é um guerreiro diferente. Ele luta, não para agredir, mas para defender-se. Essa é a sua arma principal: a defesa. O escudo usado por eles: o autocontrole. Um capoeirista descontrolado é qualquer outro lutador, menos um capoeirista. Para compreender a alma da capoeira é preciso mergulhar na tradição, debruçar-se nas águas do rio do passado, e nele saciar-se como um viajante sedento no deserto à procura de um gole d’água.





Um capoeira que se preze tem sempre os olhos no futuro, sem deixar de olhar para o passado. Passado esse que se faz presente nas ladainhas, corridos e chulas, músicas que dão harmonia e ritmo ao jogo. Nesses cânticos, sempre há reverências aos mestres, e à tradição. Enquanto isso, o berimbau, soberano, faz a ponte entre passado e presente, traduzindo de forma perfeita a alma da capoeira: um toque forte, porém, sereno e harmonioso.

Terminada a apresentação da roda de capoeira, por volta de 1h30min da tarde, isso não representou, necessariamente, o fim da festa, mas, talvez, o início dela. O público presente caminhou mais alguns metros e chegou às novas instalações da Escola de Capoeira Angola Resistência. O clima era de confraternização, de irmandade, de camaradagem. Fiquei pensando: “Quem dera que a sociedade fosse uma roda de capoeira. com certeza o mundo seria bem mais alegre e mais humano”.





Não pude ficar muito mais tempo, participando da festa, pois ainda tinha que ir para o ensaio do Coral PIO XI. Despedi-me de um mestre Topete feliz, não apenas pelo o novo espaço, mas pela felicidade de um homem que encontrou seu caminho na vida e consegue dividir essa alegria com os amigos.

Fui embora, mas deixei para trás os capoeiristas em festa. No decorrer da tarde ainda seria servido um coquetel comemorativo, apresentação do Afoxé Ibaô e mais Roda de Capoeira Angola.

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O goleiro Aranha e o bode Patrícia Moreira

Posted by Cottidianos on 01:23
Sábado, 06 de setembro

Todo mundo conhece o ditado que diz: “Antes tarde que nunca”. Aos poucos, bem aos poucos percebemos que as coisas vão entrando nos eixos aqui no país. Políticos e empresários poderosos estão indo para trás das grades... Acusados de racismo sendo punidos… Enfim, parece que o senso de moralidade vai aos poucos acordando e, quem sabe, um dia, venha a ser a nota predominante. Digo que as coisas mudam aos poucos, pois os poderosos estão indo para a cadeia, mas não temos notícias, pelo menos na grande maioria dos casos, de que eles estejam devolvendo aos cofres públicos a quantia que desviaram.

Essa semana aconteceu um caso, cujo desfecho, provocou muitas discussões e debates. Creio que tamanho burburinho se deva ao fato de ainda não nos ser muito familiar a palavra, PUNIÇÃO.

Falo de mais um lamentável episódio de racismo que aconteceu na quinta-feira (28), no Arena, em Porto Alegre, na partida entre Grêmio e Santos, pelas oitavas de final da Copa do Brasil. Aranha teve uma ótima atuação durante toda a partida, contribuindo para a vitória do Santos por 2 x  0 sobre o time gaúcho.

A partida se aproximava do final quando um grupo de torcedores do Grêmio que estavam logo atrás do gol santista, começou a desferir ofensas contra o goleiro adversário, chamando-o de preto fedido, macaco, e a imitar sons próprios dos animais dessa espécie. Aranha ficou muito nervoso com os xingamentos e  correu em direção ao árbitro pedindo que ele tomasse alguma atitude. O árbitro fez-se de mudo e surdo. Aranha apelou aos jornalistas presentes ao estádio para que, com suas câmeras, percorressem as arquibancadas, com o objetivo de flagrar torcedores que o insultavam.

Se o juiz não foi eficiente o bastante para precisar o que de fato acontecia no estádio, às câmeras o foram. Tal qual rede jogada a esmo em busca de uma caça perfeita, as câmera do canal de TV, ESPN, captou o exato momento em que, monossilabicamente, uma torcedora chamava Aranha de macaco. A moça chamava aranha de macaco com fúria. Nem desconfiava ela que, naquele momento, ela própria se tornava um bode... Bode expiatório.

Quatro horas após o jogo ela descobriu que havia feito uma grande besteira, uma burrice mesmo. Patrícia e outros torcedores esqueceram-se de que com câmeras por toda parte, esse mundo passou a ser um grande Big Brother da vida real. Não demorou muito para que ela fosse identificada. Era Patrícia Moreira da Silva, uma jovem de 23 anos.

Ainda na madrugada de sexta-feira (29), ela descobriu que ao ofender a moral do goleiro, havia mergulhado em um grande pesadelo. Tão logo foi identificada, ela passou a receber todo tipo de ofensas através das redes sociais. Algumas até com ameaças de estupro. A jovem teve a casa apedrejada e fugiu às pressas para casa de parentes que moravam foram da cidade.

Ainda durante a sexta-feira foi demitida do trabalho que desenvolvia na Brigada Militar.
Oito dias depois, Patrícia entrou na delegacia para prestar depoimento. Foi recebida na entrada do prédio por um grupo antirracista que fazia protesto contra ela. Chorava muito aos descer do carro e entrar no prédio sem falar com a imprensa.

A equipe do Grêmio também foi severamente punida. Foi excluída da Copa do Brasil e ainda terá que pagar uma multa de 54 mil reais por a torcida ter arremessado papel higiênico dentro do campo e pela equipe ter demorado a voltar a campo para a segunda etapa do jogo. Os torcedores gremistas identificados com a ajuda das câmeras ficarão 720 dias afastados dos campos de futebol. O árbitro Wilton Pereira Sampaio foi  punido com 90 dias de suspensão e multado em R$ 1.600,00 e seus auxiliares, Kléber Lúcio Gil e Carlos Brenkenbrock e o quarto árbitro Roger Goulart punidos com 60 dias de suspensão e multados em R$ 1.000, por não terem registrado em súmula o ocorrido.

Valeu a punição ‘educativa’ ao Grêmio e aos torcedores. Acho que o Grêmio nada teve a ver com a atitude racista de seus torcedores, porém o STJD, com essa atitude punitiva, quis dar um recado aos torcedores de qualquer time.

Sobre o caso, partilho com vocês, um interessante artigo escrito por Emanuella Santos no site Brasil Post.

***

Patrícia Moreira, o macaco, eu e você

Sem dúvida, o assunto que mais repercutiu na última semana foi o episódio ocorrido na Arena, em Porto Alegre, protagonizado pela jovem torcedora do Grêmio, Patrícia Moreira. Flagrada por uma câmera da ESPN, a menina, com sangue nos olhos, articulava perfeitamente a palavra "macaco", dirigindo-se a Aranha, goleiro do Santos. Poucos minutos depois, discussões acaloradas sobre o racismo se iniciavam nas redes sociais e na mídia.

Por ter frequentado e vivido em cidades de diferentes colonizações (inclusive a Porto Alegre do episódio), tive a oportunidade de ver - de perto, de longe, direta e indiretamente, comigo e com os outros - o racismo em suas diversas facetas. Quando no Brasil se fala em racismo e suas manifestações, as primeiras evidências que surgem em nosso imaginário são atos explícitos: vocábulos como macaco, crioulo, alusões a primatas, expressões como cabelo ruim, coisa de preto, negros sendo destratados em público, etc. Não cessam também medidas inibitórias a tais expressões, que visam a minimizar o racismo. A mais comum, creio, seja a adoção da palavra afrodescendente em preferência à negro, cuja carga pejorativa possui origem secular.

Naturalmente, devido à manifestação óbvia de Patrícia Moreira, ela foi afastada do trabalho, e não tardaram as solicitações pela prisão da garota. Afinal, racismo é crime, e o que vimos na televisão foi um ato racista evidente. Havia outros torcedores cometendo práticas semelhantes, o que não invalida a gravidade do crime praticado. Também não tardaram, no entanto, incitações de ódio contra Patrícia: injúrias de piranha, puta, e sentenças sem jurisdição declarando que ela deveria ser estuprada... Por um negro. Quando, ao rechaçar atos deploráveis como o de Patrícia e reagimos com incitações ao ódio tais como essas, me pergunto: a quem cabe a responsabilidade de, ao massificar a repulsão ao racismo, suscitar junto debates mais aprofundados que levem à reflexão sobre violência e outras práticas de preconceito? Até que ponto sabemos lidar com a capacidade de julgar lançando mão da imparcialidade e do bom senso?

Patrícia Moreira e o grito macaco representam a forma mais simplória e, talvez, de mais fácil "combate" ao racismo. Imaginem que bom seria se, assim como Emmanuel Goldstein, suprimíssemos as palavras macaco e banana, e assim todo o racismo acabasse. Macaco é um primata cuja ancestralidade é comum ao ser humano. Chamar uma pessoa de macaco se configuraria uma ofensa ao se aludir o negro à África, criando uma relação direta com o primitivismo: a inferioridade. Mas viemos todos de uma grande Pangeia, de uma única origem. Não existe, assim, insulto em macaco.

Mas, se acabássemos a palavra, permaneceria o conceito, que está subsistente no coletivo. Um conceito ignorante, aliás. Infelizmente o que há de pior e o que acontece de mais cruel quando se trata de racismo são as práticas veladas, o que faz grande parte da população acreditar que tal preconceito não existe mais no Brasil. Ele subsiste quando dizem, de forma quase complacente, que "você nem é tão negra assim", implicitando o discurso "não se subestime"; quando sugerem "nem alisar", mas "domar" os cachos; ele subiste quando a negra tem uma beleza exótica. Ele subsiste quando, em um estado com mais de 76% de sua população negra, como é o caso da Bahia, não há nenhum negro na foto da turma de graduandos em Medicina, mas isso é "fruto da força de vontade". Ele subsiste quando, ao ser assaltada na rua, uma senhora de bem - que até tem amigos negros e nunca destratou nenhum deles - é apresentada a suspeitos na delegacia e elege "por intuição" qual deles será o punido.

Essas práticas não são identificadas, não são cometidas nem combatidas diretamente. Tampouco de maneira consciente. Vivemos uma história de mais 500 anos e somos herdeiros da cultura de uma sociedade ocidental milenar que também lida com problemas semelhantes. Nosso racismo é atávico, intrínseco. E quando digo "nosso", me incluo, pois sou tão brasileira e tão ocidental quanto você, sou herdeira da mesma história, e nossos critérios são subjetivos, latentes. Me eximir da tarefa de lutar contra um racismo invisível - como quem o sofre e como quem o pratica - seria não apenas uma hipocrisia mas uma irresponsabilidade.

Patrícia Moreira cometeu um crime, sim. Mas se tornou também o símbolo efêmero e erroneamente generalizado de um grupo (no caso, a torcida do Grêmio), o bode expiatório de uma prática comum nacional e o alvo de uma catarse coletiva de manifestações de ódio. Que tal partirmos de uma análise crítica individual, antes de centralizarmos em apenas uma figura os problemas que também nos competem?




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João Vitor e Tatiana Solanco: Destinos que se cruzam nos caminhos da vida - Parte 2

Posted by Cottidianos on 21:42
Quinta-feira, 04 de agosto



Eu fico / Com a pureza / Da resposta das crianças
É a vida, é bonita / E é bonita...

Viver! / E não ter a vergonha / De ser feliz
Cantar e cantar e cantar / A beleza de ser
Um eterno aprendiz...

(Eterno Aprendiz – Gonzaguinha)

http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2014/04/mulher-decide-emagrecer-20-quilos-para-doar-figado-a-crianca-com-cancer-em-santa-catarina-4473455.html


Terminado o culto os fiéis foram para suas casas. Timidamente, Tatiana se aproximou de Maria de Freitas, a mulher que havia pedido orações pelo neto.

— Ouvi a sua história e a de seu neto e fiquei muito comovida. Tenho um filho da mesma idade e não sei o que faria se uma situação semelhante acontecesse com ele. Seria capaz de dar a minha vida por ele, disse Tatiana.

— Tínhamos esperança de que o transplante de fígado resolvesse o problema, mas como falei para a senhora, a tia dele não pode doar o órgão pelo fato de estar grávida e isso poderia por em risco a gravidez dela. Eu já não sei mais o que faço. Dói-me o coração ver o meu neto definhar a cada dia um pouco. Temo ficar sem ele, respondeu Maria.

— E se eu doasse parte de meu fígado ao seu neto?

— A senhora seria capaz de fazer isso? Perguntou surpresa a mulher.

— No momento, não vejo outra saída.

— Mas a senhora nem o conhece, nem conhece minha família. Não temos nenhum vinculo.

— Não tínhamos. Porque, a partir de agora, nós temos não apenas um vínculo, temos uma luta para vencer.

Com os olhos marejados de lágrimas a avó de João Vitor e a mãe de Pedro se abraçaram.

— Muito obrigado! Muito obrigado, mesmo!

— Só tem um problema. É necessário fazer os exames para ver se sou uma doadora compatível com seu neto.

— Faremos o que for possível. Iremos aonde tiver que ir. Disse Maria com ar de determinação. Deus há de ajudar.

Enquanto a mulher se afastava, Tatiana começou a relembrar a própria história. Era mãe de um belo e saudável menino de quatro anos. Porém, antes que conseguisse engravidar dele, já havia engravidado quatro vezes e havia perdido o bebe em todas estas ocasiões. Lembrou-se também de toda a luta que já empreendera para emagrecer. Já inventara dietas malucas que sempre abandonara. Tentara perder peso pela prática de exercícios físicos e alimentação natural, mas também não obtivera sucesso. Todos esses fatores a levaram a ficar, em alguns momentos, frente à frente com o fantasma da depressão. De onde lhe viera tamanha coragem de doar uma parte de seu corpo para uma pessoa que ela nem ao menos conhecia? Para esse auto questionamento ela não encontrou respostas.

Alguns dias depois João Vitor e Tatiana se encontraram pela primeira vez. O menino despertou nela um grande sentimento de maternidade, aliado a sentimentos de compaixão. Era a fusão de duas almas que pareciam que já se conheciam há muito tempo. A esperança e alegria que aqueles dois pequenos irradiavam não condizia com o todo o sofrimento que eles experimentavam. Quem diria, ao primeiro olhar, que aquela pequena vida enfrentava uma rotina tão árdua de internações em hospitais, picadas de agulhas, exames e mais exames, quimioterapia?

João Vitor, por sua vez, olhava para Tatiana como que diz, “Preciso tanto de sua ajuda. Salva minha vida”!

Os exames para saber se Tatiana seria uma doadora compatível foram marcados alguns dias depois. Na antessala da clínica, Tatiana esperava o resultado ansiosamente. Ao lado dela, estava Maria de Freitas, avó de João. O médico chamou as duas para dentro do consultório e anunciou:

— Tenho uma notícia boa e outra ruim. Vou começar pela notícia boa. A senhora pode doar parte de seu fígado ao garoto. Essa questão de compatibilidade fora da família é um caso raro no qual a senhora se enquadra perfeitamente. A má notícia é que a doação não poderá ser feita enquanto a senhora mantiver esse quadro de sobrepeso, ou seja, é necessário perder, mais ou menos uns vinte e sete quilos, no mínimo.

Ao sair da clinica, Tatiana seguia pela rua e lágrimas banhavam o seu rosto. Estava profundamente aliviada. Havia uma luz no fim do túnel e ele faria qualquer coisa que estivesse ao seu alcance para alcançá-la.

O primeiro passo foi cuidar da alimentação. Era preciso cortar os doces que tanto amava. Refrigerantes e pães também entraram para lista de vilões. A alimentação à mesa passou a ser a mais saudável possível. O marido e o filho se ajuntaram a ela nessa luta.
Quando souberam da história da doação, os vizinhos e amigos formaram uma verdadeira rede de solidariedade.

Lene, um professor de Educação Física, especializado na área de nutrição, resolveu abrir as portas de sua academia. Além disso, resolveu dar uma orientação nutricional á família.  A dieta foi ainda mais rigorosamente ajustada.

Katy, uma professora de dança, também tomou conhecimento do caso e resolveu ajudar.

Entre muita aeróbica, musculação e dieta, começou a corrida contra o tempo e contra a balança. Eram duas horas diárias de exercício na academia e mais uma hora de exercícios em casa. Uma rotina dura, difícil e cansativa. Algumas vezes, tinha vontade de desistir. Ao fim do dia o cansaço era enorme. Seu corpo doía como se ela tivesse levado uma surra. Quis desistir. Lembrou-se que havia uma chama acesa que dependia dela para continuar brilhando.

Enquanto isso, João Vitor, seguia na sua rotina em hospitais de Florianópolis, cidade onde moravam, e de São Paulo. Isso tornava sua vida ainda mais cansativa. Tinha dias que estava animado, sorria e brincava como outra criança qualquer. Em outros dias, a doença parecia progredir e ele não tinha forças nem para sair da cama. Sua pele se tornava muito pálida e seus olhos pareciam perder o brilho. Sentia muitas dores na barriga e seu olhar parecia se perder em algum ponto no infinito.

Um dia, em meio a uma dessas crises, ele fez uma pergunta que encheu de lágrimas os olhos da avó. “Vovó o que tem dentro da minha barriga que dói tanto”? Desconcertada a avó respondeu: “Dentro de sua barriga tem uns bichinhos, mas logo, logo, eles vão sair e você vai ficar bom”. Os olhinhos do garoto brilharam de uma alegria intensa e ele disse: “Que bom vovó! Então quer dizer que eu não vou precisar mais ir ao hospital e nem tomar aquele monte de remédios”. “Isso mesmo, meu pequeno guerreiro. Você vai vencer essa guerra. Chega de hospitais, agulhas e coisas desse tipo”, disse ela abraçando fortemente o neto.

Do outro lado, Tatiana estava conseguindo perder peso. Um sorriso de satisfação lhe inundava o rosto toda vez que subia na balança. Era um sofrimento quando passava em frente a alguma doceria ou padaria e via expostos todas aquelas guloseimas. Um dia pegou-se no balcão de uma loja de doces perguntando o preço de uns bombons. Saiu dali rapidamente. Tinha consciência de que não podia comer nenhum deles. Tinha consciência que não podia, em hipótese alguma, ganhar um quilo que fosse.  

Faltavam apenas quatro quilos para atingir a meta estipulada pelos médicos para a realização do transplante, quando Tatiana recebeu um telefonema da avó de João.

— Acabamos de voltar de São Paulo e as notícias não são nada animadoras. O tumor cresceu e o fígado não consegue mais eliminar a bile. O menino sente muitas dores e está cada vez mais pálido. Os médicos disseram que já há mais o que fazer.

A partir daí, o pequeno guerreiro passou o tempo, muito mais no leito do hospital do que em casa. O tratamento quimioterápico tornou-se muito mais agressivo e mais forte. Os médicos faziam de tudo para que o tumor fosse reduzido. João Vitor começou a sentir dores insuportáveis e, pela primeira vez em quatro anos de tratamento, começou a tomar morfina. Estava tão fraco que, por três dias seguidos, não teve forças para levantar da cama.

Tatiana foi visitá-lo e ao ver o menino naquele estado, chorou. Chegou perto dele e cochichou-lhe ao ouvido:

— João, vou lhe dizer umas coisas porque sei que você está me ouvindo. De alguma forma eu sei que você consegue me ouvir. Estou fazendo um esforço enorme por você... Não vá agora... Estamos tão perto de conseguir... Eu lhe peço com todo o carinho: Espere mais um pouco.

O tratamento intensivo já durava quatro semanas e todos já esperavam pelo pior. Foi então que o menino começou a reagir. Novos exames foram feitos e os médicos constataram que o tumor havia regredido em cerca de 30%. Não era possível que estivesse acontecendo isso, disseram os médicos. Eles não acreditaram nos resultados e repetiram os exames. O resultado se confirmou.

— Esse menino é um grande guerreiro, ele cai, mas ele tem forças para se levantar, disse uma das enfermeiras.

Simultaneamente a essa súbita melhora, Tatiana atingiu o peso ideal. Estava com 76 quilos e já podia ser submetida à cirurgia para a realização do transplante. João Vitor e Tatiana embarcaram para São Paulo, onde seriam realizados os procedimentos cirúrgicos.

A sala de cirurgia começou a ser preparada às cinco horas da manhã do dia 20 de agosto. O primeiro a entrar nela foi João Vitor. Antes do transplante, mais uma complicação: os médicos notaram uma trombose nas veias do paciente. Foi necessário os médicos fazer uma ponte para, só depois, prosseguir com o transplante propriamente dito.

Uma hora e meia depois, foi a vez de Tatiana, entrar na sala de cirurgia. Foram cerca de onze horas de uma espera angustiante. Na sala de espera do hospital a expectativa era grande. Maria de Freitas, avó de João e Isoyane, amiga de Tatiana, aguardavam ansiosas. Foi somente no início da noite que os médicos trouxeram a tão esperada notícia. O transplante havia sido um sucesso e doadora e doador estavam muito bem.

— Não costumo emitir opiniões pessoais nesses casos, mas ficamos muito emocionados com a sintonia que, durante todo o processo de tratamento, percebemos entre a Tatiana e João Vitor. A Tatiana conseguiu ultrapassar a simples condição de doadoras de órgãos. Mais do que o fígado ela doou amor.

Quanto ao garoto, era como se, de alguma forma, ele soubesse que precisava ser forte e esperar mais um pouco. E realmente, para uma criança, ele foi muito forte.

Eu diria que foi o milagre do amor que proporcionou o milagre da vida, finalizou o médico.

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João Vitor e Tatiana Solanco: Destinos que se cruzam nos caminhos da vida - Parte 1

Posted by Cottidianos on 00:28
Quarta-feira, 03 de setembro

Ontem um menino que brincava me falou
Que hoje é semente do amanhã...
Para não ter medo que este tempo vai passar...
Não se desespere não, nem pare de sonhar
Nunca se entregue, nasça sempre com as manhãs...
Deixe a luz do sol brilhar no céu do seu olhar!
Fé na vida Fé no homem, fé no que virá!
Nós podemos tudo,
Nós podemos mais
Vamos lá fazer o que será

(Semente do amanhã – Gonzaguinha)

http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2014/04/mulher-decide-emagrecer-20-quilos-para-doar-figado-a-crianca-com-cancer-em-santa-catarina-4473455.html

Na noite deste domingo (31), o Fantástico, revelou ao Brasil, uma história inspiradora. João Vitor, um menino de quatro anos, tinha um tumor maligno no fígado. Não havia outro meio de ele sobreviver a não ser um transplante. A única doadora na família que era compatível estava grávida e não podia doar o fígado. Os dias passavam a chance de João sobreviver àquela fatalidade se tornavam mínimas. Para se ter uma ideia da luta que o menino teria que enfrentar: Estatísticas da Associação Brasileira de Transplantes nos fazem saber que, no primeiro semestre desse ano, foram realizados 852 transplantes de rim no país. Desse total, apenas 72 foram de doadores vivos. Conseguir doadores entre os próprios familiares é ainda mais raro, pela questão da compatibilidade. Desse total de 852 transplantes citados acima, apenas nove se deram por doadores da família do paciente que eram compatíveis. Como se vê, as chances de sobrevivência do garoto eram mínimas.

Tatiana, uma dona de casa, casada, mãe de um menino de quatro anos e que não tinha o menor vínculo afetivo com o garoto, nem com a família dele, assumiu a causa. Uma dificuldade, porém se interpôs ao desejo de ajudar: Ela estava acima do peso, com 103 quilos. Os médicos disseram que ela teria que emagrecer cerca de 30 quilos em poucos meses... E não poderia tomar remédios para emagrecer, fazer cirurgia de redução de estomago, dietas malucas, nem qualquer coisa parecida. Todo o processo de emagrecimento teria que se dar de forma natural. Os dois, Tatiana e João empreenderam então, uma luta contra o tempo; Tatiana para emagrecer, e João para manter-se vivo até que esse objetivo fosse cumprido.

Baseado nessa bela e comovente história apresentada pelo Fantástico, apresento a vocês o texto abaixo.

***




Era fins de dezembro de 2013. A pequena Igreja Batista do Alto do Ariríu estava lotada de fieis. Todos queriam agradecer as graças recebidas durante o ano que findava e pedir forças para iniciar o ano vindouro. Os fieis foram recebidos pela equipe de acolhida com bastante entusiasmo. Os cânticos fervorosamente entoados por toda a Igreja ajudavam a elevar ainda mais o espírito. A pequena e acolhedora comunidade era comandada pelo pastor Pedro Solonca Junior, 38 anos, com a valorosa colaboração de sua mulher, Tatiana Solonca, 33 anos. Tatiana estava um pouco acima do peso. Pesava 103 quilos. Já tentara por diversas iniciar um regime, mas o plano de emagrecer sempre fracassava, ficava pela metade. Por esse motivo, sentia um pouco de dificuldade de ajudar o marido nas atividades presbiteriais, mas ajudava assim mesmo. Não fosse ela esposa do pastor, nem seria notada pelos irmãos que frequentavam a Igreja. O fato de estar acima do peso trazia-lhe fazia com que procurasse se esconder, talvez essa atitude contivesse certo sentimento de inferioridade. A força para viver vinha, em grande parte de Pedro, filho do casal, de quatro anos de idade.

Sempre com grande entusiasmo e fervor, o pastor se dirigiu ao púlpito e de lá falou aos fiéis:

— Meus irmãos e minhas irmãs, as palavras de Jesus Cristo são um alento para nossa caminhada, nela encontramos um mapa, entrando no campo das novas tecnologias, podemos dizer que a palavra de Deus é um GPS que nos ajuda e nos conduz, de forma segura, pelos caminhos da vida. Essa palavra também é um guia de conduta precioso e aquele que a seguir com fé, será como aquele homem que diz ao monte: “Lança-te ao mar e isso acontece”. Não porque o homem seja poderoso, mas porque nele habita a força de Deus... E um homem com o coração repleto de amor à Deus, pode enfrentar qualquer maré bravia sem desanimar.

Peço aos queridos irmãs e irmãs que abram a Bíblia no livro de Lucas, capítulo 10, versículos de 25 a 37. Esta será a nossa reflexão de hoje.

Certa ocasião, um perito na lei levantou-se para pôr Jesus à prova e lhe perguntou:
— Mestre, o que preciso fazer para herdar a vida eterna?
 — O que está escrito na Lei? Como você a lê? Perguntou Jesus.
Ele respondeu:
— Ame o Senhor, o seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todas as suas forças e de todo o seu entendimento e ame o seu próximo como a si mesmo.
Disse Jesus:
— Você respondeu corretamente. Faça isso e viverá.
Mas ele, querendo justificar-se, perguntou a Jesus:
— E quem é o meu próximo?
Em resposta, disse Jesus:
— Um homem descia de Jerusalém para Jericó, quando caiu nas mãos de assaltantes. Estes lhe tiraram as roupas, espancaram-no e se foram, deixando-o quase morto. Aconteceu estar descendo pela mesma estrada um sacerdote. Quando viu o homem, passou pelo outro lado. E assim também um levita; quando chegou ao lugar e o viu, passou pelo outro lado. Mas um samaritano, estando de viagem, chegou onde se encontrava o homem e, quando o viu, teve piedade dele. Aproximou-se, enfaixou-lhe as feridas, derramando nelas vinho e óleo. Depois o colocou sobre o seu próprio animal, o levou para uma hospedaria e cuidou dele. No dia seguinte, deu dois denários ao hospedeiro e lhe disse: 'Cuide dele. Quando eu voltar, pagarei todas as despesas que você tiver'.
— Qual destes três você acha que foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?
— Aquele que teve misericórdia dele, respondeu o perito na lei.
Jesus lhe disse:
— Vá e faça o mesmo.
Na pregação, o pastor procurou ressaltar que para viver como Jesus viveu é preciso traduzir o amor em ações concretas. Não basta ser um teórico da Bíblia, esses existem por aí aos milhares, porém é necessário, mais que ler a Bíblia, vivenciar e colocar em prática os seus ensinamentos. Observem meus irmãos, dizia o pastor, que o personagem central da história contada por Jesus é o homem que caiu nas mãos de assaltantes e fica a necessitar de ajuda. Jesus insere ainda três personagens que cruzarão o caminho desse homem. Um sacerdote, um levita e um samaritano. Os dois primeiros, conhecedores da palavra, deveriam, pelo seu ofício, transmitir bons exemplos a comunidade. Entretanto, ao verem o homem caído à beira da estrada, passam bem longe, desviam o caminho. O terceiro?... O terceiro era um samaritano, povo pecador e considerado de segunda categoria na escala social. Pois eu digo a vocês, que foi justamente esse homem pecador que socorreu quem necessitava de ajuda. Essa atitude nos mostra que a misericórdia não conhece cor, nem religião, nem credos, nem laços familiares. O meu próximo é aquele que precisa de ajuda naquele momento.

Terminada a pregação o pastor Pedro Solonca, abriu os microfones à Igreja para os testemunhos e os pedidos de oração, como costumava fazer sempre. Maria Eloina de Freitas, sentada nos últimos bancos da Igreja, levantou-se atravessou a fila cadeiras brancas que dividia o pequeno templo em duas partes, e dirigiu-se ao microfone. Não era mulher instruída, mas falava com certa desenvoltura, no olhar carregava certa tristeza. Fazia pouco tempo que se congregava naquele local e sentia-se muito bem ali.

— Boa noite! Disse ela, iniciando o dialogo com os demais irmãos ali reunidos. Quero agradecer a Deus por todas as graças que ele tem me dado e também pelas muitas dificuldades que tenho atravessado. Elas apenas servem para fortalecer a minha fé. Eu tenho um neto de 4 anos, que se chama João Vitor, por quem eu tenho muito amor. João Vitor é minha joia preciosa. É meu diamante. Fui eu quem criou o menino desde que ele nasceu. A minha filha, mãe dele, teve que ir trabalhar em outra cidade um pouco mais distante e, por esse motivo, eu me encarreguei de cuidar dele.

Tudo corria bem até os dois anos de idade. Ele era um menino forte e saudável. Corria e brincava embalado pela alegria que envolve cada criança, esteja ela num casebre ou num palácio. Um dia o menino começou a passar mal. Não conseguia brincar direito com as outras crianças. Bastava uma pequena corrida e o menino logo se cansava. Levei-o ao médico. O médico fez alguns exames e depois de prontos me chamou na sala dele. Pela expressão que havia em seu rosto, logo percebi que algo muito grave acontecia com meu neto. Procurando as palavras certas, o médico me disse aquilo que eu não queria ouvir: Meu querido João Vitor estava com um tumor maligno no fígado.

Diante dessa trágica notícia eu desmaiei. Só me recuperei depois que me deram de beber um copo d’água. Ao saber da notícia, minha filha, Juliana Aparecida dos Santos voltou para me ajudar a cuidar do garoto. Desde então, temos vivido uma rotina cansativa entre a nossa casa e o hospital. O menino pesava 14 quilos antes da doença. Hoje ele está pesando sete quilos. Por causa de o tumor esta localizado em uma região muito delicada, os médicos não conseguem retirá-lo. A única chance de salvar a vida dele seria um transplante de fígado, porém, a única pessoa de nossa família que era compatível, era uma tia de João Vitor. Ela até se propôs a ajudar, mas descobriu que estava grávida e, na condição de grávida, é impossível fazer o transplante.

Por esse motivo estou aqui hoje, na presença, primeiramente de Deus, e depois na presença de vocês, para pedir que orem muito por meu neto, para que ele, em sua pouca idade, tenha forças para suportar tanto sofrimento... E quanto sofrimento meu neto tem passado, disse ela pesarosa. Já foram muitas as sessões de quimioterapia. Um dia ele esta bem. Outro está mal. Mas sempre se mostra uma criança forte e carinhosa para com todos. Peço também que orem por mim, para que eu tenha forças para lutar ao lado dele, por ele. Eu acredito muito que Deus vai fazer o milagre.

***

Terminado o culto os fieis foram para suas casas. Timidamente, Tatiana se aproximou de Maria de Freitas, a mulher que havia pedido orações pelo neto.

— Ouvi a sua história e a de seu neto e fiquei muito comovida. Tenho um filho da mesma idade e não sei o que faria se uma situação semelhante acontecesse com ele. Seria capaz de dar a minha vida por ele, disse Tatiana.

— Tínhamos esperança de que o transplante de fígado resolvesse o problema, mas como falei para a senhora, a tia dele não pode doar o órgão pelo fato de estar grávida e isso poderia por em risco a gravidez dela. Eu já não sei mais o que faço. Dói-me o coração ver o meu neto definhar a cada dia um pouco. Temo ficar sem ele, respondeu Maria.

— E se eu doasse parte de meu fígado ao seu neto?

— A senhora seria capaz de fazer isso? Perguntou surpresa a mulher.

— No momento, não vejo outra saída.

— Mas a senhora nem o conhece, nem conhece minha família. Não temos nenhum vinculo.

— Não tínhamos. Porque, a partir de agora, nós temos não apenas um vínculo, temos uma luta para vencer.

Com os olhos marejados de lágrimas a avó de João Vitor e a mãe de Pedro se abraçaram.

— Muito obrigado! Muito obrigado, mesmo!

— Só tem um problema. É necessário fazer os exames para ver se sou uma doadora compatível com seu neto.

— Faremos o que for possível. Iremos aonde tiver que ir. Disse Maria com ar de determinação. Deus há de ajudar.

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De novo o racismo nos campos de futebol do Brasil. Até quando assistiremos esses lamentáveis episódios?

Posted by Cottidianos on 00:48
Segunda-feira, 01 de setembro



Aconteceu de novo. Lamentavelmente aconteceu de novo. Dessa vez foi na quinta-feira (28), em Porto Alegre, durante o jogo disputado entre Santos e Grêmio. A vítima? O goleiro Aranha, do Santos. O jogo já estava nos seus minutos finais e o Santos vencia o Grêmio por 2 x 0. Um grupo de torcedores gremistas, localizados logo atrás do gol de aranha. Ao perceber os xingamentos, mais que xingamentos, eu diria, as humilhações, o goleiro correu e foi reclamar com o arbitro da partida. Wilton Pereira Sampaio, resolveu paralisar o jogo por alguns minutos. Após, esse tempo, e mesmo sob protestos do goleiro, o arbitro deu continuidade a partida. A torcida xingar é normal, mas começaram com palavras racistas: 'preto fedido', 'cambada de pretos', essas coisas. Fiquei nervoso, mas estava me segurando. Foi aí que começou um pequeno coro de 'macaco. Quando me chamaram de macaco, de preto, bati no braço e disse que sou preto, sim. Sou negrão, sim", disse Aranha. 

Dessa vez, Aranha tomou uma atitude diferente. Em vez de fingir que nada havia acontecido, o goleiro foi reclamar com a arbitro e fez apelos aos cinegrafistas que cobriam o jogo para que registrassem em imagens o que estava acontecendo e, com isso identificar os agressores. Uma das torcedoras, flagrada pelas câmeras, chamando o goleiro do Santos de Macaco, foi demitida do emprego, teve a casa onde mora, apedrejada e ainda terá que prestar depoimentos à polícia. 

Atletas dos dois times lamentaram o episódio. Afinal, os jogadores não têm culpa do comportamento antidesportivo de alguns de seus torcedores. Episódios lamentáveis como esse só deixarão de ocorrer quando medidas punitivas forem adotadas contra essa pequena parcela dos torcedores. Enquanto as entidades desportivas fingirem que nada aconteceu, continuaremos a assistir essas barbaridades.

O Brasil é um país tão rico em sua diversidade de raças e culturas, isso deveria ser motivo de orgulho por parte de todos os brasileiros e não de discriminação.

Neste domingo (31) Aranha deu uma entrevista ao Fantástico, falando desse episódio, cujo texto compartilho com vocês.

***

'Eu tenho dó dela', diz goleiro Aranha sobre jovem que o ofendeu em jogo

'Às vezes a gente deixa passar, finge que não ouve, mas por dentro dói', diz Aranha. Goleiro do Santos desabafa sobre ofensas sofridas em partida.

Aos 33 anos de idade, com 15 de futebol profissional, ele se viu acuado no estádio. O goleiro Aranha, do Santos, foi ofendido por torcedores do Grêmio na quinta-feira (28).

O time identificou cinco agressores até agora. Patrícia Moreira acabou se tornando um símbolo deles.

Aranha: Eles vinham na muretinha como se fossem saltar e vir para cima e eu estava preparado.

Fantástico: Para quê?

Aranha: Para o que der e viesse.

Fantástico: Você achou que eles iam te atacar?

Aranha: Sim, por que não? A raiva que eles estavam, porque eles ficaram mais nervosos porque eles acharam que como a maioria faz, como eu mesmo já fiz várias vezes ali, até mesmo ano passado, a gente escuta e finge que não ouve.

Na quinta-feira, Aranha não fingiu. “E aí quando eles começaram a emitir som de macaco, aí eu não tive dúvida, aí eu não aguentei. Aí eu falei: ‘Ah, vou ter que estourar, é agora, não tem jeito’. Porque às vezes a gente tem que dar uma de louco, como a gente fala, senão ninguém presta atenção, ninguém te escuta”, conta o goleiro.

Fantástico: Você já tinha passado por essa situação?

Aranha: Centenas e milhares de vezes. No futebol isso infelizmente é normal.

Aranha diz que o problema é de todos. “Sempre quando acontece de acontece briga no estádio, esse negócio de racismo, de vandalismo, aí a gente costuma dizer, os clubes e todo mundo costuma dizer, ‘não são torcedores, é a minoria’. Mas a minoria manda? Se tinha duas mil pessoas ali atrás e cinco estavam tomando essa atitude, por que as outras pessoas não cobraram delas uma postura melhor?”, questiona Aranha.

O Grêmio, que ainda pode ser punido até com a exclusão da Copa do Brasil, identificou cinco agressores até agora. Patrícia Moreira acabou se tornando um símbolo deles.

Fantástico: O que você achou dessa moça, quando você viu ela falando 'macaco', e aquela imagem bem fechada nela.

Aranha: Eu tenho dó dela. Como ser humano, e pelas consequências.

Patrícia perdeu o emprego, a casa dela foi apedrejada e ela deve depor nessa segunda-feira (1º) na polícia de Porto Alegre.

Aranha diz que aprendeu a enfrentar o preconceito ouvindo rap. Confira no vídeo ao lado mensagens de apoio a Aranha e contra o racismo.

“Eu tive a felicidade de aprender muito com o rap, porque esse pessoal, como sempre foi um pessoal sofrido e acusado e agredido. É um pessoal bem informado sobre política, sobre religião, sobre a sua história, a história do seu país. Como na periferia a gente ouve muito isso, porque é aquilo que está na nossa realidade, eu cresci preparado para esse tipo de situação”, diz Aranha.

Fantástico: Fora dos estádios você também tem problema? Sofre com o racismo?

Aranha: Tem, tem. Isso aí muita gente tem. A gente vale o que tem. Ou o nome que tem. Eu sei que muitas vezes eu não sou aceito, eu sou tolerado. Porque sou o goleiro do Santos, bicampeão mundial. E porque eu tenho um carro bonito, porque eu compro isso, eu compro aquilo. Então muitas vezes eu sou tolerado, não sou aceito. Eu já morei em prédios, minha família está de testemunha, que não me davam nem bom dia.

Fantástico: A sua família acaba sendo atingida também, sofre com isso tudo, o teu enteado. Meu filho, é. Ele acabou colocando que tem orgulho de ter um pai negro.

Bernardo Maron, enteado de Aranha: Eu estava assustado, triste, porque eu não esperava que ainda esse pensamento ainda estava na cabeça das pessoas, pensava que tinha acabado.

Na noite de quinta, Bernardo, de 13 anos, entrou em uma rede social para dar apoio ao pai. “Eu fiquei quietinho na minha aí eu fui lá e pensei em escrever isso: ‘Eu já cansei disso, que isso é uma palhaçada e que eu tenho orgulho de ter um pai negro’”, conta ele.

Depois, telefonou para ele. “Eu falei: ‘força, pai, eu te amo’”, conta o menino.

“A gente já prepara uma conversa antes porque sabe que no próximo dia de escola vai ter aquela polêmica, ‘nossa, o que aconteceu com o seu pai’, só que graças a Deus eles são muito maduros, o futebol amadureceu até os meus filhos”, diz Juliana Costa, mulher de Aranha.

Na manhã seguinte, em um comunicado, Aranha citou um discurso de Martin Luther King, o famoso ativista americano assassinado em 1968 que lutou pela igualdade racial.

“Eu citei um trecho do Martin Lutther King, "I Have a Dream", que ele fala que ele tem um sonho que todas as pessoas fossem julgadas não pela cor da pele, mas pelo conteúdo do seu caráter”, diz o jogador.

Fantástico: Nos estádios, qual seria a punição para que isso não voltasse a se repetir?

Aranha: Essa mocinha aí, nunca mais pisar na Arena. Porque outras pessoas vão falar 'se eu tomar uma atitude dessas, se eu for flagrado, eu nunca mais vou acompanhar o time que eu gosto'. O futebol está caminhando para um lado de empresa, de espetáculo, mas as pessoas que vão assistir têm que se comportar como tal. Eu acho que a principal punição tem que ser essa, da pessoa nunca mais pisar no estádio, em um lugar público, porque ela me xingou ali, mas tinha vários outros negros ali.




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