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Pai, mata nossa fome de títulos

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 13:41
Domingo, 08 de julho


As grandes batalhas épicas, seja no cinema, na literatura, ou na literatura adaptada ao cinema, sempre nos maravilharam, sempre grudaram nossos olhos nos livros ou nas telas. Na grande maioria desses enredos estão explicitas ou implícitas a guerra entre o bem e o mal. Ficamos sempre na expectativa de que, ao final, o bem se sagre vencedor, derrotando o mal.
O engraçado é que ao fazermos isso, ao mergulhamos nessa cartasse que a ficção nos proporciona, nos esquecemos de que, dentro de cada um nós habita um guerreiro, uma guerreira, e que, todos nós, habitantes do planeta terra, vivemos todos os dias nossas pequenas batalhas, que, às vezes se tornam grandes batalhas, mas todas elas exigindo de nós a força e a coragem que vemos projetadas nos heróis da ficção.
Assim foi e assim sempre será pois a terra é um plano de expiação, de provas, de sacrifícios. E, como plano de expiação que é o nosso planeta, essas batalhas diárias devem servir para nos aperfeiçoam, nos esmerar — como se esmeram as joias — com a finalidade de que, ao atingirmos os planos superiores, tenhamos nos livrado, se não de todas, mas de muitas das correntes que atrasam o nosso caminhar, o nosso evoluir constante.
Em todas as batalhas fictícias ou não, épicas ou não, sempre nos deparamos com a figura dos guerreiros, estejam eles a serviço do bem ou do mal, não há conflito entre rivais sem a figura desses bravos. Ainda dentre esses é possível notar que sempre há os fortes, aqueles que encaram as dificuldades de frente, olho no olho. Esses sabem que, mesmo, às vezes, perdendo uma batalha, contudo não perderam a guerra, e, do intimo de seus corações, buscam forças para continuar lutando, sem fraquejar, nem desanimar.
Por outro lado, há aqueles que tem medo, que não arriscam, que se acovardam ante o menor sinal de maré revolta. Perdem uma batalha e desistem achando que aquela luta perdida era a guerra inteira.
Lembremos também que a atitude contagia. Em uma cena de uma antiga minissérie, exibida no Brasil pela Rede Globo de Televisão com o nome de V: A Batalha Final, a comandante dos terráqueos que travavam batalha com extraterrestres que invadiram a terra, confessava para alguém do seu staff que estava com medo de perder essa luta. O seu interlocutor, porém, lhe advertiu que ela, pela posição que ocupava, poderia até sentir medo, mas não deveria demonstrar esse medo, ao contrário, deveria sempre, diante de seus comandados, demonstrar coragem e altivez.  Ela seguiu o conselho e os terráqueos sagraram-se vencedores daquela contenda.
Isso demonstra que a atitude de um bom comandante, de uma boa comandante um bom capitão, ou boa capitã, seja em um exercito, seja nas profissões liberais, seja no recesso do lar, pode não determinar a vitória, mas é fundamental para que ela ocorra. Ninguém vence batalha com atitude derrotista, mas sim com o brio, a coragem, e a determinação própria dos vencedores.
Falando em guerras e batalhas, essas últimas continuam a todo vapor nos verdes gramados dos estádios russos, país no qual ocorre os jogos da Copa do Mundo 2018. E elas tem sido de tirar o folego.
No atual planeta futebol, recheado de astros e constelações, favoritismo é uma palavra que anda em escassez. Antigamente, em tempos remotos, essa palavra pode até ter tido força para confirmar e consagrar campeões, mas com a nova estrutura e o novo desenho do futebol mundial as coisas mudaram bastante.
Nessa Copa de resultados imprevisíveis, os favoritos, um a um, foram fazendo as suas malas e retornando para seus países ou clubes de origem.
As grandes estrelas do mundo do futebol; o egípcio Mohamed Salah, o argentino Leonel Messi, o português Cristiano Ronaldo, o brasileiro Neymar Junior não conseguiram o objetivo principal a que se propuseram nesse torneio. Isso sem falar da constelação alemã que, vitoriosa na última copa, dessa vez voltou para casa bem mais cedo.
Sem dúvida, esses craques tem o seu valor e o seu talento e nem que quiséssemos poderíamos lhes tirar o mérito e muito menos a fama e a admiração que provocam em milhões de seguidores. Apesar de terem sido derrotados nos campos na Rússia e de não terem feito fulgurar seu brilho nos estádios daquele país, eles seguem craques e soberanos. Apenas lembrando que cada rei tem o seu período para sustentar cetro e coroa e que a sucessão é inevitável. Pode demorar alguns anos, mas outros reis e novas estrelas surgirão em algum momento da história. Dizem que o francês Kylian Mbappé é candidato à coroa, mas isso só os próximos jogos e, principalmente, o tempo dirão.
Todo esses resultados na Copa da Rússia e que nos deixam de queixo caído apenas mostram que, no futebol, o que determina a vitória é o coletivo. Um jogador apenas por ter nome e fama não é capaz de levar sua seleção a levantar, em um campeonato tão importante como a Copa do Mundo, a taça de campeão, de melhor do mundo.
Eles podem até jogar bem em suas equipes de base, pois estão juntos e rodeados de atletas do mesmo nível e com os quais tem um trabalho e uma interação, entretanto, em suas seleções de origem não possuem o mesmo rendimento, pois nem todos tem o mesmo talento, e, com esse novo desenho do futebol moderno em que cada jogador desenvolve seu trabalho em clubes diferentes, com filosofias de trabalho e metodologias diferentes, o tempo que lhes resta para fazerem um trabalho bem coordenado junto com seus patrícios acabam sendo muito pouco.
Tudo isso que temos visto nesta Copa, pode ser muito bem resumido pelas palavras do jornalista e escritor, Nirlando Ribeiro. Ainda por ocasião da Copa de 2014, ele escreveu o artigo, Jogar mal e vencer: a síndrome do campeão. Nesse artigo — falando do jogo de estreia em que o Brasil, seleção anfitriã jogou contra a Croácia, e venceu pelo placar de 3x1 — ele escreve: “O futebol não combina com a justiça dos homens. Derrotas e vitórias resultam de fatores aleatórios como os lances de dados de um jogo de azar. Já que esporte coletivo, alguma lógica se impõe na soma dos talentos individuais e no esmero da preparação do conjunto. Tudo bem: a solidez de certas equipes, a tradição vencedora, a força intimidatória da torcida presumem a existência de favoritos e azarões. Mas a surpresa espreita, a cada passe, a cada chute, a cada cabeçada, a cada escanteio e, é o que se vê, a cada apito. Esta é a graça da coisa. No futebol, o erro determina mais do que o acerto”.
Talvez essa tenha sido a Copa no qual as surpresas estiveram mais serelepes, mais ativas, tão mais à espreita. Estamos a uma semana da grande final e elas ainda podem nos surpreender ainda mais. É como diz Galvão Bueno, narrador esportivo: Haja coração!
E assim chegamos ao Brasil.
Ah, Brasil!
Estás atualmente em teu Calvário, à semelhança do homem de Nazaré. Os escribas e fariseus da política e alguns do empresariado te chicoteiam, te cospem na face, te humilham. Colocam uma coroa de espinho na tua cabeça, e te pregam na cruz. Agonizas, como agonizava o nazareno. Porém, como ele, ressuscitarás glorioso, algum dia. Não precisa nem ser ao terceiro dia, à exemplo dele, mas basta que ressuscites.
Isso é tudo o que esperam os teus amados filhos e diletos discípulos.
Talvez por que nos campeonatos mais sérios, desses que tratam de vida humanas e da qualidade delas, como por exemplo, educação e segurança, amargamos os últimos lugares, e faz tempo que nesses torneios não levantamos a taça de melhor do mundo é isso que talvez explique a nossa fome de títulos em um campeonato de futebol.
E mais uma Copa do Mundo e o hexa não veio. As praças do Brasil, cheias de milhares de pessoas de todas as idades, raças, e cores, silenciaram ante o segundo gol que garantiu a classificação da Bélgica para as semifinais. É futebol. É jogo de resultado. Ganha quem faz mais gols, quem está mais preparado e quem sabe melhor fazer da sorte sua parceira na disputa. E os belgas foram melhores nessa partida... E seguem na briga pelo título.
À seleção brasileira, restou arrumar as malas... E voltar para casa. Os jogadores de nossa seleção desembarcaram no Aeroporto Internacional do Rio, juntamente com o técnico Tite, sete jogadores, e a comissão técnica. Apenas pouco mais de meia dúzia de torcedores os esperavam no aeroporto. Uma chegada melancólica, como melancólicos ficaram os fãs do futebol após a derrota para equipe belga. O hexa não veio para nós dos gramados russos. Virá para alguém, com certeza. Pois no futebol, como nas grandes ou pequenas batalhas, quando um perde o outro ganha.
De qualquer modo, o Tite merece os parabéns, pois sem ele no comando talvez a seleção brasileira nem tivesse ido ao mundial na Rússia de tão ruim que estava a coisa. Os jogadores também merecem os parabéns. Jogaram um pouquinho melhor do na Copa de 2014, jogando em casa, quando pareciam estar mais era jogando pelada em um campo qualquer.
Creio que eles agora eles tenham entendido que um campeonato no qual se decide o melhor do mundo, é preciso mais garra, mais empenho, mais dedicação. Que alguns jogadores amadureçam e parem de cair a cada encostada do jogador do time rival, ou seria melhor que caíssem de vez? Caíssem de vez na realidade de que são atletas excelentes e que podem muito mais do que o futebol que apresentam.
É isso. O que resta agora é aguardar a próxima Copa, daqui a quatro anos. Provavelmente, o vencedor deste campeonato seja alguém já vencedor nas áreas de economia, educação, saúde, segurança, arte, e cultura. O título no futebol será apenas a cereja do bolo. Quisera Deus que o título no esporte fosse também para nós apenas a cereja do bolo, porém, mesmo que ganhássemos esse campeonato e fossemos hexa campeões tudo continuaria igual por aqui, com o país descendo ladeira abaixo.
Mas, como os discípulos do mestre Jesus, não desanimemos. E que, com todas as dificuldades que se nos apresentam enquanto nação possamos dizer como o apóstolo Paulo, falando de suas dificuldades pessoais na pregação do evangelho: “Quando eu me sinto fraco aí é que sou forte”. E que possamos, ainda a exemplo do homem de Nazaré, olhar para aqueles que chicoteiam, esbofeteiam, e humilham nossa pátria, e dizer: “Pai, perdoa-lhes porque eles não sabem o que fazem”.

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