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Pátria minha

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:58
Segunda-feira, 30 de julho
No tabuleiro da baiana tem

Vatapá, oi
Caruru
Mungunzá
Tem umbu
Pra ioiô
Se eu pedir você me dá
O seu coração
Seu amor de Iaiá
(No Tabuleiro Da Baiana – Ary Barroso)



 Afasto as cortinas da janela e olho para o horizonte que se descortina sobre as cidades e os montes de minha pátria.  O vento brando que acaricia minha face é a própria expressão da liberdade.
Em um passado distante essa terra já foi coberta por escravos, africanos e afro-brasileiros que derramavam seu suor, seu sangue e suas lágrimas para enriquecer a coroa portuguesa e os coronéis, que aqui reinavam, imperativa e impiedosamente, de norte a sul, e de leste a oeste, na nova terra recém-descoberta.
Hoje, diz-se do Brasil que é uma terra de homens livres. Reflito um instante... Homens livres pelo direito de ir e vir? Mas será que desfrutamos desse direito básico e fundamental a todo mortal?
Se os jovens da periferia vão aos shoppings e eles são mais de um, então é rolezinho, é bandidagem entrando na área dos bacanas. Nas favelas, o governo não chega. Chegam as milícias e o tráfico de drogas, que ali são a lei e a ordem numa completa inversão de papeis que ultrajam os princípios democráticos.
Se for homem do asfalto ele também tem que andar pelas ruas da própria cidade, receoso. Tem que colocar uma parafernália de equipamentos de segurança nos condomínios fechados onde vivem. Também eles não podem circular livremente por esta ou aquela área da cidade.
Então, ò senhora liberdade onde estás?
As vozes do passado sopram em meus ouvidos e dizem que o homem recebe a paga pelo seu trabalho em dinheiro, e não mais em chicotadas como nos tempos antigos. Mas estes, até mesmo estes, que trabalham de sol a sol podem dar vidas dignas aos seus filhos e netos? Ora, pois como podem se dar a este luxo se o parco salário que recebem dá apenas, e muito mal, para suprir-lhe do básico e do necessário para sobreviver?
Sobra-nos a liberdade de pensar. Ah, mas como são poucos os que pensam por si próprios. A grande maioria ainda se comporta como massa de manobra nas mãos dos mesmos coronéis de antigamente, perpetuados na figura dos seus filhos, bisnetos e tataranetos, que hoje usam terno e gravata, tendo muitos deles enveredado pelo mundo da política. Homens esses que continuam ainda, de outros modos, a praticar o chamado “voto de cabresto”.
Uma rápida consulta online as páginas da enciclopédia eletrônica Wikipédia vai nos dizer que voto de cabresto é “um sistema de controle de poder político através da compra de votos com a utilização da máquina pública ou o abuso de poder. É um mecanismo muito recorrente no interior do Brasil como característica do coronelismo.”
Porém, quem pensa que o voto de cabresto praticado no passado nas fazendas espalhadas pelo Brasil afora morreu, está enganado. Ele apenas adquiriu novas roupagens, novos modos de existir. E quem disse que hoje ele se limita apenas ao interior do Brasil? É bom ficar de olhos abertos, pois se, no passado, os coronéis compravam votos, hoje eles comprar consciências. E a consciência de cidadania que se vende, não vale nada. É uma consciência ordinária.
Certa vez, aquele homem sábio, que viveu há dois mil anos atrás e que muitos ensinamentos nos deixou, aquele homem que se tornou conhecido como Jesus Cristo, ele disse aos seus discípulos: “Ninguém põe um remendo de pano novo numa veste velha, porque arrancaria uma parte da veste e o rasgão ficaria pior. Não se coloca tampouco vinho novo em odres velhos; do contrário, os odres se rompem, o vinho se derrama e os odres se perdem. Coloca-se, porém, o vinho novo em odres novos, e assim tanto um como outro se conservam”.
Ora, pois o que temos feito na política brasileira desde sempre não é, justamente, colocar remendo de pano novo em roupa velha e vinho novo em odres velhos? Fazendo isso, o resultado sempre ruim, será sempre negativo. Nunca obteremos os resultados que esperamos em relação ao futuro do Brasil e o que se espera dele como prática se continuarmos agindo assim.
Caminhamos, a passos largos, para mais uma eleição e o que vemos a se apresentar para nós como candidatos? Não lhe parece um cheiro de coisa velha, peças de museu? Algumas delas, além de museus, nos remetem a lembranças de porões, de torturas, e de sofrimentos da época da ditadura.
Onde está minha pátria, a renovação de teus quadros políticos que venham soprar sobre nós os ventos da esperança, da bonança, da paz e da prosperidade? Em qual canto do país estarão escondidas estas novas consciências? Ainda estarão por nascer?
Enquanto essa renovação não vier, seremos como carros na estrada ao qual trocamos apenas as rodas e o capô, enquanto que o motor permanece sempre velho e roto, fazendo com que a viagem seja sempre cheia de altos e baixos, e nunca uma viagem tranqüila e confortável.
Diz a letra do Hino Pátrio: “Ó pátria amada, Idolatrada, Salve! Salve!”
Mas pátria, o que? Quem és?
Recuso-me a te definir apenas com o conceito frio dos dicionários que dizem que és o “país em que se nasceu, e o qual se pertence como cidadão”. Não, minha pátria, és muito mais que isso. Eu e tu somos um. Se tu és a raiz, sou tua árvore. Se tu és arvore, sou teus frutos. Se tu és rosa, sou teu perfume.
Não és perfeita, como gostaria que fosses, sem problemas, sem o mar de corrupção que te tomou. Mas, mesmo com todos os defeitos, és o chão no qual meus pés pisaram pela primeira vez, foi o ar de tua terra que encheu e revigorou meus pulmões me trazendo o sopro da vida, quando eu, tenro ser, saí do ventre de minha mãe.
Fico a imaginar como é estar longe de ti, e ficar a te olhar, como um viajante espacial olha de lá alto a Terra aqui embaixo. Quanta vontade de ganhar asas velozes e de ir até onde estás, te sentir, te abraçar, te chamar apenas e carinhosamente de minha pátria.
Ah, quão bem expressou essa saudade de ti o poeta, Gonçalves Dias, quando escreveu os versos de Canção do Exílio, poesia na qual diz:
Canção do Exílio
Gonçalves Dias

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
...
Se o céu está cinzento, oh, brasileiros, e brasileiras, não desanimeis! Um dia o vosso país cumprirá o seu destino de ser uma terra onde corre e leite mel. Leite e mel já existem correndo em vosso solo em abundancia, basta apenas que esses recursos sejam bem explorados, aproveitados, e, importante detalhe, bem distribuído por entre a população carente de recursos e de sonhos.
Para terminar esta reflexão, ou para continuares refletindo naquela terra que te pariu, e de quem és filho amado, deixo-te esta reflexão em forma de poesia, escrita pelo grande poeta, Vinicius de Moraes. Com vocês, Pátria Minha, Vinicius de Moraes.

***
Vinicius de Moraes

Pátria Minha
Vinicius de Moraes


A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.

Se me perguntarem o que é a minha pátria, direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.

Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos...
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias, pátria minha
Tão pobrinha!

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação e o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!

Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.

Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu...

Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda...
Não tardo!

Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.

Pátria minha... A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamen
Que um dia traduzi num exame escrito:
"Liberta que serás também"
E repito!

Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão...
Que vontade me vem de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.

Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.

Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
"Pátria minha, saudades de quem te ama…
Vinicius de Moraes."

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