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Os Pôncio Pilatos da cena política

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:54
Terça-feira, 26 de junho


 O caro leitor, ou leitora, já deve ter ouvido, ou até mesmo feito uso dessa expressão popular: Lavo minhas mãos. Ela é muito usada por aqueles que desejam isentar-se de uma responsabilidade, em outras palavras, omitir-se.
    A conhecida expressão popular tão usada por muitos, surgiu em um momento crucial na vida de um personagem imensamente popular na história da humanidade: Jesus Cristo, e funcionou como região fronteiriça entre a liberdade e a condenação de um homem justo à morte na cruz. Sendo que a morte na cruz era usada na antiguidade para condenar àqueles que haviam cometido faltas graves.
    Apesar de este não ser este um antigo que discorra sobre religião, permita o leitor, que se faça nele um breve mergulho neste momento tão importante da história cristã.
   Nos longínquos dias em que se sucederam os fatos referentes à paixão, morte, e ressurreição de Cristo a popularidade deste personagem, vinha crescendo vertiginosamente e isso estava incomodando bastante os líderes religiosos daquela época. Aliado a isso, os milagres que o mestre Jesus fazia e, principalmente, as coisas que ele dizia, eram motivo de preocupação para os líderes religiosos, uma vez que os ensinamentos e as ações de Cristo poderiam, por sua vez, inibir os ensinamentos, as ações, e, principalmente, as influências exercidas por eles, junto à população.
   Por tudo isso, os opositores de Cristo, procuraram — como se procura agulha no palheiro — um motivo para tirá-lo da cena, e, enfim, conseguiram.
   Era época de Páscoa e Jesus havia sido preso. Agora ele estava no Palácio de Pâncio Pilatos, governador da Judéia, e por este era interrogado. Também, preso e condenado, estava um fora da lei muito conhecido, chamado Barrabás.  Era costume, por ocasião de Páscoa, o governador soltar um preso à pedido dos chefes dos sacerdotes.
   Entre um inocente e um fora da lei, eles escolheram ser benévolos para com o fora da lei.
   Já naquela época os interesses pessoais e políticos falavam muito mais alto que o senso de justiça. Pilatos, então, não querendo manchar sua reputação perante aos chefes dos sacerdotes e principalmente, junto ao imperador de Roma, Tibério César, colocou sua carreira política acima daquilo que se espera de um governante justo.
   Dessa forma, querendo evitar problemas, para sua administração, mesmo sabendo que estava diante de um inocente, pediu que lhe trouxessem uma bacia com água e, lavando as mãos disse: “Estou inocente do sangue deste justo. Lavo minhas mãos. Fique o caso convosco“, entregando, em seguida, Jesus para ser martirizado.
   E assim, mesmo sabendo que condenava um inocente, Pilatos entregou Jesus aos seus algozes para que o chicoteassem, zombassem, cuspiam-lhe na face, e o crucificassem.
Já faz algum tempo que o eleitor brasileiro mostra tendências de que pode adquirir o mal de Pôncio Pilatos, qual seja: uma tendência em omitir-se, lavar as mãos. Esse fato aconteceu mais uma vez neste domingo (24) no estado do Tocantins. Naquele estado, foram realizadas eleições fora de época para governador. Realizada em duas etapas, a disputa levou para o segundo turno os candidatos Mauro Carlese (PHS) e Vicentinho (PR). Na eleição realizada no último domingo, Carlese levou a melhor, tendo sido eleito o novo governador do Tocantins.
No Tocantins aconteceu o seguinte. Em 2014 foram eleitos para o governo daquele estado, Marcelo Miranda (MDB), governador, e Claúdia Lelis (PV), vice-governadora. A chapa formada por eles foi eleita com mais de 360 mil votos. Entretanto, em 22 de março deste ano, o TSE (Tribunal Superior Eleitoral), chegou à conclusão de que a chapa havia sido eleita a partir de doações ilegais para a campanha eleitoral dos dois candidatos em 2014. Em consequência disso, os dois tiveram os mandatos cassados.
O TSE exigiu ainda que os dois deixassem os cargos imediatamente, e convocou novas eleições com primeiro turno realizado no último 03 de junho. Interinamente, assumiu o cargo o presidente da Assembleia Legislativa, Mauro Carlese (PHS).
Carlese seguiu no governo interino até 06 de abril devido ao fato de o “bondoso” ministro do STF, Gilmar Mendes, ter acolhido petição apresentada pelos advogados de Marcelo e Claúdia e, em decisão liminar, ter suspendido a   decisão do STF, proferida em março. Enquanto os recursos eram julgados os dois ocupantes do cargo voltaram ao poder, tendo Carlese que sair do cargo.
Em 17 de abril, o TSE negou os recursos apresentados pelos advogados de defesa do governador e da vice-governadora, decidindo manter a cassação da candidatura dos dois. Além disso, suspendeu a ordem temporária dada por Gilmar Mendes. Também foi confirmada a data das eleições para o dia 03 de junho.
Fechando a questão sobre quem ficaria no comando político do estado, Mauro Carlese foi eleito governador com 368.553 (75,14% dos votos válidos). O outro candidato, Vicentinho, obteve 121.908 votos (24,86% dos votos validos).
O que chamou a atenção, entretanto, foi a quantidade de eleitores do estado do Tocantins que lavaram as mãos na eleições deste dia 24 de junho. 51,83% dos eleitores, simplesmente, não escolheu nenhum candidato em segundo turno.  
Se esses eleitores fossem, de fato, um candidato ao governo teriam vencido Carlese e Vicentinho, pois a soma dos votos brancos, nulos, e abstenções somou o total de 527.868, enquanto que a soma dos votos conquistados pelos dois candidatos que concorreram ao pleito foi de 490.461. No primeiro turno, quase a metade dos eleitores não havia votado em nenhum candidato.
Além do Tocantins, outros 7 outros municípios voltaram às urnas no domingo para escolher novos prefeitos pelo mesmo fato que motivou a eleição fora de época no Tocantins: os vencedores das eleições municipais de 2016 tiveram seus mandatos cassados pela Justiça Eleitoral. Os 7 municípios a realizarem eleições suplementares para prefeito e vice-prefeito foram: Em Minas Gerais; Santa Luzia, Itanhomi, e Timóteo. No Rio de Janeiro; Cabo Frio e Rio das Ostras. Outros dois municípios foram: Moju, no Pará, e Santa Cruz das Palmeiras, em São Paulo.
Esse fato preocupante, que é a omissão dos eleitores, já havia sido notado nas eleições suplementares para governador e vice-governador no Amazonas em 2017, quando quase 50% dos eleitores de lá não compareceram, no segundo turno, para escolherem algum candidato.
Nas eleições municipais para prefeito em 2016, o número de abstenções, votos brancos e nulos superaram os votos dos candidatos eleitos em cidades como Rio de Janeiro, Belo Horizonte, e Porto Alegre.
Nas eleições presidenciais de 2014, o eleitor já dava sinais de que seguiria essa tendência de lavar as mãos. Naquele ano, o número de eleitores que não escolheu nenhum candidato chegou a 27,7% dos votos.
Será que o que aconteceu no Tocantins no domingo passado é uma previa do que acontecerá nas eleições de outubro? Será mais um recado dos eleitores para os candidatos e partidos que fingem em não entender o que se passa na cabeça do eleitor?
Adianta alguma coisa o lavar as mãos? Omitir-se?
É certo que, diante de tantos escândalos e assaltos aos cofres públicos, é grande o desanimo do eleitorado brasileiro com a classe política, mas adianta alguma coisa cruzar os braços e fingir que nada acontece? Ou que se fingir de estatua irá resolver os graves problemas que o país atravessa?
Triste o país em que a escolha de seus representantes se dá pelo menos pior. Entre dois, escolher aquele que é menos ruim. Tem sido assim no Brasil. Porém aquele que se abstém, ao contrário do que ele mesmo pensa, também está se posicionando politicamente da pior forma possível. Pode ser, por intermédio de seu desinteresse, seja eleito o pior e não o menos o ruim, e isso, será péssimo para todos.
Fazer-se de Pôncio Pilatos e lavar as mãos é perigoso, pois enquanto o eleitor se omite, cruza os braços, finge não participar do processo político, os chefes dos sacerdotes modernos do mundo político continuam a incitar a condenação de muitos inocentes Brasil afora à morrer na cruz do abandono e do sofrimento, enquanto eles, chefes dos sacerdotes modernos se fartam em banquetes de corrupção e se alimentam de suas práticas desumanas, corruptas e miseráveis.

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