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Devaneios e realidades de um brasileiro

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:19
Terça-feira, 17 de julho




Tarde de domingo. 15 de julho de 2018
Das janelas do apartamento no 9º andar olho por sobre a cidade. Fogos explodem por todos os lados, de norte a sul, de leste a oeste. As buzinas dos carros soltam gritos estridentes de alegria, porém, não o suficiente para abafar o brado de vitória da multidão que desfila pelas ruas. Bandeiras brasileiras descem como cachoeira dos apartamentos em redor e bailam ao vento como treinadas bailarinas.
Os símbolos nacionais também desfilam nas ruas em camisas, bonés, shorts, bermudas. Fico pensando em quão bom seria se os símbolos pátrios fossem ostentados com orgulhos em tantas outras situações em que o patriotismo é exigido, mas não exercido pelos brasileiros.
Parece até que somos apenas o país do futebol. Isso é bom, mas queremos muito mais, queremos ser o país da educação, da saúde, da segurança, da arte, da cultura, e de todos os frutos bons que uma administração justa pode proporcionar.
Enfim, o país está em festa. Somos campões do mundo no futebol. Conquistamos mais um título.
Volto os olhos para dentro do apartamento e meus olhos fixam a tela mágica da televisão. Os franceses levantam a taça de melhores do mundo na Rússia. Fogos explodem nos céus franceses. Por lá também carros buzinam de alegria e pessoas soltam brados de vitória.
Isso é o suficiente para me tirar dos meus devaneios e me trazer de volta a realidade: na Rússia, o Brasil caiu ainda nas quartas de final.
Não estamos em 1994, quando o Brasil conquistou o tetracampeonato nos Estados Unidos da América, em 17 de julho, no estádio Rose Bowl, na cidade de Pasadena. Há quanto tempo mesmo isso aconteceu? Vinte quatro anos! Exatos vinte e quatro anos.

Depois veio o mundial do Japão, em 2002, e o Brasil colocou a quinta estrela na camisa. Fomos pentacampeões naquele ano. Ficamos com sede da sexta estrela, mas o hexacampeonato ainda não veio para nós da Rússia. Paciência, esperemos mais quatro anos. Em 2022, no Catar, quem sabe?
Temos cinco títulos no futebol, é verdade. Ninguém tira esse título da seleção brasileira. Entretanto, de lá para cá o Brasil parece ter entrado em declínio, também no futebol. O país continua fabricando craques, mas eles não ficam aqui. Seguindo uma tendência mundial os melhores jogadores são pescados pelos times europeus e viram totens sagrados que rendem milhões de dólares aos clubes e aos atletas.
O país poderia ser ainda muito mais pródigo no fabrico de craques se desenvolvesse estruturas que possibilitassem que crianças e jovens das classes menos privilegiadas como as que moram nas favelas e em outros bolsões de pobreza pelo país afora ousem sonhar com um futuro no esporte, coisa que, certamente, os afastaria da marginalidade e da sedução oferecida pelo tráfico de drogas.
Dentre os craques que participaram do mundo na Rússia, certamente, o que saiu de lá com a imagem mais arranhada foi Neymar. Quantos memes na Internet! Quantas piadas se fizeram em relação a mania do craque cair em cada encostada do adversário! Um jogador de fama internacional só pode ser alvo de piadas de nível internacional, e elas foram feitas em todos os cantos de mundo.
Isso aconteceu durante uma partida no famoso torneio de tênis de Wimbledon, na qual, durante uma partida de duplas, o tenista sueco Jonas Björkman, ao levar uma bolada nas costas, imita as simulações de Neymar. Uma rede de fast-food na África do Sul fez uma propaganda de seus produtos imitando as simulações de faltas do craque brasileiro. A atuação do atleta também foi alvo de críticas também por parte de técnicos, jogadores, ex-jogadores, e da mídia internacional. As críticas a Neymar já vem acontecendo faz tempo, tendo como auge a atuação dele nos gramados russos.
A mídia brasileira também criticou o jogador, porém com parcimônia, principalmente a Rede Globo, que foi detentora dos direitos de transmissão do mundial. Quanto a CBF, a entidade blinda o jogador.
Neymar é um grande craque? Sem dúvida que é. Tem um grande potencial? Sim, isso é indiscutível. Entretanto, precisa amadurecer, entender que precisa ser diferente, e caminhar no sentido de que, querendo levar vantagem em tudo, usando de artimanhas e malandragens, acaba-se perdendo muito mais. De tanto simular faltas, quando ele as sofre de verdade ninguém acredita, como acontece em um conto presente nas fábulas de Esopo e dos Irmãos Grim, chamada O Pastor e o Lobo, citada abaixo:
O Pastor e o Lobo
— Um pastor de ovelhas achava a vida muito monótona. Por isso, inventava de tudo para se distrair. A sua diversão favorita era fingir que estava em apuros.
— Um lobo! Socorro! Socorro! —Costumava gritar aos quatro ventos.
Quando as pessoas do povoado vinham em seu socorro, encontravam-no perfeitamente seguro, rindo a valer.
Um dia apareceu um lobo de verdade na frente do pastor. Desesperado, ele começou a gritar como sempre fazia:
— Um lobo! Socorro! Socorro!
Desta vez ninguém veio socorrê-lo, e o pastor teve de se esconder em cima de uma moita de espinhos, enquanto o lobo devorava todas as suas ovelhas.
Moral: Quando os mentirosos falam a verdade, ninguém acredita.
Ainda sobre esse assunto: craques do nível de Leonel Messi, Cristiano Ronaldo, e Mohamed Salah, voltaram para casa mais cedo, sofreram críticas, é verdade, mas não saíram da Rússia com a imagem arranhada, pois o público viu que eles se portaram, dentro daquilo a que se propuseram, com seriedade. O que se espera de nosso craque Neymar é um pouco mais de maturidade e profissionalismo.
Vale a pena destacar também que a mídia nacional precisa parar de paparicar o Neymar, talvez assim ele sinta que precisa evoluir no seu estilo e nas suas concepções do que seja ser um bom atleta. Já por duas vezes a mídia depositou a sua confiança e apostou todas as suas fichas no craque, e nas duas vezes o retorno foi pífio. Na Copa de 2014, no Brasil, a fatalidade da joelhada do colombiano Zúñiga, tirou o brasileiro da disputa. Dessa vez, na Rússia, Neymar voltava recuperado de uma fratura no quinto metatarso do pé direito e saiu do mundial com o apelido de jogador cai-cai.
A 21ª edição da Copa do Mundo, realizada na Rússia foi um sucesso. O mundo invadiu o país dos czares e o povo russo amou essa invasão de cores, de sons, de folia, e de muito futebol.
Foi um campeonato cheio de surpresas. A começar pela seleção anfitriã que chegou ao mundial desacreditada. Um dos comentaristas da Globo chegou a dizer em sua análise que o jogo de abertura da Copa de 2018 seria um dos piores de toda a competição, e o que se viu foi um jogo em que os russos partiram para o ataque e cravaram um placar de 5X1 em cima da Arábia Saudita. E a Rússia seguiu valente até as quartas de final quando caiu, bravamente, diante da Croácia que venceu a partida após um grande jogo que acabou nas cobranças de pênaltis.
Seleções de quem se esperava muito acabaram indo embora mais cedo como por exemplo, Alemanha, Argentina, Espanha e Brasil.
Ficou para o final, como não poderia deixar de ser o grande duelo entre Croácia e França na qual venceu o profissionalismo e a técnica da equipe da França. Da parte dos Croatas, também houve profissionalismo e competência, mas a sorte esteve do lado dos franceses. No futebol tem dessas coisas: uma pitada de sorte acaba decidindo o campeão.
Por tudo isso nos ficou a certeza de que o planeta futebol é o reino do imprevisível. Poderíamos até dizer que é um jogo de xadrez no qual as peças se reordenam a cada jogada independentemente da vontade dos jogadores.
Tiro os olhos um pouco das imagens da cerimônia de premiação e volto-os novamente para a cidade através da janela do apartamento e vejo um Brasil no qual os habitantes podem andar pelas ruas a qualquer hora do dia ou da noite em perfeita segurança. Uma cidade onde as pessoas não precisam colocar grades e câmeras de vigilâncias em suas residências com medo de assaltos.
No país que vejo também jorram grandes investimentos na área da educação e da saúde. Há também excelentes projetos de incentivo ao esporte, pois os governos entendem que educação, cultura e esporte são a gasolina que moverão as crianças e adolescentes rumo a um futuro digno no qual atletas e cientistas ganharão medalhas de ouro que enaltecerão a pátria Brasil.
Volto os olhos novamente para a televisão e as imagens me dizem que, dessa vez, não são apenas devaneios, mas uma realidade dura a ser encarada e possível de ser mudada. Fico com a sensação de que, se quisermos, podemos fazer diferente e transformar devaneios em realidade.

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