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Uma vida que se mistura com águas e com elas se faz eterna

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 01:05
Sexta-feira, 16 de setembro


Na minha postagem de hoje, compartilho um texto de Plínio Marcos, intitulado, O ator. Plínio Marcos, principalmente, à época do regime militar escreveu várias peças de teatro. Além de escritor, também atuou como diretor e jornalista. A postagem e o texto compartilhado, são, na verdade, uma homenagem ao ator Domingos Montagner, que morreu afogado nas águas do São Francisco, que servia de cenário e ambiente para o personagem que viva na novela do horário das nove, na Globo, chamada Velho Chico, que, por sinal, está nos últimos capítulos. O ator foi tragado pela força das águas na tarde de ontem, quinta-feira (15).

Pense nas coisas da seguinte forma: A vida é uma novela da qual Deus é o autor e diretor. Nós somos os atores vivenciando dramas, alegrias e tristezas, choros, risos e lágrimas. Todos os dias quando acordamos, é como se o autor dissesse: “gravando”... E lá vamos para o set de filmagens que são os nossos afazeres diários.  Como toda novela, um dia gravaremos o último capítulo dela.

Para nossa tristeza, e para alegria do mundo espiritual, o último capítulo da novela da vida de Domingos, chegou ao fim na tarde de ontem, em um momento de lazer. Após o termino das filmagens na parte da manhã, o ator almoçou, e, logo após, junto com a Camila Pitanga, seu par romântico na novela, foram mergulhar num trecho perigoso do rio São Francisco, no qual a correnteza é forte. Camila ainda tentou salvá-lo, porém a força das águas foi mais forte.

***

Domingos Montagner

O ator

Plínio Marcos

Por mais que as cruentas e inglórias batalhas do cotidiano tornem um homem duro ou cínico o suficiente para ele permanecer indiferente às desgraças ou alegrias coletivas, sempre haverá no seu coração, por minúsculo que seja, um recanto suave onde ele guarda ecos dos sons de algum momento de amor que viveu na sua vida.

Bendito seja quem souber dirigir-se a esse homem que se deixou endurecer, de forma a atingi-lo no pequeno núcleo macio de sua sensibilidade e por aí despertá-lo, tirá-lo da apatia, essa grotesca forma de autodestruição a que por desencanto ou medo se sujeita, e inquietá-lo e comovê-lo para as lutas comuns da libertação.

Os atores têm esse dom. Eles têm o talento de atingir as pessoas nos pontos onde não existem defesas. Os atores, eles, e não os diretores e autores, têm esse dom. Por isso o artista do teatro é o ator.

O público vai ao teatro por causa dos atores. O autor de teatro é bom na medida em que escreve peças que dão margem a grandes interpretações dos atores. Mas o ator tem que se conscientizar de que é um cristo da humanidade e que seu talento é muito mais uma condenação do que uma dádiva. O ator tem que saber que, para ser um ator de verdade, vai ter que fazer mil e uma renúncias, mil e um sacrifícios. É preciso que o ator tenha muita coragem, muita humildade e, sobretudo um transbordamento de amor fraterno para abdicar da própria personalidade em favor da personalidade de sua personagem, com a única finalidade de fazer a sociedade entender que o ser humano não tem instintos e sensibilidade padronizados, como os hipócritas com seus códigos de ética pretendem.

Eu amo os atores nas suas alucinantes variações de humor, nas suas crises de euforia ou depressão. Amo o ator no desespero de sua insegurança, quando ele, como viajor solitário, sem a bússola da fé ou da ideologia, é obrigado a vagar pelos labirintos de sua mente, procurando no seu mais secreto íntimo afinidades com as distorções de caráter que seu personagem tem. E amo muito mais o ator quando, depois de tantos martírios, surge no palco com segurança, emprestando seu corpo, sua voz, sua alma, sua sensibilidade para expor sem nenhuma reserva toda a fragilidade do ser humano reprimido, violentado.

Eu amo o ator que se empresta inteiro para expor para a platéia os aleijões da alma humana, com a única finalidade de que seu público se compreenda, se fortaleça e caminhe no rumo de um mundo melhor que tem que ser construído pela harmonia e pelo amor. Eu amo os atores que sabem que a única recompensa que podem ter – não é o dinheiro, não são os aplausos – é a esperança de poder rir todos os risos e chorar todos os prantos. Eu amo os atores que sabem que no palco cada palavra e cada gesto são efêmeros e que nada registra nem documenta sua grandeza. Amo os atores e por eles amo o teatro e sei que é por eles que o teatro é eterno e que jamais será superado por qualquer arte que tenha que se valer da técnica mecânica.

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