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Moinhos de vento que giram sempre em torno de si mesmos

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:14
Domingo, 11 de setembro


Yes and how many years can a mountain exist
Before it's washed to the seas (sea)
Yes and how many years can some people exist
Before they're allowed to be free?
Yes and how many times can a man turn his head

“Sim, e quantos anos uma montanha pode existir
Antes que ela seja dissolvida pelo mar?
Sim, e quantos anos algumas pessoas podem existir
Até que lhes seja permitido ser livres?
Sim, e quantas vezes um homem pode virar sua cabeça
E fingir que ele simplesmente não vê?”
(Blowin' In The Wind – Bob Dylan)


O moinho de vento da política brasileira não é Maria-fumaça, mas segue a todo vapor e com toda a velocidade. Do jeito que ele gira e Maria fumaça corre, nosso medo é que a locomotiva se choque contra as rochas quebrando as pás do moinho.

Dilma foi demitida, deixou a cadeira presidencial e Temer sentou-se na tão sonhada cadeira, ainda que sem a legitimidade das urnas, e as coisas continuam tal e qual. Apenas os muito utópicos, ou muito iludidos, ou muito sem pensamento crítico, achavam que as coisas fossem ser diferentes.

Nas ruas, não se ouve mais o “Fora Dilma!”, em vez disso se ouve o “Fora Temer!” como veem mudou apenas a questão da semântica. O teatro é o mesmo.

O jornal El País Brasil, em reportagem publicada nesta sábado (10), destaca a prisão de um grupo de manifestantes que iria participar dos protestos contra Temer no domingo passado (3). O Trajeto do grupo foi acompanhado pelo helicóptero da Polícia Militar. Por volta das 3 e meia da tarde, o grupo estava sentado no chão, em frente ao prédio do Centro Cultural de São Paulo, esperando a chegada de outros manifestantes, quando chegaram cerca de 30 policiais, e mandaram o grupo encostar na grade. Sobre eles continuava sobrevoando o helicóptero da policia.

O grupo formado por homens e mulheres foi revistado, suas mochilas idem. Os celulares foram confiscados, e apenas um deles foi devolvido: o de Willian Pina Botelho, ou Balta Nunes como ele havia-se apresentado nas redes sociais. Botelho foi liberado, enquanto a fiscalização mais forte caiu em cima do restante do grupo. Após e episódio, os participantes apontaram Botelho como sendo um infiltrado, um espião, entre o grupo. Também se ficou sabendo que o homem é capitão do exército.

O grupo de manifestantes que, naquele momento era de 21, foi levado no ônibus da PM para o Deic (Departamento Estadual de Investigações Criminais). O grupo passou a noite preso lá. Às duas horas da tarde da segunda-feira, o grupo foi levado então para o Fórum Criminal da Barra Funda para a realização de uma audiência de custódia.

No Fórum, o juiz Paulo Rodrigo Tellini de Aguirre, analisou o caso, e decidiu que a prisão dos jovens havia sido ilegal. Nenhum dos manifestantes tinha passagem pela polícia, e todos ficaram bastante assustados com o fato. “O Brasil como Estado Democrático de Direito não pode legitimar a atuação policial de praticar verdadeira ‘prisão para averiguação’ sob o pretexto de que estudantes reunidos poderiam, eventualmente, praticar atos de violência e vandalismo em manifestação ideológica. Esse tempo, felizmente, já passou”, disse o juiz em sua decisão.

Dois pesos e duas medidas: não é assim que as coisas devem funcionar em uma democracia. Se houve liberdade para o povo protestar contra Dilma Rousseff, também deve haver espaço e liberdade para que o povo também se manifeste contra o atual governo Temer. Afinal, ninguém se manifesta à toa. Se alguém grita “Fora Dilma” ou Fora Temer”, ou “fora” quem que seja, é porque há uma pedra no sapato que incomoda. Se alguém tivesse a sabedoria de retirar essa pedra do sapato do cidadão, não seriam necessários gritos de “fora” esse ou aquele. Como, sabiamente, afirma o juiz, o tempo da ditadura já ficou nos museus do passado, e esperamos que de lá não saia nunca mais.

Outro fato que nos deixa com a “pulga atrás da orelha” é a demissão de Fábio Medina Osório, que ocupava o importante cargo de Advogado-Geral da União — cargo que confere ao seu ocupante o status de ministro de Estado. A demissão se deu após uma série de atritos de Medina com o governo. O ex-integrante do governo contou a revista Veja, coisas muito sérias, se devidamente comprovadas.

Disse ele à revista, que os atritos começaram há cerca de três meses, e o motivo foi o pedido feito por ele para que as empreiteiras envolvidas no criminoso desvio de dinheiro da Petrobrás, devolvesse aos cofres públicos, a quantia que de lá haviam tirado. Também era intenção de Medina, pedir que os políticos envolvidos no escândalo ressarcissem aos cofres públicos o prejuízo a eles causado.  

Fábio Medina vai mais além, e diz que o ministro chefe da Casa Civil, Elisei Padilha, deu-lhe ordens diretas para que a Advocacia Geral da União não se intrometesse nas investigações da Lava Jato, e que era melhor que o órgão ficasse de fora de tudo isto. Disse ele ainda, que solicitou informações sobre as investigações da Lava Jato ao Supremo Tribunal Federal, mas que essas informações nunca chegaram às suas mãos. Medina acusa a servidora da AGU, Grace Mendonça, responsável na época pela ponte entre a AGU e a Suprema Corte, de ter, propositadamente, atrasado a entrega do documento. Se isso faz algum sentido, Grace foi nomeada pelo governo para substituir Medina.

Medina afirma ao jornal O Globo que, por causa destes atritos, o ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, iniciou um processo de difamação contra ele. “Modernamente, quando se quer atacar uma autoridade que combate a corrupção, não se parte mais para a eliminação física, se parte para a destruição da reputação moral do indivíduo. Desde o primeiro momento, depois do ajuizamento da ação, se buscou uma desconstrução moral e da imagem, com falsas notícias a meu respeito. Citam que fiquei deslumbrado com o cargo, o sujeito surtou. Criaram um conjunto da obra falso”, disse ele ao referido jornal.

A Lava Jato deve ser um bicho-papão, e dos brabos. Lembremo-nos de que a intenção de sufocá-lo, detê-lo, asfixiá-lo, assassiná-lo, já vem desde os tempos da deposta presidente Dilma Rousseff e de seu padrinho político, Luís Inácio Lula da Silva, passando por ex-ministros do então governo interino, Michel Temer, e chegando ao presidente do Senado Renan Calheiros.

Segundo as leis que regem o processo de impeachment, Dilma Rousseff era para ter perdido os direitos políticos, tornando-se inelegível por oito anos. Mas quem saberá quais leis terão regido o fatiamento da votação do processo de impeachment, proporcionando a, agora, ex-presidente, Dilma Rousseff, a garantia de tais direitos? Que espúrios acordos terão rondado o Senado naqueles dias?

Enquanto isso, o tenebroso fantasma de Eduardo Cunha, continua mais vivo do que nunca... E dando mais trabalho do que se imaginava. Haverá alguma espécie de acordo com o governo para salvar o seu mandato? Quem saberá a resposta? Lembremo-nos de que o processo de impeachment só foi possível devido à ação de Eduardo Cunha, pois se ele tivesse engavetado o pedido de afastamento da presidente, ela continuaria hoje mais presidente do que nunca.

A sessão da Câmara que poderá cassar o mandato dele está marcada para o controverso dia da semana, segunda-feira (12). Entretanto, pela enésima vez, Cunha usa de manobras e artifícios, para impedir que essa sessão seja realizada. Ele recorreu ao Supremo Tribunal Federal, na sexta-feira (09), para contestar o julgamento que pode resultar na cassação de seu mandato. Ao invés disso, Cunha sugere um projeto de resolução que pode resultar em penas mais brandas, como por exemplo, uma suspensão de seis meses. O pedido de Cunha será apreciado pelo ministro do Supremo, Edison Fachin.

Segunda-feira é um dia complicado para se obter o máximo de votos para cassar o deputado. Os deputados comparecerão? Cunha será de fato cassado? Ou receberá como presente uma pena mais branda? Os deputados terão a coragem de enfrentar a nação brasileira de uma forma tão escancarada? Terão eles a coragem de trair o voto de confiança que lhes foi dado pelos eleitores? O governo Temer tentará abafar de qualquer maneira a Lava Jato, para que ele mesmo não seja apanhado pelo bicho-papão?


A resposta para tantas perguntas? Como diz a canção, Blowin' In The Wind, do genial Bob Dylan: “A resposta meu amigo, está voando no vento”.

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