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A serpente no paraíso da corrupção e suas maças envenenadas

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 23:05
Terça-feira, 10 de maio

A sua risada nervosa contamina o ambiente
Deram asas a cobra e a cobra voou,
E continua voando, espalhando seu veneno,
Agora chegou o teu momento,
Bicho peçonhento, tú vais me pagar...
(Lugar de cobra é no chão – Chico Buarque)



Pense muito bem antes de escolher as víboras como companhia, principalmente, se ela for uma jararaca. Esses espécimes não gostam de você. Elas simplesmente lhe usam enquanto você lhes é útil. Depois que elas percebem que sua companhia não lhes tem mais serventia, ou elas ou te ignoram, fingindo que nunca lhe conheceram, ou destilam contra você seu veneno mortal. 

Acho que essa é uma lição que, o agora ex-senador, Delcídio do Amaral, levará por toda a vida. No dia de hoje, terça-feira, 10 de maio, o Senado cassou o mandato do senador por 74 votos a favor e nenhum contra. Dos 81 senadores, 5 não estiveram presentes no plenário do senado para votar, inclusive o próprio Delcídio. O mandato do senador terminaria somente em 2018. Com a decisão de hoje, Delcídio fica inelegível por 11 anos.

Delcídio era líder do governo quando foi preso pela Polícia Federal, sob a acusação de oferecer 50 mil reais a família de Nestor Cerveró, ex-diretor da Petrobrás, para que ele não fechasse acordo de delação premiada com o Ministério Público Federal. É impensável que um líder de governo, qualquer governo, em qualquer lugar do mundo, tome uma decisão dessas sem que os seus superiores não tenham conhecimento do ato. E Delcídio falou em delação premiada, e ontem (09) insinuou no plenário do Senado que havia sido mandado a fazer o que fez. Ele insinuou isso no plenário quando fazia sua defesa, mas fora de lá, em frente às câmeras de TVs, ao ser perguntado quem o havia mandado obstruir a justiça, a fim de confundir a Operação Lava Jato, ele disse, claramente, sem subterfúgios, que os mandantes haviam sido Lula e Dilma.

Na conversa com Bernardo Cerveró, filho de Nestor Cerveró, Delcídio oferecia um plano de fuga para Nestor, e ainda dizia a Bernardo que iria conversar com juízes do Supremo para que eles fossem condescendentes com o ex-diretor da Petrobrás. O filho de Cerveró gravou a conversa e entregou à Polícia Federal.

Ora, se o subordinado é condenado pelos seus atos, não deveria, com mais justiça, também serem punidos que o mandou realizar tal ato ilícito?

Em delação premiada, Delcídio citou o nome de muitos políticos em destaque no cenário político, dentre eles, o ex-presidente, Lula, o presidente do Senado, Renan Calheiros, o senador Aécio Neves, e a própria presidente, Dilma Rousseff.

Logo após a prisão de Delcídio, o senado instaurou um processo de cassação contra ele por quebra de decoro parlamentar. Foram cinco meses que terminaram de forma melancólica para o ex-chefe de governo Dilma. Mais uma vez, Renan, teve bom senso, pois se Delcídio não tivesse sido cassado, ele poderia votar na sessão de amanhã (11), que pode autorizar a instauração do processo de impeachment de Dilma. Dentre tantos fatos estranhos e constrangedores que tem acontecido ultimamente, esse seria mais um.

Outro que estava no ninho das cobras, e mesmo assim, não sabia onde estava pisando, é o presidente interino da Câmara dos Deputados, Waldir Maranhão, que causou uma tremenda confusão ao anular as sessões da Câmara que decidiram pela admissibilidade do processo de impeachment e pediu que o processo fosse devolvido à Câmara. Renan, esperta e sabiamente ignorou a ridícula decisão de Waldir, e deu prosseguimento ao processo no Senado. Já era madrugada desta terça-feira (10), quando os noticiários destacavam que Waldir Maranhão havia revogado o próprio ato. Mas já era tarde demais. O deputado causou uma confusão imensa e vai pagar caro por isso. Ao mesmo tempo, ele atraiu a ira dos líderes de seu partido, o Partido Progressista, dos deputados que votaram a favor do impeachment, dos mercados, e da população brasileira. O deputado pode, inclusive, perder o mandato.

O que aconteceu com Waldir, foi semelhante ao episódio bíblico do livro do Gênesis, que narra a conhecida passagem da tentação de Eva pela serpente. A serpente — de novo ela — ofereceu uma maçã a Waldir e lhe prometeu tesouros imensuráveis e poder absoluto. O deputado se encantou com a maça, e com as promessas da serpente, e mordeu a fruta. Mal sabia ele que a maça estava envenenada. Outra lição a ser aprendida: Nunca aceite maças oferecidas por serpentes.

Em meio a essa canetada hiper controversa que espalhou tinta para todo lado, dado pelo deputado Waldir Maranhão, surgiu mais um fato curioso, que está bem longe de ser exceção no Brasil. Descobriu-se que o filho de Waldir Maranhão, Thiago, era funcionário fantasma do Tribunal de Contas do Estado do Maranhão (TCE-MA). O rapaz atua como médico em São Paulo, cidade na qual também faz pós-graduação na mesma área, mas recebia um gordo salário do Tribunal de Contas desde 2013. Com o escândalo envolvendo o pai, os holofotes recaíram também sobre o filho, e ele foi exonerado, tardiamente, diga-se de passagem, da função que ocupava no TCE.

São contra arbitrariedades como essas que devemos lutar. Acho que também deveria ser punida com a perda de função a pessoa que o contratou. Isso sim, teria um efeito inibidor, além de ser justo.

Amanhã todos os flashes e atenções estarão voltados para o Senado Federal, onde os senadores decidirão sim ou não pela admissibilidade do processo de impeachment de Dilma Rousseff. A sessão começa às nove da manhã e promete entrar pela noite. Para que o processo de impeachment seja admissível é necessário o voto da maioria simples dos senadores presentes, ou seja, metade mais um. Se o relatório da comissão processante for aprovado, o processo é oficialmente instaurado, a presidente é então afastada por 180 dias, até a conclusão do processo, e assume interinamente a presidência o vice-presidente, Michel Temer. Só esperamos não ter que ver no Senado o espetáculo deprimente de senadores votando pela tia, pelo tio, pelo sobrinho, pelo marido corrupto, pelo campeonato brasileiro, pelos craques da seleção, e blá-blá-blá.


É isso. O cenário político brasileiro atual é um vulcão em erupção. As larvas voam quentes e altas para todos os lados. Esperamos que esse insano e descontrolado vulcão não queime as esperanças de todos nós, brasileiros e brasileiras. 

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