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Um bicho-papão chamado Lava Jato

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 23:22
Segunda-feira, 23 de maio

Bicho-papão sai de cima do telhado
Deixa meu filhinho dormir sossegado
Sei que levei muito tempo
Pra compreender esse bicho papão
Que a senhora espantava
Comigo abraçado ao seu coração
(Bicho-papão – Composição: Rogério Cardoso
/Interpretação: Moacyr Franco)



Quem não já não ouviu falar do bicho-papão?

Quando era criança, meus pais, especialmente, minha mãe, gostava de invocá-lo. Quando eu pensava em cometer alguma pequena desobediência ela logo dizia “cuidado, o bicho-papão vai te pegar”. No meu psicológico de criança isso parecia surtir efeito, pois ao ouvir isso, eu ficava bem quietinho. Eu é que não ia desafiar um bicho que eu nunca tinha visto, mas que diziam que era terrível.

Na verdade, esse artifício usado pela minha mãe, não era exclusividade dela. Muitas mães e pais mundo afora também fizeram uso desse argumento para acamarem seus filhos. Afinal, criança, tal qual mãe, só muda de endereço, pois estejam elas na distante Asia, ou continente americano, todas são tão traquinas quanto. O bicho-papão, esse ser assustador que invade as mitologias infantis já exsite no mundo imaginário há muito tempo.

Vejam só, caros leitores e leitoras, pois não é que esse tão temido bicho encarnou no Brasil, está vivo e atuante, e se chama Operação Lava Jato? E esse monstro — monstro do bem, deixe-se isso bem claro, está pondo medo em medo em muita gente. Porém, o bicho encarnou de modo diferente aos das mitologias infantis. Dessa vez, ele veio para devorar políticos corruptos... E eles estão morrendo de medo.

Estão fazendo de tudo, o possível e impossível para matar a criatura. Mas o monstro é forte, e além de ser forte, tem um apoio poderoso chamado sociedade brasileira.

Em meados de março, o Brasil foi surpreendido com a conversa entre o ex-presidente, Lula, e sua sucessora, Dilma Rousseff. Os dois tentavam obstruir a justiça, e tentavam um modo de deter a Lava Jato, ou pelo menos diminuir a força do juiz Sérgio Moro. Pegos com boca na botija pagaram um alto preço pela trama.

Hoje foi a vez de o Ministro Romero Jucá provar desse veneno.

Reportagem do jornal Folha de São Paulo trouxe gravações de conversa entre Romero Jucá e Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro, acontecida em março, no qual Jucá propõe um pacto para deter a Lava Jato.

Por primeiro, Temer foi reticente ao falar sobre o assunto. Certamente, deve ter exigido que Jucá fosse a público esclarecer a situação. Jucá foi. No final da manhã concedeu uma entrevista coletiva. Na verdade, o ministro mais parecia um bêbado falando, tentando explicar que besouro não era avião.

Obviamente, as explicações de Jucá não convenceram ninguém, acho que nem a ele mesmo. Ao fim do dia, Jucá “pediu” afastamento do cargo de ministro do Planejamento, até que o Ministério Público se manifeste sobre os áudios.

Alguns pontos que acho interessante destacar a respeito dessa questão.

1)     Houve no caso em questão uma tentativa, por parte de Romero Jucá, de desqualificar o trabalho jornalístico do repórter Rubens Valente, da Folha. Venceu o bom jornalismo.

2)     Os petistas, inclusive a presidente Dilma, viram nas gravações uma prova de que o golpe estava consumado. Vale lembrar a presidente que, se Romero cometeu golpe ao defender a paralisação da Lava Jato, então a presidente também faz parte desse golpe, afinal, ela também foi pega em flagrante tentando obstruir a justiça.

3)     O Senado teria a obrigação de cassar o mandato de Romero Jucá, uma vez que por motivos semelhantes, talvez até menos grave, Delcídio do Amaral foi preso e teve seu mandato cassado.

4)     Há rumores de que o ex-presidente da Transpetro também teria gravado também conversas que manteve com José Sarney e Renan Calheiros. Se os rumores tiverem procedência, então tem muita gente que, talvez, nem consiga dormir, tanto no Senado, quanto no governo.

5)     Lembremos que há outros ministros do governo interino de Michel Temer que também estão na condição de investigados no caso Lava Jato. Então, não nos surpreendamos se outras bombas semelhantes a essa de Jucá, desabarem sobre o governo.

Abaixo, em negrito, transcrevo os trechos da conversa entre Romero Jucá e Sérgio Machado, publicados pela Folha.

***

LEIA TRECHOS DOS DIÁLOGOS

Data das conversas não foi especificada

SÉRGIO MACHADO - Mas viu, Romero, então eu acho a situação gravíssima.

ROMERO JUCÁ - Eu ontem fui muito claro. [...] Eu só acho o seguinte: com Dilma não dá, com a situação que está. Não adianta esse projeto de mandar o Lula para cá ser ministro, para tocar um gabinete, isso termina por jogar no chão a expectativa da economia. Porque se o Lula entrar, ele vai falar para a CUT, para o MST, é só quem ouve ele mais, quem dá algum crédito, o resto ninguém dá mais credito a ele para porra nenhuma. Concorda comigo? O Lula vai reunir ali com os setores empresariais?

MACHADO - Agora, ele acordou a militância do PT.

JUCÁ - Sim.

MACHADO - Aquele pessoal que resistiu acordou e vai dar merda.

JUCÁ - Eu acho que...

MACHADO - Tem que ter um impeachment.

JUCÁ - Tem que ter impeachment. Não tem saída.

MACHADO - E quem segurar, segura.

JUCÁ - Foi boa a conversa mas vamos ter outras pela frente.

MACHADO - Acontece o seguinte, objetivamente falando, com o negócio que o Supremo fez [autorizou prisões logo após decisões de segunda instância], vai todo mundo delatar.

JUCÁ - Exatamente, e vai sobrar muito. O Marcelo e a Odebrecht vão fazer.

MACHADO - Odebrecht vai fazer.

JUCÁ - Seletiva, mas vai fazer.

MACHADO - Queiroz [Galvão] não sei se vai fazer ou não. A Camargo [Corrêa] vai fazer ou não. Eu estou muito preocupado porque eu acho que... O Janot [procurador-geral da República] está a fim de pegar vocês. E acha que eu sou o caminho.

[...]

JUCÁ - Você tem que ver com seu advogado como é que a gente pode ajudar. [...] Tem que ser política, advogado não encontra [inaudível]. Se é político, como é a política? Tem que resolver essa porra... Tem que mudar o governo pra poder estancar essa sangria.

[...]

MACHADO - Rapaz, a solução mais fácil era botar o Michel [Temer].

JUCÁ - Só o Renan [Calheiros] que está contra essa porra. 'Porque não gosta do Michel, porque o Michel é Eduardo Cunha'. Gente, esquece o Eduardo Cunha, o Eduardo Cunha está morto, porra.

MACHADO - É um acordo, botar o Michel, num grande acordo nacional.

JUCÁ - Com o Supremo, com tudo.

MACHADO - Com tudo, aí parava tudo.

JUCÁ - É. Delimitava onde está, pronto.

 [...]

MACHADO – O Renan [Calheiros] é totalmente ‘voador’. Ele ainda não compreendeu que a saída dele é o Michel e o Eduardo. Na hora que cassar o Eduardo, que ele tem ódio, o próximo alvo, principal, é ele. Então quanto mais vida, sobrevida, tiver o Eduardo, melhor pra ele. Ele não compreendeu isso não.

JUCÁ – Tem que ser um boi de piranha, pegar um cara, e a gente passar e resolver, chegar do outro lado da margem.

*

MACHADO - A situação é grave. Porque, Romero, eles querem pegar todos os políticos. É que aquele documento que foi dado...

JUCÁ - Acabar com a classe política para ressurgir, construir uma nova casta, pura, que não tem a ver com...

MACHADO - Isso, e pegar todo mundo. E o PSDB, não sei se caiu a ficha já.

JUCÁ - Caiu. Todos eles. Aloysio [Nunes, senador], [o hoje ministro José] Serra, Aécio [Neves, senador].

MACHADO - Caiu a ficha. Tasso [Jereissati] também caiu?

JUCÁ - Também. Todo mundo na bandeja para ser comido.

[...]

MACHADO - O primeiro a ser comido vai ser o Aécio.

JUCÁ - Todos, porra. E vão pegando e vão...

MACHADO - [Sussurrando] O que que a gente fez junto, Romero, naquela eleição, para eleger os deputados, para ele ser presidente da Câmara? [Mudando de assunto] Amigo, eu preciso da sua inteligência.

JUCÁ - Não, veja, eu estou a disposição, você sabe disso. Veja a hora que você quer falar.

MACHADO - Porque se a gente não tiver saída... Porque não tem muito tempo.

JUCÁ - Não, o tempo é emergencial.

MACHADO - É emergencial, então preciso ter uma conversa emergencial com vocês.

JUCÁ - Vá atrás. Eu acho que a gente não pode juntar todo mundo para conversar, viu? [...] Eu acho que você deve procurar o [ex-senador do PMDB José] Sarney, deve falar com o Renan, depois que você falar com os dois, colhe as coisas todas, e aí vamos falar nós dois do que você achou e o que eles ponderaram pra gente conversar.

MACHADO - Acha que não pode ter reunião a três?

JUCÁ - Não pode. Isso de ficar juntando para combinar coisa que não tem nada a ver. Os caras já enxergam outra coisa que não é... Depois a gente conversa os três sem você.

MACHADO - Eu acho o seguinte: se não houver uma solução a curto prazo, o nosso risco é grande.

*

MACHADO - É aquilo que você diz, o Aécio não ganha porra nenhuma...

JUCÁ - Não, esquece. Nenhum político desse tradicional ganha eleição, não.

MACHADO - O Aécio, rapaz... O Aécio não tem condição, a gente sabe disso. Quem que não sabe? Quem não conhece o esquema do Aécio? Eu, que participei de campanha do PSDB...

JUCÁ - É, a gente viveu tudo.

JUCÁ - [Em voz baixa] Conversei ontem com alguns ministros do Supremo. Os caras dizem 'ó, só tem condições de [inaudível] sem ela [Dilma]. Enquanto ela estiver ali, a imprensa, os caras querem tirar ela, essa porra não vai parar nunca'. Entendeu? Então... Estou conversando com os generais, comandantes militares. Está tudo tranquilo, os caras dizem que vão garantir. Estão monitorando o MST, não sei o quê, para não perturbar.

MACHADO - Eu acho o seguinte, a saída [para Dilma] é ou licença ou renúncia. A licença é mais suave. O Michel forma um governo de união nacional, faz um grande acordo, protege o Lula, protege todo mundo. Esse país volta à calma, ninguém aguenta mais. Essa cagada desses procuradores de São Paulo ajudou muito. [referência possível ao pedido de prisão de Lula pelo Ministério Público de SP e à condução coercitiva ele para depor no caso da Lava jato]

JUCÁ - Os caras fizeram para poder inviabilizar ele de ir para um ministério. Agora vira obstrução da Justiça, não está deixando o cara, entendeu? Foi um ato violento...
MACHADO -...E burro [...] Tem que ter uma paz, um...

JUCÁ - Eu acho que tem que ter um pacto.
[...]
MACHADO - Um caminho é buscar alguém que tem ligação com o Teori [Zavascki, relator da Lava Jato], mas parece que não tem ninguém.

JUCÁ - Não tem. É um cara fechado, foi ela [Dilma] que botou, um cara... Burocrata da... Ex-ministro do STJ [Superior Tribunal de Justiça].



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