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O outono do Brasil

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:15
Terça-feira, 19 de abril

Nas ruas de outono
Os meus passos vão ficar
E todo abandono que eu sentia vai passar
As folhas pelo chão
Que um dia o vento vai levar
Meus olhos só verão que tudo poderá mudar
(Ruas de Outono – Ana Carolina)


Dizem que é por volta da meia que eles, os fantasmas saem das sombras e passam a assustar os medrosos. É também nesse horário que os mortos se levantam das tumbas e vivem a ilusão de que podem ser vivos de novo. Meia-noite também é hora dos vampiros saírem por aí em busca de sangue, alimento preferido deles.

Dá até arrepios pensar nessas coisas, mas foi por volta da meia-noite de domingo (17), que terminou a votação do impeachment da presidente Dilma. Foi uma longa e tensa sessão. Durou ao todo 9 horas. Ao final, foram contabilizados, 367 votos a favor, 137 contra, 7 abstenções, e 2 ausências por motivo de saúde. Às vinte e três horas e sete minutos, acerca de uns quarenta minutos do fim da votação, com o voto do deputado Bruno Araújo, do PSDB de Pernambuco, foram completados os 342 votos necessários ao prosseguimento do processo de impeachment no Senado. Quando faltavam seis votos para completar essa soma, os deputados oposicionistas começaram a fazer contagem regressiva. Quando o deputado Bruno Fernandes deu seu voto, foi como se o Brasil tivesse feito um gol em final de Copa do Mundo. Fogos estouraram Brasil afora, gritos de alívio foram ouvidos, carros buzinaram alto, panelas batucaram tal qual instrumentos barulhentos nas janelas dos edifícios.

Alias, acho que foi a primeira vez que vi os brasileiros se entregarem a política, com a mesma paixão com que se entregam ao futebol. Nas eleições tem disputa, mas dessa vez foi diferente. Acho que nem no impeachment de Collor foi assim. Naquela época o país não estava dividido. Ao contrário, havia um consenso em toda a sociedade. Não havia, na ocasião, pessoas contra e a favor da saída do caçador de marajás. Todos estavam convictos de que ele deveria deixar o poder. Por isso, não houve discursos inflamados e demagogos.

Dessa vez não. As pessoas vestiram a camisa do Brasil como se estivessem indo para um jogo. E era um jogo. Um jogo que definiria o futuro, e não apenas uma partida. Havia certo receio que as coisas desandassem e acabassem em violência. Tanto é que as autoridades policiais se preocuparam em colocar os manifestantes prós e contra o impeachment de Dilma em lados opostos da cidade. Em Brasília foi até construído um muro separando as duas “torcidas”. Mas graças a Deus, não houve nenhum incidente grave, pelo que se tenha noticia.

Em meio a tudo isso, creio, a democracia brasileira sai amadurecida. Não foi preciso pegar as armas e destituir a presidente, não foi necessário jogar bombas no Palácio do Planalto, não foi necessário que nenhum adversário tombasse no campo de guerra. Todo o processo seguiu os trâmites legais. Câmara dos Deputados e Supremo Tribunal Federal conversaram em paz, um ratificando as decisões do outro, sem maiores problemas. Na hora da votação ninguém foi coagido a votar, nem haviam armas ameaçadoras apontadas para suas cabeças caso votassem sim ou não. Não consigo enxergar, como queria a oposição, sinais de golpe.

Acompanhei a votação de todos os deputados votantes. Aí sim, o espetáculo foi patético, para não dizer vergonhoso. Não precisávamos  assistir aquilo. Das palavras dos deputados saiam palavras vãs, discursos sem sentido. Uns pareciam crianças no Xou da Xuxa, os crescidos que foram baixinhos entre meados da década de 80, e início da década de 90, devem se lembrar bem como era. Quando a loura conversava com um baixinho ao microfone e perguntava para quem ele queria mandar um beijo, eles, invariavelmente, diziam: “Pra minha mãe, pro meu pai, e pra você”. A votação de domingo me trouxe saudades do Xou da Xuxa. Chegava um deputado e, antes do voto, dizia: “Pela minha mãe, pelo pai, pela minha filha, pelo meu filho, e etc”. Só faltou dizerem “pela Xuxa”.

Também nunca vi o nome de Deus ser usado em vão por tantas vezes seguidas. A começar do voto do presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Cunha foi breve ao votar. Disse ele simplesmente: “Que Deus tenha misericórdia dessa nação. Voto sim”. Achei isso de uma hipocrisia tão grande quanto a bondade e a misericórdia de Deus. Como um homem debochado, corrupto, ousa invocar o nome de Deus para justificar o seu voto. Se há evangélicos que acreditam nas palavras de Cunha, então sou que imploro: “Que Deus tenha misericórdia desses evangélicos”.

E não foi apenas Cunha, outros deputados da bancada evangélica, inciavam seus votos em nome de Deus. Discursos vãos, palavras vãs, pois como se pode invocar o nome de Deus, que é o Sumo Bem, e pactuar com práticas antievangélicas e corruptas? Talvez seja mais fácil atacar os novos modelos familiares que tendem a ocupar seu espaço no mundo moderno. Assim, os nobres políticos aparecem perante aos olhos dos homens como defensores da moral e dos bons costumes... E isso dá voto. Muitos votos.

Até discursos a favor da ditadura tivemos que ouvir naquele espaço democrático, como por exemplo, o deputado Jair Bolsonaro, que dedicou seu voto ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. O coronel foi chefe do Destacamento de Operações de Informação-Centro de Operações de Defesa Interna (DOI – Codi), e torturou centenas de pessoas durante o regime militar. O exemplo foi seguido pelo filho de Jair Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, que também dedicou seu voto aos militares.

Foi também patético o discurso dos petistas e dos aliados do governo. Exaltados, eles defendiam que estavam participando de uma farsa, de um golpe, e coisas desse tipo que foram ditas durante a campanha do impeachment. O que eles defendiam? A legalização da corrupção? Os seus próprios interesses? Acredito que um pouco disso tudo, menos o interesse do país.

O deputado Glauber Braga (Psol – RJ) também fez referência a figuras históricas como Marighela e Zumbi dos Palmares para justificar seu voto contra o impeachment. Acho que os nobres heróis devem ter se revirado no túmulo ao verem seus nomes sendo invocados para defender a corrupção.

Pelo menos Paulo Maluf, corrupto de carteirinha, foi breve em seu voto, não fez discurso, e nos poupou de mais hipocrisia.

Durante toda a votação, foram constantes os ataques a Eduardo Cunha. Muitos deputados oposicionistas ou não, chamaram Cunha de corrupto e disseram que não sentiam legitimidade em um processo de impeachment guiado por ele, no que estou de pleno acordo.

Poucos deputados fizeram discursos ponderados lembrando-se dos seus eleitores, ou dos motivos pelos quais estavam votando. Dos 367 votos favoráveis ao impeachment, pelo menos uns dezesseis deputados, creio que não mais que isso, fizeram referência ao crime de responsabilidade fiscal, que foi o verdadeiro motivo do impeachment.

Eu fixo os olhos no horizonte cinzento e não vejo na batalha desse impeachment vencidos, nem vencedores. O povo comemora, é verdade. Está cansado de ver triunfar a corrupção refinada que o PT conseguiu instalar na máquina pública. O PT funciona como imã do mal. Tudo que é mal e ruim ele atrai. Seus tesoureiros estiveram ou estão presos, os marqueteiros que fizeram suas campanhas estão presos, grandes figuras de seus quadros estão presos, o ex-presidente Lula está envolvido até o pescoço em escândalos de corrupção, e quem sabe, até a atual presidente também esteja envolvida nesses esquemas, se não de forma direta, pelo menos indiretamente.

Fixo o olhar no horizonte e vejo um país em seu outono. O vento soprando melancólico, deixando as árvores desnudas de folhas. Estação de transição entre o verão e o inverno, o outono chega a ser triste, mas traz em si a esperança de que as mesmas árvores que perdem suas folhas, renasçam em outra estação vicejantes e cheias de frutos.
Que assim seja o nosso país, que enfrenta o ocaso de sua política e de suas esperanças, para renascer viçoso e pujante, cheios de frutos que matem nossa fome de paz e de um futuro melhor.

E que, florescendo, em pleno sol de verão, nossa árvore Brasil, com suas perfumadas flores, e seus deliciosos frutos, afaste de nós os fantasmas da mediocridade, da ignorância, e da corrupção.

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