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Os meu heróis? Morreram de over dose.

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:54
Domingo, 16 de agosto

A corrupção não tem cores partidárias.
Não é monopólio de agremiações políticas ou governos específicos.
Combatê-la deve ser bandeira da esquerda e da direita
(Sérgio Fernando Moro. Juiz Federal.
Em artigo publicado na Folha de São Paulo,
em 24 de agosto de 2014)


No início dos anos 80, ainda adolescente, participei do movimento pelas Diretas Já. Na cidade de Ceará-mirim, no Rio Grande do Norte, como em todo o país, aconteciam grandes comícios. Centenas de milhares de pessoas gritavam alto por uma coisa que não se compra nas farmácias, nem nas prateleiras de supermercados, nem em feiras livres. Mesmo porque liberdade nem se compra nem se vende, ela é intrínseca ao ser humano. Não nascemos para viver em gaiolas. Nos tempos da escravidão, liberdade se comprava e se vendia, é verdade, mas os tempos evoluíram, as sociedades evoluíram, ou pelo menos grande parte delas. Mas os tempos são outros.

O fato é que achava emocionante todos aqueles comícios, aquela multidão segurando bandeiras do Brasil e gritando “Diretas Já”. Enfim, como todos já sabem, a democracia venceu, e os anos de chumbo ficaram para trás. Gostariam que eles tivessem desaparecido de verdade. Mas, feridas muito profundas, quando desaparecem, ou são curadas, deixam marcas indeléveis. É bom mesmo que fiquem as lembranças dos anos sob o peso da opressão não desapareçam, e que fiquem como fantasmas rondando nosso presente, para sabermos que, governos ditatoriais, não queremos nunca mais.

O Brasil sofreu ao retomar os primeiros passos no ambiente democrático. Sofreu da mesma forma que alguém que passou vinte e um anos sem andar. Alguém que passou tanto tempo nessa situação precisa se readaptar a andar, a ir à praia, ao supermercado. É normal que seja assim. Saímos da ditadura, entramos na Nova República, ganhamos a liberdade, mas não entramos no paraíso. Sob o governo de José Sarney, vimos o monstro de a inflação nos assustar. Em 1985, ela estava num patamar de 325% ao ano. O governo criou o plano cruzado, congelou os preços. Isso aliviou um pouco a situação. O povo estava empenhado a ajudar o governo, muitas pessoas, involuntariamente, se declaravam fiscais do Sarney, e ficavam de olhos em qualquer medida que fosse de encontro ao congelamento de preços.

No fim, descobriu-se que o plano econômico de Sarney, não passava de uma armadilha para conquistar votos nas eleições de 1986. De fato, o PMDB conseguiu eleger governadores em praticamente todos os estados. Após as eleições, as máscaras caíram. O governo decretou o Plano Cruzado II, liberando os preços. O monstro da inflação voltou com mais força, comendo os salários do trabalhador. O povo sentiu que tinha sido feito de palhaço. Percebem alguma semelhança com a situação atual?

Vieram às eleições de 1989, mais uma vez a esperança era reacesa em nossos corações. Lula e Collor disputavam o pleito. Collor se apresentava como o caçador de marajás. Vinha de família rica. Apresentava-se como candidato de direita. Voz firme, dedo em punho, gritava contra as injustiças, contra a corrupção. Ganhou total apoio da mídia, que construiu para ele a imagem de um salvador. Lula, operário, oriundo de família pobre, vinha de uma luta sindicalista. Levanta a bandeira do trabalhador. Era tido como socialista. Eu fiquei ao lado de Lula, afinal, pois ele representava o novo, a mudança. Afinal, estava ali um homem que tinha saída do meio do povo e conhecia as necessidades dos mais pobres e necessitados. Então, esse era o homem certo para fazer brilhar sobre todos da pátria Brasil o sol da educação de qualidade. Sol que nos levaria aos cumes do desenvolvimento econômico e social. Além do mais, em torno de Lula, gravitavam grandes nomes da sociologia, da economia e da política. Gente que havia lutado contra a ditadura. Cabeças pensantes que eram promessa de um novo Brasil.

Lula não ganhou a eleição fiquei chateado. Havia levantado a bandeira do PT, ido aos comícios, pedido votos para ele, meu candidato. Até que um caçador de marajás não seria uma má ideia, pensei. Quem sabe ele também não pudesse mudar alguma coisa? Fazer um governo descente, honesto, livre dos corruptos, que, como ratos, insistem em roer as bases éticas de nossa política, roendo a proa do navio de nossa economia e, se não fazendo com que ele, navegue, pelo menos que fique com imensa dificuldade de navegar num mar de lama?


Quando, no domingo, 16 de agosto de 1992, há exatos 23 anos, vimos o povo, centenas de milhares deles, nas ruas, em todos os recantos do país, com caras pintadas, gritando “Fora Collor”, percebi que, mais uma vez, a esperança tinha ido embora, pelo menos tinha se retirado de cena. O caçador de marajás se mostrou apenas mais um deles. Seu governo foi marcado por escândalos de corrupção, tráfico de influência, e abuso de poder. Ah, os tesoureiros! Eles estão sempre envolvidos, já notaram. O de Collor era Paulo Cesar Farias. Collor sofreu um processo de impeachment e, felizmente, saiu do poder. Ficou oito anos inelegível. Voltou ao cenário político em 2007, quando se elegeu senador pelo estado de Alagoas. Mas como diz o ditado popular “pau que nasce torto, nunca se endireita”, Collor, neste ano de 2015, teve seu nome citado como um dos investigados na Operação Lava Jato.

Vieram os anos de Fernando Henrique Cardoso. E eu sempre defendendo o Lula, indo a comícios apoiar o candidato, levantando bandeira do Partido dos Trabalhadores. Ainda acreditava que ele era diferente. Finalmente, depois de tanto insistir, em sua quarta tentativa, Lula vence as eleições de 2002, e em 1o de Janeiro de 2003, assume a presidência da República. Eu fiquei todo orgulhoso e esperançoso. Afinal, um homem do povo tinha chegado a Presidência da República e, como homem do povo, representante dos trabalhadores, saberia muito bem conhecer as necessidades do povo, e colocar o país no topo da educação e da economia... E a estrela do Brasil brilharia com intensidade.

Logo no início do governo, senti que não ia ser bem assim. Fiz essa leitura pelos acordos com os aliados, pelos cargos distribuídos, e pelas pessoas que Lula levou para o lado dele. Políticos aos quais, durante a campanha, ele havia questionado, e acusado, e se colocado em oposição às ideias dele, de repente, estavam ao lado dele, rindo, fazendo festas e banquetes. E os ideais de mudança? Logo virão, pensei.

Passou-se o tempo e não vieram mudanças significativas. Tudo continuava igual ao que era antes, ou pior, para quem esperava muito. O país, economicamente falando, até que atravessou uma boa fase no governo dele. Não demorou muito para termos outra decepção: O mensalão. Compra de votos de políticos da base aliada, por lideranças petistas, como ex-chefe da Casa Civil, José Dirceu. Mesmo com evidencias gritantes, o partido sempre negou que tivesse havido tal mensalão, até que, com o julgamento do caso, e a prisão de empresários e importantes lideranças petistas, a existência do mensalão ficou evidente. E toda essa roubalheira, ainda não era o pior. O mais aterrorizante estava por vir.

Lula cumpriu dois mandatos à frente dos destinos do país, e conseguiu reeleger sua sucessora, Dilma Rousseff, um nome atuante nos bastidores do governo, mas desconhecida do grande público, mesmo assim, a popularidade do ex-presidente era tão grande, que conseguiu elegê-la.

Em seu primeiro mandato de Dilma cometeu erros graves na área econômica e que estão sendo sentidos agora no momento presente. As políticas sociais do governo, como os programas Bolsa Escola e Bolsa Família, bem como o apoio de Lula, ajudaram Dilma a se reeleger. Para se reeleger a presidente, maquiou números da economia, escondeu informações estatísticas. Fez promessas às quais descumpriu tão logo começou o segundo mandato. Por exemplo, ela disse em campanha que não mexeria no direito dos trabalhadores, pois foi a primeira coisa que fez depois de eleita. Ela lançou um pacote de ajustes para ter direito ao seguro-desemprego, abono salarial, pensão por morte e auxilio doença. O aumento dos juros foi outra conversa fiada. Em campanha, ela chegou a anunciar uma cruzada contra os bancos, dizendo até que era inadmissível que o país continuasse tendo um dos juros mais altos do mundo. Diminuir os juros foi outra promessa, rapidamente, esquecida.

Em meio a tudo isso, ainda caiu uma bomba sobre o Brasil: A operação Lava Jato, deflagrada pela Polícia Federal e Ministério Público, em 17 de março de 2014. Descobrimos que, simplesmente, estávamos diante do maior escândalo de corrupção jamais visto na história do Brasil. Uma operação que começou investigando transações financeiras de doleiros, em um posto de gasolina e que já lançou combustível capaz de incendiar o Palácio do Planalto.

Personagens envolvidas no escândalo do mensalão 

A Lava Jato, em sua 18a fase, denominada, Pixuleco II, já prendeu poderosos empresários do ramo das empreiteiras, altos executivos da Petrobrás, além de envolver ministérios governamentais, senadores, deputados, vereadores, os presidentes da câmara e do senado, e o ex-presidente Lula, bem como as contas da campanha da presidente Dilma Rousseff estão sob suspeitas.

A revista veja tem apresentado reportagens que apontam a ligação de Lula com as empreiteiras envolvidas no escândalo da Petrobrás. Segundo a revista, Leo Pinheiro, executivo da OAS, e amigo pessoal de Lula, disse que o ex-presidente se beneficiou fartamente do dinheiro público. Segundo Leo Pinheiro, preso na Operação Lava Jato, recursos da OAS foram usados para pagar a reforma de um sítio particular de Lula, em Atibaia, São Paulo.

Essa semana, a Veja trouxe outra reportagem falando sobre o tema, na qual diz que, em quatro anos, o Instituto Lula, arrecadou 27 milhões de reais, sendo que deste total, 10 milhões vieram de empresas que estão sendo investigadas por corrupção na Operação Lava Jato. Desde que foi aberto, em 2011, a maio deste ano, o instituto teve uma movimentação financeira de 52 milhões de reais, entre débitos e créditos. Segundo o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), órgão ligado ao Ministério da Fazenda, essa movimentação financeira é incompatível com o faturamento. Outra coisa que causa estranheza é o fato de que muitas empresas que procuram os serviços do Instituto Lula, são empresas que foram beneficiadas no governo dele com financiamentos e contratos concedidos por bancos públicos. Uma dessas empresas, o estaleiro Quip, diz a revista, pagou a Lula, o equivalente a R$ 378.209, por uma palestra motivacional. “Em maio de 2013, ele falou para 5.000 operários durante 29 minutos. Ganhou 13.000 reais por minuto” relata a Veja.  Além disso, os filhos de Lula, Fábio Luís e Luís Claudio tornaram-se milionários, digamos assim, do dia para a noite, e sem ganhar na loteria.

Hoje, eu, que era simpatizante do PT, olho para o partido e que todas as aquelas grandes lideranças que eu antes admirava, e vejo que, ou estão presos por corrupção, ou estão sendo investigados pelo mesmo crime. Daí eu tenho certeza que “meus heróis morreram de over dose”. Over dose de poder. As cabeças pensantes também sumiram do mapa, não vejo nem sinal delas. Talvez tenham sido corrompidas e deixaram de pensar, ou passaram a pensar apenas no dinheiro, dinheiro sujo da corrupção.

Por tudo isso, e muito mais, o povo volta às ruas neste domingo, em protestos contra toda essa bandidagem que tomou conta das nossas tão respeitadas instituições públicas.

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