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A Garça Branca

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:14
Domingo, 08 de fevereiro



Na quarta-feira (11), próximo ao meio dia, fui à casa do Maestro Urban, regente do Coral PIO XI, discutir alguns assuntos com ele. Estava com um texto na mão e ele me perguntou o que era. Eu lhe disse que era um belo texto, em inglês, que estava tentando ler. Digo tentando, pois, sendo sincero com vocês, não sei falar a língua inglesa, sou apenas um curioso. O texto chama-se A White Heron, da escritora norte-americana, Sarah Orne Jewett. O maestro me pediu para dizer-lhe do que se tratava. Fiz para ele um resumo do que se tratava o texto. Ele ficou serio e disse que o texto se prestava a boas reflexões sobre nossas ações, valores e pensamentos. Naquele mesmo dia, também comentei a respeito do texto com uma amiga chamada Salete, que é formada em Direito. Ela me disse que era uma história linda e que eu deveria publicar no blog. Diante da opinião de pessoas tão nobres quanto o maestro Urban e Salete resolvi traduzir o texto e apresentá-lo a vocês. Peço desculpas, se porventura, há alguma incorreção na tradução que fiz, pelo motivo acima explicado.

Cheguei ao texto A White Heron, através do site VOA - Voice of America English News, destinado ao aprendizado e aperfeiçoamento no estudo do inglês norte-americano. O site é excelente, e muito didático.

Na sexta-feira (06), encontrei com a advogada Samira, a qual eu não via fazia algum tempo. Ficamos conversando sobre coisas da vida cotidiana. Perguntei-lhe se ela estava acompanhando os noticiários e ela me disse que eram tantas as notícias sobre desumanidade, corrupções, incompreensões e outras coisas mais, que ela não fazia questão de acompanhar as notícias, preferindo dedicar seu tempo, à filha de um ano e meio.

Samira falava da falta de valores, valores que faze evoluir. Esse texto nos provoca algumas reflexões acerca destas questões. A partir da leitura dele um leque de reflexões é aberto diante de nós, desde a questão ambiental, quanto um mergulho sobre a questão da liberdade, da fidelidade e da escolha daquilo que é mais importante para nós.

A White Heron (A garça branca) foi publicada originalmente, no livro A White Heron & Other Stories, em 1886.


***



A Garça Branca

A floresta estava cheia de sombras e a garotinha a atravessava apressada, em uma noite de verão de junho. Já era quase oito da noite, e Sylvie perguntava-se a si mesma se sua avó estaria zangada com ela por estar chegando tão tarde.

Toda noite, Sylvie deixava a casa da avó, às cinco e meia da tarde para trazer a vaca de volta. O velho animal passava os dias nos pastos comendo a doce grama. O trabalho de Sylvie era trazê-la de volta para casa a fim de ordenhá-la. Quando a vaca ouvia a voz d Sylvie chamando-a, se escondia entre os arbustos.

Esta noite, Sylvie tinha levado mais tempo que o usual para encontrar a vaca. A menina, apressada, conduzia a vaca pela escura floresta, seguindo o estreito caminho que levava a casa da avó. A vaca parou em um pequeno córrego para beber água. Enquanto Sylvie esperava, colocou os pés descalços na água fresca e fria do córrego.

Ela nunca tinha ficado sozinha na floresta tão tarde quanto desta vez. O ar era doce e suave. Sylvie sentia como se ela fosse parte das sombras cinzentas e das folhas prateadas que se balançavam na brisa da noite.

Ela começou a pensar em como foi sua vinda para a fazenda da avó, há apenas um ano. Antes disso, ela morava com a mãe e o pai, em cidade industrial suja e abarrotada de gente. Um dia, sua avó visitou-os e, dentre todos os irmãos e irmãs, escolheu Sylvie, para ajudá-la na fazenda, em Vermont.

A vaca terminou de beber e, enquanto a menina de nove anos seguia apressada através da floresta para a casa que tanto amava, pensou novamente na barulhenta cidade, na qual seus pais ainda moravam.



De repente o ar foi cortado por um agudo assobio não muito longe dali. Sylvie sabia que não era o assobio amigável de um pássaro. Estava claro que era o assobio de uma pessoa. Ela esqueceu a vaca e escondeu-se em alguns arbustos. Mas era tarde demais.

“Hello, garotinha,” um homem jovem a cumprimentou alegremente. “A estrada principal está muito distante?” Sylvie estava tremula e sussurrou “três quilômetros”. Ela saiu dos arbustos e observou cuidadosamente a face do homem jovem e alto segurando uma arma.

O estranho começou a caminhar com Sylvie enquanto ela seguia a vaca através da floresta. “Eu estava caçando pássaros”, ele explicou, “mas eu perdi o caminho”. Você acha que eu posso passar a noite em sua casa?” Sylvie não respondeu. Ela estava feliz porque eles estavam quase chegando. Ela podia ver a avó, em pé, perto da porta da casa da fazenda.

Quando eles se aproximaram dela, o estranho baixou a arma e explicou o seu problema para a sorridente avó de Sylvie.

“É claro que você pode ficar conosco”, ela disse. “Nós não temos muito, mas você é bem vindo a compartilhar o que nós temos. Sylvie, traga um prato para o cavalheiro”.

Após o jantar, todos se sentaram do lado de fora. O jovem explicou que ele era um cientista, que colecionava pássaros. “Você coloca eles em uma gaiola?” Sylvie perguntou. “Não,” ele respondeu devagar. “Eu atiro neles e os encho com substancias químicas especiais para preservá-los. Tenho cerca de uma centena de pássaros diferentes, de todas as partes dos Estados Unidos, em meu estúdio, em casa.

“Sylvie conhece muito a respeito de pássaros, também,” disse a avó orgulhosa. “Ela conhece a floresta muito bem. Os animais selvagens comem pão nas mãos dela.”

“Então Sylvie conhece tudo sobre pássaros. Talvez, ela possa me ajudar,” disse o jovem. “Eu vi uma garça branca não muito longe daqui, há dois dias. Tenho procurado por ela desde então. A pequena garça branca é um pássaro muito raro. Você também o viu?” Ele perguntou a Sylvie. Mas Sylvie ficou em silêncio. “Você saberia se o tivesse visto,” ele acrescentou. “Ela é um estranho pássaro, alto, com suaves penas brancas e pernas longas e finas. Provavelmente, o ninho dela é no topo de uma árvore alta.”

O coração de Sylvie começou a bater mais rápido. Ela conhecia aquele estranho pássaro branco! Ela o tinha visto do outro lado da floresta. O jovem olhava fixamente para Sylvie. “Eu darei dez dólares a pessoa que me disser onde está a garça branca.

Naquela noite, os sonhos de Sylvie foram preenchidos com as coisas maravilhosas que ela e a avó poderiam comprar com dez dólares.

Sylvie passou o dia na floresta com o jovem. Ele lhe falava sobre todos os pássaros que eles viam. Sylvie teria se sentido melhor se o jovem tivesse deixado a arma em casa. Ela não conseguia entender porque ele matava os pássaros, se parecia gostar tanto deles. Ela sentia seu coração tremer cada vez que ele atirava em um inocente pássaro enquanto ele estava cantando nas árvores.

Mas Sylvie olhava para o jovem com os olhos cheios de admiração. Ela nunca tinha visto alguém tão bonito e charmoso. Um estranho excitamento encheu seu coração, um novo sentimento que a garotinha não reconhecia... Amor.



Finalmente, a noite chegou. Eles levaram, juntos, a vaca para casa. Depois que a lua saiu e o jovem tinha adormecido, Sylvie ainda estava acordada. Ela tinha um plano que a faria conseguir dez dólares para a avó e fazer o jovem feliz. Quando estava quase na hora do sol sair, discretamente, ela deixou a casa e seguiu apressada para a floresta. Finalmente, ela alcançou um enorme pinheiro, tão alto que poderia ser visto muitos quilômetros ao redor. O plano dela era subir ao topo do pinheiro. De lá, poderia ver a floresta inteira. Ela tinha certeza de que seria capaz de ver onde a graça branca tinha feito seu ninho.

Os pés descalços e os dedos magros de Sylvie agarraram o tronco áspero da árvore. Os galhos afiados e pontudos a arranhavam como unhas de gato. A seiva dos galhos do pinheiro deixavam seus dedos duros e desajeitados, enquanto ela subia cada vez mais alto.

O pinheiro parecia crescer mais enquanto Sylvie subia. O céu começou a clarear no oeste. A face de Sylvie estava como uma estrela pálida quando, finalmente, ela alcançou o galho mais alto da árvore. Os raios dourados do sol invadiam a floresta. Dois falcões voavam juntos, em movimentos circulares e lentos, logo abaixo dela. Sylvie sentia como se ela pudesse voar entre as nuvens, também. Ao oeste ela podia ver outras fazendas e florestas.

De repente, os olhos de Sylvie captaram uma faísca branca que crescia mais e mais. Um pássaro com largas asas e um longo e fino pescoço, passou voando e foi pousar em um galho do pinheiro, abaixo dela. A garça branca fechou as asas e emitiu um pio para a fêmea, sentada no ninho deles, em uma árvore próxima. Então ele levantou as asas e voou novamente.

Sylvie deu um longo suspiro. Agora ela conhecia o segredo do pássaro selvagem. Devagar, ela começou a perigosa descida do velho pinheiro. Ela não ousava olhar para baixo e tentava esquecer que seus dedos estavam feridos e seus pés estavam sangrando. Tudo o que ela pensava erro sobre o que o estranho diria quando ela lhe contasse que tinha encontrado o ninho do pássaro.

Enquanto Sylvie descia devagar o pinheiro, o estranho acordava na fazenda. Ele estava sorridente porque, tinha certeza, pelo jeito que a garota havia olhado para ele, que ela havia encontrado a garça branca.

Cerca de uma hora depois, Sylvie apareceu. A avó e jovem se levantaram quando ela entrou na cozinha. O esplendido momento de falar sobre o segredo havia chegado. Mas Sylvie ficou em silêncio. Sua avó ficou zangada com ela. Onde ela tinha ido? Os olhos amáveis do jovem olharam profundamente dentro dos olhos cinza de Sylvie. Ele poderia dar a ela e a avó dela dez dólares. Ele tinha prometido fazer isto, e elas precisavam do dinheiro. Além do mais, Sylvie queria fazê-lo feliz.

Mas Sylvie estava em silêncio. Ela se recordava de como a garça branca veio voando através dos raios dourados do sol e como eles tinham assistido ao nascer do sol juntos, no topo do mundo. Sylvie não conseguia falar. Ela não poderia contar o segredo e entregar a vida da garça de presente.

Mais tarde, naquele dia, o jovem foi embora desapontado. Sylvie estava triste. Ela queria ser sua amiga. Ele nunca retornou. Porém, muitas noites, Sylvie ouviu o som de seu assobio enquanto ela vinha para casa da avó com a vaca.


Eram os pássaros melhores amigos que seus caçadores? Quem consegue saber?

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