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Frevo: Um folião centenário

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 20:43
Sexta-feira, 13 de fevereiro



Já é carnaval em solo brasileiro. Se carnaval não rima com irreverência é porque é a própria irreverência. Oficialmente, são três dias nos quais os foliões, nas ruas ou nos clubes, extravasam sua alegria e, como num passe de mágica, esquecem os problemas que o país atravessa.

Na última segunda-feira (09), o sol da cidade de Recife, no Estado de Pernambuco, surgiu mais colorido e brilhante. Pelas ruas da Veneza brasileira a alegria desfila soberana, em comemoração a um ritmo centenário e bem brasileiro: O frevo. O contagiante casamento de ritmo musical e dança de passos acelerados completou 108 anos. O ritmo, na verdade, originou-se de uma salada de outros ritmos como o maxixe, marcha e elementos da capoeira. O resultado de toda essa mistura foi um tecido cultural formado por expressão musical, dança coreográfica, alegria e poesia.

O frevo é um elemento tão vital para a cultura brasileira que, no dia 05 de dezembro de 2012, foi declarado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco), Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Entretanto, o centenário ritmo musical, nem sempre foi assim tão querido. Assim como o samba e a capoeira, ele também já foi considerado uma expressão cultural marginal.

Até meados do século XVI, o carnaval era uma festa popular. O povo se reunia e saía fazendo folia pelas ruas. A cada esquina, mais gente se juntava aquele cordão e logo, uma multidão de foliões estava entregue a essa festa pagã. Por essa época era também uma festa democrática, uma vez que, pelas ruas marchavam, lado a lado, homens de origem nobre e escravos. As senhoras honestas não se misturavam a essa folia, preferiam assistir a tudo de suas sacadas, longe do contato com o povo. Mais tarde, também essas senhoras foram contagiadas pela festa, com a organização dos corsos carnavalescos, que eram desfiles em carruagens enfeitadas, porém, protegidos do contato com os foliões.

Toda essa folia funcionou muito bem até meados do século XIX, ainda durante o regime imperial. Por essa época, as festas carnavalescas que se realizavam nas ruas com a presença dos mais diversos segmentos da sociedade, sofreu uma grande ruptura.

Por volta da década de 1840, o carnaval que era uma festa popular, celebrada na rua, passou a ser realizada nos clubes, com a participação exclusiva da elite branca. Foi introduzido o uso de máscaras à moda europeia, que ajudavam o folião elitista a se manter no anonimato no meio dos salões. Protegido pela máscara o folião, ou foliã, podia despir-se de seus pudores e entregar-se por completo a folia. Se antes, a rua era o espaço onde o povo extravasava sua alegria em uma festa democrática, com a chegada dos bailes de carnaval à moda veneziana, em ambiente fechados, a alegria tinha sido privatizada, como se a ela só tivesse direito a elite dominante.



Com a proibição do carnaval de rua, a festa foi sendo enfraquecida. A situação levou a população carioca a organizar, em 1955, na cidade do Rio de Janeiro, o Congresso das Sumidades Carnavalescas, que reuniu representantes de associações que organizavam essas festas. A partir desse congresso, decidiu-se que o carnaval de rua não seria extinto, mas sofreria profundas alterações, em nome da manutenção da “moral e dos bons costumes”. Também em consequência das decisões desse congresso, ficou decidido que o modelo de carnaval brasileiro, continuaria a ser inspirado nos carnavais europeus, com suas máscaras, luxo e fantasias. A ideia foi acatada por todos os estados brasileiros. O estado de Pernambuco é um caso à parte nessa história, pois apesar de nesse estado, a classe dominante aderir à moda nacional, a classe popular levantou-se contra essa corrente que europeizava o carnaval brasileiro.

No ano de 1856, o governo da província de Pernambuco, havia proibido o jogo da capoeira, bem como proibira o carnaval de rua, mais conhecido como entrudos e limas-de-cheiro. Também em Recife, foram organizados os luxuosos bailes de mascaras, em salões requintados. Entretanto, como já disse antes, o povo pernambucano não aceitou de forma passiva essas decisões. E já em 1962, começa a organizar grupos que saiam às ruas ao som de marchas, músicas improvisadas, soltando fogos de artifícios, enfim, transformando a rua numa espaço democrático, no qual reinava a alegria. Nesses grupos, um personagem merece destaque: os capoeiristas.

Falando em capoeiristas, apesar de reprimidos pelo governo e pela sociedade em geral, eles se aliavam a pessoas ricas e influentes, que ofereciam proteção aos capoeiristas em troca dos seus serviços. Os capoeiristas faziam uma espécie de segurança para essas classes mais abastadas, geralmente, políticos. É caraterística do meio político a rivalidade, e os capoeiristas traziam para o campo da cultura essas divergências políticas, criando um clima de competição entre as bandas de música que existiam na cidade. A rivalidade entre eles era comum, a banda da qual eles participavam era a melhor e as outras eram consideradas adversárias. Era papel deles, sair pelas ruas abrindo caminho para que a banda pudesse passar, e faziam isso usando passos da capoeira. Como esses confrontos entre bandas e capoeiristas rivais foram se tornando cada vez mais violentos, foram reprimidos pela polícia.

A insatisfação do povo pernambucano não se restringia apenas ao modo como se fazia o carnaval, ia muito mais além, e atingia toda uma estrutura social e política. Era fins do século XIX e início do século XX, e Pernambuco estava fortemente engajada na luta pela libertação dos escravos. O novo ritmo, o frevo, parecia adequar perfeitamente, a realidade local, ao expressar esse clima de agitação, insatisfação e inconformidade.

A abolição da escravatura trouxe um novo panorama para o carnaval de Pernambuco. Os escravos recém-libertos deixaram as fazendas e passaram a habitar as cidades, concentrando-se em guetos e favelas. Analfabetos e sem nenhuma estrura que acolhesse as suas necessidades econômicas, eles habitavam esses ambientes em situação de exclusão social.



Apesar de toda essa situação adversa os negros imprimiram sua marca indelével  na cultura pernambucana e na cultura brasileira de um modo geral. Mais gente habitando a cidade, mais gente nas ruas durante as manifestações carnavalescas e dessa mistura de raças e de ritmos, e de luta social, nasceu o frevo. Com a proibição aos capoeiras de saírem à frente das bandas de música, estes procuraram se juntar a agremiações carnavalescas como o Clube Pedestres, que era formada por gente da classe trabalhadora de baixa renda. Aos passos de dança executados de forma rápida, frenética, e ao som contagiante, deu-se o nome de frevo.

No fim do século XIX e início do século XX os bailes das elites realizados nos clubes, começaram a entrar em decadência. Um dos fatores para a derrocada do carnaval de elite foi a falta de patrocinadores. Era um modelo veneziano de carnaval destinado apenas a uma parte da população, e não tinha como se manter na nova estrutura social que se havia construído após a abolição. Enquanto isso, o carnaval de rua ia ganhando cada vez mais espaço, e o frevo se tornou de vez uma paixão dos pernambucanos. Venceu a força do frevo, o entusiasmo e alegria de um povo.


Em Pernambuco se dança frevo o ano todo, e não apenas durante o período carnavalesco. A origem da palavra vem do verbo ferver, como os passos agitados remetiam a ideia de que os foliões estavam pisando em brasa, o termo caiu no gosto popular e assim ficou designado. Salve o frevo! Viva a alegria do povo pernambucano, que fazem o carnaval mais democrático do país!

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