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O centenário de um poeta

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 15:00
Sábado, 19 de outubro


Imagem: http://www.revistabula.com/369-a-ultima-entrevista-de-vinicius-de-moraes/


Se vivo estivesse, Marcus Vinicius de Moraes, ou simplesmente, Vinicius de Moraes, faria 100 anos.  Vinicius nasceu no dia 19 de outubro de 1913, na “Cidade  de céu sempre azulado , teu sol é namorado da noite de luar. Cidade padrão de beleza foi a natureza que te protegeu. Cidade de amores sem pecado, foi juntinho ao Corcovado que Jesus Cristo nasceu”, isso é Rio de Janeiro, como diria outro grande poeta, Noel Rosa. Vinicius de Moraes, foi um grande poeta e compositor. É autor, junto com Tom Jobim, de Garota de Ipanema, uma das músicas mais famosas em todo o mundo. Além de brilhar no campo da literatura e da música, o poeta, também foi diplomata, dramaturgo e jornalista.

Em 27 de fevereiro de 1973, a Bahia recebia o show Poeta, Moça e Violão, com Vinicius de Moraes, Clara Nunes e Toquinho. No belíssimo show, Vinicius declama suas poesias e relembra fatos marcantes de sua vida. Nas faixas sonoras, Toquinho mostra todo o seu talento ao violão. As canções são entoadas, ora por ele, ora pela adorável e doce voz de Clara Nunes, ora os dois se juntam em dueto, enchendo o show ainda mais de graça e beleza.

Em Maio de 1991, a Collector’s Editora Ltda reuniu esse material e lançou um album/fascículo triplo, em vinil, sob o título: A História dos Shows Inesquecíveis – Poeta, Moça e Violão (Vinicius, Calra Nunes e Toquinho). O texto a seguir é esse extraído desse material. É meu jeito de fazer uma homenagem a esse grande poeta e compositor, Vinicius de Moraes. Ah, perdão por começar o texto de modo convencional, “Se vivo estivesse...”, Vinicius não morreu, está presente em suas obras e em suas composições, no coração dos brasileiros e de milhões de pessoas mundo afora.

Ao fundo, ouvem-se as palmas da platéia. Toquinho dedilha o violão e começa a cantar o poema O Poeta Aprendiz, da autoria de Vinicius de Moreas e musicado pelo próprio Toquinho.


O Poeta Aprendiz


Ele era um menino
Valente e caprino
Um pequeno infante
Sadio e grimpante
Anos tinha dez
E asas nos pés
Com chumbo e bodoque
Era plic e ploc
O olhar verde gaio
Parecia um raio
Para tangerina
Pião ou menina
Seu corpo moreno
Vivia correndo
Pulava no escuro
Não importa que muro
Saltava de anjo
Melhor que marmanjo
E dava o mergulho
Sem fazer barulho
Em bola de meia
Jogando de meia-direita ou de ponta
Passava da conta
De tanto driblar

Amava era amar
Amava Leonor
Menina de cor
Amava as criadas
Varrendo as escadas
Amava as gurias
Da rua, vadias
Amava suas primas
Com beijos e rimas
Amava suas tias
De peles macias
Amava as artistas
Das cine-revistas
Amava a mulher
A mais não poder
Por isso fazia
Seu grão de poesia
E achava bonita
A palavra escrita
Por isso sofria
De melancolia
Sonhando o poeta
Que quem sabe um dia
Poderia ser.


VINICIUS:  Esse menino fui eu, na Ilha do Governador, numa ocasião em que, por revezes financeiro, meu pai que era homem bastante abastado, teve que mudar de uma casa grande, uma casa rica, para uma pequena casa, na Praia de Bogotá, onde esse menino que fui eu, descobriu, praticamente, tudo o que sabe hoje. Um menino livre, que corria, que nadava um mundo de água, que pescava, que brigava, que fez os primeiros amigos entre os filhos dos pescadores e suas primeiras namoradinhas entre as filhas dos pescadores. Que conheceu o amor e o sexo no mar. E para quem, até hoje, a liberdade é o único clima compatível com a dignidade humana. Esse Poeta Aprendiz, esse poema meu que Toquinho musicou, e que vocês acabaram de ouvir, nasceu esse homem que um dia, em Los Angeles, depois de cinco anos de ausência de sua pátria, teve essa tremenda necessidade de revê-la e que, ao desembarcar nas docas de Santos...

Clara Nunes começa a cantar os versos... Saudade, torrente de paixão... de  Canção do Amor. Vinicius continua a falar, enquanto Clara, ao fundo,  canta suavemente a melodia.

... Recebeu o primeiro impacto, através dessa canção, esse samba cantado por Elizeth Cardoso e, que os autofalantes de uma casa ali perto, traziam. Então aquele sentimento que tive da minha volta ao Brasil, ficou até hoje, indissoluvelmente, ligado a esse samba que minha querida amiga, Elizeth Cardoso, cantava na época e foi seu primeiro grande sucesso... Então eu pensei naquele americano que pouco antes de minha partida, um americano muito rico, que estava transando umas coisas com o Brasil e que eu tentei ajudá-lo em meu Consulado, numa festa em que ele deu, ele dizia: Não entendo como é que você, podendo usufruir dos previlégios da civilização do dolar, de tudo que você tem por aqui, você quer voltar para um país, não dizia propriamente um país subdesnvolvido, mas estava subentendido o que ele queria me dizer... Ele não entendia isso... Como é que eu podia querer sair de Los Angeles e querer voltar para o Brasil, para o Rio de Janeiro... E então, eu fiz para esse homem, esse Mr. Buster, um poema que diz o seguinte:


Olhe Aqui, Mr. Buster

Olhe aqui, Mr. Buster: está muito certo
Que o Sr. tenha um apartamento em Park Avenue e uma casa em Beverly Hills.
Está muito certo que em seu apartamento de Park Avenue
O Sr. tenha um caco de friso do Partenon, e no quintal de sua casa em Hollywood
Um poço de petróleo trabalhando de dia para lhe dar dinheiro e de noite para lhe dar insônia.

Está muito certo que em ambas as residências
O Sr. tenha geladeiras gigantescas capazes de conservar o seu preconceito racial
Por muitos anos a vir, e vacuum-cleaners com mais chupo
Que um beijo de Marilyn Monroe, e máquinas de lavar
Capazes de apagar a mancha de seu desgosto de ter posto tanto dinheiro em vão na guerra daCoréia. 

Está certo que em sua mesa as torradas saltem nervosamente de torradeiras automáticas
E suas portas se abram com célula fotelétrica. Está muito certo
Que o Sr. tenha cinema em casa para os meninos verem filmes de mocinho
Isto sem falar nos quatro aparelhos de televisão e na fabulosa hi-fi
Com alto-falantes espalhados por todos os andares, inclusive nos banheiros.

Está muito certo que a Sra. Buster seja citada uma vez por mês por Elsa Maxwell
E tenha dois psiquiatras: um em Nova York, outro em Los Angeles, para as duas "estações" do ano.

Está tudo muito certo, Mr. Buster - o Sr. ainda acabará governador do seu estado
E sem dúvida presidente de muitas companhias de petróleo, aço e consciências enlatadas.
Mas me diga uma coisa, Mr. Buster
Me diga sinceramente uma coisa, Mr. Buster:
O Sr. sabe lá o que é um choro de Pixinguinha?
O Sr. sabe lá o que é ter uma jabuticabeira no quintal?
O Sr. sabe lá o que é torcer pelo Botafogo





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