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Um mar de esperanças nos céus do Brasil

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:14
Sexta-feira, 12 de janeiro

Réveillon 2018 em Copacabana

5, 4, 3, 2, 1.

A escuridão da noite que recobre a casa de Iemanjá vai embora e, como num passe de mágica, o breu dá lugar a uma chuva de fogos de artifícios das mais variadas cores e formas. Toneladas deles — nesse ano de 2018 foram 25 toneladas  — fascinam e encantam a multidão que assiste a esse fantástico espetáculo tecnicamente musicado e coreografado que se desenha nos céus de Copacabana na festa de Réveillon. A cada ano, o espetáculo fica mais técnico, mais seguro, e mais belo que nos anos anteriores. Esse ano durou cerca de 17 minutos. Se quisermos colocar um pouco de poesia na cena, diríamos que, sob as bênçãos do Cristo Redentor, os céus do Rio de Janeiro choram de alegria.

Pessoas de todos os cantos do mundo acorrem ao Rio para essa festa espetacular. Enquanto os fogos explodem nos céus, formando figuras geométricas como corações, carinhas felizes, espirais, círculos, e estrelas, a 500 metros das areias da praia de Copacabana, na beira da praia, os espectadores explodem os seus champanhes, desejam-se uns aos outros votos de um ano próspero e cheio de paz.

Definitivamente não é uma festa para os excluídos, o que não os impedem de que, em algum lugar da cidade, eles vejam os clarões e o estampidos dos fogos. Alguns deles enfiam-se entre a multidão numa relação puramente comercial, afinal capitalista é o mundo em que vivemos e, para alguns, é preciso faturar algum dinheiro enquanto os outros se divertem. Fazem isso os hotéis, os restaurantes, e também aqueles que tiram da atividade comercial o básico para o sustento de suas casas e famílias. Guarde-se os lucros nas devidas proporções de cada um.

Menino a olhar os fogos em Copacabana - Foto: Lucas Landau
No meio da multidão, um fotografo experiente, sensível, e competente, conseguirá registrar belas imagens. Foi o que fez o fotografo Lucas Landau, que registrava átimos de momento para a agência Reuters.

Foi o fotografo que captou o belo momento registrado na foto acima. Nela se vê o fascínio de uma criança negra e pobre, habitante de uma das favelas do Rio. Da foto pode se fazer uma série de leituras da realidade, tais como raça, posição social, desigualdade social, ou apenas a arte de apreciar o belo expressado no olhar de uma criança.

O menino é filho de uma vendedora ambulante que desceu o morro, junto com os filhos, e percorreu os 17 quilômetros que separam o humilde barraco onde habitam das areias da famosa praia, tão belamente cantando no verso da canção escrita por João de Barro (braguinha) e Alberto Ribeiro “Copacabana, princesinha do mar, pelas manhãs tu és a vida a cantar, e à tardinha o sol poente, deixa sempre uma saudade na gente”.

A vendedora foi à praia vender chaveiros entre parte dos 2,5 milhões de pessoas que comemoravam o Réveillon nas areias cariocas. Quando começaram a pipocar os fogos, o menino aproveitou para entrar no mar e dar um mergulho na magia daquele momento. A foto ganhou proporções e repercussões maiores do que o autor dela esperava. Também suscitou muitos debates, tendo repercutido, inclusive, em jornais internacionais. Os motivos pelos quais a foto foi tão debatida, alguns deles já expostos acima, não serão objetos desta postagem, apenas essa cena, tanto a festa, quanto a foto, de certo modo, se conectam com o nosso momento brasileiro atual, traçando com ele um paralelo.

Enquanto o mar de Iemanjá, orixá regente das águas marinhas, chora de alegria com tanta beleza, luz, e cor, os céus da Justiça, regido pelo orixá Xangô, choram de tristeza por ver tanta podridão e descaso para com a população brasileira.

Dos altos escalões do governo, passando pelas instituições, pelos empresários, e entrando no seio da sociedade, a corrupção campeia livre e soberana pela nossa pátria. É possível dizer que, mais que um governo corrompido, temos uma sociedade que se deixou corromper. E por ter se corrompido, e se deixado corromper, entrou num labirinto do qual é difícil sair, pois são muitos os caminhos que não levam a lugar algum. Nesse emaranhado de caminhos sem saída, fica complicado achar a ponta do novelo que nos levará a saída para o iluminado caminho da ética e da moralidade. Na verdade, esse é um esforço, uma busca que deve ser feita por cada cidadão brasileiro, a começar pelos dirigentes que formam a elite política da nação.

Entretanto, pelo andar da carruagem, não há o menor esforço por parte destes últimos em encontrar a saída do labirinto da corrupção. O governo atual parece estar se lixando para o que a sociedade considera ou não ético. Nele, os interesses do estado, do cidadão, e das instituições, são, claramente, relegados a segundo plano. A cada ato, a cada ação do governo, as manobras se repetem.

Roberto Jefferson e Cristiane Brasil
Por exemplo, veja-se essa queda de braços do governo com a justiça por causa da nomeação da deputada, Cristiane Brasil, filha do ex-deputado Roberto Jefferson, para o Ministério do Trabalho, caso já citado na postagem anterior.

Depois de o presidente Michel Temer desistir da nomeação do deputado federal Pedro Fernandes (PTB-MA), simplesmente porque Sarney não concordou com a nomeação do deputado, e de aceitar indicação de Cristiane Brasil (PTB-RJ), para o comando do Ministério do Trabalho, Temer agora briga com a justiça para que a nomeação de Cristiane seja efetivada.

A posse de Cristiane era para ter ocorrido na terça-feira (09), entretanto foi suspensa na noite da segunda-feira (08). Um grupo de advogados trabalhistas entrou com ação cada qual nas comarcas em que atuam, com o objetivo de impedir a posse. Um desses advogados é Carlos Alberto Patrício de Souza, advogado de um dos motoristas que moveu o processo trabalhista contra a deputada Cristiane Brasil. Leonardo da Costa Couceiro, da 4a Vara Federal de Niterói, acatou o pedido.

O governo devia estar tão confiante que derrubaria a liminar que manteve a solenidade de posse, marcada para as três da tarde da terça-feira. Os convidados também tinha a mesma convicção e compareceram ao Palácio do Planalto, mas deram com a cara na porta. Não foram autorizados a entrar.

A Advocacia Geral da União até havia entrado com pedido de suspensão da liminar, perante o Tribunal Federal da 2a Região, porém, o desembargador federal Guilherme de Couto Castro negou o pedido, mantendo dessa forma, a decisão dada anteriormente pelo juiz Leonardo da Costa Couceiro, da 4a Federal de Niterói (RJ).

A vontade de não desagradar o PTB é tão grande que o governo até ensaiou recorrer ao Supremo Tribunal Federal, mas desistiu e, em vez disso, protocolou, na terça-feira (08), outro recurso junto ao Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2) ainda tentando reverter a decisão que impediu a posse de Cristiane.  

Para isso, o presidente se reuniu antes com Cristiane Brasil e com o pai dela, para analisarem o cenário mais favorável a eles. O primeiro seria o de que a ministra Carmem Lúcia, indeferisse de imediato o pedido, e o segundo, o de que a mesma resolvesse levar o caso ao plenário do STF, coisa que só deveria ocorrer em fevereiro, devido ao recesso do Judiciário. Acharam melhor então tentar mais uma vez junto ao TRF-2.

Por fim, o presidente deixou para a semana que vem a decisão sobe a questão. Antes, porém pediu que a AGU estudasse os possíveis cenários para a posse de Cristiane, os caminhos possíveis e as possíveis consequências de cada decisão.

A causa de tanto querer agradar ao PTB é que o partido tem garantido votos ao governo quando necessário, e o governo precisa de votos para aprovar a reforma da Previdência. Por causa disso, arma todo esse circo.

Não são apenas os dois motoristas que processaram a deputada Cristiane Brasil. Em pelo menos mais um caso, ela foi processada pela empregada doméstica em 2003, mais uma vez, por causa de direitos trabalhistas não respeitados. A empregada alegou no processo que a patroa não fazia o recolhimento de contribuições previdenciárias. Em 2005, houve uma audiência de conciliação e Cristiane concordou em pagar R$ 500 de indenização.

Imaginem os senhores e senhoras como deve ser a relação entre patrão-empregado de Cristiane para com seus empregados. Para assumir um ministério tão importante como o Ministério do Trabalho, é preciso, pelo menos, que se conheça de leis trabalhistas, coisa que a deputada federal parecer desconhecer.

Com essa sede votos pela reforma da Previdência, com toda essa submissão aos partidos e seus caciques, o presidente Michel Temer tem transformado questões de suma importância para os rumos da nação em detalhes qualquer, coisas sem importância.

Naquele momento fugaz, na festa de Réveillon deste ano em Copacabana, o fotografo, Lucas Landau, captou o olhar extasiado do garoto dentro do mar, a olhar os fogos coloridos. Se Landau fosse em busca de registrar momentos nas favelas do Brasil afora, não captaria olhares extasiados, mas sim, olhares carentes, desejosos de um futuro melhor, com mais esperança e qualidade de vida dignas. Quisera Deus, que as crianças que habitam as favelas, e as crianças que habitam cada recanto desse Brasil, olhassem para os céus e ficassem fascinadas com a luz da esperança que deveria brilhar sempre sobre elas que, como todos nós, se abrigam debaixo das asas da pátria mãe gentil.

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