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República de bananas

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:46
Domingo, 07 de janeiro


Já passava das seis horas da tarde de sexta-feira (05), quando descia uma das movimentadas ruas do centro de Campinas, São Paulo. O horário de verão propiciava que o sol ainda desse o ar da graça mesmo naquele horário. A maioria das lojas comerciais já havia fechado às portas. Apenas permaneciam ainda abertas lojas do setor alimentício. Diversas pessoas ainda passavam pelo centro.
Fazia uma tarde quente e agradável. Passei por uma família formada por pai, mãe, e uma criança aparentando cerca de uns dois anos de idade, provavelmente menos. O menino caminhava à frente dos pais, mas bem próximo a eles. O pai, com um sorvete na mão, a mãe com outro, e a criança, com agua na boca, exigia, do jeito e na linguagem infantil que é peculiar a qualquer criança nessa idade, um pouco daquela delícia. Os pais ignoravam o pedido da ansiosa criança. Talvez por não querer que a criança tão bem arrumada se lambuzasse toda de sorvete.
Parei um pouco, e me dirigi, em tom de brincadeira, mas parecendo sério, ao pequeno, e lhe disse:
— É isso mesmo, pequeno, você tem que exigir os seus direito. Seus pais se deliciando com sorvetes e você sem nada. Não fique calado. Exija os seus direitos.
O menino pareceu tomar como séria a situação, e do seu jeito, tentou me dizer exatamente o que eu já havia percebido: que ele queria sorvete e os pais se recusavam a deixa-lo lambuzar-se com aquela delícia. Os pais riram. Eu também. E me continuei meu caminho. Não sem antes, por sobre os ombros, notar que a mãe havia satisfeito o desejo da criança.
Depois do caso passado, fiquei pensando no ocorrido, e cheguei à conclusão de que é isso mesmo que, de forma similar, acontece em nosso país.
Os políticos estão se labuzando de gostosos e caros sorvetes, e nós não estamos tendo a atitude daquela criança com a qual dialoguei na rua. Nós não estamos reivindicando nossos direitos.
O povo, de modo geral, encontra-se como que num estado letárgico.  E assim, eles, os políticos, continuam usurpando as riquezas do nosso país e fazendo tudo o contrário do que deveriam fazer.
Um exemplo disto é a nomeação da deputada Cristiane Brasil (PTB-RJ). Cristiane é filha do ex-deputado Roberto Jefferson, pivô do escândalo do mensalão, e atual presidente do PTB.
A vaga ocupada pela filha de Jefferson era para ser do deputado federal, Pedro Fernandes (PTB-MA). O deputado havia sido indicado pelo partido para ocupar a vaga de Ronaldo Nogueira (PTB-RS), e a data da posse até já havia sido escolhida pelo governo Temer.  Porém o nome do deputado foi vetado pelo ex-presidente José Sarney.
O motivo do veto foi uma disputa política no estado do Maranhão. Sarney ainda é cacique do PMDB, presidente de honra de partido, possui forte influencia no governo Temer, e no próprio partido. Sarney percebeu rápido que a nomeação de Pedro Fernandes fortaleceria o governador Flávio Dino (PC do B), forte adversário de Sarney no estado.
Na quinta-feira (04), o governo nomeou então, Cristiane Brasil para comandar o ministério do Trabalho. O ex-deputado Roberto Jefferson, pai de Cristiane, até chorou lágrimas de crocodilo ao fazer o anuncio do fato.
Com a nomeação da nova ministra do Trabalho constata-se mais uma vez que o que move a máquina estatal no Brasil não é a vontade de acertar, de fazer o que é melhor para o país, mas sim, os conchavos, rixas, e acordos políticos.
Cristiane assume o ministério e já respondeu perante a justiça por não assinar a carteira profissional de dois motoristas particulares contratados para serviços em sua residência particular.
Um deles é Fernando Fernandes Dias. Durante mais de três anos, o motorista prestou serviços para a deputada sem que esta fizesse o registro em carteira. Em entrevista ao Jornal Nacional, ele afirma que vistoriava os carros, o seguro, levava os filhos da deputada para a escola, médicos, psicólogos, e que levava a empregada para fazer as compras do mês.
O outro que entrou com ação na justiça foi Leonardo Eugênio de Almeida Moreira. Leonardo trabalhou por mais de um ano na casa de Cristiane também sem registro em carteira. Quando ele questionava a patroa sobre essa irregularidade, ela sempre vinha com promessas de encaixá-lo em algum cargo público futuramente.
Em fevereiro deste ano, Cristiane foi condenada a pagar mais de R$ 60 mil a Fernando. Apesar de o processo já ter transito em julgado, o empregado diz que ate hoje não recebeu esse dinheiro.
No segundo processo, movido por Leonardo Moreira, ela foi condenada a pagar uma indenização de R$ 14 mil parcelada.
Apesar desse flagrante desrespeito às leis trabalhistas, a deputada foi nomeada ministra. Esse é o nosso Brasil. Esse é o nosso governo.
Outro caso emblemático vem do governo de Minas Gerais. Lá, César Augusto Monteiro Alves, o novo diretor nomeado para o DETRAN (Departamento Estadual de Trânsito), pelo governo Fernando Pimentel, acumula 120 pontos na carteira de motorista. A maioria das multas recebidas pelo órgão do qual ele agora é presidente, foram por excesso de velocidade.
Em 18 vezes ele recebeu multas por excesso de velocidade. Ele também já foi multado por avançar o sinal vermelho, o que caracteriza infração gravíssima.
E assim, foi nomeado para um cargo de diretor de um órgão, cuja finalidade é promover a segurança do trânsito e da cidadania, e promover ações políticas para reduzir o número de acidentes de trânsito, um cidadão com 120 pontos na carteira.
Enquanto os políticos brasileiros continuarem praticando esse tipo de clientelismo, esse modo nada ético de se fazer política e de administrar o país, e as cidades, o Brasil continuará andando sempre em círculos, sem sair do lugar. E assim sendo, a terra que “em se plantando tudo dá”, exaltada por Pero Vaz de Caminha, escrivão que acompanhou a esquadra de Pedro Alvares Cabral, em 1500, não passará de uma republica de bananas. 

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