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Harmonia dos Salmos: Gotas de música e poesia no deserto da vida

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:19
Terça-feira, 28 de julho


“No deserto da vida, quando a sede me vem,
Quando clamo bem alto, e não vejo ninguém,
Eu me lembro de ti, e me sinto feliz,
Pois escuto bem alto, uma voz que me diz:
“Quem tiver sede venha a mim e beba,
E do seio de que quem crer em mim,
Hão de brotar torrentes de água viva,
Jorrando sempre sem jamais ter fim”.  

Há coisas que não se apagam de nossas mentes, e de nossos corações, não importa quanto tempo tenha se passado, ou que estejamos distante do lugar onde nascemos, ou qualquer outra situação semelhante. Os versos acima são de uma canção muito cantada na igreja de minha comunidade, lá no Rio Grande do Norte. O interessante é que fazia tempo que não ouvia essa música. Para falar a verdade, nem me lembrava mais dela. Mas bastou apenas colocar as mãos no teclado, escrever o título, para que esses versos viessem à minha mente com intensidade.
Não se sei se foi a palavra chave “deserto” que fez jorrar em minha mente, essa torrente de água viva e de boa qualidade que comecei a beber nas fontes de águas puras e cristalinas de minha amada terra natal. Até hoje, continuo a beber dessa água benéfica e curadora chamada fé.
Quando, atravessando os desertos da vida, nos tornamos por demais sedentos, nada melhor do que beber uma gotas de salmo. Bebida revigorante, que brota do coração daqueles que sabem amar a Deus com profundidade, sentimento. Quando a tristeza bater em nossa porta, bebamos salmos para confortar e revigorar nossa alma, e quando nossos corações estiverem transbordando de alegria, salmodiemos para louvar e agradecer ao criador.
Falando em salmos, falo também do lançamento do livro, A Harmonia dos Salmos, lançado na Livraria Cultura do Shopping Iguatemi Campinas, no sábado, 18 de julho, é uma releitura dos 150 salmos de David. Os salmos foram transformados em sonetos pelo poeta Vidal Ramos, e musicado pelo Maestro Urban. Podem ser cantados a uma, duas, ou três vozes, podendo também ser acompanhados por instrumentos musicais.
Conversei com o Maestro Urban, a respeito desse projeto, sobre o patrocínio do livro, sobre Vidal Ramos, e sobre projetos futuros. Vendo tanta lucidez do alto dos 96 anos do maestro, tiro a conclusão de que os projetos de vida, a esperança, e o querer fazer bem feito, mantém o homem vivo e lúcido.



José Flávio - Como surgiu a ideia do projeto do Livro, A Harmonia dos Salmos?

Maestro Urban - Eu recebi do Vidal, um livro com o título, A Beleza dos Salmos, em que ele fez uma dedicatória muito pessoal, motivadora. Ele pôs: “Ao caríssimo Urban e a doce Letícia, o meu abraço…”, algo assim. Eu gostei daquilo, e gostei do livro também. Comecei a ler. Li salmo por salmo. Ia e voltava. Lia de noite antes de dormir. Daí veio a ideia de musicá-lo. Telefonei para ele (Vidal Ramos), pedi permissão. Ele fez por escrito uma autorização, dizendo da satisfação dele de poder colaborar não só para que as pessoas entendessem melhor os salmos, em linguagem mais poética, mas que sentissem o valor do salmo pela música. Isso tem tudo no livro. Então no livro, tem um prefácio da Arita, tem uma explicação minha, e tem a permissão do Vidal. Aí me veio a ideia de musicar. Então experimentei um, tocava um pouco ao teclado, gostei, e escrevi. Fui fazendo isso durante o ano de 2007/2008, e montei todo o livro. E quem me ajudou foi o Décio (Décio Delamano, coralista falecido do PIO XI), que era do Coral, que transformava em linguagem visível e legível minhas músicas. Então o livro surgiu assim. E o Marcelo, meu filho, tomando conhecimento desse trabalho, pediu para ver. Olhou muitas vezes. Cantou comigo algumas coisas. Gostou demais, e se incumbiu de patrocinar a edição do livro. Foi ele que bolou a capa, estrututrou o como fazer o livro. Levou para Florianopólis, e lá tem a Essentia Farma, farmácia de manipulação, da qual ele faz parte. Ele é médico, e, junto com mais alguns médicos, resolveu formar um grupo avançado na medicina e nos medicamentos, coisa de última geração. Então montaram isso aí,e hoje ele tem uma verdadeira indústria de essências, remédios, suplementos alimentares, etc, e já estão indo pelo mundo todo. Tem na Europa, Estados Unidos, e por aí afora. Então ele se incubiu disso. Eu devo a ele, realmente, o patrocínio da impressão do livro. E, por isso, esperei um dia em que ele estivesse por aqui para poder lançar o livro junto com ele. E foi o que aconteceu.


José Flávio - Por isso que o lançamento do livro foi adiado algumas vezes?

Maestro Urban - Sim, porque ele mora no México e só vem aqui de quatro em quatro meses, mais ou menos. E vai também a Florianópolis, onde ele tem um grupo para o qual transmite as últimas novidades da medicina, da psicologia, etc.

José Flávio -  Qual a especialidade dele?

Maestro Urban - Ele é psiconeuroimunologista. Em uma das vezes em que nós fomos ao México visitá-lo, ele estava trabalhando com uma pessoa a quem os médicos tinham dado apenas um mês de vida e, com o trabalho dele, com o tratamento que ele ofereceu a essa senhora, ela viveu mais cinco anos. É isso, ele trabalha, principalmente, com pessoas em fase terminal, e transmite isso nos cursos. Ele dá cursos em Florianópolis, mas também já deu cursos na Itália, Londres, Berlim, ele é internacional.


José Flávio -  O que o Dr. Marcelo Urban achou do resultado desse trabalho com o livro?

Maestro Urban - Ele ficou maravilhado, disse que não esperava — como eu também não esperava — que fosse tão deslumbrante, tão empolgante. Ele gostou muito das coisas que eu falei antes da apresentação porque eu procurei explicar o sentido dos salmos e demonstrar que, assim como o salmo serviu há três mil anos atrás para o Rei David e os outros que os compuseram, para agir em várias situações da vida, como angústia, sofrimento, desespero põe isso nos salmos, mas também quando recebe o benefício ele se expande em fazer versos de alegria, de alivio, de agradecimento, etc. Tem salmo de tristeza, mas tem salmo de grande louvor, e acima de tudo ele procurava focalizar a grandeza de Deus, a bondade de Deus, a misericórdia de Deus para com os homens, para com a humanidade. E hoje, o Deus que era dele é o nosso Deus. Então, Deus não mudou, e o homem também mudou muito pouco, porque o homem ainda hoje é cheio de misérias, de necessidade, mas também cheio de confiança, e a gente pode traduzir tudo isso nos salmos. Eu gostei, principalmente, do jeito que terminei que foi “só espero que o místico perfume destes salmos em forma de soneto, e musicados, inebriem e santifiquem àqueles que vierem a cantá-los. É uma obra de compromisso, não é uma obra literária, é uma obra de convicção religiosa, de lógica, de formação educacional, cultural”.

José Flávio - Quanto ao Vidal Ramos, quando começou sua amizade com ele?

Maestro Urban - Foi ainda no tempo da PUC-Campinas (Pontifícia Universidade Católica de Campinas), eu trabalhava em um setor da PUC, ele também trabalhava na mesma região. Ele atendia mais ao que a Reitoria pedia. Não sei se ele fundou, mas é bem possível que tenha fundado a Rádio Andorinha, que transmitia notícias da PUC para o exterior. E trabalhando nesse setor artístico e cultural, ele apresentou muitas vezes o coral universitário, que eu dirigia, me acompanhou muito tempo. Eu fiquei vinte anos como diretor do Insituto de Artes e Comunicação (IAC), um pouco antes tinha sido diretor da faculdade de Música. Então o Vidal trabalhava muito comigo nesse sentido. Eu sempre apreciei o trabalho dele. Ele sempre foi muito cordato, amigo, e procurava servir a gente de todo jeito. Então quando soube que ele escreveu o livro, e ele me ofereceu um bonito. Esse livro, o dele, foi impresso por um juiz aposentado aqui de Campinas, chamado Francisco Fernandes Araújo que, até hoje, publica livros e vai no Largo do Rosário, e os distribiu ao povo. Foi ele que patrocinou o livro, A Beleza dos Salmos, do Vidal. Ele (o juiz) me falou isso quando o convidei para o lançamento do livro, A Harmonia dos Salmos. Ele não pode estar presente porque houve um caso de doença na família e ele não pode sair de casa.

José Flávio - O Vidal não esteve no lançamento do livro, ele faleceu antes desse momento…

Maestro Urban - Ele faleceu exatamente um mês do lançamento do livro, no dia 18 de junho. Ele estava com uns problemas de coração. Mas eu cheguei a levar um livro para ele, e ele ficou maravilhado quando viu. Eu estava junto com o Márcio, e o Vidal nos pediu para cantar alguns salmos. Ele estava se preparando para tomar parte nesse lançamento, mas Deus o levou antes.

José Flávio - O senhor sentiu bastante a morte dele…

Maestro Urban - Muito. Infelizmente não pudemos cantar na missa de sétimo dia dele. Mais ainda teremos tempo cantar em homenagem a ele. A viúva dele foi muito atenciosa quando eu falei que ia fazer essa apresentação do livro. Convidei-a para declamar a parte inicial do livro, que é a apresentação, com o título de, A Beleza dos Salmos.

José Flávio - Como é o seu processo de criação?

Maestro Urban - Baixa.

José Flávio - Baixa?

Maestro Urban - Baixa (o santo) ( Risos). Olha, geralmente, eu tenho muita inspiração à noite. Acordo e me vem aquilo (a ideia). Tanto que me muni de uma caneta que tem lanterninha na ponta. Para não esquecer, me levanto e anoto tudo. Depois revejo tudo aquilo, e trabalho para poder apresentar. E os salmos me empolgaram.

José Flávio - A sua mulher, Letícia, lhe inspira?

Maestro Urban - Ela é a minha musa inspiradora. Ela me dá uma mão forte, muito apoio. Ela me aguenta muito, pacientemente, quando estou ali dedicado a música e não quero saber de mais nada, de prosa nenhuma, de vez em quando ela me dá umas tacadas, “agora é só música, só música”, mas enfim, ela compreende, e me abençoa.

José Flávio - É um amor muito lindo que já dura…

Maestro Urban - 60 anos. Graças a Deus, nós nos damos muito bem. Eu a quero muitíssimo bem, ela me valoriza muito também. Somos um casal que se ama. No dia que nós completamos 60 anos (de casados), o Pe., praticamente, me obrigou a falar como é que nós conseguimos chegar até ali.

José Flávio - Qual é o segredo de tanta dedicação, de tanta vitalidade?

Maestro Urban - É pensar muito no assunto, ruminar, e eu tenho esses ideais, principalmente, em se tratando dos corais e, de maneira especial, o PIO XI, para que as coisas possam ser executadas da melhor forma. Não gosto das coisas pela metade. Ou faz direito ou não faz. E isso me inspira a procurar sempre o melhor. Eu vivo da música, gosto da música. Acho que é isso que me dá essa juventude toda, aos meus 96 anos. (risos)

José Flávio -  Sr. tem novos projetos em andamento?

Maestro Urban - Tenho. Eu, praticamente, já terminei o Cântico dos Cânticos de Salomão. Só que nesse caso, eu fiz o verso e a música, o poema e a música. Está sendo transposta para partituras. A manuscrita não fica muito bem. Mas a Corona (José Carlos Corona, Presidente do Coral PIO XI), está me ajudando. O Marcelo veio com uma ideia interessante. Ele já foi muitas vezes para o Oriente, para a Arabia. Ele pratica a doutrina Surfi.  Não sei se você já ouviu falar. É uma doutrina arabe que tem uns poetas, que tem escritores, cultivadores de virtudes, de dons, de pensamentos, é uma doutrina de muita elevação. Alguma coisa é baseada em Maomé, mas muita coisa é criação dos próprios autores. E tem um poeta chamado, Rumi, que é tido como um dos maiores pensadores do mundo. Ele está me mandando os versos de um poema inteiro que Rumi compôs, para ver se eu acrescento ao que Salomão escreveu, no trabalho sobre o qual eu fiz os versos, para mostar a identidade de pensamento, a igualdade de doutrina, afinal de contas, mostrar o paralelismo que existe entre as coisas. Marcelo me trouxe também os Cantares de São João da Cruz, que se assemelham muito ao que Rumi escreveu, ou é o Rumi que se assemelha muito a ele. Os dois falam a mesma linguagem. A gente percebe como no cristianismo, o que é de valor permanece, cresce. E em outros setores, o que é de valor também cresce, e se une ao que o cristianismo programa.

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