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Jesus Cristo: O homem de um olhar que é expressão de amor pleno

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 01:54
Quinta-feira, 02 de abril



Essa semana, a cristandade rememora a Paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo: um homem que mudou a história da humanidade.

Sem dúvida, Jesus deve ter sido um homem muito especial, desses que passam pelas nossas vidas e nunca mais saem de nossa lembrança, ainda que tenhamos cruzado com ele apenas uma vez. Realmente, eis um homem que gostaria de ter conhecido pessoalmente. De ter apertado sua mão. Ouvido suas palavras de sabedoria. De ter passeado com ele, às margens do Mar da Galileia, vendo-o e aprendendo com ele a viver o dom de amar em toda a sua plenitude.

Uma das cenas mais comoventes que vi a respeito desse homem, não faz parte de nenhum filme bíblico, mas é uma clássica cena de um épico do cinema, chamado Ben Hur.

Ben Hur é um rico mercador judeu que acaba, por acidente, derrubando uma telha do telhado de sua casa, sobre a cabeça do novo governador de Jerusalém, no dia em que este assumia o posto e desfilava pelas ruas da cidade. O “amigo” de infância, Messala, que agora ocupa um cargo importante no governo, aproveita-se desse incidente, e condena Ben Hur à condição de escravo, servindo ao império no estafante serviço de remador das galés. 

Amarrado a correntes, Ben Hur e outros prisioneiros são levados, através do deserto à dura e difícil vida nas galés. Os que não aguentam a extenuante jornada através do deserto e morrem durante a travessia, têm seus corpos jogados ali mesmo, sob a areia. Enquanto caminham sol escaldante do deserto, os corpos dos prisioneiros reclamam por água.

O grupo passa por uma pequena aldeia. Nessa aldeia, em frente a uma carpintaria, há um poço. Para os prisioneiros sedentos, é como se encontrassem um oásis. Correm em direção ao poço — com a mobilidade com que lhes permite a corrente amarrada aos seus corpos, — sendo imediatamente afastados pelos soldados romanos. “Água para os soldados! Os soldados primeiro!” Quanto aos prisioneiros, eles dizem: “Tire-os de perto do poço!” Após beberem os soldados, é a vez de os cavalos beberem também daquele precioso liquido. A boca dos prisioneiros parece salivar, enquanto saciam a sede, soldados e cavalos. Habitantes da aldeia servem água para alguns prisioneiros. 

É a vez de Ben Hur beber do precioso e tão esperado líquido. Um menino leva uma vasilha d’água até ele e quando, o agora escravo leva a vasilha até os lábios, um soldado interrompe o esperado gesto, e diz para o menino: “Espere não dê água para ele”. Tomando, ele mesmo, soldado, a água que Ben Hur iria tomar. Desesperado o escravo chora, e cai ao chão, murmurando: “Deus, ajude-me.”, desmaiando em seguida. Um homem se aproxima dele. Não se vê o rosto do homem, apenas seus pés, calçados por um par de sandálias, e parte da túnica.  Traz nas mãos uma vasilha d’água. O homem derrama a água sobre a cabeça de Ben Hur e afaga sua testa. O prisioneiro desperta e o homem dá-lhe de beber. Ben Hur olha para o rosto do desconhecido, como que a dizer: “Muito obrigado!”.

O soldado se irrita e fala para o homem: “Você! Eu disse para não dar água para ele!”. E parte em direção ao homem que socorre Ben Hur, de chicote em punho, disposto a chicotear tanto o socorrente, quanto o socorrido.

O homem então se levanta, não vemos o seu rosto. Ele aparece de costas e vemos apenas que tem cabelos grandes que vão até a altura do pescoço. Nenhuma palavra. Apenas um olhar. Profundo olhar. E o soldado se afasta, como que temeroso e envergonhado.

Bem Hur, termina de tomar a água e entrega a vasilha vazia para o desconhecido. Pela primeira vez, olha para o rosto daquele que lhe salvou vida. Sim, porque quem consegue sobreviver sem água em meio ao deserto, quando isso é tudo o que sua boca mais quer? Mais uma vez, nenhuma palavra. Apenas o olhar profundo entre os dois personagens. Um soldado se aproxima de Ben Hur, dá-lhe uma chicotada e o manda voltar para o seu lugar. Antes de voltar prosseguir a marcha forçada, o prisioneiro olha para o homem, pela última vez.

Nenhuma palavra é dita pelo homem daquela simples e humilde aldeia, perdida em meio ao nada. Ninguém cita o nome “Jesus”, nem vemos o rosto dele. Mas a cena resume todo o ensinamento de Jesus, quando diz aos seus discípulos, no evangelho: “Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei”.



Ainda falando do filme, outra cena comovente é quando as ruas de Jerusalém estão abarrotadas de gente, que acompanham o sofrimento de Jesus, carregando a cruz ás costas, pelas ruas da cidade santa. “Salvem o rei dos judeus!”, dizem eles, e escarnecem. Não aguentando o peso da cruz, o nazareno cai. Certamente, deve estar com sede. Em meio à multidão, Bem Hur vê o sofrimento daquele homem. Ele, agora novamente homem livre e influente no governo, consegue driblar os soldados, mas antes de chegar a Jesus, os soldados e empurram e ele esbarra em uma fonte. Aproveita a ocasião, enche uma vasilha d’água e corre até aquele caiu e está de joelhos, ao chão. Ben Hur abaixa-se e dá de beber àquele que sofre. Então, novamente, sem palavras, ele reencontra aquele profundo olhar, e reconhecer naquele olhar, o homem que o havia ajudado há alguns anos atrás, quando, em situação semelhante, ele, Ben Hur, caminhava para o suplício. Nesta cena, novamente, não vemos o rosto de Jesus.

Assim também devemos fazer cada um de nós. Não precisamos sair por aí gritando o nome de Jesus. Se nos amarmos uns aos outros como ele nos amou, apenas com essa atitude teremos subido nas montanhas mais altas e pregado seu nome, e, assim, teremos feito muito mais e agradado muito mais a ele, do que se ficássemos apenas nas palavras.

O texto que partilho com vocês abaixo, o ouvi pela primeira vez, no dia 22 de abril de 2013, na sede da ABAL (Associação Brasileira de Cantores Líricos), durante um recital realizado na Associação Campineira de Imprensa, em Campinas.

Era uma sexta-feira, à noite, e a ABAL apresentava o recital, Cantos da Paixão. Na ocasião, o Coral PIO XI apresentou o Concerto Quaresmal, sob a regência do maestro Oswaldo Antonio Urban. Os cantores líricos Vicente Montero, Alcides Acosta e Ivany Pezzopani, com acompanhamento ao piano de Carlos Wiik, também fizeram suas apresentações. A noite foi reflexiva, maravilhosa e inspiradora. Entre uma das apresentações, Alcides Acosta, presidente da ABAL, leu um belo texto sobre a pessoa de Jesus, tornando a noite ainda mais rica. O texto é uma carta atribuída a certo senador romano, chamado, Publius Lentulus. O Senador escreve ao imperador, Tibério Cesar.

Há controvérsias quanto a autenticidade do texto. No site do Wikipédia, encontrei seguinte afirmação: “A carta de Lentulus não tem credibilidade por várias razões. Não se conhece nenhum Governador de Jerusalém ou Procurador romano da Judeia chamado Lentulus, e um governador romano não poderia encaminhar uma correspondência desse tipo ao senado. Além disso, um escritor romano não empregaria as expressões "que pelo povo é inculcado o profeta da verdade". Expressão pertencente ao idioma hebreu”.

Mesmo assim, resolvi apresentar esse texto, pois, mesmo que a carta não seja verdadeira, nem que o tal Publius nunca tenha existido, a descrição física, e personalidade de Cristo, descritas nela, parecem em muito com o homem que aparece na cena que vi no filme Ben Hur.

Espero que apreciem a leitura, e que ela lhes sirva de reflexão para estes dias, nos quais rememoramos o sofrimento a grande vitória de um home tão especial, chamado Jesus Cristo.

***



Carta do senador Públio Lntulus ao imperador Tibério Cezar.

"Sabendo que desejas conhecer quanto vou narrar, existindo nos nossos tempos um homem, o qual vive atualmente de grandes virtudes, chamado Jesus, que pelo povo é inculcado o profeta da verdade, e os seus discípulos dizem que é filho de Deus, criador do céu e da terra e de todas as coisas que nela se acham e que nela tenham estado; em verdade, ó César, cada dia se ouvem coisas maravilhosas desse Jesus: ressuscita os mortos, cura os enfermos, em uma só palavra: é um homem de justa estatura e é muito belo no aspecto, e há tanta majestade no rosto, que aqueles que o veem são forçados a amá-lo ou temê-lo. Tem os cabelos da cor amêndoa bem madura, são distendidos até as orelhas, e das orelhas até as espáduas, são da cor da terra, porém mais reluzentes.

Tem no meio de sua fronte uma linha separando os cabelos, na forma em uso nos nazarenos, o seu rosto é cheio, o aspecto é muito sereno, nenhuma ruga ou mancha se vê em sua face, de uma cor moderada; o nariz e a boca são irrepreensíveis.

A barba é espessa, mas semelhante aos cabelos, não muito longa, mas separada pelo meio, seu olhar é muito afetuoso e grave; tem os olhos expressivos e claros, o que surpreende é que resplandecem no seu rosto como os raios do sol, porém ninguém pode olhar fixo o seu semblante, porque quando resplende, apavora, e quando ameniza, faz chorar; faz-se amar e é alegre com gravidade.

Diz-se que nunca ninguém o viu rir, mas, antes, chorar. Tem os braços e as mãos muito belos; na palestra, contenta muito, mas o faz raramente e, quando dele se aproxima, verifica-se que é muito modesto na presença e na pessoa. É o mais belo homem que se possa imaginar, muito semelhante à sua mãe, a qual é de uma rara beleza, não se tendo, jamais, visto por estas partes uma mulher tão bela, porém, se a majestade tua, ó Cézar, deseja vê-lo, como no aviso passado escreveste, dá-me ordens, que não faltarei de mandá-lo o mais depressa possível.

De letras, faz-se admirar de toda a cidade de Jerusalém; ele sabe todas as ciências e nunca estudou nada. Ele caminha descalço e sem coisa alguma na cabeça. Muitos se riem, vendo-o assim, porém em sua presença, falando com ele, tremem e admiram.

Dizem que um tal homem nunca fora ouvido por estas partes. Em verdade, segundo me dizem os hebreus, não se ouviram, jamais, tais conselhos, de grande doutrina, como ensina este Jesus; muitos judeus o têm como Divino e muitos me querelam, afirmando que é contra a lei de Tua Majestade; eu sou grandemente molestado por estes malignos hebreus.

Diz-se que este Jesus nunca fez mal a quem quer que seja, mas, ao contrário, aqueles eu o conhecem e com ele têm praticado, afirmam ter dele recebido grandes benefícios e saúde, porém à tua obediência estou prontíssimo, aquilo que Tua Majestade ordenar será cumprido.

Vale, da Majestade Tua, fidelíssimo e obrigadíssimo...

Públio Lentulus, presidente da Judéia



Lindizione setima, luna seconda.”

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