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Por que é difícil mudar?

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:59

Terça-feira, 17 de abril


O que é preciso para que se mude o Brasil?
Pergunta simples, resposta complexa. Sabemos todos nós que uma eleição presidencial não mudará o Brasil. Nunca mudou antes e não mudará agora, neste que é um dos mais dramáticos momentos da história política brasileira. A próxima eleição, mais que uma escolha democrática, será um tiro no escuro.
A população está — como diz um ditado bem popular — “de saco cheio” com tanta corrupção e roubalheira. É muita falta de vergonha na cara para os políticos de um só país. Ainda assim, o Brasil é a contradição das contradições.
Vejamos: o ex-presidente, Luís Inácio Lula da Silva, responsável pela montagem de um dos maiores esquemas de corrupção jamais visto no país, e quem sabe, na América Latina, finalmente está preso. Contudo, apesar de a maioria da população ter sido a favor de sua prisão, outra grande parte ainda o idolatra. A ex-presidente Dilma teve seu mandato cassado, por ter dado umas pedaladas — não essas pedaladas que são saudáveis para o corpo e para a mente — mas daquelas que prejudicam as finanças do governo, e, consequentemente do país, e também pela edição de créditos suplementares.
No primeiro caso, houve um atraso nos repasses da União aos bancos públicos com a finalidade de cobrir os gastos dessas instituições financeiras para com programas desenvolvidos pelo governo. No segundo caso, decretos governamentais, sem autorização do Congresso, foram responsáveis por autorizar aumento nos gastos do governo o que fez com que as metas fiscais fossem prejudicadas.
Pois bem, impeachment de Dilma, problema resolvido. Engano nosso. Em lugar dela entrou Michel Temer, cuja ponta dos icebergs das investigações tem revelado que ele cometeu crimes bem maiores dos que os de Dilma.
Nas esferas judiciais vemos que começa a se fazer justiça com a prisão de figurões empresariais e medalhões da política. Porém ainda se faz uma justiça incipiente que não faz aos acusados devolverem aos cofres públicos a quantia que roubaram. Se bem que isso começou a ser feito na Lava Jato, mas ainda tem muitos acusados e presos, que só estão esperando se ver livres das enrascadas para poder usufruir do dinheiro sujo, adquirido no submundo criminoso e fétido da corrupção.
Também se vê nas altas cortes, ministros com profundo conhecimento do direito, e com entendimento das causas que julgam, mas que ainda não entenderam que a corrupção é um mal sem tamanho que atinge a eles, que parecem intocáveis, e atinge também aos cidadãos comuns, esses que não gozam dos privilégios dos quais gozam o judiciário, o executivo, e o legislativo.
Olhando para o congresso e para o senado brasileiros, às vezes temos a impressão de que vivemos em um regime monarquista, com seus reis, rainhas, príncipes e princesas, gozando dos altos mais privilégios, enquanto os súditos não têm direito a nenhum e ainda tem que trabalhar de sol a sol para sustentar a realeza. Esta, acima da lei, uma vez que é ela mesma que a faz e quem a executa. Os nobres, portanto, encontram brechas mil para escapar da justiça, enquanto os plebeus são castigados ao extremo ao menor deslize. É uma democracia que mais parece monarquia.
E porque para a questão: o que é preciso para que se mude o Brasil, a resposta não é simples, mas complexa.
Porque complexo foi o nosso nascimento enquanto nação. Se fosse criança, nosso pobre país não teria nascido em berço de ouro, e, portanto, com toda a classe e fineza da aristocracia.
Não. Infelizmente, não aconteceu assim.
Formado pelo cruzamento de três raças, a branca, a negra, e a índia, as coisas degringolaram desde o seu início.
Quanto aos brancos, os que vieram ter aqui na terra Brasilis não foram os mais educados, os mais gentis, os mais refinados. Para esta terra, a coroa portuguesa, talvez por não querer apostar no desconhecido, recheou seus navios com gente da pior espécie. E foi tal de desembarcar por aqui ladrões, assassinos, condenados, prostitutas, e daí pra baixo. Em resumo, quem aqui veio por primeiro estava pouco ou nada preocupado com ética e a moral, ao contrário, às favas com elas. O importante era levar vantagem em tudo, e enganar a quem se conseguisse.
Os negros, coitados dos negros! Arrancados de seu chão raiz, vieram para os infernos das senzalas. Na África, eram reis, rainhas, ou até mesmo plebeus, mas todos livres. De muito brio, viviam em suas tribos sob a égide da moral e da ética. Mas depois de tanta água amarga rolada por baixo da ponte, mesmo depois de “libertos”, a quem tinha como espelho senão os brancos que tinha herdado de seus antepassados, maus hábitos e maus costumes? Alguns, é verdade, ainda se lembravam das lições aprendidas ainda no torrão natal, mas esses já eram bem poucos para que frutificasse e inundassem o chão Brasil das coisas que haviam deixado em África.
Os índios, nessa historia toda foram os mais prejudicados, e os mais dizimados. Eram puros e viviam em idílico contato com a natureza, mas, devido a tanta pressão, acabaram por perder sua identidade, e sua ingenuidade... e seguiram a banda que tocava fora de compasso.
O resultado é que hoje, se corremos para o estádio de futebol para distrair um pouco a mente das pesadas atribuições da semana, lá teremos árbitros e dirigentes de futebol manipulando resultados e roubando o brilho de um espetáculo, cujo brilho deveria estar no brio dos atletas e nos troféus por ele levantados.
Decepcionados com os estádios, vamos aos hospitais buscar cuidados, e lá vemos médicos aplicando injeções com ampolas vazias, outros dando falsos diagnósticos com a finalidade de que o paciente faça tratamento que, às vezes nem é necessário. Outros ainda batem o ponto nos hospitais públicos e vão para suas clínicas particulares a fim de atenderem os pacientes que lhes podem pagar, enquanto abocanham dinheiro do estado e abandonam os leitos e pacientes públicos.
Cansado de tudo isso, o cidadão vai a igreja rezar, e eis que, onde deveria haver santidade, encontra padres e pastores fascinados pela cor e o brilho das moedas e inebriados pelo cheiro das notas. Ali também, o cheiro fétido da corrupção é forte.
Cheio de confiança esse desesperado cidadão recorre ao poder público e... Descobre que ele é um lobo em pele de cordeiro pronto a lhe devorar a qualquer instante.
Em uma última tentativa, o cidadão vira-se de um lado par outro na tentativa de que tudo tenha sido um sonho... Mas não é sonho. É a realidade nua e crua, e ainda por cima, sem sal. Se ainda fosse temperada, mas nem isso.
Para sairmos desse poço, é preciso mudar toda uma cultura que já dura séculos. Isso é possível? Sim, isso é perfeitamente possível. Para isso é preciso que se deem asas ao anjo salvador chamado educação. Mas coitado do anjo educação... São muitas as mãos a empurrá-lo para o fundo do poço da ignorância. Eles sabem, que se esse anjo ganha poder, todos viverão uma vida digna e o bolo deles diminui, perdem a cereja. Ah, e, além do bolo, terão que dividir o vinho e champanhe. Melhor então, deixar o anjo da educação escondido e o povo na ignorância. Enquanto isso, a cultura da corrupção se perpetua indefinidamente em nossa pátria.

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