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Bêbados equilibristas

Posted by José Flávio Santos de Carvalho on 00:17

Terça-feira, 13 de março


O Brasil que eu espero do futuro é um Brasil onde os políticos não vejam na política um meio de enriquecimento ilícito e que o povo se sinta verdadeiramente representado por eles
Fernando Souza
Cachoeira do Urubu – Primavera/Pernambuco

O Brasil que eu quero seria um Brasil com a metade dos deputados estaduais e federais, e senadores, e que todos os políticos só se aposentassem com oito mandatos
Ulisses Ramos
Paracatu / Minas Gerais

O futuro que eu quero para o Brasil é que reapareça de alguma forma, todo o dinheiro que dele foi levado, melhorando a minha vida e de cada brasileiro
Ângela Cavalcanti
Boa Vista / Roraima

O futuro que eu quero para o meu país é como dizia o poeta e cantador Flávio Leandro: “Não quero enchentes de caridade, só quero chuvas de honestidade, molhando as terras do meu sertão
Letícia Sampaio
Moreilândia – Pernambuco

O Brasil que eu quero é um país onde seja investido mais na educação, na construção de escolas e universidades, e uma maior valorização dos professores, essa, sim é a grande transformação que nós precisamos
Audrey Correia
Itanhém – Bahia

Eu quero um Brasil sem corrupção, com igualdade a todos, onde nós possamos ver o retorno dos nossos impostos, e não que sirva para pagar os filhos, nem bancar a vida boa de políticos. Chega desse circo. Façam valer a ordem e o progresso que nós merecemos e que ainda não vimos
Mayara Silva
Araguaína - Tocantins

Eu tive câncer. Superei. Eu quero um país com mais saúde.  Sou professora. Quero um país com educação. Eu falei a verdade. Quero um país sem mentiras
Regina Contini
São José dos Campos – São Paulo

Esses são apenas alguns depoimentos postados no portal Globo.com, na campanha “Que Brasil você quer para o futuro?” A campanha, lançada pela Rede Globo, tem por objetivo ouvir dos brasileiros de todos os recantos do país, que nação eles querem de fato e de direito. Os vídeos são enviados, selecionados, e apresentados nos diversos telejornais da emissora. Eles são exibidos diariamente, e começaram a ser apresentados no dia 05 deste mês deste, durante o Jornal Nacional, e continuarão até setembro durante a programação jornalística da emissora, de forma que cada um dos 5.500 munícipios brasileiros tenha um representante a dizer dos seus sonhos de futuro para o país.
A ideia da emissora era a de que aqueles que enviassem vídeos o fizessem de lugares bonitos e bem arrumados, lugares padrão, mas tem gente enviando vídeos daquilo que é realidade, ou seja, tendo como pano de fundo, pontes mal construídas, hospitais superlotados, e outros ambientes que, de bonito, não tem nada.
É impressionante como a quase unanimidade dos vídeos enviados até agora, tocam a mesma música, batem na mesma tecla, choram a mesma nota: a luta contra a corrupção. Parece como um grito preso na garganta, ou comida indigesta que o brasileiro não está mais disposto a engolir.
É verdade que há um clamor em todo o solo brasileiro, do Oiapoque ao Chuí, por um Brasil que seja governado, não por ladrões, mas por gente de bem, por políticos comprometidos com os anseios do povo brasileiro.
Os versos de João Bosco e Aldir Blanc, na canção, O Bêbado e o Equilibrista, tão bem interpretados pela bela voz da saudosa, Elis Regina, se encaixam como uma luva nas presentes considerações acerca desse momento conturbado pelo qual atravessa o país, e que nos remetem a reflexões sobre o futuro da nação, que, por sua vez, é o futuro de cada um dos seus patrícios.
Dizem os compositores na letra da canção: “Chora! A nossa pátria mãe gentil. Choram Marias e Clarices no solo do Brasil... Mas sei, que uma dor assim pungente não há de ser inutilmente a esperança... Dança na corda bamba de sombrinha, e em cada passo dessa linha pode se machucar... Azar! A esperança equilibrista sabe que o show de todo artista tem que continuar...”
E são tantas as notícias sobre corrupção e desvios de dinheiro que nos vem à tona, todos os dias, que saímos por aí afora, tal qual bêbados equilibristas, fazendo reverencias para a noite do Brasil. Sabe-se que o bêbado valente é aquele que tropeça, mas não cai. Assim estamos nós todos que pagamos impostos altíssimos, e não vemos retorno. Inebriados com tantas notícias de descaso da classe política para com a população, tropeçamos, mas não caímos, pois sabemos que, para aguentar tudo isso, tem que ser muito artista, e o show de todo artista tem que continuar, não pode parar, nem desanimar. Se faltar brilho, a gente pede a cada estrela fria um brilho de aluguel, sacudimos a poeira e damos a volta por cima.
O combustível de que precisamos para nos mover deve ser a esperança de que as coisas vão melhorar, mas também nessa esperança a nos mover deve ter certa dose de indignação, pois de outro modo, corremos o risco de cair no marasmo, essa região danosa, cheia de pântanos e charcos, à qual já nos entregamos por tantos anos.
Falamos e vemos falar muito de corrupção em níveis governamentais, e precisamos combate-la, mas também não nos esqueçamos que no seio da sociedade há muitas maças estragadas, belas maças que se deixaram corromper por esse vírus mortal, exterminador de sonhos e esperanças de futuro que tão duramente tem sido combatido pela Operação Lava Jato, e por outras operações desenvolvidas pela Polícia Federal e pelo Ministério Público, com aval das instituições jurídicas.
É preciso também nos voltarmos contra essas maças, tirá-las do cesto, jogá-las fora, antes que elas, com seus maus exemplos, corrompam ainda mais outras parcelas da sociedade. E precisamos fazer isto justamente para preservar o restante das frutas do cesto. Pois que irá querer comprar um cesto de maças podres? Isso ninguém quer, nem os mercados nacionais, nem os mercados internacionais. Lembremos que estes últimos, principalmente, estão de olhos em nosso comportamento, em nossos modos de fazer licitações, de combater a corrupção.
É preciso tirar desse tal cesto de maças indigestas gente como Luciana Sandrini Rihl, dona de uma clínica no Rio Grande do Sul, que fingia aplicar injeções nas pessoas, mas retirava a agulha antes de pressionar a seringa. As vacinas oferecidas pela clínica eram contra febre amarela, meningite B e meningite ACWY. Pessoas desonestas como ela, também temos aos montes agindo por aí afora. Como uma pessoa que age indecente e imoralmente contra outro ser humano pode reivindicar decência da classe política, para si mesma, para seus familiares e para o país?
É a dita coisa que dizia o mestre Jesus nas sagradas escrituras: “Como podes querer tirar o cisco do olho do teu irmão quando há uma trave no teu? Hipócrita! Tira primeiro a chave do teu olho e então podereis ver com clareza para tirar o cisco do olho do teu irmão”.
Se a classe política está corrompida, mas a sociedade não, ainda resta uma esperança, mas se ambos os dois se deixaram seduzir pelas tentações da corrupção, então que esperança de futuro há para essa sociedade senão, à exemplo do joio, ser recolhida em feixes e queimada no fogo da desilusão?
Passeando pelas manchetes de jornais, diariamente, vemos que alguma das engrenagens do nosso sistema partidário anda muito mal das pernas. Deveríamos ter orgulho de nossos presidentes e de nossos ex-presidentes. Mas que decepção: apenas para ficarmos nos três últimos. Quem temos e do que temos que nos orgulhar? O ex-presidente Lula já está condenado em processo judicial pelo caso do tríplex do Guarujá, recorre em liberdade contra essa decisão judicial, sem contar que é réu em mais outros seis processos. A ex-presidente Dilma também está envolta em suspeitas de uma série de delitos, juntamente com a cúpula do PT. O atual presidente, Michel Temer, também é investigado em operações policiais por suspeita de corrupção.
Saindo do topo da pirâmide das lideranças políticas, o degrau imediato também não é diferente. Governadores, deputados federais e estaduais, e senadores, estão na mira da justiça. Alguns inclusive já estão presos, e descendo ainda mais no mesmo mar de lama, temos a participação de funcionários públicos em todos esses esquemas criminosos. Ah, e não nos esqueçamos das quadrilhas organizadas do setor privado, principalmente, as empreiteiras.
Para terminar, lembremos, mais uma vez as maravilhosas interpretações de Elis Regina, desta vez na canção, Alô, Alô, Marciano, e demos um alô a esse povo perdido por aí, no espaço — ou será que não somos nós a vagar errantes no espaço e no tempo — e digamos a eles: “Alô, alô, marciano, a crise tá virando zona, cada um por si todo mundo na lona, e lá se foi a mordomia. Tem muito rei aí pedindo alforria porque tá cada vez mais down o high societ”.



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